Sem tempo para a análise demorada que o tema exige, apetece-me responder a um post do Paulo Tunhas, onde ele escreve que só Rui Ramos se deu ao trabalho de fazer uma 'reflexão serena' sobre os dois mandatos de Bush. Eu acho que serenidade é algo difícil de compatibilizar com qualquer análise séria sobre aquilo que foram os últimos oito anos da política americana. Mas isso devo ser eu que sou um tipo exaltado e que não possuo a fleuma anglo-saxónica do Professor Rui Ramos. Esperem. Pelos vistos não sou só eu que me exalto; os americanos também parecem sofrer do mesmo mal. Será que o Paulo acha que uma popularidade mais baixa do que a de Nixon revela falta de serenidade do povo Americano? Será que a debandada geral de gente respeitável (e conservadora) das hostes do partido republicano revela falta de serenidade? Será que...bem 'será que' tanta coisa que nem sei bem por onde começar.
Vejo que o Paulo gosta de serenidade. Mas a revolta ou o repúdio não são sentimentos pouco nobres ou injustificados quando estamos a lidar com uma administração que foi um absoluto desastre para os EUA e para o Mundo. Nas suas observações, o Paulo, habilidosamente, ignora a decisão desatrosa de invadir o Iraque — que pode ser muita coisa, mas não se enquadra seguramente em qualquer ideia sensata de Guerra ao Terror. Tudo o que aconteceu e que vier a acontecer deve ser 'serenamente' interpretado à luz desse erro original. Depois também ignora a própria forma como a guerra ao terror foi conduzida, com uma securitização da política americana que atingiu níveis de secretismo nunca antes vistos e que levou a um reforço do poder executivo (quase ditatorial) que agia impunemente sem qualquer supervisão judicial, violando os equilibrios de poderes que deviam caracterizar (e supostamente caracterizavam) a república americana. O Paulo também não fala da violação sistemática dos direitos humanos, nem de todos aqueles que estiveram (e estão) em Guantanamo e noutros locais espalhados pelo mundo; já para não falar da tortura feita pelos próprios ou em regime de outsourcing, mascarada por uma novilíngua ao melhor estilo Orwelliano. Tudo isto alienou grande parte do mundo, incluindo alguns dos seus aliados tradicionais, e contribuiu para desacreditar a nação americana com resultados imprevisiveis. Perante tudo isto o Paulo não se revolta. Não, ele prefere elogiar a 'serenidade' (cegueira? indiferença?) do Professor Rui Ramos.
Depois temos questões internas, como o aumento brutal da dívida pública; os cortes de impostos, que não tiveram qualquer efeito económico positivo e aumentaram de forma obscena a desigualdade de rendimentos. Temos também a postura anti-científica e anti-intelectual, que pode agradar às bases alarves do GOP e ser uma táctica política proveitosa, mas não é propriamente uma estratégia de desenvolvimento a longo prazo. Temos a total desvalorização das questões ambientais. E assistimos também, ao contrário do que sugere o Paulo, a uma sacralização da capacidade de auto-regulação dos mercados e a uma total desvalorização da necessidade de regulação, que pode não ser a causa única da crise actual mas que, na sua passividade e cegueira ideológica, nada fez para que ela não acontecesse.
Nada disto é sereno porque a realidade não permite serenidades. O Professor Rui Ramos pode fazer as análises que lhe apetecer e o Paulo Tunhas pode elogiar-lhe a serenidade analítica. Mas enquanto ambos não reconhecerem o óbvio — que a administração Bush foi um absoluto desastre para os EUA e para o Mundo—, as suas 'análises' estão a falar de um mundo e de uma administração cuja realidade só eles reconhecem. Por isso, a serenidade analítica do Professor Rui Ramos não é objectiva; ela limita-se a (pré) reflectir o seu próprio juízo substantivo sobre a administração Bush. E aquilo que o Paulo Tunhas aplaude não é o rígor analítico mas apenas o facto do Prof. Rui Ramos concordar com o seguinte juízo: apesar de todo o sobressalto que para aí anda (leia-se, da Esquerda), as coisas não foram assim tão más. Ora, isto vai muito além da 'serenidade'.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
