Como se já não bastasse um primeiro-ministro acossado, procuradores da República sob suspeita, um provedor da Justiça incapaz de ser eleito e um ex-conselheiro de Estado amnésico, só nos faltava agora um Presidente da República a fazer negócios altamente vantajosos com a empresa responsável por um dos maiores buracos financeiros na história de Portugal. Não admira que o Parlamento se entusiasme tanto com a santificação de um português do século XIV. É que hoje olhamos à nossa volta, procuramos uma referência moral onde encontrar algum conforto, e a sala está assustadoramente vazia.
Cavaco Silva meteu-se numa triste embrulhada. O triângulo composto por Dias Loureiro, o comunicado de Novembro negando qualquer ligação ao BPN e a manchete do último Expresso, que garantia que o Presidente da República ganhou 150 mil euros no espaço de dois anos através da venda de acções da Sociedade Lusa de Negócios (detentora do BPN), é péssimo para a sua imagem. Ponto por ponto:
1) Cavaco deu protecção política a Dias Loureiro muito para lá do que era admissível. Independentemente de tudo o que ele possa ter feito no BPN, desde que o caso surgiu o ex-ministro foi apanhado em contradições inexplicáveis e mostrou um total desrespeito pela Comissão Parlamentar na primeira vez que foi ouvido. O papel de Dias Loureiro agravou-se de dia para dia com Cavaco a ver, e até na hora da saída do Conselho de Estado o Presidente deixou palavras em sua defesa. Porquê?
2) O comunicado de Novembro onde Cavaco sublinhava nunca ter tido nada a ver com o BPN é agora uma batata quente nas suas mãos. É certo que, tecnicamente, a SLN não é o BPN, mas isso é um preciosismo que só aumenta as suspeições. Cavaco omitiu o que não devia ter omitido, refugiando-se num detalhe que é verdadeiro na letra mas falso se olharmos para o espírito do que estava em causa. O que fica é a sensação de o Presidente ter feito tudo para esconder a existência das acções da SLN. Porquê?
De Catarina Miranda a 2 de Junho de 2009 às 16:20
Credo, está com tiques de Palmira, João?
Ca susto que apanhei com isto agora.
De Jorge a 2 de Junho de 2009 às 16:39
E pronto...Já não bastava o senhor professor de Coimbra esquecer a presunção de inocência , ao vir falar da roubalheira do BPN e da sua ligação ao PSD. ...Do ridículo de quererem que a MFL comente uma situação que não tem nada a ver com ela... E agora: PIMBA!!!, apanharam o cidadão Aníbal a ganhar dinheiro com a SLN , e alegam falta de ética !!!...Aonde chega o desespero dos socialistas e a sua falta de vergonha e coerência Podemos falar numa Campanha Rosa? (não fica tão bem como a negra, mas é tão descarada e vergonhosa como a outra ). Decerto não ouviremos o PR ou alguém do PSD a vir com esse argumento mas era mais que justo.
Pois eu acho que tinha dado jeito era saber-se deste escândalo antes de Janeiro de 2006!
Mas antes tarde que nunca...
De fernando antolin a 2 de Junho de 2009 às 17:15
Isto veio tão a jeito agora, a ver se o resto passa despercebido...
De sic transit a 2 de Junho de 2009 às 17:16
Quando o João Miguel Tavares criticou as trapalhadas do Sócrates, era um imbecil. Agora tem honras de citação integral.
Sic transit,
o facto de joao miguel tavares ter escrito um artigo inqualificável, não significa que todos o sejam, não acha? este artigo levanta questões pertinentes. é tudo.
De Nuno Gaspar a 2 de Junho de 2009 às 17:37
Este artigo é ainda mais inqualificável. O que dava jeito era que escrever patetices deste género não se tivessem tornado um modo de ganhar a vida prestigiado.
De Sic transit a 2 de Junho de 2009 às 18:37
Pois, já tinha percebido: os artigos "inqualificáveis" são os que analisam o percurso do Sócrates. Mas passam a pôr "questões pertinentes" se fizerem o mesmo ao Presidente da República. Estamos conversados.
sic transit,
desculpe lá, mas o artigo sobre sócrates não analisava nada; limitava-se a assumir como facto provado que sócrates é corrupto. este artigo sobre cavaco é ligeiramente diferente — pergunta; não acusa. e já agora, o que pensa das perguntas de joao miguel tavares?
De sic transit a 2 de Junho de 2009 às 18:55
Está enganado, João Galamba. O articulista não assumia a culpa de Sócrates. Apenas que a acumulação de trapalhadas lhe cheirava a esturro. E isso, para quem não acredita em campanhas negras nem imagina o que andarão os primos do senhor primeiro-ministro a fazer nos ministérios, é capaz de fazer todo o sentido.
Já agora recomendo-lhe o artigo de Paulo Moraes, que também levanta "questões pertinentes", embora não sejam pertinentes necessariamente para si:
http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=Paulo%20Morais
De Francisco Gonçalves a 2 de Junho de 2009 às 22:43
"(...) A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral (...)."
Excerto do referido texto de João Miguel Tavares -
Acha, então, senhor Galamba, que o texto se limitava a assumir como facto provado que Sócrates é corrupto?
Se eu fosse político, dir-lhe-ia para não ser intelctualmente desonesto , mas como não passo de um rapaz simples criado no campo limito-me a dizer-lhe para não ser burro.
De artur mendes a 2 de Junho de 2009 às 22:33
Só um pulha sobscreve este artigo.
Só um canalha lhe dá mais visibilidade.
Tenham vergonha!!!
para principio de conversa, está tudo doido neste país. que cambada de moralistas me saíram estes miguéis tavares que por aqui abundam, saídos de baixo de uma qualquer pedra e de dedo em riste a acusarem deus e o diabo. livra! pegam no primeiro-ministro e sem a ponta de um cabelo de prova para aquilo que acusam, e com base no disse-disse, desatam a fazer gato-sapato com pilhéria difamatória. agora, não lhes chegando, pegam num negócio perfeitamente normal de um cidadão que nem sequer cargo público tinha, e trocam-no por miudezas pérfidas. meus amigos, de tanto se confundir a frigideira com a refeição preparada nela, estão a criar o caldo de cultura necessário para o aparecimento de um qualquer berlusconi , versão marxista.
De fernando f a 2 de Junho de 2009 às 18:54
É verdade só faltava mais esta, o impoluto Cavaco a investiiiir a quase 140 % ao ano. É chato mas é a vida como gostava de dizer, também um ex-PM . A ligação PSD BPN é "vital" como o destino.
De Anónimo a 2 de Junho de 2009 às 18:59
A questão é importante politicamente mas há perguntas que não foram colocadas: A quem comprou Cavaco as acções? À SLN? À SLN Valor? A quem vendeu, sabemos: à SLN Valor. Que papel coube à SLN Valor? Mero intermediário? Qual o saldo das operações de compra e venda realizadas pela SLN Valor? Em quantas transacções de acções da SLN participava a SLN Valor? Qual o património da SLN Valor e como eram financiadas estas operações?
Tudo isto cheira mal. O envolvimento ainda que involuntário de Cavaco é importante apenas pelas implicações políticas. Porque esta operação pode ser apenas um exemplo do que era uma prática habitual - e explicar pelo menos em parte de que forma o dinheiro se esvaía do BPN.
Estou plenamente convicto de que Cavaco não tem nada a ver com estas tropelias. Admito até que quem comandava as tropelias visse neste envolvimento de pessoas de prestígio uma forma de legitimar práticas pouco recomendáveis. No entanto, se isto se passou assim, Cavaco foi no mínimo ingénuo, o que se compreende ainda menos tendo em atenção a sua formação de base...
A história, aparentemente, resume-se a factos, já conhecidos da opinião pública.
O que verdadeiramente surpreende é que estes factos tenham passado como cão por vinha vindimada entre os costumeiros profissionais da comentarite galopante que prolifera na pátria, excepção feita ao comentarista, do “Diário de Notícias” referido neste texto.
Ora os factos são estes. Cavaco Silva foi accionista da Sociedade Lusa de Negócios (SLN) detentora do Banco Português de Negócios (BPN) entre 2001 e 2003, altura que ainda não era Presidente da República. Ao sair teve um ganho de 147,5 mil euros. A sua filha Patrícia também teve acções da SLN e lucrou ainda mais ao sair: 209,4 mil euros.
São já públicas as cópias das ordens de venda emitidas por Cavaco Silva e pela filha Patricia, endereçadas ao então presidente do conselho de administração da SLN, José Oliveira e Costa, o actual bombo da festa da roubalheira que se vai desvendando no que, com efeito, foi sempre o banco do PSD, onde se aconchegaram ministros, secretários de Estado e altos quadros deste partido.
Cavaco detinha 105378 acções, adquiridas a um euro cada, que foram depois vendidas a 2,4 euros. Os contornos do negócio esclarecem: ter lucros de 140% no espaço de 2 anos, através da venda de acções de uma empresa, não cotada em bolsa, é daquelas golpadas que são indignas de um cidadão que depois se alçou a Presidente da República.
A filha do dito cujo era detentora de 149.640 acções.
As acções de Cavaco e da filha foram vendidas, por ordem do presidente da administração, à SLN Valor, principal accionista da SLN, que agregara os maiores investidores individuais da empresa, entre eles Oliveira e Costa.
Mais grave que este estendal de pouca vergonha é que a Presidência da República, incomodada com rumores que já circulavam nos corredores do Poder e chegaram a Belém oriundos de vários jornalistas, emitiu, em Novembro de 2008, um comunicado no qual se afirma que Cavaco “nunca exerceu qualquer tipo de função no BPN ou em qualquer das suas empresas; nunca recebeu qualquer remuneração do BPN ou de qualquer das suas empresas; nunca comprou ou vendeu nada ao BPN ou a qualquer das suas empresas”.
Sendo, os investimentos pessoais ou da família do Presidente, do seu foro privado, o que não pertence a esse mesmo foro é a sua declaração, já enquanto Presidente da República, de que, insisto e transcrevo, “nunca comprou ou vendeu nada ao BPN ou qualquer das suas empresas”, o que se revela como uma foleira e miserável mentira.
Nos EUA, ou na UE, um facto destes seria evidentemente objecto de escândalo e motivo, no mínimo, de uma acção política que conduzisse ao esclarecimento cabal da situação e, mesmo, à sua demissão.
Bill Clinton, quando foi líder dos EUA, esteve à beira de ser afastado por causa do famigerado caso Mónica Lewinsky, durante o qual se provou que mentiu aos americanos.
Em Portugal, tudo como dantes quartel general em Abrantes.
Se não podemos confiar já, sequer, na palavra e nos procedimentos e tentativa de encobrimento do mais alto magistrado da Nação, estamos conversados.
É uma vergonha termos um Presidente mentiroso e com este descaramento, fazendo-nos a todos de parvos.
Eu ainda não sou e perdi-lhe o respeito.
Espero, finalmente, que o esclarecimento judicial das vigarices em cascata do BPN não se confinem a aquietar consciências levando ao pelourinho o bode expiatório agora preso Oliveira e Costa.
Na audição parlamentar a que assisti, ficou claro como àgua que o ex-patrão do BPN tem muito que contar e não permitirá que as suas golpadas fiquem a si exclusivamente confinadas, a maioria das quais, aliás, foram assinadas por outros accionistas igualmente altos dirigentes do PSD, por unanimidade e até aclamação, para não falar naquelas que foram conduzidas a solo pelo também barão laranja Dias Loureiro.
Sou capaz de perceber e até desculpar um carteirista ou pilha galinhas de meia tijela, mas jamais a estes cavalheiros engravatados por conta dos quais está agora o erário público, com os meus impostos, a financiar a ladroagem, por conta de uma nacionalização que o Governo Sócrates teve que decidir para evitar o descalabro do sistema financeiro.
De Anónimo a 2 de Junho de 2009 às 21:38
Invejoso!
De artur mendes a 2 de Junho de 2009 às 22:42
Seu canalha de meia tijela... conte os filhos da puta do PS que ao longo dos anos têm roubado ... e falcatruado o Estado... Lembra-se do caso de Macau?
Isto é uma cortina de fumo para esconder as escandalheira do Freeport e da Cova da Beira
PULHA..
De Francisco Gonçalves a 2 de Junho de 2009 às 22:52
José Oliveira e Costa tornou-se, num ápice, o dono absoluto da verdade. A prova provada de tal conclusão é o momento solene em que ele afirma que não causou, nem sequer, um cêntimo de prejuízo ao BPN.
Se me chamasse mentiroso como tem a ousadia de chamar ao Presidente da República, pode ter a certeza que teria de explicar, bem explicadinho, "no mocho".
De artur mendes a 3 de Junho de 2009 às 08:51
Canalha de meia tigela...
Vai ao Tribunal Constitucional e consulta a relaçao de bens dos politicos... especula sobre os milhões e milhoes de euros referenciados em acões e bens imoveis!
O jornalista quando quer aaassina!
Tu es um deles em potencia maxima!
De DSC a 3 de Junho de 2009 às 09:03
Sr guilherme pereira, permita-me dar uma valente gargalhada. É que não faço mais nada desde o suposto curso de inginheiro do seu amado líder, covas da beira, freeport, relatórios pseudo-OCDE, magalhães e empresa sá couto.
E já agora, explique-me lá o que é o BPN para comprometer o sistema bancário nacional?
Como todos sabemos, de falcatruas percebe o senhor. E como!
De Francisco Gonçalves a 3 de Junho de 2009 às 18:03
Os meuis impostos, senhor Guilherme e o tal erário público que refere andam-lhe a pagar, isso sim, a si, sua coisinha insignificante, uma reforma que, de todo, não merece.
Deixe-se de armar em jornalista de sarjeta e respeite uma Instituição, cujo representante máximo é dos políticos mais honestos que a Democracia portuguesa conhece
Não votei, nem votarei, em Cavaco Silva. No entanto, esta campanha ancorada no populismo serôdio do «São todos uns bandidos, pá!» repugna-me.
Para começar, e antes de responder às três questões do João Miguel Tavares, gostava que ele me – nos – explicasse o que é um buraco financeiro. É daquelas expressões que entraram no léxico informativo e mediático mas que, na essência, não querem dizer nada. Tenho umas luzes de contabilidade e finanças (andei uns tempos numa coisa que há ali para o Quelhas), sei o que significa uma empresa ter prejuízo, estar tecnicamente falida ou insolvente. Mas nunca me ensinaram o que é um buraco financeiro. Gostava também de saber se JMT sabe “interpretar” um balanço ou se alguma vez leu um relatório e contas. Seria deveras agradável que consubstanciasse a afirmação “um dos maiores buracos financeiros na história de Portugal”, para lá da minha reserva à expressão inicial. Conhecerá assim tão profundamente a história do sistema bancário nacional? Tenho dúvidas. Para começar, gostaria de recordar o dinheiro que o Estado teve de injectar em todos os bancos nacionalizados no pós-25 de Abril ao longo de anos (a preços correntes, mete o BPN num chinelo), e, mais recentemente, a compra do BNU pela CGD .
Passando às 3 questões:
1 – Esta é simples: solidariedade institucional. Dias Loureiro ainda não foi acusado de nada e sai para se defender livremente e preservar a imagem do próprio Cavaco. (Isto não quer dizer que eu ache que não devesse ter saído há mais tempo.)
2 – Pode ser um preciosismo, mas não falta à verdade. Mesmo que fosse directamente accionista do BPN , continuo a não perceber o problema, pois não tinha uma participação qualificada nem participava nos órgãos sociais.
3 – Não sei como é que o tal ganho pode ficar mal ao Presidente da República: não praticou nenhuma ilegalidade, e à data nem sequer exercia o cargo. Era o que faltava um cidadão, só pelo facto de ser o mais alto magistrado da nação, não poder aplicar o seu dinheiro como lhe aprouver. E o espanto por se poderem negociar acções que não estão cotadas, revela bem o conhecimento que o articulista tem sobre a matéria.
Duas notinhas finais:
1 – Relativamente à especulação, esta não existe apenas quando se compra com o fito de vender mais tarde com lucro; existe também quando se deixa de comprar num dado momento para fazê-lo posteriormente a um preço inferior. Nesse sentido, duvido muito que haja alguém que nunca tenha especulado. (Por exemplo: quem nunca adiou uma compra há espera dos saldos ou adiou a compra de um automóvel à espera de uma qualquer campanha?)
2 – Há, apesar de tudo isto, uma questão que me parece mais grave e que extravasa este caso particular: a promiscuidade entre políticos e empresas, os cargos conseguidos (aparentemente) como pagamento por serviços prestados, o polvo de influências que leva um banco a estar sob a alçada de um partido ou de gente que passa de vulgar empregado bancário a administrador. Claro que muitas destas coisas apenas cheiram a esturro, odor que ainda não é sancionado do ponto de vista legal. Mas há um outro domínio em que tudo isto se insere: o da ética política. Mas essa, se pensarmos bem, parece preocupar pouco os nossos representantes, independentemente da sua colocação no hemiciclo. E, bem vistas as coisas, tão pouco o cidadão que vai, eleição após eleição, com o seu voto, legitimando este estado de coisas.
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