Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
Paulo Pinto

Aproxima-se a data da canonização de Nuno Álvares Pereira. É no próximo domingo, dia 26 de Abril de 2009, que o Vaticano irá proceder à consagração desta figura, elevando-a do estatuto de beato ao de santo. Para não me pronunciar sobre este evento no dia em que ocorre, como é algo de anunciado e do qual não se esperam surpresas, porque não há qualquer traço de expectativa sobre o seu desfecho, digo já aqui e hoje o que penso acerca do assunto e da pequena polémica que tem surgido, envolvendo quem aplaude, quem exulta, quem discorda e quem se insurge contra a iniciativa, quem acha que é pouco e quem pensa que é demais. Eu gostaria, sobretudo, de opinar sobre o que me parece ser um erro grosseiro, de fazer uma distinção, de cindir o que tem sido frequentemente misturado e que continuará certamente a sê-lo: a santidade e a heroicidade nacional de Nuno Álvares Pereira. Na minha opinião, isto turva a percepção do que está realmente em jogo, mistura dois planos distintos e em nada contribui para um debate sério e lúcido sobre a questão. Esta canonização incide, em boa verdade, sobre duas coisas. Um bi-acto.

 

Um ponto prévio: sou agnóstico e nada me move contra a religiosidade alheia, desde que cumpridos os limites da liberdade individual, da convivência e do respeito mútuo. Confesso, contudo, a minha pouca simpatia, amplificada em ocasional irritação, para com as expressões de idolatria, que as religiões do Livro excluem de forma tão clara e que são, afinal, aceites, promovidas e enaltecidas na prática. A adoração de imagens, não pelo que elas representam e simbolizam mas pelos objectos em si, a devoção a relíquias, o apego supersticioso a gestos e rituais, a atribuição de propriedades extra-naturais e pedaços de matéria, constituem, para mim, a forma mais grosseira de religiosidade, admitindo eu que possa existir uma dimensão religiosa, um apelo espiritual latente em todos os homens. O mundo católico está especialmente impregnado destas práticas, como é sabido, pela necessidade de integrar os cultos pagãos preexistentes e, mais tarde, de contemporizar com outras religiões extra-europeias. E hoje como ontem, a prática católica resume-se, em muitos casos, à relação com um catálogo de santos e santas, cada um com a sua especialidade, a quem se recorre conforme a necessidade ou a aflição, um verdadeiro panteão de pequenos deuses que sussuram recados aos ouvidos do Altíssimo, consoante a fé, a promessa ou a contrapartida do crente e os humores do santo, num comércio desigual, interesseiro e injusto. Nisto, perdoar-me-ão os mais devotos, o Islão está a milhas de distância.

Um segundo ponto prévio: O meu patriotismo não é questionável, mas o meu nacionalismo, sim, e muito. Não tenho dúvidas do amor que dedico à terra onde nasci e ao povo que nela habita, mas questiono muitas formas de exaltação egocêntrica do país onde vivo, sobretudo quando é feita em detrimento ou prejuízo de outras terras e de outros povos e, em especial, quando é utilizado um instrumento simples, fácil e perigoso, a História. Simples porque claro e acessível, fácil porque mexe com quem somos e o que somos, perigoso porque sedutor e manipulável.

Nuno Álvares Pereira é uma figura importante na História de Portugal e um herói da independência nacional, porque desempenhou um papel de primeiro plano num momento decisivo do passado, imprimindo-lhe um determinado rumo. No fim da sua vida (tinha 63 anos, o que era uma idade provecta na época), e após a morte da mulher, Nuno Álvares Pereira abdicou totalmente do poder que possuía, despojou-se dos seus bens e entrou para a Ordem do Carmo, entregando-se a uma vida de oração. Isto fez-lhe ganhar fama e dimensão de santidade, consagrando no imaginário popular o Santo Condestável. Séculos mais tarde, a Santa Sé elevou-o ao estatuto de beato e, daqui a uns dias, de santo. Isto porque, e como consagração, foi confirmada a existência de um milagre (o episódio da lesão e cura oftálmica de uma idosa) atribuído à invocação da sua figura. São estes os factos.

Não discuto nem contesto a importância de Nuno Álvares Pereira na crise de 1383-85 e o papel que desempenhou na vitória do partido do Mestre de Avis, que levou à instauração de uma nova dinastia e à continuação de Portugal como reino independente. Não discuto nem contesto qualquer fama de santidade, o significado da sua entrada na vida religiosa nem, sequer, qualquer milagre que lhe seja imputável porque, como agnóstico que sou, considero que são elementos que são estranhos à minha visão do mundo e da realidade. Não me pronuncio, portanto, sobre o facto de a Igreja Católica lhe conferir um estatuto superior no seio das suas próprias premissas e que muitas pessoas acreditem e exultem este facto. Não aceito, isso sim, é a confusão entre as duas dimensões, a que tantas vezes assisto em declarações, opiniões e comentários.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa, define como razão primeira da canonização "virtudes fora comum, vividas em grau heróico", e como primeira de entre estas, uma "entrega total ao serviço da pátria". Pois eu sempre considerei que Deus não tem pátria e não compreendo que se possa assumir tal argumento em prol de qualquer teor de santidade. Vamos imaginar um Nuno Álvares com todas as qualidades que lhe são atribuídas, excepto uma: que tivesse alinhado por D. Beatriz e D. João de Castela. Seria menos santo por isso? E que tivesse ganho a batalha de Aljubarrota a favor de Castela e que Portugal tivesse perdido (de forma efémera ou duradoura) a independência. Teriam as suas qualidades merecedoras de canonização sido beliscadas? Deus aceita nacionalidades? Nem me alargo em considerações sobre a santidade de um comando militar num confronto onde morreram centenas de pessoas. A menos que achemos são mortes justificadas, umas porque ocorreram em defesa da Pátria, e outras porque foram de inimigos da Pátria. E sobre a "partilha, serviço aos pobres", digo que quem conhece algo de História Medieval sabe que o retiro para uma vida de oração e o despojamento de toda a riqueza material inseria-se no modelo de virtudes da época e não foi exclusiva deste personagem. Mas não discuto critérios de canonização, como é evidente.

Já o general Loureiro dos Santos, que não tem responsabilidades do foro religioso, considera apenas que o evento "pode e deve ser aproveitado com a finalidade de acentuar perante os portugueses a condição de D. Nuno como grande figura nacional". Estamos, portanto, no terreno do aproveitamento da questão para exaltação nacionalista. E digo nacionalista e não patriótica porque sugere, à falta de tempo para a nomeação de uma "comissão nacional" que balizasse "as homenagens a este herói nacional", a dinamização de instituições "públicas e da sociedade civil" para promoverem eventos "em honra" desta figura. Tudo isto coordenado "por um órgão designado oficialmente pelos ministérios da Defesa Nacional, da Cultura e da Educação". Não gosto do aroma a que isto transpira e não concebo o estudo da História desta forma por uma questão de princípio: o que fazer se, ao cavar mais fundo, se descobre um armário com esqueletos que manchem a "honra" do homenageado ou, simplesmente, firam o orgulho nacional? A exaltação nacionalista é, para mim, tão descabida como é, em sinal contrário, a vergonha que ainda cobre o nosso passado ultramarino, no que respeita, por exemplo, à promoção e desenvolvimento da escravatura nos séculos XV a XVII e o "complexo do colonizador" que ainda tolda a nossa percepção do passado.

Por fim, sou de opinião de que todo o escarcéu em torno da participação do Presidente da República na Comissão de Honra é infeliz. Não me repugna, em nada, o facto, nem me parece que haja qualquer conflito com a laicidade do Estado português. E não comungo do tom brejeiro e sarcástico sobre o alegado milagre, porque não entendo que haja milagres de primeira e milagres de segunda. Quem acredita, está no seu direito, desde que respeite o meu direito a ter opinião contrária. Pode ser apenas tolerância, um certo laissez faire da minha parte, é verdade. Mas se amanhã o Dalai Lama decidisse conferir qualquer estatuto de santidade budista a um português, quiçá um viajante do século XVII, não estou a vislumbrar grande contestação a que o chefe de estado se deslocasse ao estrangeiro para assistir e integrar uma comissão de honra. Eu contestaria, isso sim, se me dissessem que essa atribuição se ficara a dever a serviços prestados à pátria. Apenas e somente.


75 comentários:
De Anónimo a 23 de Abril de 2009 às 12:44
não percebo a diferença entre ser patriota e nacionalista. para mim são uma e a mesma coisa.

é por estas e por outras que estou cada vez mais perto do saramago: somos todos ibéricos!


De Carlos Chaves a 23 de Abril de 2009 às 19:14
Nacionalismo e patriotismo, para si podem ser uma e a mesma coisa.
Mas o facto é que não são.
Muito resumidamente, nação apela ao nascimento, à raiz de onde se vem, já pátria invoca mais o passado, os mortos passados.
Daí se poder dizer que a pátria é a nação tal como a idealizaram os nossos avoengos.
Já dá para ter uma ideia.


De Inês Meneses a 24 de Abril de 2009 às 13:24
na minha cabeça, nação remete para a entidade política, pátria para factores de identidade cultural e histórica. Daí achar que um nacionalista não pode ser iberista, mas um patriota pode perfeitamente.


De Inês Meneses a 23 de Abril de 2009 às 23:05
um nacionalista não diria isso; um patriota sim.


De Luís Lavoura a 23 de Abril de 2009 às 12:48
Muito bem. Concordo integralmente, linha por linha, com este post.


De cristã a 23 de Abril de 2009 às 14:00
muito bom


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 14:24
Cara Senhora Crsitã:

O envolvimento de Cavaco Silva, no próximo dia 26 de Abril, numa iniciativa destinada à canonização do herói de Aljubarrota: investigações, testemunhos de historiadores que conhecem a matéria e muita bibliografia que consultei em Lisboa, Marinha Grande, Leiria e Coimbra, comprovam que Nuno Álvares Pereira, meu ascente por via paterna,porque ajudou na reconstrução de algumas igrejas, quis passar os últimos tempos da vida NÃO num palácio – foi-lhe oferecido – mas num convento, para estar em recolhimento e reflexão sobre a sua vida de cidadão e militar vencedor – Atoleiros, Aljubarrota ou Ceuta são só três exemplos.
Porque era rico e tinha meios de herança ( os irmãos foram destroçados pelas tropas por si comandadas, na Batalha de Aljubarrota, visto que estavam ao serviço da monarquia espanhola) resolveu distribuir os bens de que dispunha por gente miserável, instituições de solidariedade e familiares menos abastados.
A Igreja Católica, que soube do testamento quando ele ainda estava no convento, tentou pressioná-lo para que lhe cedesse a herança, o que o herói sempre recusou.
Sugiro-lhe que visite a Fundação da Batalha de Aljubarrota, na Batalha.
Finalmente.
É uma afronta, inclusivamente para muitos católicos, muitos deles meus amigos e alguns até com altas responsabilidades na hierarquia da Igreja, que o Presidente da República Cavaco Silva, primeiro magistrado de uma Nação que é constitucionalmente um Estado laico, tenha caucionado esta canonização grotesca, absurda e, além do mais, violadora da matriz de separação de poderes que Cavaco deveria no mínimo cumprir, porque é a ele que compete respeitar e fazer cumprir a Constituição – assim prestou juramento na posse.


De António Parente a 23 de Abril de 2009 às 14:45
O Sr. Guilhermoe Pereira é descendente de D. Nuno Álvares Pereira??? É primo do Pacheco Pereira? Tem provas do que afirma ou está querendo ganhar fama de santo?


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 15:16
Caro António Parente:

Gostei da ironia do seu comentário...
o qual…comento com todo o gosto:

1.

Sou efectivamente descendente de Nuno Álvares Pereira. Fiz essa investigação( 1999) com a ajuda do professor José Hermano Saraiva e o Duarte Pio; sou descendente em 5º grau pela via paterna;

2.
Santo não posso ser jamais: sou o diabo em pessoa;

3.
Não descendo nem ascendo do/ao Pacheco Pereira e não lastimo.
Apesar de ter meia dúzia de emplastros na famelga menos chegada, era mesmo só o que faltava.
Conheci pessoalmente apenas esse senhor quando ele defendia uma democracia popular, tipo FUP, tá a ver a coisa?

Cumprimentos


De António Parente a 23 de Abril de 2009 às 15:31
Estou aqui completamente embasbacado! Não o sabia tão ilustre! Presumo que seja monárquico, tem bons motivos para isso.

Eu só conheço até aos meus avós, gente simples e boa, pequenos proprietários rurais, com quem convivi pouco (do meu lado materno não os conheci e do meu lado paterno vi-os menos do que queria) mas que me deram lições importantes, especialmente o meu avô paterno. Sei, no entanto, que do lado materno existe ascendência espanhola da andaluzia, perto de sevilha, gente também pobre que eu nunca conheci.

Há uma coisa que me desperta a curiosidade, se me permite a pergunta: como é que funciona isso dos graus? É que 5 graus divididos por 600 anos dá uma média de 120 anos de vida por cada ascendente seu. É assim que se conta? Se for, tem uns genes fantásticos.

p.s. - não entenda este comentário como irónico, é mera curiosidade.


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 15:45
Caro António Parente:
Respondo de novo com todo o gosto e, espero, quanta competência quanta o amigo merece:

1.

Não tenho ascendência materna ou paterna pobre: nasci em berço de oiro mas também não posso ser penalizado por isso, far-me-à essa justiça; se alguma vez leu o meu miserável blogue, percebe claramente que não é do lado dos poderosos que estou ou alguma vez estive. Paguei as facturas nas perseguições e na cadeia. Estou, estarei sempre, do lado dos que são menos protegidos, desde que não tenham voz e mesmo que não tenham razão;

2.

O que antes escrevi não embarga isto: tanto eu como a minha irmã ( médica, directora hospitalar) tivemos e temos ainda que dar o litro para chegar ao topo da carreira da função pública, descontamos 42% de IRS, somos todos gente simples e de cara lavadinha, apesar de sermos familiares de gente do ACTUAL Poder, cujos nomes não menciono por dispiciendos;

3.

Quanto à pergunta da descendência 5º grau, a resposta seria longa e chatérrima para os leitores do blogue.
Se estiver interessado, vou cuscar o seu endereço e-mail no seu blogue e mando-lhe o puzzle que é preciso desconstruir e refazer para se chegar a essa conclusão, DOCUMENTALMENTE comprovada, evidentemente.

Disponha.



De M. T. a 23 de Abril de 2009 às 16:00
Dizer que se é descendente em 5º grau de D. Nuno Álvares Pereira é não ter a mínima noção do tempo e nunca ter olhado para uma genealogia.
Os descendentes directos actuais de D. Nuno - e são milhares - variam entre a 17ª e 22ª geração.


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 17:33
Senhor ou Senhora MT:

Espantosa a sua sabedoria!
Mas, desculpar-me-á:

1.
Não vou rasgar a investigação que 7 criaturas fizeram durante quase um ano - sempre são 1123 páginas com documentos ou acervos que ao menos guardo para deixar aos netos, quando os tiver e ainda falta muito;

2.
Fala de Duarte Nuno: alguma vez na sua vida falou com ele?
Eu falei e escutei durante muitas horas.
A ele e outros historiadores e até membros da Igreja a quem tivémos que pedir ajuda.

Fique-se, pois, com a sua olímpica sapiência.
Deixa-me assinar assim:

Dom Guilherme Pereira
:)


De António Parente a 23 de Abril de 2009 às 16:12
Caro Guilherme Pereira

Não precisa enviar nada por mail. Confio na sua palavra.

Continuo embasbacado, ainda mais agora que sei que paga 42% de IRS. Isso é um acto patriótico e ainda mais notável é o seu apoio a José Sócrates.

Um abraço,


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 17:25
Caro António Parente:

Isto tem que ser aos soluços e nos intervais do trabalho.
Escrevi-lhe para fazer, se não se importa, uma correcção.
EU NÃO SOU APOIANTE de José Sócrates.
Como poderia verificar se tivesse a pachorra de ler tudo quanto escrevi sobre o PM, a minha posição pública tem sido
1.

De total repúdio e nojo, como cidadão e jornalista, pelos sucessivos julgamentos sumários e homicidas que algum “jornalismo” com aspas faz relativamente ao cidadão José Sócrates; dois jornalistas do Washington POst, como sabe, investigaram meses a fio e obrigaram à demissão do Presidente Nixon dos EUA – foram persistentes, leais, prestaram um bom serviço ao jornalismo justamente porque nunca recorreram aos métodos a que agora assistimos;

2.

Não sou nem nunca fui militante do PS, embora tenha bons amigos nessa área ( alguns do Poder actual, alguns desses estiveram comigo na cadeia), mas sou igualmente amigo de deputados do BE, do PCP, de quadros do PSD e pelo menos um actual deputado do CDS; reagiria com qualquer deles, ou consigo se fosse o caso, se algum de vós fosse vítima e alvo da “cruz” ( substantivo dele) que Sócrates tem que carregar nos ombros, por conta da ignomínia e da imundície.

3.

Em liberdade e consciência, caso a caso e conforme a natureza dos actos eleitorais, faço o meu julgamento e voto. Assim será com Sócrates.

Agradeço-lhe, em todo o caso, de novo, a cortesia com que se me dirigiu.


De António Parente a 23 de Abril de 2009 às 19:10
Caro Guilherme Pereira

Procuro sempre dirigir-me com cortesia a si e a quem quer que seja.

Só por curiosidade: quando é que esteve preso e porquê?

Pelo que vejo tem tido uma vida cheia. A minha é monótona e vazia, sem nada de interessante que a distinga. Nós somos assim, os católicos: gente simples com uma vida simples.


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 23:44
Caro António Parente:

Só agora me desembaracei do trabalho e li o seu comentário.
Sobre as minhas prisões ( foram várias) seria uma estucha para todos vocês estar aqui a contar o que se passou, como, onde, porquê.
Está tudo publicado em livros e bibliotecas.
Sugiro-lhe o Centro de Documentação 25 de Abril, Coimbra, o livro de Celso Cruzeiro “Coimbra 69”, das edições “Afrontamento” ou o livro “Prisão Maior”, da editorial “Presença”, de que sou autor (colecção Grandes Narrativas).
Faculto-lhe, se quiser, com todo o gosto, cópia do meu processo da PIDE ( são 656 páginas…) que está na Torre do Tombo, a que também pode aceder, bastando para isso a minha autorização visto que, no dito processo, surgem também cartas pessoais
( família, amigos, etc) e nesses casos é necessária a autorização do próprio.
Quanto à sua vida ser monótona porque é católico, meu caro amigo aí não concordo. Conheço e sou amigo de católicos com uma vida bem preenchida, rica, surpreendente, alguns bispos incluídos. A minha mulher é crente em Deus, faz diariamente as suas orações e tem uma vida pessoal e profisssional que é tudo menos monótona.

Saúde!


De António Parente a 24 de Abril de 2009 às 01:13
Caro Guilherme Pereira

Obrigado pelas suas explicações. Pretendia apenas um resumo curto das prisões, nada de extenuante nem extenso porque não desejo maçá-lo.

Agradeço a sua oferta do processo na Torre do Tombo e digo-lhe que 656 páginas não me intimidam porque sou um leito compulsivo, leio as bulas dos medicamentos, todas as letras pequeninas dos anúncios, matrículas de automóveis, tabuletas nas fachadas dos prédios, nada me escapa. Posso dizer-lhe que li os sete volumes do Proust como penitência quando regressei à Igreja Católica depois de 20 anos de uma vida cheia de pecado na busca anárquica do prazer gastronómico, que no meu caso teve como consequência mais 40 quilos em cima do lombo. Hoje quando olho a lombada dos livros até sinto tonturas embora o apetite por pastéis de nata continue firme. Olhe, vou-lhe fazer uma confidência: a Quaresma é sempre um período difícil para mim porque quando digo que estou a jejuar ninguém acredita em mim. É muito triste. Talvez um dia aceite a sua oferta e vá consultar o seu processo à Torre do Tombo.

Quanto à vida surpreendente de Bispos que conhece, não me assuste Guilherme (permita que este plebeu o trate com toda esta informalidade). Finalmente, penso que devia seguir o exemplo da sua esposa e começar a sua educação cristã. Pense nisso.


De Luís Bonifácio a 23 de Abril de 2009 às 14:07
Embora não concordando com os seus pontos de vista, acho que muita gente teria muito a aprender ao ler este texto.

Sobre as virtudes do Santo Condestável e a sua actualidade tenho apenas lhe perguntar se conhece no panoramam português alguma individualidade que abdicaria de todo o seu poder e todas as suas economias para se retirar para uma vida eremitica?

Nota: Tirando o "seminarista" Louçã, claro está.


De Paulo Pinto a 23 de Abril de 2009 às 14:55
Eu respondo: não conheço ninguém que tivesse abdicado, não faço futurologia sobre se alguém abdicaria... da mesma forma que tenho o maior cuidado em aplicar categorias e critérios do século XIV nos dias hoje e vice-versa, também não gosto de seguir raciocínios que levem a considerar que os homens de hoje são piores que os de há 7 séculos, porque não abdicam "de todo o seu poder e todas as suas economias", como fez Nuno Álvares. Acho que são comparações escorregadias. Mas posso brincar. Nuno Álvares repartiu os seus bens, apenas isso. Um homem do nosso tempo pegaria nos seus bens, criaria riqueza e empregos fomentando a justiça social e a educação, a igualdade e os direitos humanos, o diálogo entre culturas e o ambiente e que, aproximando-se a hora da morte, criaria uma fundação com objectivos bem definidos e funcionamento rigoroso e deixaria o seu legado para bem de toda a Humanidade. A diferença entre a divisão e a multiplicação, no fundo. Não sei se deveria ser promovido a santo e autorizado o seu culto público aos fiéis. Mas um grande homem e um excelente exemplo seria, e isso, desculpar-me-á, é o que verdadeiramente me interessa.


De O falso Rei das Pampas a 23 de Abril de 2009 às 14:46
A canonização de D. Nuno Alvarez (http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1205010) vai ser uma festa de arromba.
O meu homólogo, o de Portugal, vai montado num belo cavalo verde que lhe foi mais ou menos emprestado pelo D. José, que apanhado distraído lá terá que ficar sentado por uns tempos na peanha do monumento do Terreiro do Paço, de onde o descendente do Usurpador lho usurpou e onde também gostaria de estar. O cavalo anda a ser treinado para se ajoelhar (http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/o-santo-contestavel.html) quando vir a Nossa Senhora de Fátima, pelo que se espera que se ajoelhe ao ver o Papa com uma saia branca até aos pés.
Cavaco, o Presidente dos portugueses que vão à missa ao domingo, para não destoar, vai vestido de rainha (http://wehavekaosinthegarden.blogspot.com/2007/05/rainha-vai-trabalhar.html) e há um gajo qualquer do estado-maior que vai num submarino do Portas fardado com uma armadura medieval que já mandou limpar e olear.
D. Alvarez Pereira coitado apesar de ser o festejado não poderá estar presente, dada a sua situação de defunto, mas também não faz falta nenhuma porque os salamaleques são todos entre os organizadores e os seus ilustres convidados.
Está tudo muito bem organizado e vai ser muito bonito e luzido.


De António Parente a 23 de Abril de 2009 às 14:50
Paulo Pinto

Discordo de algumas coisas que escreveu e concordo com outras.

Todavia, o tom geral do seu texto é muito equilibrado e resolvi subscrever inteiramente o comentário da cristã (suspiro): "muito bom".

Penso que nos anais da blogosfera portuguesa este seu texto deve ser apontado como um exemplo de uma crítica brilhante e equilibrada, uma referência para os candidatos a bloguers, sem fanatismos e extremismos.

Muitos parabéns.


De cristã a 23 de Abril de 2009 às 21:16
olá antónio ;-)


De António Parente a 23 de Abril de 2009 às 22:58
Olá cristã ;-)


De Francisco Gonçalves a 23 de Abril de 2009 às 15:32
A ser verdade que Guilherme Pereira é descendente de Nuno Álvares Pereira, só posso concluir que até os santos têm a sua parte negra – embora julgue que não é motivo para lhe negar a canonização! -.

Em Portugal, é cada vez mais evidente que a impossibilidade de podermos escolher a nossa família pode tornar-se uma desgraça pessoal! Ah, se pudéssemos escolher os nossos tios, os nossos primos, os nossos descendentes, etc., etc..

Mas, até isso, eu perdoo a Nuno Álvares e, patrioticamente, aplaudo a sua canonização e presto-lhe a minha sentida homenagem pela temeridade demonstrada, face aos castelhanos e que tanto contrasta com a cobardia daqueles que, a troco de um qualquer princípio filosófico da treta, não foram capazes de assumir o seu dever quando o país necessitou.


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 15:56
Caro Francisco Gonçalves:

Suponho que poderia ter sido menos ofensivo no seu comentário...enfim, todos nós temos dias.
Para perceber que também sei assobiar para o lado, transcrevo esta sua frase e comento-a.

A sua frase:

"A ser verdade que Guilherme Pereira é descendente de Nuno Álvares Pereira, só posso concluir que até os santos têm a sua parte negra" ( fim de transcrição)

Comentário

Tem toda a razão. Sou a parte negra. Nascido em Moçambique, Lourenço Marques, hoje Maputo, e embora de raça branca, confesso que sou uma espécie de VERDES - eles são verdes por fora e vermelhos por dentro, eu sou branco por fora e preto por dentro.

Ninguém me faz trocar um fado pelos sons dos meus inesquecíveis marimbeiros de Zavala, que aliás visito frequentemente, na hoje felizmente libertada ex-colónia portuguesa.
Libertada pela luta da Frelimo e dos heróicos capitães de Abril, cuja madrugada gloriosa se comemora ámanhã.
EU COMEMORO.


De Z a 23 de Abril de 2009 às 16:09
Paulo Pinto,

embora discorde de algumas coisas que disse gostei do seu post. Penso que a sua posição é que verdadeiramente laica.

Quanto ao descendente do Santo Condestável, peço desculpa de ser desagradável mas é algo que não é dificil. A casa de bragança produziu uma tal quantidade de crianças (legitimas e bastardas) que boa parte do país descende deste grande Santo (como aliás boa parte da realeza europeia e o presidente Bus)


De M.T. a 23 de Abril de 2009 às 16:13
Substitua serviços à pátria por serviços à comunidade ou ao próximo, que é tudo a mesma coisa e compreenderá melhor a santificação
Quanto ao «laicismo» do regime: pode conceber-se que o presidente da república não fosse. O problema é que os chefes de estado dos países do primeiro mundo - a que nós gostamos de dizer que pertencemos (presidentes das repúblicas incluídos) -não faltam a tais actos e aproveitam o que podem para promover inteligentemente os valores dos seus países (desde logo com uma cerimónia vista por centenas de milhões de pessoas ). Ficar o presidente da república em palácio, a ler a bíblia do jacobinismo bafiento, muito cultivado nas boticas de aldeia do séc XIX é que não contribui em nada para o bem do país.


De m&m a 23 de Abril de 2009 às 16:14
tenho para mim que o Guilherme Pereira não existe. É um script informático criado pelo jugular para dar um toque surreal à chafarica.


De Guilherme Pereira a 23 de Abril de 2009 às 17:55
Tem razão - eu não existo.
Alguém dará baixa do gajo que por aí se desfruta com o BI 1108511.
O gajo que não existe, porém, tem um especial fascínio por algum surrealismo.
Deduzo que a Fernanda ou o Paulo Pinto terão contratado o aludido ovni ( ou et?) para prestar o servicinho a que alude.
Confesse lá: não se tem saído bem nesse papel o gajo que não existe?
O gajo que existe acha que o gajo que não existe se está a safar bem na coisa.
Opiniães - plural assim mesmo, em ÃES.


De m&m a 23 de Abril de 2009 às 18:59
Se diz que existe (e faz questão de apresentar prova de vida e tudo) eu acredito.
Não se zangue.


De Inês Meneses a 24 de Abril de 2009 às 13:27
you're so kind


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