Terça-feira, 16 de Junho de 2009
João Galamba

Alexandre,

 

quando perguntas "as manifestações estão contra o regime, i.e. contra as instituições políticas iranianas, ou estão contra a liderança de Ahmadinejad? É uma distinção importante, que leva a conclusões diferentes", esqueces-te que essa distinção não é tão clara quanto supões. Ou melhor, deixou de o ser, pois a intervenção de Khamenei em favor de Ahmedinejad tratou de dissolver essa dicotomia. Foi a parcialidade do líder supremo que acabou por comprometer a sua posição, a sua autoridade e o próprio regime. Agora pouco importam as intenções de Moussavi. Mais: Moussavi foi um catalizador de algo que nem ele controla, e o que está a acontecer no Irão transcende em muito uma mera disputa eleitoral. Revolução?Talvez. Isto até pode ser romantismo esquerdista. Mas desde quando é que o cinismo realista tem o monopólio de interpretação da realidade? Se ganha o meu idealismo ou o teu cinismo, só os Iranianos o podem dizer. E, pelo que me é dado a ver, parece-me que cinismo é coisa que não abunda nas ruas de Teerão.


6 comentários:
De Pedro Jordão a 16 de Junho de 2009 às 13:20
É verdade que os protestos atingem a posição de Khamenei, mas ainda não há qualquer indício de que o regime possa cair. Quando se fala de reformismo no Irão, não se fala de uma massa homogénea mas de uma manta de retalhos. Que luta por uma maior abertura do regime mas que não deixa, em grande parte dos casos, de o apoiar no que tem de essencial, figura do Supremo Líder incluída. O próprio Mousavi insere-se nessa categoria. Por isso, por muito que Khamenei tenha feito um erro de cálculo que poderá ter um custo alto, por muito que esta seja a maior ameaça ao regime desde a sua fundação, parece-me que a sua implosão não será para breve. Se alguém for sacrificado, será sem dúvida Ahmadinejad.


De fernando f a 16 de Junho de 2009 às 14:17
O que conta, é que as revoluções não se anunciam , fazem-se. Sendo certo que quanto mais heterogéneas forem as motivações de quem se manifesta, mais hipóteses tem as revoluções de se tornarem democráticas.


De Dorean Paxorales a 16 de Junho de 2009 às 14:50
A Assembleia de "Peritos" nomea o Líder Supremo, monitoriza a sua actuação e pode destitui-lo se for considerado incapaz de cumprir as suas funções. A assembleia é eleita por voto directo de oito em oito anos.

O Conselho de "Discernimento" é nomeado pelo Líder Supremo e tem poderes de supervisão sobre todos os ramos governativos da república iraniana.

O ex-presidente Akbar Hashemi-Rafsanjani foi secretário-geral de ambos os corpos políticos até sábado passado, quando se demitiu da chefia do conselho. Rafsanjani é notório apoiante de Mussavi.



De Pedro Jordão a 16 de Junho de 2009 às 14:56
Rafsanjani não se demitiu, ameaçou demitir-se.


De Dorean Paxorales a 16 de Junho de 2009 às 15:57
A informação que tenho é da Al-Arabiya. Pode ser rumor mas...


De Alexandre Homem Cristo a 16 de Junho de 2009 às 14:57
João,

Não sei se o apoio de Khamenei não seguirá a lógica dos resultados eleitorais, pelo que deixaria de ser um apoio parcial, assim como deixaria de comprometer o regime com o seu apoio. Enfim, não é certamente o ponto mais importante.
Parece-me que, maioritariamente, a numerosa população jovem iraniana está saturada da liderança conservadora de Ahmedinejad, e isso é um sinal positivo. Parece-me também que há muitas mais variáveis importantes em jogo, que se impõem sobre uma ‘compreensão revolucionária’.
Não sei se a minha posição seria cínica, como dizes. Acho que é essencialmente prudente. É que euforias na política raramente trazem bons resultados; julgo que concordarias com isso.


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