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jugular

Pensemos mais do que três segundos sobre esta questão

Ao contrário do que escreve o Tiago, não bastam dois segundos para pensar nas implicações da lotaria genética sobre o políticas redistributivas; é preciso três. Um dos problemas (há vários) dos argumentos baseados na genética é o de impedirem qualquer tipo de juízos de mérito ou demérito, e, por isso, se nos mantivermos dentro deste tipo de raciocínio, o Tiago não pode utilizar o seguinte exemplo:

 

"Imaginemos que a teoria está provada e que tudo funciona realmente como um jogo de sorte e azar. Por sorte, o Camilo nasceu esperto. Por azar, o António nasceu pouco esperto. Como tal, o Camilo safa-se e o António não. É mau, é triste, bem sei. Mas será que o Camilo pode ser responsabilizado e penalizado apenas porque o António não teve a mesma sorte que ele? A culpa é do Camilo? Não. Se a culpa não é do Camilo, qual é o direito do António de exigir que se roube o que o Camilo ganhou e se lhe dê?. Este raciocínio levado, ainda mais, ao absurdo iria permitir que a todas as pessoas do mundo ocidental fosse retirada toda a riqueza, pois tudo foi sorte por nascermos onde nascemos enquanto outros que nasceram em África ou na Ásia não tiveram sorte igual."

 

O problema é que, se é tudo lotaria, natureza e genética, então os termos "direito", "responsabilizado" e "culpa" perdem significado e não têm qualquer tipo de aplicabilidade. Ou seja, a discussão do Tiago não faz sentido, pois a genética, entre outras coisas, não nos permite dizer que X tenha o direito ao que quer que seja. Posto isto, o que está aqui em causa não é a questão da justificação ou injustificação da redistribuição a partir de "verdades" genéticas. O mais relevante é que juízos desta natureza — contra ou a favor da redistribuição — têm uma dimensão ética que transcende a genética.

 

Por outro lado, é o Tiago, e não o Miguel Madeira, quem comete uma falácia. O argumento do Miguel pode ter implicações pouco desejáveis, mas não é falacioso. Já a redução ao absurdo do Tiago, esta só funciona pressupondo a existência de um único valor — mérito ou solidaridade. Mas dizer que a solidaridade social é um valor político fundamental não significa que o mérito seja irrelevante (e vice versa) — daí a falácia. Significa apenas que existem valores plurais (e eventualmente contraditórios). A inevitável tensão entre esses dois valores é permanente e irredutível, o que implica a rejeição dos extremos absolutistas de alguns liberais e de alguns comunistas. No fundo, a democracia (liberal) é isso mesmo: um esforço permanente de equilibrar essas (e outras) dimensões da existência humana, sem nunca encontrar qualquer tipo de ideal ou solução definitiva.

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