Sábado, 6 de Junho de 2009

Tão fácil como andar de bicicleta. A expressão é, parece, universal e parte de um princípio supostamente óbvio: andar de bicicleta é uma actividade tão tão fácil que serve de referência comparativa para actividades fáceis. Daqui se retira que alguém que não saiba andar de bicicleta se sinta irremediavelmente desqualificado e marginalizado. Está-se a rir, não é? Não acredita que haja alguém com duas pernas e dois braços e de um modo geral todas as funções locomotoras (e outras) que não saiba andar de bicicleta? Pois. Fique sabendo que há.
 

Devia aliás haver um clube para pessoas que não sabem andar de bicicleta. Procurei na net e não encontrei, pelo que é possível que escandalosamente não haja em parte alguma do mundo um colectivo de gente unida por esse assombroso handicap. Estou aliás em crer que quem não sabe andar de bicicleta – ou bicla, como a dizem os aficionados – passou à clandestinidade e só o confessará sob tortura. Em rigor, nunca encontrei alguém que o assumisse.

Além de mim, claro. Sim, estou a dizê-lo: nunca logrei aprender a andar de bicicleta. Tentei, se tentei. Comecei a tentar quando tinha uns sete ou oito anos e espalhei-me tantas vezes que desisti, para desconsolo do meu pai, que nunca acedeu aos meus pedidos de uma bicla daquelas com rodinhas laterais, como eu via aos outros meninos e que me parecia a solução para o meu caso – um caso de achar altamente improvável a ideia de alguém se aguentar em cima daquela coisa alta sem estabilidade nenhuma, apenas por uma deliberação de equilíbrio e o sortilégio da velocidade. Digamos que eu tinha uma objecção de princípio à irracionalidade da coisa – ou àquilo que assim me parecia. Diziam-me: “Não penses nisso”. Como, não pensar nisso? Mal me punham em cima da bicla eu só pensava em cair. E caía, claro. E quanto mais me explicavam que era a ideia – a obsessão, na verdade -- da queda que a tornava inevitável, mais eu obcecava.

À minha volta, toda a gente aprendeu com a maior das facilidades, para minha definitiva e cruel humilhação, e quanto mais aprendiam com facilidade mais me recusava a fazê-lo. Escusado dizer que nunca mais me apanharam em cima de uma coisa daquelas que não estivesse solidamente aparafusada ao chão – biclas de ginásio são minhas amigas – e que, embora me creia suficientemente crescida para lidar com esse medo, nunca me dispus a fazê-lo. Não saber andar de bicicleta tornou-se uma piada, uma espécie de símbolo da resistência à ditadura das coisas normais, das coisas que toda a gente faz e toda a gente é suposta fazer e cujo falhanço ou recusa faz de nós uma espécie de párias.

Há outros exemplos. Balões de pastilha elástica – também nunca consegui encher um para amostra --, assobiar em condições ou mergulhar de cabeça para uma piscina sem fazer um chapão lamentável. Mas estou em crer – que remédio, hã? – que falhar tão redondamente no que é banal implica aprender a duvidar do óbvio. E, de algum modo, a couraçar a individualidade. O que não nos mata torna-nos mais fortes, escreveu Nietzsche – o que não nos derrota faz-nos, mesmo quando perdemos, vencedores. Ao contrário do que pode parecer, não há mal nenhum em saber, e saber cedo, o que é ser diferente ou incapaz, nem em sentirmo-nos excluídos de uma irmandade de normais. Não há mal algum em saber cedo o que é ser posto a ridículo por não se ser capaz de fazer aquilo que para os outros é inquestionável. Não há mal algum em aprender a assumir idiossincrasias e a compreender as dos outros – e, desejavelmente, a mitigar a arrogância que nos poderia tomar perante quem não faz igual, não quer igual, não se sente igual. Não tem mal nenhum aprender cedo, e quanto mais cedo melhor, que aquilo que surge natural e evidente, tão evidente e fácil como andar de bicicleta, pode ser tudo menos isso, e que há gente para quem o ditado certo é exactamente o contrário.
(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 31 de maio)
 

 


62 comentários:
De james a 6 de Junho de 2009 às 15:03


Cada um pedala a sua bicicleta- é o karma . E não me parece que seja uma inabilidade.


De Mazinha a 6 de Junho de 2009 às 15:18
ohhhh.... a crueldade das criancinhas "olha ela a cair!"


Fernanda, tenha calma que isso tem remédio! em setembro do ano passado, cansada de usar a nova ciclovia que passa a 300 metros de minha casa apenas para passear com o cão, enchi-me de coragem, pedi ajuda à minha mãe (que tem 68 anos e continua a pedalar alegremente...) e zás! fiz aquilo que nunca consegui em criança: andar de bicicleta!
e mais: é estupidamente fácil!
ah.... tantos anos a ouvir "como assim, não sabes andar de bicicleta???"; "mas toda a gente sabe" ou a minha preferida "mas eras doente quando eras pequenina?"
Anos seguidos a ver os coleguinhas a brincar ao "Verão Azul" e eu feita parva a correr atrás deles!

Porra, fala-se tanto dos direitos das minorias e tal e nem uma palavrinha sobre a malta que não é capaz de andar de bicicleta, ou nadar crawl ou outra coisa assim básica!

Fernanda, pegue num bicla jeitosinha de alumínio, atire-se à estrada, peça conselhos a putos de 14 anos (a minha tem 18 velocidades, é preciso um curso de engenharia...) e... pedale... pedale... nem sabe a alegria que a espera!

Eu aprendi com 30 anos de atraso, mas aprendi :)


De f. a 6 de Junho de 2009 às 19:52
mazinha, uma das coisas boas de me ter lembrado de escrever isto foi de repente descobrir imensa gente que nunca aprendeu uma série de coisas normais. ou q as aprendeu 'fora do tempo'. é muito engraçado saber isso.


De Rosalinda, linda, linda a 6 de Junho de 2009 às 15:20
Ó pramim tão diferente dos normais, essa escomalha!

Até os meus handicaps são virtudes haja santa paciência para tamanho umbigo!

Pobre DN ao que chegou!


De Mazinha a 6 de Junho de 2009 às 15:34
Aposto que a Rosalinda aprendeu a andar de bicla em miúda... faz lá ideia do trauma que é não saber andar!


De Rosalinda, linda, linda a 6 de Junho de 2009 às 16:30
O que é saber andar de bicicleta tem a ver com o post?


De f. a 6 de Junho de 2009 às 19:54
escumalha, se não se importa.


De Francisco Gonçalves a 7 de Junho de 2009 às 16:59
Não há muito tempo, a Fernanda escreveu "fôfo", alguém a corrigiu e a Feranada fez questão de dizer que era "fôfo" porque lhe apetecia.

Se calhar, para a Rosalinda, linda, linda é "escomalha" porque lhe apetece.


De carla amaro a 8 de Junho de 2009 às 15:00
bem me parecia que essa não te iria escapar. a rosalinda,linda,linda aprendeu a andar de bicicleta, mas, como os normais, não aprendeu a escrever. eh,eh,eh


De José Luiz Sarmento a 6 de Junho de 2009 às 16:13
Inspirador, este post. Ora vamos lá fazer um pequeno inventário das coisas que aprendi e das que nunca aprendi:
Nunca aprendi a atirar um pião com um baraço e pô-lo a girar. Ao contrário da Fernanda, aprendi a andar de bicicleta; mas, tal como ela, nunca aprendi a fazer balões de pastilha elástica. Aprendi a nadar bruços, mas não crawl. Não aprendi a andar de patins.
Aprendi a assobiar bastante bem, e aprendi a flutuar na água do mar, quieto e de braços abertos, deixando-me simplesmente embalar.
Pensando bem, estas duas últimas capacidades compensam bem a falta de todas as outras.


De f. a 6 de Junho de 2009 às 19:57
josé luiz, essa do pião esqueceu-me. tb nunca aprendi. crawl idem. mas flutuar, sim. flutuar é essencial.


De S a 6 de Junho de 2009 às 20:59
Quem não sabe flutuar tem bom remédio... Vai para as águas do Mar Morto :)


De f. a 7 de Junho de 2009 às 00:10
q é uma coisa estranhíssima. a gente a querer não flutuar e nada.


De Inês Meneses a 7 de Junho de 2009 às 14:12
Também nunca consegui lançar piões ou assobiar com dois dedos, grumpf.


De António Vaz a 6 de Junho de 2009 às 16:24
eh pá! malta. desconfio que este post não é sobre bicicletas...
desculpem lá qualquer coisinha.


De Mazinha a 6 de Junho de 2009 às 16:36
a malta percebe, a sério... mas as biclas são sempre um bom tema, n negue


De Francisco Graça Moura a 6 de Junho de 2009 às 16:41
como a entendo... por acaso até comecei a andar de bicicleta bem cedo. Tinha uma rampa em casa, o meu irmão largava-me da parte mais alta e lá ia eu contra o portão. Não é, portanto, por isto que a entendo. É por não ter aprendido a nadar no tempo em que interessava. Só aprendi sob ameaça de "amonas" já com 12 anos. Lembro-me que não ia a festas quando havia uma piscina ou que, no Verão, na praia só brincava às caricas. Quando aprendi foi uma vitória, mas o facto de não ter aprendido "quando devia" foi uma boa lição de humildade e de respeito pelos que ainda hoje não conseguem ultrapassar as suas próprias dificuldades. Mesmo quando possam parecer dificuldades próprias de um "freak" também considero que podem ser grandes vitórias pessoais.
De qualquer maneira, incito-a a tentar porque o prazer de uma voltinha de "giga" (outra palavra possível) é muito grande, sobretudo no meio da natureza.
cumprimentos


De Rosalinda, linda, linda a 6 de Junho de 2009 às 16:53
Não seja ingénuo! o que é que o post tem a ver com bicicletas?

veja bem até onde o DN desceu!


De f. a 6 de Junho de 2009 às 20:00
rosalinda, que esperta. descobriu sozinha que este post é uma mensagem cifrada para os extraterrestres. parabéns. o chato agora é que vamos ter de eliminá-la. zuca, raio verde dissolvente. não se preocupe, não vai sentir nada.


De Rosalinda, linda, linda a 6 de Junho de 2009 às 22:18
Pode encontrar a minha opinião num comentário anterior.

É engraçado comentar os erros ou falas de ortografia dos outros quando Vexa escreve sempre com minúscula, mas isso deve ser estilo!


De f. a 7 de Junho de 2009 às 00:11
o quê, reparou que eu escrevo sempre com minúsculas?


De Rosalinda, linda, linda a 7 de Junho de 2009 às 01:35
Uau que humor tão refinado!


De f. a 7 de Junho de 2009 às 01:51
obrigada.


De Rosalinda, linda, linda a 7 de Junho de 2009 às 11:04
Não tem de quê. Tenho todo o gosto em dar momentos de felicidade aos pobres de espírito.


De f. a 7 de Junho de 2009 às 13:19
a rosalinda é uma pessoa espectacular. há mais alguma coisa que possa fazer por si?


De Rosalinda, linda, linda a 7 de Junho de 2009 às 18:28
Hum, ..., deixe ver ...

Assim de repente, acho que sim, espera lá ....

Afinal não, não estou a ver!


De carla amaro a 8 de Junho de 2009 às 15:04
Oh Rosalinda, não há pachorra para si.


De Inês Meneses a 7 de Junho de 2009 às 11:20
que nervos, linda


De Carlos Freitas a 6 de Junho de 2009 às 17:41
Pois há quem diga que até já viu porcos ...
Nós por aqui continuamos a andar de bicla, os que sabemos claro, mais às curvas mais a direito, mas só por enquanto, em breve vamos "desaprender" uns que estão ameaçados pela demolição das suas casas outros porque vão passar a ter uma ic à sua porta. Talvez a justificação disto tudo seja também alguém que não sabe ... e se meteu a fazer ...
Para saber mais não deixe de nos visitar em:
http://aquintadevaladares.blogspot.com/
Cordiais saudações


De jorge c. a 6 de Junho de 2009 às 18:14
Eu tinha um amigo que não sabia andar de bicicleta. Mas como tinha vergonha tinha uma bicicleta toda vistosa na garagem. Como só anda de bicicleta em casa e os muros de casa dele eram altos, quando ele aparecia só se via a cabeça. Era o pai que empurrava por baixo. Então ele fazia de conta que andava muito bem, todo hirto.
Não tinha mal nenhum não saber andar de bicicleta. Mas para ele acho que era importante e preferiu mentir. Teve sempre pouquíssimos amigos.


De f. a 7 de Junho de 2009 às 01:53
mas q raio de amigo esse que ainda por cima tinha o fofinhozinho entre os poucos amigos que tinha. o fofinhozinho agora relaciona-se melhor, não é?


De Inês Meneses a 7 de Junho de 2009 às 14:13
porque achas tu que o rapaz tinha poucos amigos? Estava queimado no bairro por causa das más companhias, claro.


De Luis Moreira a 6 de Junho de 2009 às 18:25
F. aquela frase só quer dizer que ninguem sabe andar de bike.Ou antes, não há técnicas.A bike anda para a frente, agora como é que aquilo não cai para os lados ninguem sabe. Atire-se a isso dá um prazer do caraças...


De N. a 6 de Junho de 2009 às 19:06
Eu ainda hoje, com 27 anos, não consigo aprender (apesar de muito boa gente me ter explicado as suas técnicas pessoais para a coisa funcionar) a piscar um (e apenas um) olho.

Com esta frase "Não tem mal nenhum aprender cedo, e quanto mais cedo melhor, que aquilo que surge natural e evidente, tão evidente e fácil como andar de bicicleta, pode ser tudo menos isso, e que há gente para quem o ditado certo é exactamente o contrário." é que não concordo em absoluto, especialmente se quisermos generalizar e retirá-la do contexto deste texto. Por exemplo, aprender desde muito cedo que há qualquer coisa em nós que é errada, tão mas tão errada que só muitos anos mais tarde (para alguns muitos, mas muitos anos mesmo - se mesmo nunca) conseguimos perceber que errados estão os outros, não é necessariamente bom. Perceber que aparentemente é tão natural e evidente para todos os outros miúdos sentirem-se atraídos e gostarem de raparigas, e que nós somos tão sujos, doentes e errados porque achamos que podemos ser aquela coisa feia e ridícula que às vezes ouvimos (até) os nossos pais referirem-se como "maricas" ou algo do género.

Isto como exemplo de que, de facto, a inadaptação a uma qualquer regra social (sempre construída mas que parece sempre tão natural e evidente de facto) pode mesmo ser uma oportunidade de crescimento, de questionamento das coisas, de construção da identidade, mas pode também, em casos "extremos", causar tanto sofrimento que todos esses processos em vez de potenciados ficam, pelo contrário, comprometidos.

Mas prontoS, foi só para embirrar um pouco com esta frase. É sempre um grande prazer ler o que escreve, f.. :-)


De f. a 6 de Junho de 2009 às 20:04
n., pensei nisso, no sofrimento, enquanto estava a escrever e hesitei porque acho que tem razão, há obviamente casos, como o que menciona ou outros, em q d facto a frase não se aplica. mas escrevi-a na mesma porq a experiência mitigada da exclusão -- como as q descrevo -- ajuda, creio (e espero), a aprender a não excluir.


De Inês Meneses a 7 de Junho de 2009 às 11:25
N. e f., se me é permitido dizer o óbvio, o sofrimento e a aprendizagem são movimentos muito ligados. O facto de ser um processo doloroso não impede que seja uma oportunidade de aprender coisas fundamentais. E não sei se se aprende alguma coisa realmente importante sem uma certa dose de dor envolvida.


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