Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Uma solução é solução para alguma coisa. Que problema resolveria então a criação de uma portagem à entrada do concelho de Lisboa?

Os homens gostam de viver em cidades. Essa preferência pode ser satisfeita porque as cidades são uma forma económica de organizar a vida em sociedade, visto que, ao aproximarem as pessoas umas das outras, reduzem toda a espécie de custos de transacção.

A área metropolitana de Lisboa está espalhada por uma área gigantesca que, apesar de ir de Torres a Setúbal, aloja apenas 2,6 milhões de pessoas. Logo, os habitantes não beneficiam dos ganhos de proximidade e gastam muito tempo e dinheiro em deslocações dentro dela.

Lisboa é uma metrópole disfuncional, pocuo agradável para quem cá vive e ineficiente do ponto de vista energético.

A natureza do território ajuda a explicar a sua expansão em mancha de óleo a partir dos anos 60, mas a causa fundamental é o deficiente planeamento urbano que sistematicamente acomodou a construção clandestina e os loteamentos selvagens.

É caro infra-estruturar um território com uma população tão dispersa. Levou-se electricidade, água e telefone a toda a gente com custos colossais, mas não se pode fazer o mesmo, por exemplo, com o comboio.

Os escassos terrenos que beneficiaram de um investimento urbano minimamente consequente encareceram brutalmente por comparação com periferias-dormitório, mal servidas de equipamentos sociais, de espaços verdes e de acessos. Esse encarecimento relativo estimulou a fuga para a periferia e o esvaziamento do centro, que não parou de perder população ao longo de três décadas.

Entretanto, alguns concelhos limítrofe sofreram uma requalificação significativa, o que os tornou mais atractivos para viver e trabalhar. Depois de fugirem os residentes, também os empregos começam a fugir do concelho de Lisboa.

Os lisboetas queixam-se de que a cidade está cheia nos dias úteis, mas também de que está vazia à noite e aos fins de semana. Esse fenómeno reflecte uma progressiva perda de funcionalidades e, logo, de atractividade do centro metropolitano.

A consequência mais óbvia e perigosa é a fragmentação da Grande Lisboa. Cada vez mais, muitos dos seus habitantes passam meses ou mesmo anos sem sem se deslocarem à inner Lisbon.

As distâncias percorridas pelos habitantes tendem a crescer, o que, nas circunstâncias presentes, implica mais deslocações de automóvel e mais ineficiência energética.

Eu diria, portanto, que é necessário compactar Lisboa, reforçar o centro e reestabelecer uma relação mais equilibrada entre o centro e a periferia. Isto implica promover a mobilidade no interior da região, mas de uma forma que proteja o ambiente economize energia, o que necessariamente nos remete para a promoção do transporte público.

Como é que a criação de uma portagem à entrada do concelho de Lisboa poderá contribuir para fazer isso? Os adeptos desta solução propõem-se antes de mais reduzir a entrada diária de carros na cidade e a consequente circulação, com o que ela ganharia em qualidade do ar e descongestionamento. Vêem-na, além disso, como um incentivo à utilização do transporte público para entrar na cidade. Acreditam, por último, que as receitas da portagem urbana permitiriam financiar a melhoria do transporte público.

Começarei por fazer notar que em Lisboa, ao contrário do que se passa na generalidade das cidades europeias, paga-se portagem para circular nas auto-estradas e pontes de acesso ao concelho. O único eixo não pago é o de Sintra. Logo, a portagem agora proposta consistiria basicamente em acrescentar uma nova linha de fortificação contra a quotidiana invasão dos subúrbios. Que resultados daí adiviriam?

Em primeiro lugar, um encarecimento relativo dos terrenos e das casas dentro do concelho, o que contribuiria para torná-lo ainda menos atractivo do que já é para os residentes e para as empresas. Daí tenderá a decorrer uma maior desertificação da cidade.

Em segundo lugar, um agravamento das condições de deslocação quotidiana dos residentes dos subúrbios que trabalham em Lisboa.

Em terceiro lugar, um aumento da circulação automóvel dos residentes dentro da cidade, tirando partido da retirada dos veículos dos não residentes.

O segundo ponto será certamente contestado pelos adeptos da portagem. Alguns, porque acham que os transportes públicos são já suficientemente bons, e que a sua não utilização deve-se sobretudo à força das rotinas instaladas ou a preconceitos snobs. Outros, porque só concebem a instalação da portagem em articulação com um investimento significativo e sustentado na melhoria da rede dos transportes públicos.

A opinião de que dispomos já de bons transportes públicos é desmentida tanto pela experiência quotidiana de tanta e tanta gente como por elementares comparações internacionais com cidades de dimensão e características comparáveis às de Lisboa. Há cada vez mais percursos casa-trabalho que pura e simplesmente não são servidos por qualquer forma de transporte público.

Fica então de pé a alternativa de se usar as receitas das portagens para resolver o problema. A primeira pergunta que cabe aqui fazer é: por que não antes? Por que não melhorar primeiro os transportes públicos e só depois eventualmente introduzir as portagens?

O argumento, aparentemente, é que as próprias portagens libertarão as verbas necessárias para financiar esse projecto. A isso eu responderei duas coisas: a primeira, é que as portagens que já são pagas para entrar em Lisboa nunca, até hoje, foram utilizadas para reforçar o sistema público de transportes. A segunda é que a melhoria desse sistema demorará anos e anos, durante os quais aqueles que hoje não têm alternativa melhor que o transporte individual sofrerão uma nova degradação da sua qualidade de vida com um aumento dos tempos de deslocação de casa para o trabalho.

Proponho, assim, uma primeira conclusão: as portagens melhorarão a qualidade de vida de quem mora no concelho e de quem, vindo de fora, tem capacidade económica para as pagar. Todos os restantes habitantes da região ficarão pior.

A minha segunda conclusão é que a região metropolitana tornar-se-á mais desarticulada do que já o é. Alguns concelhos limítrofes que entretanto ganharam qualidade de vida (estou a pensar antes de mais em Oeiras) poderão optar por instituir também portagens à entrada.

Decorre daí uma terceira conclusão: com a desagregação da região, aumentarão genericamente os custos de transacção e a metrópole tornar-se-á menos eficiente e, logo, menos competitiva no panorama internacional.

A longo prazo, antevejo resultados ainda mais catastróficos. Lisboa concelho dificultará o acesso aos cidadãos ao mesmo tempo que perde centralidades, ou seja, ao mesmo tempo que oferece menos valor acrescentado. Acentuar-se-á a tendência para uma área metropolitana multi-popular disfuncional, o que destrói a capacidade de atracção da cidade, fragmenta o território e potencia uma organização espacial que reforça a discriminação de classe.

Lisboa concelho já não é hoje um pólo suficientemente atraente para poder dar-se ao luxo de criar barreiras ao acesso. Precisamos de ligar e coser uma malha urbana corroída por factores potenciadores de desagregação, não de criar novos factores de divisão ou mesmo de exclusão. O centro da região de Lisboa precisa de reaprender a prestar serviços à periferia, não de hostilizá-la.

As portagens à entrada de Lisboa são uma solução simples, rápida, económica e, sobretudo, moderna. A experiência passada sugere, pois, que tem todas as condições para ser posta em prática, por muito evidentes que sejam os seus defeitos. Não esqueçamos, além do mais, que tudo o que agrava as desigualdades sociais foi inventado aqui.

É claro que há outra via, mais difícil e morosa – principalmente porque implica a constituição da região político-administrativa de Lisboa – mas, a meu ver, a única que nos levará a algum sítio onde vale a pena ir.
 


15 comentários:
De Luís Lavoura a 23 de Abril de 2009 às 13:06
Não tive paciência para ler o post até ao fim, mas faço notar que as três consequências que aponta para aintrodução de portagens são, todas elas, positivas para os habitantes da zona protegida pelas portagens.

De onde ser conclui que a Câmara Municipal de Lisboa, enquanto representante dos lisboetas e sua defensora, deveria introduzir portagens.

De facto, como se deduz do próprio post, as portagens são benéficas para os lisboetas, embora prejudiciais para alguns não-lisboetas.

Se a Câmara de Lisboa se preocupasse com os lisboetas, em vez de se preocupar com os suburbanitas, introduziria portagens.


De EMS a 23 de Abril de 2009 às 15:18
Luís Lavoura, o que o João Pinto e Castro tentou dizer é que simplesmente dificultando entrada dos suburbanitas em Lisboa, estes cansam-se e passam a fazer as suas compras e a criar empregos na suburbia onde serão felizes para sempre, deixando Lisboa ás moscas. O que alias já está a acontecer.


De Luís Lavoura a 24 de Abril de 2009 às 09:39
Eu acho bem que se vão embora e deixem Lisboa às moscas. Não precisamos deles cá para nada.


De G_L a 24 de Abril de 2009 às 03:07
Pensa-se muito com o umbigo. "Orgulhosamente sós".
Podiam por uma muralha à volta de Lisboa. Com ameias. Atrairia turistas.


De Luís Lavoura a 24 de Abril de 2009 às 09:41
Exatamente: atrairia turistas. Os quais trariam bem mais dinheiro do que os suburbanitas. Teríamos uma cidade mais limpa, mais bonita, mais rica, mais valiosa e mais cosmopolita.


De Anónimo a 25 de Abril de 2009 às 10:01
hello marte!!!! este luis lavoura é muito limitado de ideias...


De VMB a 23 de Abril de 2009 às 13:09
Tens toda a razão, apesar de concordarmos.


De Anónimo a 23 de Abril de 2009 às 13:33
"Eu diria, portanto, que é necessário compactar Lisboa, reforçar o centro e reestabelecer uma relação mais equilibrada entre o centro e a periferia."

concordo. mas não acho que a solução passe pelo transito. a solução está em acabar com os prédios devolutos e desocupados do centro de lisboa, obrigando os proprietárias a vender as casas ou a ocupa-las.

só assim me parece possível trazer de volta as pessoas à cidade, tornado-a mais compacta e mais eficiente.


De Abraham a 23 de Abril de 2009 às 14:03
Como sou uma suburbaníssima exijo que os moradores de Lisboa a quando para sul paguem também uma portagem. Os milhares de carros que conspurcam o ar de Almada, Seixal, Sesimbra, Setúbal são iguais porem menos dos que entram da Margem esquerda para Lisboa de modo que se assim se fizer completamente de acordo. Aliás os transportes públicos para Sesimbra são óptimos e variados .


De m&m a 23 de Abril de 2009 às 16:11
«A opinião de que dispomos já de bons transportes públicos é desmentida tanto pela experiência quotidiana de tanta e tanta gente como por elementares comparações internacionais com cidades de dimensão e características comparáveis às de Lisboa. Há cada vez mais percursos casa-trabalho que pura e simplesmente não são servidos por qualquer forma de transporte público»

fico à espera que apresente factos;
tirando, talvez, a harmonização da bilhética, (e a aberração dos múltiplos passes sociais e o seu elevado custo nos operadores privados que, isto sim, desmotiva o uso de transportes público) não vejo nada em que sejamos inferiores. A «experiência quotidiana de tanta gente» é desculpa esfarrapada para não largar o carrito.
Moro em Lisboa, sou totalmente contra qualquer portagem para entrar na cidade, bem como outras medidas avulsas como a matrícula par/ímpar ou faixas especificas para carros com mais de uma pessoa. Tretas. Bania simplesmente os automóveis de algumas zonas da cidade.


De G_L a 24 de Abril de 2009 às 03:04
Vivo em Cascais e não tenho nenhum cliente em Lisboa: tinha entretanto um fornecedor, ao pé da Gulbenkian. Pois bem, hoje fui visitar as novas instalações do meu ex-único fornecedor em Lisboa, agora instalado num armazém em Alfragide. Dali, fui a uma reunião ao meu cliente em Carnaxide.
Deixei de ter qualquer razão para pisar em Lisboa, a não ser eventualmente ir a São Carlos.
Lisboa é hostil. O que ainda vale à pena em Lisboa é o Chiado. De resto... ir à Lisboa é caro (portagens e multas por tudo e por nada). O que podiam fazer é deslocar a portagem de Carcavelos para as portas de Lisboa...


De João André a 24 de Abril de 2009 às 13:22
Tanta coisa e o JPC conclui com isto:

«É claro que há outra via, mais difícil e morosa – principalmente porque implica a constituição da região político-administrativa de Lisboa – mas, a meu ver, a única que nos levará a algum sítio onde vale a pena ir.»

Qual a via então? A constituição da tal região? Em que é que mudaria alguma coisa?

Quanto às portagens, não misture. As portagens da auto-estrada são pagas às empresas concessionárias. As portagens para Lisboa seriam pagas a uma empresa municipal responsável pelos transportes urbanos.

Muitos dos transportes públicos necessários para cobrir a cidade serão talvez impossíveis de implementar presentemente porque Não conseguem circular. Não sou de Lisboa e não conheço os transportes públicos, mas cada vez que os tentei usar (fora o metro) acabei a demorar eternidades a chegar o local pretendido porque havia engarrafamentos, carros parados/estacionados nas faixas bus, etc. E não venha dizer que a polícia os deveria remover. Deveria, mas não consegue, uma vez que nem lá conseguem fazer chegar um reboque (se a rua está parada o reboque não chega, como é óbvio).

As portagens não são panaceia só por si. Precisam de ser articuladas. Com os transportes públicos, sim, mas também com medidas que facilitem a circulação de quem deseje mesmo entrar na cidade. Com medidas que promovam o car-pooling (portagens mais baratas para carros com três ou mais pessoas, faixas dedicadas, etc). Com um combate à desertificação que passa por novas estratégias face à habitação na cidade (tal como já foi referido aqui na Jugular e antes no 5Dias). E mais não sei quantas alternativas que não recordo e que seriam também boas, tenho a certeza.

Que tal pensar em soluções? Isso de procurar problemas para as soluções é demasiado fácil. E uma receita para deixar tudo na mesma.


De Dorean Paxorales a 25 de Abril de 2009 às 08:58
Tem toda a razão, João André.
Eu sou do tempo do eléctrico na avenida da república, como transporte público. O eléctrico circulava independente do trânsito rodoviário. Foi o descontrolo sobre os carros (e não só o seu estacionamento) que levou a câmara e a Carris à completa rendição e ao arranque dos carris e fecho de linhas. A boçalidade do carro é tanta que hoje o eléctrico ou é só para turistas ou tem de ser travestido de "metro de superfície" para impor algum respeito.


De helder a 24 de Abril de 2009 às 23:59
97 milhoes de passageiros transportou a CP Lisboa em 2007, fora a Fertagus, significa perto de 400 mil pessoas diariamente que chegam a Lisboa nos comboios da CP Lisboa se considerarmos so os dias uteis.

Ja ha muita gente que utiliza os transportes publicos, mas ainda podemos fazer melhor.


De Dorean Paxorales a 25 de Abril de 2009 às 08:47
"Cada vez mais, muitos dos seus habitantes passam meses ou mesmo anos sem sem se deslocarem à inner Lisbon."

Então deixam de pertencer à área metropolitana, tal como definida pela dependência. Não vem mal ao mundo.

"(...) em Lisboa (...) paga-se portagem para circular nas auto-estradas e pontes de acesso ao concelho."

Paga o uso da auto-estrada e ponte. A receita não é embolsada pelo município mas pelas concessionárias.

"Em primeiro lugar, um encarecimento relativo dos terrenos e das casas dentro do concelho,"

Com o aumento dos acessos, o que aconteceu na última década e meia foi um encarecimento dos subúrbios.

"Em terceiro lugar, um aumento da circulação automóvel dos residentes dentro da cidade, tirando partido da retirada dos veículos dos não residentes."

Hum... Então os munícipes de Lisboa não andam de carro na sua cidade para que os não-munícipes possam fazê-lo? Melhor argumento para portagem que subsidie os transp. públicos dos lisboetas é difícil.

Quanto à hipótese de outros concelhos instituirem portagens, é lá com eles e com os seus munícipes. A prioridade de uma autarquia é para com a qualidade de vida dos habitantes da sua cidade não para com os custos de vida dos habitantes de outras.


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