Domingo, 12 de Abril de 2009

Li muito recentemente o livro de Ben Goldacre, o médico que mantém semanalmente uma coluna no Guardian intitulada Bad Science e que se devota a desmontar charlatanices sortidas em particular «medicinas alternativas» como homeopatetices e afins.
O livro é uma leitura especialmente recomendada mas, na edição que comprei, deixa em suspenso qualquer coisa negra que impediria a inclusão de mais material. Há uns dias, Goldacre publicou no seu blog o capítulo em falta, que pede seja amplamente divulgado. No prólogo ao The Doctor Will Sue You Now, o autor explica que esta história de horror, que justifica porque é necessário denunciar todos estes charlatães alternativos, só agora pode ser publicada: Matthias Rath, o muito bem sucedido vendedor de banha da cobra em questão, processava Goldacre e o Guardian quando o livro foi publicado.
E esta história de horror, em boa parte responsável pelas dimensões que a epidemia de SIDA atingiu na África do Sul, deve ser amplamente divulgada. Sobretudo, dever-nos-ia fazer reflectir sobre aquilo que temos insistido no De Rerum Natura e resumi no Charlatanices e banhas da cobra: activação de ADN: o ressurgimento destes obscurantismos é uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma é igualmente uma causa do que está errado. Vivemos tempos em que este tipo de patetices, aparentemente inócuas, na realidade são uma espiral descendente que se não for travada pode ter consequências desastrosas. O pior perigo destas charlatanices é o facto de que «envenenam» a mente, isto é, pretendem passar anti-ciência por ciência e apelam a que as pessoas deixem de pensar. São perigosas porque afirmam que o pensamento mágico é mais importante que o trabalho, a verdade, a razão e o respeito pelas evidências. E a razão e o respeito pelas evidências são a fonte do progresso da Humanidade - e a nossa salvaguarda contra todos os que lucram pela deturpação da verdade.
Assim, como escreve Goldacre, a sua história de horror não é sobre Matthias Rath ou sobre os restantes protagonistas nem mesmo sobre a catástofre que se abate sobre a Áfirca do Sul. «It is about the culture of how ideas work, and how that can break down. Doctors criticise other doctors, academics criticise academics, politicians criticise politicians: that’s normal and healthy, it’s how ideas improve. Matthias Rath is an alternative therapist, made in Europe. He is every bit the same as the British operators that we have seen in this book. He is from their world.».
De facto, a carreira de charlatão de Rath teve um início «auspicioso» na Europa, pretendendo que os medicamentos utilizados em quimioterapia eram completamente ineficazes, verdadeiros venenos que matavam os pacientes. Segundo ele, milhões de vidas poderiam ser salvas se os doentes de cancro deixassem de ser tratados com a «medicina convencional» e passassem a ser prescritos as suas tretas alternativas. A resposta europeia a estes absurdos foi, na ausência de regulamentação conveniente, necessariamente fraca: apenas um tribunal de Berlim ordenou Rath a parar a publicidade que afirmava que as suas pílulas curavam o cancro - ou então pagar uma multa de 250 000 libras.
Mas se os estragos que este charlatão fez na Europa (e Estados Unidos) nos deveriam preocupar, o que promoveu na África do Sul, onde chegou sob a presidência de Thabo Mbeki, é estarrecedor, demasiado estarrecedor para descrever e recomendo vivamente a leitura do capítulo de Goldacre para perceberem porquê. Basta dizer que a campanha genocida teve início com grandes parangonas nos jornais sul-africanos denunciando uma conspiração das grandes farmacêuticas para matar africanos que vendiam venenos mortais sob o disfarce de anti-virais. «Stop AIDS Genocide by the Drugs Cartel. Why should South Africans continue to be poisoned with AZT?» foi um dos «grandes» títulos utilizados.
Goldacre conclui o capítulo afirmando «The alternative therapy movement as a whole has demonstrated itself to be so dangerously, systemically incapable of critical self-appraisal that it cannot step up even in a case like that of Rath: in that count I include tens of thousands of practitioners, writers, administrators and more. This is how ideas go badly wrong. In the conclusion to this book, written before I was able to include this chapter, I will argue that the biggest dangers posed by the material we have covered are cultural and intellectual.»
De facto, por muito inócua que seja, por exemplo, a água que os homeopatetas vendem como medicamentos ou o lava pés pomposamente designado «hidrolinfa» (e os charlatães que os vendem em Portugal queixaram-se por mail da minha «estreiteza» de espírito), os seus grandes perigos são culturais e intelectuais. O espaço cada vez maior oferecido pelos meios de comunicação a explicações pseudo-científicas e místicas indica que o envenenamento da mente e a contaminação cultural são também cada vez maiores. Joe Kaplinsky pôs o dedo na ferida sobre as causas, «quando o criacionismo [ou as patetadas «alternativas»] pode vestir-se de 'pensamento crítico' deveria ser evidente de que não é apenas com os fundamentalistas cristãos que precisamos preocupar-nos - é com todo um sistema educacional imbecilizante!»
A cura continua a preconizada no manifesto de Sagan contra as pseudociências. Urge cada vez mais reacender as velas de Sagan e estimular o pensamento crítico mas urge especialmente olhar para o que se passa no nosso ensino que asfixia esse pensamento crítico!
(em stereo no De Rerum Natura)
De LM a 12 de Abril de 2009 às 17:16
Excelente e assustador.
A história do charlatão Rath e do seu uso de processos legais para intimidar e endividar os adversários tem paralelos curiosos, nos dias que correm. Mas talvez o seu colega Rogério Pereira apareça (se alguma vez ele lesse estas coisas) a afirmar a razão do homem e o seu direito a processar quem ele bem entenda.
Sempre que ouço falar de medicinas alternativas lembro-me da luta permanente do Lucky Luke contra o elixir do Dr.Doxey. À primeira vista o método científico deveria ter eliminado ou integrado, com a devida explicação, todas as práticas tradicionais da medicina. Os remédios homeopáticos são directamente inócuos mas indirectamente podem causar dano ao evitar o uso de remédios verdadeiramente eficazes. Parecer-me-ia assim de ponderar a proibição da sua comercialização embora reconheça que essa proibição poderia ser contraproducente. Mas em França, um país aparentemente desenvolvido, o Estado comparticipa nestes "remédios", embora tenha reduzido em 2004 a percentagem de 65 para 35%, conforme diz aqui: "http://fr.wikipedia.org/wiki/Hom%C3%A9opathie". Alguém me consegue explicar porquê? Qual a situação na Alemanha?
Acho que na Alemanha não são comparticipados mas não tenho a certeza que seja verdade em todos os «estados», até porque o inventor da coisa é alemão.
No De Rerum natura escrevi uma série de posts sobre a coisa, depois de terem tentado impingir uma homeopatetice numa farmácia. Tem os links para todos no Homeopatetices - O Sono da Razão e tem mais este, Homeopatetices , absolutamente inacreditável
Em Inglaterra, devido aos bons ofícios do princípe Carlos, um adepto convicto de todas as charlatanices, até há um hospital real de homeopatetice. ou seja, os «tratamentos» homeopáticos são subvencionados pelo sistema de saúde - que com o seu directório para as medicinas alternativas e complementares promove outras banhas da cobra -, nomeadamente o NHS contribuiu com 10 milhões de libras para a recente remodelação do «hospital» Royal London Homeopathic.
A situação nos Estados Unidos é bizarra, como pode ver neste artigo na quackwatch. Gosto em particular deste parágrafo:
Oscillococcinum, a 200C product "for the relief of colds and flu-like symptoms," involves "dilutions" that are even more far-fetched. Its "active ingredient" is prepared by incubating small amounts of a freshly killed duck's liver and heart for 40 days.
The resultant solution is then filtered, freeze-dried, rehydrated, repeatedly diluted, and impregnated into sugar granules. If a single molecule of the duck's heart or liver were to survive the dilution, its concentration would be 1 in 100E200. This huge number, which has 400 zeroes, is vastly greater than the estimated number of molecules in the universe (about one googol, which is a 1 followed by 100 zeroes). In its February 17, 1997, issue, U.S. News & World Report noted that only one duck per year is needed to manufacture the product, which had total sales of $20 million in 1996. The magazine dubbed that unlucky bird "the $20-million duck."
De nuvens de fumo a 23 de Agosto de 2010 às 15:01
ups repeti o exemplo 
No worries, em tempo fiz as continhas todas numa série de posts dedicada à homeopatetice :) reproduzo
Não faço ideia qual seja a concentração inicial das tinturas mãe mas façamos o exercício usando água como ponto de partida e assumamos que se dilui água em etanol seco (sem água) para calcularmos a concentração de água ao fim de algumas diluições. A molécula de água é muito pequena e a água tem uma densidade elevada (para um líquido) de forma que não conheço nenhuma substância pura que apresente maior molaridade. A água pura tem uma concentração de ~55.5 M, isto é, num litro de água existem 55.5 moles da mesma, 55.5xnúmero de Avogadro ou 3.34x1025 moléculas de água por litro.
Uma tintura terá necessariamente uma concentração inicial muito menor, provavelmente inferior a 1 M, portanto o exercício seguinte com a água é um majorante do que se passa com qualquer homeopatetice, isto é, necessariamente para uma homeopatetice a diluição a partir da qual não há uma única molécula do «princípio vital» em solução é inferior à que vamos obter para a água.
Na primeira diluição, CH1 ou C1, obtemos água com concentração 0.555 M ou com 3.34x1023 moléculas de água por litro. Continuemos o exercício com as várias diluições:
Diluição .... Nº moléculas/litro
CH2 ............. 3.34x1021
CH3 ............. 3.34x1019
CH4 ............. 3.34x1017
CH5 ............. 3.34x1015
CH6 ............. 3.34x1013
CH7 ............. 3.34x1011
CH8 ............. 3.34x109
CH9 ............. 3.34x107
CH10 ........... 3.34x105
CH11 ............ 3.34x103
CH12 ............ 33.4
Ou seja, a partir da diluição CH12 (e há quem venda CH100, supostamente «medicamentos» mais «potentes» que qualquer outra diluição porque foram sujeitos a mais batidelas) já não há uma única molécula de água em solução.
Assim, ou temos as crenças não justificadas de que as batidelas extraem «a essência ou alma de cada elemento» e de que as doenças não têm uma causa material mas sim sobrenatural que é igualmente curada «sobrenaturalmente» ou por magia por esta «alma» (e que doenças causadas por microorganismos patogénicos e afins são invenções «cientifistas») ou então necessariamente concordamos que a homeopatia não passa de banha da cobra.
De Luis a 23 de Agosto de 2010 às 11:10
Charlatoes sao voces...
ja vi pessoas curarem-se por homeopatia enquanto no hospital nao davam nada por elas.
E n venham dizer que é placebo.....
Quem n entende ou nao quer entender é tudo charlatanices ou placebo
De nuvens de fumo a 23 de Agosto de 2010 às 14:58
Para quem acha que acredita da homeopatia é aconselhável aprender um mínimo de matemática com recurso à chamada notação científica ( 10E2 , etc) e ter em conta o que significam as diluições da homeopatia.
Uma diluição
1C = 10
2C = 10E2
3C = 10E6
nC=10E(2Xn)
Coisas como 30C = 1 partícula do produto para 10 E 60 moléculas de água.
Isto nem sequer tem sentido nenhum, não existe sequer vestígio do produto original , é idiota.
Mas ha diluições ainda maiores , 200C que são de magnitude superior ao número total de átomos no universo, se não é idiota não sei o que será ( número estimado de partículas entre 10E88-10E99, 1 em10E400 !!!!!)
Enfim 
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