Terça-feira, 9 de Junho de 2009

A abstenção eleitoral pode justificar da nossa parte, quando muito, um sentimento de comiseração, caso se diagnostique alguma espécie de deficiência cognitiva no paciente. Mas, descontadas situações especiais de força maior, o desprezo será a reacção mais apropriada.

Ora o descaramento dos abstencionistas atingiu nos últimos tempos tais proporções que alguns ousam apresentar-se publicamente como heróis da resistência contra a degradação da democracia. Justificam a sua atitude com o nojo pela política e pelos políticos, denunciam a falta de alternativas, exigem seriedade, recusam-se a pactuar com o sistema.

Balelas. Desculpas esfarrapadas. O cidadão responsável que não se revê nas propostas políticas existentes exprime-se votando em branco, não indo para a praia ou para o centro comercial.

O abstencionista é apenas um elemento anti-social, um oportunista que quer os benefícios da vida em sociedade e da democracia mas não estar disposto a mexer um dedo para dar a sua contribuição. O abstencionista não só cospe na cidadania como ainda por cima se orgulha disso.

Abster-se é tão mau como estacionar em segunda fila, como deitar cascas de laranja pela janela, como passar à frente na bicha do cinema, como meter cunhas na repartição, como violar a faixa bus, como desrespeitar o semáforo vermelho, como copiar nos exames, como urinar na piscina.

Terá o abstencionista razões para se chocar se alguém lhe chamar parasita?
 


51 comentários:
De Maria João Pires a 9 de Junho de 2009 às 16:34
a propos, espreita esta twitadela de domingo à tarde
http://twitter.com/bossito/status/2064990282


De João Pinto e Castro a 9 de Junho de 2009 às 16:54
Foi esse comentário do Bossito que me pôs a pensar.


De João Galamba a 9 de Junho de 2009 às 16:38
posso assinar por baixo?


De M. Abrantes a 9 de Junho de 2009 às 16:49
Temos então um país com 60% de parasitas. E não se pode extermina-los?


De João Pinto e Castro a 9 de Junho de 2009 às 17:34
É mais ou menos a proporção que estaciona em segunda fila. Antes de passarmos à fase do extermínio, proponho o bloqueio das rodas: é mais civilizado porque não suja o chão.


De André Gualter de Vasconcellos a 9 de Junho de 2009 às 17:26
Concordo integralmente e assino por baixo.

(www.ocharutoaceso.blogspot.com)


De Francisco Gonçalves a 9 de Junho de 2009 às 17:53
Ou seja, a diferença entre um parasita e um voto em branco é só uma singela ida a um centro comercial.

A propósito: qual é a diferença para a (falta de) saúde da democracia entre a abstenção e o voto em branco?

Os abstencionistas não tiveram a mesma influência na escolha dos deputados que a dos que votaram em branco?


De Marcelo do Souto Alves a 15 de Junho de 2009 às 14:58


Há uma grande diferença: é como faltar à reunião do Condomínio (e não passar procuração a nenhum outro condómino), ou ir e abster-se nas votações.


Em termos MORAIS, faz TODA a diferença!


De Anónimo a 9 de Junho de 2009 às 18:08
e se não fizer nenhuma das outras coisas más, já posso não votar? é que acertar sempre não é fácil e não tem piada nenhuma.

ou por outro lado, se atravessar a rua e não fizer uma cruz num pedaço de papel, já sou dos bons? dos teus? dos que pensam e agem? dos que sempre acertam e tudo fazem bem?

adoro-te joão, por toda a tua bondade e inteligência. espero vir a ser como tu. mas por favor, por tudo, mas sobretudo por nada, não me desprezes. não sei se conseguiria viver assim.


De João Pinto e Castro a 9 de Junho de 2009 às 20:31
Experimenta tapar-me a saída que vais ver.


De NS a 9 de Junho de 2009 às 18:12
Respondendo à pergunta: se for alguém que escreve um texto como o deste post, é bom que os abstencionistas não fiquem chocados. Se for alguém com um argumentário minimamente civilizado, talvez já seja de ficar chocado.

1. A contribuição para a sociedade e para a democracia não se exerce apenas nem se esgota no voto. O voto é apenas uma escolha entre alternativas.

2. Nada invalida que a abstenção tenha causas ou argumentos tão ou mais válidos que os que suportam votos em alguns partidos - também aí há ignorância, desinteresse, convicção, etc. Estas eleições demonstram precisamente isso.

3. O discurso da praia desta vez não pega - estava mau tempo e as praias vazias.

4. É sempre engraçado ver a arrogância de quem se acha melhor que 60% do país - só me fazem lembrar o famoso Nick Leason a explicar que rebentou com o Barings porque o mercado não percebeu a realidade e foi contra ele.

Eu votei.


De João Pinto e Castro a 9 de Junho de 2009 às 20:33
Se votou, parabéns. Agora é deixar de atirar cascas de laranja pela janela.


De Cátia a 9 de Junho de 2009 às 23:41
«O discurso da praia desta vez não pega - estava mau tempo e as praias vazias.»

Estava-se mesmo bem a tomar um cafezinho à beira mar. Muitos aproveitaram isso.

Felizmente o meu local de voto fica a meio caminho entre a casa e a praia.


De rita maria a 10 de Junho de 2009 às 10:21
Ah, finalmente alguma coisa para eu assinar por baixo. Tanta ode à democracia e tanto desprezo por uma parte tao grande da populaçao...enfim, compatibilidades.


De Joana Almeida a 9 de Junho de 2009 às 18:14
Pois.

É a sua opinião, que vale o que vale (ou seja, para 65% da população portuguesa, pelo menos, zero). Cada um sabe de si, ora essa! Há muitos motivos para uma pessoa abster-se mas, pela sua bitola, todos os europeus que não votaram são imbecis e mais valia serem exterminados (ao menos é honesto, e é daqueles que se coloca naquela posição do ou estão comigo, ou estão contra mim e serão linchados em praça pública)...

A isso chama-se liberdade individual (ou nunca ouviu falar disso?). Muiiiiito diferente da hipotética "democracia" em que vivemos. Antes de pertencerem à sociedade, as pessoas são seres livres e independentes e fazem aquilo que, para elas, consideram ser do seu melhor interesse. E ponto. Não há discussão sobre isso.

A arrogância com que chamam os abstencionistas de imbecis é que é tão, mas tão extraordinária que chega a ser nojenta.

Já agora votei, porque assim o entendo e não porque há uns gajos armados em revolucionários que mo mandaram fazer. Mas se não me apetecer votar também não voto, e era só o que me faltava ter alguém a dizer que eu sou imbecil.

Mas lá está, é o problema de sempre: se as opiniões fossem boas vendiam-se não se davam.

E deixe-se de tretas pseudo-revolucionárias.


De Francisco Gonçalves a 9 de Junho de 2009 às 18:28
Então, Joana, não se exalte! Não vê que essa coisa da liberdade individual só funciona quando as pessoas casam com quem querem e com quem lhes apetece, nem que sejam do mesmo sexo?

Quanto ao resto, não senhor, toda a gente devia ser obrigada a votar e que se lixe a liberdade de cada um.

Ele há gente assim, em todo o lado!


De Joana Almeida a 10 de Junho de 2009 às 14:06
Olá Francisco, boa tarde!

Tem toda a razão. Não vale a pena exaltar-me.

Faço-me então esta pergunta: caso haja um referendo acerca do assunto que falou aí vejo o caso a mudar de figura. Isto é: quem se abstiver é porque está com dúvidas em relação ao assunto e ainda não "amadureceu" a opinião. Quem for votar e votar NÃO é que passa a ser o parasita. Aí, caso não arranje lugar para estacionar o carro no seu local de voto (e se for daqueles que vai lá dar o seu sim), e estacionar o carro em segunda fila para o fazer, já é o gajo mais cívico deste mundo.
Estarei certa no meu raciocínio?


De Francisco Gonçalves a 11 de Junho de 2009 às 11:24
Pode apostar que sim, Joana!

Esta rapaziada da apregoada Esquerda Moderna tem dessas coisas. Em sentido figurado e sem prejuízo do talento do visado, fazem-me lembrar Luís de Camões: só vêem para um lado, para o lado deles, para ser mais rigoroso.


De Nuno Palha a 9 de Junho de 2009 às 19:01
Os abstencionistas não têm de ser imbecis. A abstenção é, no entanto, um comportamento ou imbecil ou egoísta ou ambos.

Claro que qualquer cidadão tem liberdade para não ir votar no nosso país e pela leitura do texto não vejo onde está a defesa da tese de que os abstencionistas deviam ir presos!!!

Atirar cascas de laranja ao chão não é crime mas quem o faz é porco. Não votar não é crime, mas não deixa de ser civicamente irresponsável! Esta é a minha leitura e como cidadão que votou sinto como natural a revolta que causa a muita gente, incluindo eu, que 60% dos portugueses não tenham votado! É mesmo muita gente a cuspir em cima da democracia...


De Joana Almeida a 9 de Junho de 2009 às 20:25
Nunca lhe passou que muita gente não vota porque pura e simplesmente é contra o sistema?

Ou temos de ser tão arrogantes ao ponto de assumirmos que a nossa forma de ver e viver é a correcta? Que nos dá o direito de dizer que a nossa visualização do mundo é que é a certa? Há pessoas que são contra o sistema de voto, que são contra o método de Hondt, contra o sistema político como se apresenta, contra inúmeras coisas...

A abstenção não é um comportamento imbecil. Egoísta? Talvez, dependendo do ponto de vista. Mas é aquilo que eu digo no meu último comentário: em última análise, as pessoas agem pelo seu melhor interesse. Há quem chame isso de egoísmo, eu pessoalmente não chamo. Chamo-lhe liberdade pessoal.

Quanto a deverem ir presos, foi a minha interpretação do texto e das acções inerentes.

O Nuno sente-se revoltado com quem se abstém, eu sinto-me bem mais revoltada com quem insiste em dar crédito a quem nos insulta a inteligência todos os dias. A maioria dos candidatos está-se, literalmente, a marimbar para o nosso bem estar (Dê-me um exemplo de 1 que não esteja).

Ao ponto de se darem ao luxo, a título de exemplo, de nos espetarem com cartazes eleitorais com frases como: "Vamos combater a crise com fundos europeus".

Pior ainda, a desonestidade de TODOS (sem qualquer excepçã0) os OCS relativamente aos pequenos partidos, cuja importância dada foi abaixo de zero.

E depois admiram-se quando vemos os Nacionalistas a ocuparem cada vez mais cadeiras no Parlamento Europeu.


De Nuno Palha a 9 de Junho de 2009 às 22:44
"Nunca lhe passou que muita gente não vota porque pura e simplesmente é contra o sistema?"

Já, eu próprio tenho um amigo que o fazia. E o que dizia a ele digo-o a toda a gente: a abstenção como protesto é um comportamento idiota. Isto porque pura e simplesmente não é entendido como um meio de protesto. O verdadeiro voto de protesto contra o sistema é o voto em branco. É um sinal que mostra efectivamente que alguém se preocupa com a coisa pública mas não com a campanha, o sistema, os políticos, ou seja lá o que for. O seu voto fica lá registado. Se alguém se abstém em protesto o seu sinal não é eficaz porque fica confundido com a massa de cidadãos apáticos.

"Há quem chame isso de egoísmo, eu pessoalmente não chamo. Chamo-lhe liberdade pessoal."

Um acto pode ser feito em consciência e em liberdade e ser egoísta, idiota ou irresponsável. A responsabilidade não é uma imposição, é precisamente uma escolha que a nossa liberdade pessoal nos permite fazer.

"O Nuno sente-se revoltado com quem se abstém, eu sinto-me bem mais revoltada com quem insiste em dar crédito a quem nos insulta a inteligência todos os dias. A maioria dos candidatos está-se, literalmente, a marimbar para o nosso bem estar (Dê-me um exemplo de 1 que não esteja)."

Acho esta posição muito redutora. os candidatos são mesmo iguais? Acha que as posições do Nuno Melo e da Ilda Figueiredo são mesmo idênticas? Basta ver, ler as posições que tomam nos parlamentos para ver que não são idênticas. O PE tem um registo público online das participaçõe de cada eurodeputado. Basta consultar. E não me venham dizer que os 60% de votantes que se abstiveram são apenas pessoas sem posses económicas para ler um jornal, ver um telejornal ou consultar a net.

Claro que a campanha foi pavorosa e pouco esclarecedora! Mas a resolução dos problemas do país não passa só pelos políticos (que não vão virar umas virgens puras de um dia para o outro). Passa também pelos cidadãos que deviam levantar mais vezes o cagueiro de 4 em 4 anos para cumprir o seu dever cívico como cidadãos!


De Joana Almeida a 10 de Junho de 2009 às 14:13
Boa tarde Nuno.

Vou refrasear o primeiro parágrafo do meu último comentário, porque não foi entendida:

Nunca lhe passou que muita gente não vota porque pura e simplesmente é contra o sistema democrático e do voto democrático?

O Ser Humano antecede a criação da Constituição, das leis de vivência em sociedade, e do sistema conforme é. Ao contrário da maioria há quem pense que tudo isto é uma enorme violação à sua liberdade, logo desde que nasce e é obrigado a registar-se como cidadão.

E não há as tretas do costume de dizer que quem quer morar aqui tem que aceitar as regras, porque a terra pertence (na realidade não pertence, mas devia) a todos de forma idêntica e porque não há ninguém, rigorosamente ninguém, que seja mais do que todos os outros que vivem neste mundo.


De Miguel a 12 de Junho de 2009 às 13:00
"O verdadeiro voto de protesto contra o sistema é o voto em branco. "

Pelos vistos a abstencao tem servido bem como voto de protesto. Nao se fala noutra coisa e poe os politicos a pensar o que fazer para a diminuir.


De Nuno Palha a 12 de Junho de 2009 às 14:19
Acho que o que muitos políticos podiam fazer era deixarem a hipocrisia e criticarem de facto a irresponsabilidade cívica de uma grande parte dos cidadãos. Tal como se critica quem é porco ao atirar lixo para a via pública ou quem é grosseiro com outras pessoas.

Há condutas criticáveis nos políticos mas igualmente criticável é a postura de muitos cidadãos perante o voto. Como democracia que somos o poder está em última análise nos cidadãos e esses têm-se comportado de uma forma tão repreensível como a dos seus políticos. Cada povo tem aquilo que merece e se achamos que o país pode e tem de melhorar então talvez devêsseos pensar primeiro no que podemos nós fazer pelo país em vez de ter a postura de exigir aos políticos que façam tudo por nós.


De Filipe Moura a 9 de Junho de 2009 às 21:07
"A isso chama-se liberdade individual (ou nunca ouviu falar disso?)."

E pronto. Sempre, sempre, sempre a putazinha da liberdade individual. Já não há pachorra para a liberdade individual.

"Muiiiiito diferente da hipotética "democracia" em que vivemos."

Liberdade e democracia são coisas bem diferentes. Até aqui estamos de acordo.

"Antes de pertencerem à sociedade, as pessoas são seres livres e independentes e fazem aquilo que, para elas, consideram ser do seu melhor interesse. E ponto. Não há discussão sobre isso."

Não é verdade. As pessoas já pertencem à sociedade antes de nascerem. Quanto muito podem querer mudar essa sociedade, mas pertencem-lhe (à que nasceram ou a outra que escolham). Nascem em hospitais ou maternidades do Estado. Recebem subsídios (abono de família). Frequentam escolas do Estado. Quem quiser ser "livre" e não pertencer à sociedade, que prescinda disto tudo. Do estado social. Das escolas, dos hospitais. Dos subsídios e das reformas. Que abandone tudo e volte para a selva ou o deserto, que é onde devem viver as pessoas livres.

Já agora (o texto do João Pinto e Castro não é explícito sobre isto): eu não sou favorável ao voto obrigatório, pois penso que tal se traduziria numa degradação da democracia. Mas estes libertários, de esquerda ou de direita, dão-me urticária.


De João Pinto e Castro a 9 de Junho de 2009 às 22:49
Também não sou a favor do voto obrigatório, Filipe.


De pedro oliveira a 10 de Junho de 2009 às 10:20
Não é a favor do voto obrigatório?
Então pactua com isto (cito) «elemento anti-social, um oportunista que quer os benefícios da vida em sociedade e da democracia mas não estar disposto a mexer um dedo para dar a sua contribuição. O abstencionista não só cospe na cidadania como ainda por cima se orgulha disso»
Parasitas em suma.
Ainda não explicou qual a diferença para o apuramento de mandatos dum voto em branco ou duma abstenção.
Um cidadão que vota em branco é um bom cidadão, um cidadão que conscientemente não pactua com a roubalheira (Vital Moreira) ou com a bandalheira não validando com a sua presença um acto com o qual não concorda é um parasita, porquê?
Os meus pais pais não votaram, não os considero parasitas, eu votei e não me considero melhor cidadão por isso.


De z a 9 de Junho de 2009 às 23:30
como é que alguem pode pertencer ao que quer que seja antes de nascer??!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!


De João Pinto e Castro a 10 de Junho de 2009 às 00:17
O Filipe tem toda a razão nesse ponto.


De z a 10 de Junho de 2009 às 10:01
pode explicar-me porquê? espero não estar a ser incomodo, mas sinceramente não percebo o argumento.

"antes de nascer" significa o especificamente o quê? que somos sociais por imperativo biológico? que a sociedade é pre-existente em relação à nossa espécie? que durante o periodo de gestação já pertencemos à sociedade?

e o que tudo isto tem a ver com democracia e voto?

acho que este post, e alguns dos comentários que o defendem, misturam alhos com bugalhos.

o voto muitas vezes pode ser perguiçoso e não mais que pedir uma cunha na repartição. não sei onde o senhor mora, mas eu moro num local onde o mesmo partido ganha à 35 anos... quando o pessoal começou a votar, não votava pela sua cabeça mas pela dos país e avós...

penso que neste contexto o não voto é perfeitamente racional.



De anónimo a 9 de Junho de 2009 às 18:36
Parasita é o Senhor.
Já agora só lhe faltava dizer que concordava com a ditadura do voto obrigatório.


De m&m a 9 de Junho de 2009 às 19:10
«o inferno são os outros»


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