Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

E a mesma palavra pode ter diferentes significados consoante o contexto em que se usa, os propósitos com que se utiliza e a entoação com que é dita, todos sabemos. Vem isto a propósito da já famosa twitadela que determinou - ou vai determinar - alterações no linguajar dos deputados da nação. A primeira referência à história foi-me franqueada pelo Pastorinho, daquela maneira tão dele, num post com o fantástico título já o "bandalho do caralho" tem licença para continuar. A minha reacção imediata, para além da gargalhada, foi achar que estava tudo maluco. Essa agora, era mesmo o que faltava, pensei. Entretanto fui ouvindo mais achegas à história e percebi três coisas importantes, pelo menos para mim - não se trata de uma norma formal, veio na sequência de uma solicitação externa e, mais imporante que tudo o resto, teve um valor simbólico, espero - veja-se o resumo do episódio.

Aqui chegada apraz-me dizer que continuo a achar que se pode fazer humor com tudo, que percebo a "indicação" mas não aceitaria nunca a proibição do uso dos termos em causa e que não acredito, infelizmente, que seja à cause de ça que se acabe com o autismo - ou com os autistas - na AR.


9 comentários:
De jc a 20 de Abril de 2009 às 01:45
bem que se podiam preocupar com coisa mais importantes:

http://noticiasdecastelodevide.blogspot.com/2009/04/comunicado-da-concelhia-do-partido.html


De Carlos Chaves a 20 de Abril de 2009 às 01:50
Estes deputados são mesmo uns bandalhos do caralho!
Digo isto com algum à-vontade , pois tenho a certeza que eles são todos autistas.


De Ana Matos Pires a 20 de Abril de 2009 às 11:27
Há coisas que não são necessárias, mesmo.


De Rui Herbon a 20 de Abril de 2009 às 11:11
Esta ditadura do politicamente correcto e da higienização da linguagem (espécie de fascismo intelectual) é um espartilho pior do que o lápis azul. Não sei se os deputados têm a noção de que abriram uma caixa de Pandora.
A seguir deixar-se-á de poder dizer "o senhor deputado sofre de esquizofrenia", ou "é paranóico"; ou "é bipolar" (se der uma no cravo e outra na ferradura); ou "é cego aos meus argumentos"; ou "a sua argumentação é coxa".
No dia a dia proibir-nos-ão de dizer "a coisa está preta"; "trabalho como um mouro" ou "um galego"; "mais vale mandar cantar um ceguinho"; "que o diabo seja cego, surdo e mudo". E acabam-se as anedotas de alentejanos.
No limite, seremos proíbidos de apodar de ladrão quem rouba, porque o larápio poder-se-á sentir ofendido.
Não é politicamente correcto, mas... Cambada de múmias paralíticas!


De Ana Matos Pires a 20 de Abril de 2009 às 11:32
Tive exactamente essa reacção inicialmente, Rui, daí ter ido à procura de mais informação e de me ter "agarrado" à ideia do valor simbólico da atitude - a 2 de Abril assinala-se o dia Internacional de Consciencialização para o Autismo - e ao facto de ser uma "indicação" e não uma "obrigação".


De Rui Herbon a 20 de Abril de 2009 às 11:53
O problema é que as pessoas (e no caso uma escritora, embora ninguém seja bom juiz em causa própria e por isso se perdoe o dislate) têm uma atitude primária em relação às palavras, ou seja, não admitem que uma palavra possa ter vários sentidos, e não apenas dependente do contexto, ou do sujeito, no caso dos adjectivos. Por exemplo autista, no meu dicionário, tanto pode ser "estado mental caracterizado por uma concentração mórbida do indivíduo sobre si mesmo" (a si, como médica, parecer-lhe-á simplista, evidentemente), mas também "ensimesmamento", "alheamento do real", "predominância da vida interior", "subjectivismo delirante". E resta saber se a a palavra não existia já antes da doença, que a tomou por empréstimo, como foi o caso da bipolaridade. Essa indicação (que vejo como impositiva) pressupõe que se descartem as outras acepções da palavra, o que me parece intolerável. Em última análise todas as palavras (dependendo do contexto, do tom ou do uso de recursos como a ironia) podem ofender indivíduos ou grupos. E não creio que os deputados, quando usam essa expressão, tenham intenção de melindrar alguém a não ser o visado.


De Ana Matos Pires a 21 de Abril de 2009 às 14:26
Concordo consigo, Rui, daí entender o sucedido como um acto simbólico. Ninguém está proibido de usar o termo e isso, para mim, faz toda a diferença.

Através do twitter do João Pinto e Castro li isto:
"RT @AntonioFilipe: É que fez caminho a ideia que o uso do termo autista tinha sido proibido na AR. O que não é verdade. Nem poderia ser."

Antes o António Filipe tinha escrito "Há um desagrado dos familiares de pessoas autistas pelo uso pejorativo do termo na AR. Dep. comprometeram-se a ter isso em consideração. Só.".


De Rui Herbon a 21 de Abril de 2009 às 17:46
Nesse caso estamos de acordo :)


De Catarina Miranda a 18 de Maio de 2009 às 09:45
As palavras são importantes mas não bastam.


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