«I was at Vezarate Keshvar [Ministério do Interior]… they never even opened the ballot box», enviado de Teerão via Skype, o acesso (sem proxy ou satélite) ao Facebook, Twitter, redes móveis de comunicação (incluindo SMS) foi cortado, o acesso à internet é muito limitado. De acordo com informações fornecidas à Foreign Policy, o filho do líder Supremo, Mojtaba Khamenei, coordena o blackout informativo. Mais de 100 pessoas pertencentes ao partido reformista Mosharekat foram presas, incluindo, como já tinha informado, o irmão do ex-presidente Khatami, Mohammad Reza Khatami, a esposa Zahra Esraghi, Ahmad Ziadabadi, professor de ciência política na universidade de Teerão, e um blogger político proeminente, Saeed Shariati. De acordo com o Público e com a Al-Jazeera, foram ainda presos «o líder da Frente de Participação e próximo aliado de Khatami, Mohsen Mirdamadi. O mesmo acontece com o ex-vice-ministro do Interior Mostapha Tadjadeh, o ex-vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Mohsen Aminzadeh e o antigo porta-voz do governo de Khatami, Abdollah Ramezanzadeh – todos reformistas e opositores de Ahmadinejad, que denunciam a ocorrência de fraudes maciças nas eleições de sexta-feira no Irão.»
No teharnbureau, é traduzida a carta enviada por um grupo de funcionários do Ministério do Interior que explica que a falsificação dos resultados eleitorais foi ordenada por uma fatwa do ayatollah Mesbah-Yazdi, influente nos meios militares.
«After several polls taken by the government in May that indicated a rapid loss of support for the President, an ayatollah, who used to speak about political philosophy in Tehran’s public Friday prayers, held a confidential meeting with the elections’ supervisors. Quoting the Bagharah Soureh, verse 249, of the holy Quran, to justify vote fraud, he stated that,
“If someone is elected the president and hurts the Islamic values that have been spread [by Mr. Ahmadinejad] to Lebanon, Palestine, Venezuela, and other places, it is against Islam to vote for that person. We should not vote for that person, and also warn people about that person. It is your religious duty as the supervisors of the elections to do so.”»
No NIAC, postam um apelo pungente de um leitor:
“I am in Tehran. Its 3:40 in the morning. I’ve connected with you [by hacking past the government filter]. It’s a big mess here. People are yelling from their houses – ‘death to the dictator.’ They are setting up a military government. No one dares to go out. No one has seen Mousavi today. Rumor has it that they have arrested him. I don’t have an email but I will contact you again.
Help us.”
E a grande questão é mesmo como podemos ajudar? A questão, embora crucial é complicada de responder, como é reflectido no NIAC em relação aos Estados Unidos mas pode ser alargado a todo o mundo. Mas certamente o mínimo que devemos fazer é não ter reacções de «esquerda cobarde», assobiando para o lado e fazendo de conta que a reeleição do alucinado Ahmadinejad* foi limpa.
Infelizmente, reacções de esquerda cobarde têm abundado em relação ao Irão e não só nas caixas de comentários dos blogs e periódicos nacionais. Por exemplo, ontem, no Guardian, Abbas Barzegar, um estudante de doutoramento em estudos religiosos na universidade de Atlanta na Geórgia, debitou uma opinação que explica porque razão está a fazer um doutoramento em religião e não em política internacional. Barzegar, que confunde religião com fanatismo e fé com fundamentalismo, assevera que o resultado eleitoral é legítimo e se deve ao facto de o povo iraniano ser muito religioso. Não tenho qualquer dúvida que o povo iraniano é, na sua maioria, muito religioso, assim como não tenho dúvidas que devido ao matraquear constante de alguns mullahs, polícias morais e afins, assim como à fuga do país de pessoas como as que conheci na (enorme) comunidade iraniana em San Diego e Los Angeles, a percentagem de fundamentalistas no Irão é superior ao que é normal. Mas tenho sérias dúvidas que sejam 63% da população, aliás, tenho séria dúvidas que sejam muito mais que 10% da população, se os mulhahs progressistas são indicativos de algo.
Outro argumento muito comum esgrimido por aqueles que defendem irracionalmente a legitimidade destas eleições assenta numa suposta luta de classes na sociedade iraniana em que os mais pobres e desfavorecidos teriam votado esmagadoramente em Ahmadinejad e que os observadores internacionais teriam pensado que Teerão era representativo do resto do país ( na realidade, os confrontos de ontem à noite estenderam-se a todo o país, não se circunscreveram a Teerão). Por outro lado, mesmo que isso fosse verdade não se percebia como, de acordo com os resultados oficiais, Ahmadinejad teria supostamente obtido uma vitória esmagadora na capital.
Juan Cole, o presidente do Global Americana Institute e perito no Médio-Oriente da universidade de Michigan, desmistifica estas alegações, num artigo a não perder intitulado «Class v. Culture Wars in Iranian Elections: Rejecting Charges of a North Tehran Fallacy». Através de Cole, ficamos ainda a saber, entre outras coisas, que a mulher de Rafsanjani, um clérigo muito respeitado no Irão, escreveu no ultra-conservador Tehran Javan um artigo apelando a protestos massivos nas ruas no caso de haver fraudes nas eleições.
Não há quaisquer dúvidas de que as eleições no Irão, controladas à partida pelos teocratas do Conselho de Guardiães que determinam quem são os candidatos das centenas que o querem ser, foram uma fraude. Nem há quaisquer dúvidas de que a situação se vai complicar nos próximos dias. Como dizia um senhor muito idoso em Teerão, «“I’ve seen violence like this before,” he remarked, “What can one expect when you disrespect the people. This is a coup d’etat. After blatantly cheating the people they won’t be able to turn this off.”»
A situação no Irão é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento mas qualquer tentativa externa de interferir será contraproducente. A melhor forma de ajudarmos o povo do Irão neste momento é simplesmente combater a propaganda de certos quadrantes que pretendem que o que se passa neste momento são apenas manifestações de quem não sabe perder...
*Nalgum xiismo mais radical, a crença na vinda do Mahdi tornou-se um dos aspectos centrais da fé, tendo o termo Mahdaviat, «a crença e o esforço de preparação para a chegada do Mahdi», assumido proporções preocupantes entre os membros da Hojjatieh Society que pretendem dar uma ajudadinha a Allah no estabelecimento das condições propícias ao regresso do Mahdi.
Nesta versão islâmica do Apocalipse, o Yawm al-Qiyamah, o dia do Juízo Final em que os crentes serão ressuscitados e os infiéis enviados para as profundas do Inferno, será precedido pelo Armagedão e pela volta do messias, Mahdi - para os xiitas o décimo segundo iman* em animação suspensa, ou antes, ocultação divina, desde finais do século IX. O Mahdi derrotará Dajjal (o anti-cristo) e estabelecerá o império de Allah na Terra. Uma versão muito semelhante à escatologia cristã, a única diferença, para além da identidade do messias e da versão das religiões do livro que dominará a Terra, reside em quem são os «justos» que serão arrebatados e quais os infiéis castigados.
Os membros da Hojjatieh, Hojatiyeh ou Hojatiyeh Mahdaviyeh Society, antes da revolução islâmica a Anjuman-í-Tablighat-í-Islami, acreditam que o regresso do 12º imam pode ser apressado pela «criação do caos na Terra». Esta associação, fundada em 1953 essencialmente para combater os Baha'i - para os Baha'i, Mahdi é Báb o percursor de Baha'u'llah, o fundador da religião- , foi banida no Irão nos primórdios da Revolução Islâmica, em 1983.
Não é do conhecimento de muitos que Mahmoud Ahmadinejad, que financiou um Instituto dedicado a estudar e antecipar a chegada do Mahdi, é um crente nesta versão apocalíptica, embora seja de conhecimento comum em fontes iranianas, e tenha sido referido na imprensa internacional, do Washington Times ao Christian Science Monitor.
Embora a Hojjatieh permaneça semi-clandestina, Ahmadinejad tem deixado claro o seu respeito pelo Ayatollah Mohammad Taghi Mesbah-Yazdi, - que alguns consideram mesmo ser o seu líder espiritual - ligado à escola teológica Haqqani, uma escola Hojjatieh em Qom. De igual forma, desde que tomou posse praticamente todos os seus discursos estão recheados de referências à volta do 12º iman, nomeadamente o discurso na ONU em Setembro de 2005, encerrado com uma prece pela antecipação do evento: «Oh Senhor Todo-Poderoso, eu vos peço que antecipeis a chegada do vosso último enviado, o Prometido, o ser humano puro e perfeito, o que trará justiça e paz a este mundo.»
Ahmadinejad tem sido repetidamente avisado por clérigos iranianos para deixar de invocar o Mahdi para tudo e mais umas botas....
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
