Sábado, 9 de Maio de 2009

O post que a João refere horrorizou-me tanto quanto a ela. Enquanto escrevo as minhas lucubrações sobre o tema, recordei um post que escrevi em tempos no De Rerum Natura e que recupero para se perceber melhor o que quero dizer no próximo.

 

Os dois irmãos Humboldt, Alexander e Wilhelm, foram figuras que marcaram indelevelmente a história do que hoje é a Alemanha. Testemunhas do colapso das monarquias absolutas na sequência da Revolução Francesa, ambos ajudaram à construção de uma nova Europa, Alexander destacando-se pelo seu trabalho nas ciências naturais e o seu irmão nas ciências sociais e na educação.

Aristocratas educados no espírito de Rousseau e da escola filantrópica, integraram o circulo de Weimar na companhia de figuras como Schiller ou Goethe. Schiller, o grande poeta da liberdade, teve um impacto profundo em Wilhem, que passou pelo menos dois anos em contacto estreito com o poeta. Em meados de 1794, Wilhem von Humboldt mudou-se com a família para Jena para ficar perto de Schiller, que detinha uma cátedra de história na universidade local.
 

Outro pensador que teve enorme influência em Wilhem foi Gottfried Wilhelm Leibniz. A visão do mundo e a ética de Leibniz permearam o pensamento e a acção de Humboldt, nomeadamente o conceito de que a procura da verdade é o verdadeiro sentido da vida e de que a perfeição individual o nosso objectivo de vida. Este seria o seu fio condutor para a política de educação que implementou, o Allgemeine Bildung, ou o desenvolvimento intelectual do indíviduo que considerava ser o objectivo do ensino.

É interessante observar que a posição do filósofo Humboldt não é muito distante da posição do professor de ciências computacionais da CMU, cuja última aula referi ontem. Ambos consideram que a realização e desenvolvimento pessoais devem ser a prioridade da educação e que a forma como aceitamos as boas e especialmente as más coisas que nos acontecem determinam a forma como vivemos. Humboldt declarou que «Estou cada vez mais convencido que a nossa felicidade ou infelicidade depende mais da forma como encaramos os acasos da vida do que da natureza desses eventos».

Mas seria a revolução francesa, a que assistiu de perto, que alteraria a forma como Humboldt via o mundo e, especialmente, o papel que adscrevia à educação.

Numa carta à sua esposa Karoline, expressa a sua convicção de que «todo o dinamismo, toda a vida, todo o vigor e frescura de uma nação (...) residem apenas no povo». A experiência de Humboldt com a Revolução Francesa e o que bebera no círculo de Weimar amadureceram não só nas ideias revolucionárias que implementou, enquanto ministro da educação da Prússia, como no que pensava deveria ser o papel do Estado, abordado noutra carta agora a um amigo, em 1791, a que chamou «Ideas on the Organization of the State Brought about by the New French Constitution». Nessa carta, Humboldt escreveu «a nobreza juntou forças com o Regente para reprimir o povo, este foi o princípio do fim da nobreza» e «A humanidade sofreu devido a um extremo e foi obrigada a procurar salvação no outro extremo».

Humboldt duvidava que a nova constituição francesa fosse duradoura mas acreditava que lançaria «uma nova luz nas ideias, ajudaria a desenvolver todas as virtudes activas e assim espalharia as suas bênçoes para além das fronteiras de França».

Essa luz nova iluminou as suas ideias sobre o papel do Estado, trabalhadas numa publicação a que chamou «Ideas for an endeavour to define the limits of state action», que completou em 1792 mas que apenas foi publicada muito depois da sua morte. Essas ideias levaram Friedrich Hayek a classificar Wilhelm von Humboldt como «o maior filósofo da liberdade», e Lord Acton indicá-lo como «a figura mais importante da Alemanha».A parte do livro que tratava da educação foi publicada em Dezembro de 1792 no Berlinische Monatsschrift como «On public state education».

Humboldt aborda a relação entre a liberdade e o desenvolvimento da personalidade individual e sugere instrumentos para limitar o paternalismo do Estado no desenvolvimento individual do cidadão. O livro «Os limites da acção do Estado» teve uma influência decisiva em Herbert Spencer e em John Stuart Mill, autor de outro ensaio clássico, “Da liberdade”, cuja importância o Desidério já referiu várias vezes. Aliás, para muitos analistas, a enfatização de valores assentes na liberdade e na responsabilidade individual por Humboldt é ainda mais clara e directa que a de Mill.

A cidadania constitui assim o tema central na sua filosofia política. A crítica de Humboldt à acção dos Estados assenta exactamente no facto de considerar que estes impedem o pleno desenvolvimento dos indivíduos, fornecendo-lhes regras «mastigadas» que os cidadãos devem engolir sem pensar muito. O único aspecto onde a acção do Estado se faz necessária, segundo Humboldt, é na garantia das seguranças individuais, não cabendo ao Estado a preocupação com a felicidade e o bem-estar da nação, pois isso poderia resultar nas piores formas de tirania.

Humboldt reformou o sistema escolar prussiano assente nessa filosofia humanista, isto é, estava determinado em formar cidadãos capazes de pensar por si próprios considerando que mesmo «O mais comum trabalhador deve ter a mesma Fundament [educação básica] que a pessoa mais educada». Isto é, considerava que não se deve educar o indivíduo para exercer um ofício ou profissão, mas sim estimular o pensamento independente. A cidadania plena só seria atingida para Humboldt quando (todas) as pessoas tivessem acesso à melhor educação possível - aquela que para o visionário humanista todos tinham direito.

Humboldt, que estava de facto preocupado com o sistema educativo prussiano e não tinha problemas maniqueístas com as torres alheias, disse sobre a reforma escolar que empreendeu:

«Nós devemos construir [o sistema educativo] assente nas fundações que nos foram legadas pelos maiores mercantilistas e políticos dos séculos XVII e XVIII. Mas não bastará imitar simplesmente esses predecessores. Nós devemos alimentar-nos da sua vitalidade de espírito, da sua visão corajosa e de longo prazo e das suas lições de feitos particulares. No entanto, devemos ir mais além, tal como eles se excederiam em relação ao que fizeram no passado se fossem vivos».
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