Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

jugular

"Ninguém percebeu nem as reais razões da divergência nem as reais razões da união"

 

O João Tiago Silveira não gostou do que viu na comissão nacional missa de domingo em Coimbra. Hoje, em entrevista ao Expresso, explica porquê:    
   
- Classificou a unidade do PS saída de Coimbra como "artificial". Quer explicar?  
 
- Estou em frontal discordância com o processo que este acordo seguiu: é artificial e desligado das pessoas. Ninguém percebeu o que se passou.  
 
- "Ninguém percebeu"... o conflito ou as tréguas?  
 
- Ninguém percebeu nem as reais razões da divergência nem as reais razões da união. Num momento em que há uma fortíssima desconfiança entre os cidadãos e os partidos, num momento de crise com tendências demagógicas para encontrar soluções fáceis que passam pela inutilidade dos partidos, há uma especial exigência de clareza, coerência, saber falar com as pessoas. E isso correu mal neste processo. Agora, temos de aprender com estes erros, e isso é especial responsabilidade da minha geração e da geração a seguir. Lancei o desafio na Comissão Nacional e estou a trabalhar com um conjunto de pessoas para encontrar respostas políticas arrojadas e ambiciosas de aproximação do PS à sociedade, de credibilização da ação política.  (...)

 

- As primárias para a escolha do secretário-geral fazem parte dessas medidas?  
 
- A eleição do secretário-geral alargada a cidadãos simpatizantes é uma medida interessante, merece ser estudada e trabalhada. Mas não chega. É preciso muito mais.  
 
- A crise no PS nas últimas semanas foi a gota de água para levar a iniciativa por diante?  
 
- Há muito tempo que penso no tema, sem solução mágica. Mas ao olhar para este processo achei que agora é que o PS precisa mesmo de fazer qualquer coisa e há toda uma geração disponível para ir mais longe.  
   

Uma mulher do outro mundo

Acaba de aterrar em Lisboa uma mulher que «vem de outro mundo, literalmente falando». É neste registo “twilight zone” que Paulo Rangel descreve Angela Merkel, num documento biográfico que o Expresso publicou este sábado. O planeta distante a que se refere Rangel é o «outro lado do muro de Berlim». É certo que Merkel nasceu em Hamburgo, mas a família mudou-se para a antiga RDA logo em 1954. De acordo com o homem que lhes fez as mudanças, «só havia dois tipos de pessoas que iam para Leste nessa altura, os comunistas e os completos idiotas». Não consta que a família pertencesse à categoria dos comunistas.

Ainda assim, a passagem obrigatória pelas juventudes comunistas da RDA explicará que a alemã Merkel tenha hoje a simpatia de se dirigir ao polaco Tusk em russo. Ou que tenha aparecido em Atenas com a mesma farda do jogo Alemanha 4, Grécia 2. Por estas e por outras, neste momento, nas reuniões do Conselho Europeu, já só resta um chefe de Estado e de governo que gosta de se sentar ao lado de Frau Doktor Merkel: Pedro Passos Coelho, muito apropriadamente apelidado por ela como «the nice guy».

A revista New Statesman chama-lhe «o mais perigoso líder alemão desde Hitler». De facto, «as férias de Merkel são passadas nos Alpes e não perde a rentrée do festival de Beyreuth (Wagner)». Mas felizmente as afinidades com o ditador ficam-se por aqui. Tirando o facto de gostar de cozinhar «sopa de batata e ganso com ameixas», Merkel não é dada a grandes loucuras. Repare-se que nem mesmo no dia em que caiu o muro de Berlim alterou substancialmente as suas rotinas: «só foi festejar depois de ir à sauna». E o chamado «festejo» consistiu em cobrar à mãe uma velha promessa: um jantar de ostras em Berlim ocidental. Estava ganho o dia.

Doktor Merkel deve o título (de doktor) à tese, em Química, sobre «A análise dos mecanismos de desintegração por fracionamento simples das fixações». E é inegável a influência destes «mecanismos de desintegração por fracionamento simples das fixações» na política europeia de Merkel. O Professor Roll, também citado pelo Expresso, explica-nos que «ao invés da maioria dos líderes, que são advogados e veem a perda de um argumento como uma derrota, Merkel, tal como um cientista, vê a perda como uma descoberta, uma vitória». No entanto, mesmo no campo científico, a abordagem de Merkel é inovadora, pois não se limita a seguir o tradicional método da tentativa e erro, substituindo-o antes pelo novo método da persistência no mesmo tipo de tentativas erradas. «A fé em Deus facilita-me muitas decisões», afirma a mulher que hoje nos visita. Já tínhamos dado por isso.             

«O mundo misterioso de Vítor Gaspar»

É o título do texto que Maria Henriques Espada publica hoje na Sábado. Foi em Fevereiro de 1991, nas páginas do Independente, que o país ouviu falar pela primeira vez de «um génio das finanças» - um «Mr Wonderful» que era o «braço direito do Ministro Miguel Beleza». Destes epítetos, Gaspar recusou o último, de uma forma que já fazia adivinhar o desastre que estava para vir: «Miguel Beleza é um homem muito apto fisicamente e se tem um braço direito, é o dele. Não precisa de próteses». Hoje, o Gaspar “Mr Wonderful” de que falava O Independente de Paulo Portas foi substituído pelo Gaspar “Cannibal” Lecter de que fala uma troca de emails no CDS de Paulo Portas, reproduzida pela Sábado.

O que se passou entre um momento e o outro? Depois da passagem pelo Terreiro do Paço, este «aluno brilhantíssimo» do brilhantíssimo professor António Borges rumou a Frankfurt, onde fica o BCE. Gaspar ficou tão marcado por essa experiência que está sempre a falar do «método do BCE». Parece que resolve todas as diferenças de opinião com um «no BCE era assim». Passos Coelho, por seu lado, responde invariavelmente aos restantes ministros com um «o Vítor não pensa assim». E contra argumentos destes não há factos que nos valham.

Seguiu-se Bruxelas, onde o esperava um cargo no Bureau of European Policy Advisers, conhecido na gíria eurocrática por BEPA. Mal chegou ao BEPA «uma das primeiras pessoas que quis cumprimentar foi Maria da Graça Carvalho». Por ser portuguesa? Não, Gaspar não é nenhum provinciano: «é que ela tinha mais publicações científicas do que eu». Um feito extraordinário que não estaria certamente ao alcance daquele beirão que aterrou no Conselho de Ministros de Passos vindo de uma universidade obscura do Canadá: «Nem o conheço», terá dito Gaspar quando lhe falaram do nome apontado para a pasta da Economia. O respeito que Gaspar tem por Álvaro resume-se nesta pergunta que lhe fez em plena reunião do Conselho de Ministros: «Não há dinheiro: Qual destas três palavras não percebeu?». 

Em Bruxelas, Gaspar deixou uma imagem de desconforto. Uma vez, em plena hora do almoço, arrastou os colegas para «um exercício muito engraçado: aplicar às teorias kantianas equações usadas em econometria». Nem todos acharam muita graça ao exercício: «Um dos então espectadores reconhece que houve algum constrangimento no ambiente – haveria formas mais divertidas de passar a hora do almoço». Mas agora, de regresso ao seu país, Gaspar não se pode queixar da falta de sentido de humor que sentiu noutras paragens. Na sequência da decisão do Constitucional, Gaspar terá dito ’Estava tudo a correr tão bem, pena é a realidade’». E, depois da TSU, do IMI e do «enorme aumento de impostos», um dos interlocutores «confessa não saber ainda hoje se ele estava a tentar fazer uma graça ou se falava a sério».    

A redução do número de deputados

(Já com uns dias de atraso, uma versão ligeiramente alargada do artigo que publiquei no diário económico sobre um tema que a direção do PS insiste em manter atual.)

O rácio português de eleitores por deputado encontra-se perfeitamente dentro da média das democracias europeias. Então se incluirmos os senados nas contas, podemos mesmo dizer que temos menos deputados do que a maioria dos países da nossa dimensão. No entanto, no último 5 de Outubro, António José Seguro veio defender a redução do número de deputados. Não será a primeira vez que o PS admite esta hipótese, mas é a primeira vez que ela é colocada no centro da reforma eleitoral do PS. Seguro disse que queria uma redução do número de deputados que não pusesse em causa a responsabilização dos eleitos, a proporcionalidade e a representação das regiões. De facto, é possível reduzir significativamente o número de deputados e aumentar a proporcionalidade: tudo depende do tamanho dos círculos eleitorais de apuramento. Mas é impossível reduzir significativamente o número de deputados e ter, ao mesmo tempo, deputados mais próximos dos eleitores, representatividade regional e pluralismo partidário.

O que levou então o atual líder do PS a colocar agora esta questão na agenda? Há basicamente duas razões possíveis. Pode ter sido “tática política”, já que o PSD está coligado com um partido que poderia sair prejudicado com a redução de deputados (o CDS), e isso poderia ser uma “boa jogada” para criar mais um embaraço ao governo. Mas Seguro também pode estar a querer responder – da pior maneira possível - ao clima antipartidos, visível, por exemplo, na última sondagem da Universidade Católica ou nas manifestações do 15 de setembro. De resto, há uma semana, o “Público” relatava que Seguro havia lançado um alerta aos outros líderes socialistas europeus, muitos deles (os do Norte) complacentes com a receita da austeridade punitiva na Europa do Sul: “estamos a perder as pessoas com esta política, e isso atinge todos os partidos de governo e não apenas os partidos que estão no governo”. Esta leitura da situação é correta, mas o tipo de resposta política que a redução dos deputados revela é completamente errada. De nada valerá ao PS fazer eco dos cartazes do 15 de setembro. O que quem esteve no 15 de setembro espera do PS é que apresente uma alternativa séria aos caminhos do empobrecimento que o Governo e a extrema-esquerda, cada um à sua maneira, nos oferecem. Da mesma forma que o PS, partido da “Europa connosco”, não sobreviverá ao colapso do projeto europeu, o PS, partido fundador do regime, será sempre ultrapassado (e eventualmente devorado) pelas derivas populistas. Se Seguro chegar algum dia a quantificar a redução de deputados que pretende, haverá sempre alguém que a vai achar insuficiente. Não por acaso, ainda anteontem, na televisão, um comentador assegurava que 80 deputados eram mais do que suficientes.

A privatização da RTP

 

De vez em quando, sem se saber muito bem de onde, surgem umas ideias na política portuguesa destinadas a “marcar a agenda”. O PSD, sem a solidez programática dos restantes partidos, é o seu porta-voz habitual. Veja-se o caso da privatização da RTP. Nem a experiência da dupla Morais Sarmento-Almerindo Marques, um dos poucos bons legados da anterior coligação, parece servir de referência ao PSD.

Ninguém contesta hoje a importância da abertura da comunicação social aos privados. É mesmo duvidoso que possa haver democracia digna desse nome sem grupos de comunicação social privados. E sem dúvida que o PS chegou tarde a esta conclusão. Mas a abertura da comunicação social a privados não significa privatização total da comunicação social, nem implica abdicar de um canal público de televisão. É essa a regra que vigora nas democracias europeias, onde prevalece o modelo dos dois canais públicos. A Resolução do Conselho Europeu, de Janeiro de 1999, é clara e mantém-se atual: "um amplo acesso do público, sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades, a várias categorias de canais e serviços, constitui uma pré-condição necessária para o cumprimento das obrigações específicas do serviço público de televisão". Confundir a SIC-Notícias com serviço público, como fez Miguel Relvas antes das eleições, é não perceber a diversidade de ofertas que o conceito implica.

Andou bem António José Seguro ao associar-se ao manifesto contra a privatização da RTP, de António-Pedro Vasconcelos. E espera-se que haja mesmo "consequências políticas" caso o Governo avance com a privatização, conforme anunciou o PS. Aliás, nesta área da comunicação social, o PS avançou com a iniciativa que verdadeiramente importa: um projeto-lei sobre a não-concentração nos meios de comunicação social. Questões como a transparência na titularidade dos media ou a sua independência face ao poder económico são hoje muito mais críticas para a qualidade da democracia do que a falta de iniciativa privada no setor.

Recentemente, o diretor deste jornal, António Costa, escreveu mesmo que "o maior risco para o setor, para o próprio país, não são as pressões políticas, é a dependência económica". Ora, essa dependência económica não vai certamente diminuir com a privatização da RTP. Já para não falar do enfraquecimento da regulação do setor que a privatização comportaria. Mas se ainda assim o ministro Relvas quiser alimentar a sua guerra privada com o dr. Balsemão, tem bom remédio: pode aumentar a publicidade na RTP ou abrir concurso para um quinto canal. Não querer "sábados mais tranquilos" é um direito que lhe assiste. O que não pode é pretender ficar para a história como um mártir da Impresa às custas do pluralismo na comunicação social.

(Artigo publicado na passada segunda-feira no Diário Económico. A favor da privatização esteve Tiago Loureiro.)

Um reformismo involuntário

 

(o artigo que escrevi no esquerda-direita do diário económico – com uns dias de atraso e sem ter encontrado ainda o link para a visão da direita)

 

Se os aparelhos partidários conseguiram que o Governo ficasse aquém da “troika”, transformando a ambiciosa reforma administrativa numa tímida fusão de freguesias, certamente que conseguirão encontrar bons argumentos para se adiar, uma vez mais, a reforma eleitoral do parlamento e mesmo a das autarquias.

O mais provável é que o mandato de Miguel Relvas nos Assuntos Parlamentares não deixe grande marca no sistema político.

O grande contributo de Relvas para a mudança no sistema político não se prenderá assim tanto com a sua (atual) passagem pelo Governo, mas antes com a sua (breve) passagem pela universidade (Lusófona). Haverá seguramente um antes e um depois de Relvas no recrutamento das elites políticas ministeriais. É certo que o percurso de Relvas é uma variante (extrema) de um padrão já identificado: de um lado os políticos profissionais, que se licenciam mais tarde, em universidades privadas, e do outro os "independentes", que se licenciam mais cedo em universidades públicas. Mas o caso da licenciatura - justamente por corresponder de forma tão exata a uma caricatura - teve demasiado impacto para que tudo fique na mesma.

Se a pressão para a mudança na seleção do pessoal político for no sentido de um maior escrutínio das suas qualificações, nada contra. De facto, não estamos a falar da mesma coisa quando falamos de política profissional em França, no Reino Unido ou mesmo em Espanha ou quando falamos disso em Portugal. O trabalho dos ‘think tanks' e das fundações políticas portuguesas compara mal com o que se faz noutras democracias europeias. No entanto, se essa pressão para a mudança na escolha das elites governamentais for no sentido de reforçar a tendência para o recrutamento dos chamados "independentes", é bom que tenhamos noção de que não estamos a ir necessariamente pelo melhor caminho.

Já Salazar dizia que "é necessária a política no governo das Nações, mas fazer política não é governar". Esta ideia fez o seu caminho. Ao contrário do que se passa na restante Europa, em Portugal temos uma presença muito elevada de ministros independentes vindos da universidade e dos grandes escritórios e empresas. Pelo contrário, a presença dos partidos, das associações ou dos sindicatos é fraca. E não se pense que o sucesso dos perfis "técnicos" se deve a uma qualquer vontade de abertura do sistema ou às suas competências. Apesar de tudo, há mais representatividade social nos partidos do que no sector financeiro. E quanto às superiores competências dos tecnocratas, elas estão, no mínimo, por provar. O segredo do seu sucesso estará no facto de serem personalidades sem peso político próprio, e de serem, por isso, mais facilmente controláveis pelos chefes partidários nacionais e distritais.

Arrastado para os erros mais ridículos

Manuel Loff desmonta bem no Público «a narrativa que Rui Ramos faz do papel de Salazar» na sua História de Portugal em fascículos - um brinde de Verão do semanário Expresso. O mais curioso disto tudo é que essa narrativa com que Rui Ramos e o Expresso agora nos brindam cai exactamente no erro em tempos denunciado pelo próprio Rui Ramos junto da comunidade científica:

«Continuamos todavia a definir o regime [do “Estado Novo”] a partir de uma vontade política, cuja essência extraímos de um emaranhado sofístico dos discursos oficiais e de uma prática legislativa cheia de reversos. Lembraria a este propósito a sentença de Alexis de Tocqueville sobre a história do Antigo Regime: "Quem quisesse julgar a história desse tempo utilizando a colecção das suas leis, seria arrastado para os erros mais ridículos". Sem querer entrar na reflexão acerca do significado da legislação, do discurso oficial e da encenação constitucional da ditadura, direi apenas que este não me parece o melhor lado para abordar a questão do sentido do governo do Estado Novo» (pp. 111-112).

Retrato de um sempre-em-pé

A extensa biografia de Miguel Relvas, hoje publicada na Visão, é um trabalho notável de Miguel Carvalho. Nele começamos por saber que Relvas nasceu no dia 5 de Setembro de 1961 em Lisboa, embora os pais se tivessem conhecido em Portalegre. O pai, João Relvas, é hoje lembrado pela revolução cultural que promoveu no emblemático café Alentejano: «renovou a frasqueira e o serviço de pastelaria e ofereceu música de dança às quartas-feiras». Estas quartas-feiras de chás dançantes do Alentejano representaram «uma sacudidela nos costumes» de Portalegre, testemunhada por figuras como José Régio, Mourão-Ferreira e Branca Cassola, com quem João (Relvas) viria a casar.

Aos 13 anos Miguel Relvas foi inscrito no Colégio Nuno Álvares em Tomar. «O estabelecimento, um dos mais prestigiados do país, albergava malta do Minho a Timor». Por este Eton do Ribatejo terão passado, para além do jovem Relvas, o actual chefe da casa civil de José Eduardo dos Santos e o historiador Vasco Pulido Valente. No colégio, Relvas «andava sempre de volta dos professores, insinuava-se», o que revela bem que a sua vida foi mesmo «norteada pela permanente procura do conhecimento». Do conhecimento e dos conhecimentos. De acordo com Miguel Carvalho, Relvas manda «postais de boas festas e cartões de aniversário aos militantes. Telefona a confortar os que estão doentes, foram internados ou perderam familiares». A biografia revela-nos também um «grande facilitador» - aquilo a que em ciência política, domínio que Relvas conhece bem, se chama um gate-keeper. A história de Fernando Patrocínio é uma entre muitas. Segundo vários testemunhos, Fernando Patrocínio «representa para Tomar o que Sócrates significou para Atenas». Ou seja, é o sábio da aldeia. Patrocínio quis patrocinar a causa dos trabalhadores da fábrica Mendes Godinho: «Fui ter com ele ao Parlamento e ele abriu-me as portas para o Mira Amaral e o Laborinho Lúcio. Encaminhava, pronto». Como diz João Moura, antigo líder da JSD/Santarém, Relvas «é o verdadeiro doutor honoris causa da política».

Relvas foi sempre «dos últimos a deitar-se e dos primeiros a acordar». Talvez por isso, na sua já longa carreira política, até chegar a ministro-adjunto, só por duas vezes se viu em apuros. A primeira foi em meados dos anos 90, quando presidia à Comissão Parlamentar de Juventude. Embora alguns colegas do PSD assegurem à Visão que «os seus discursos tinham ghost-writers de peso», a verdade é que o discurso proferido pelo deputado Miguel Relvas no estabelecimento prisional de Coimbra não começava da forma mais adequada: «Quero agradecer esta oportunidade: é sempre bom conhecer os presos no seu habitat natural». Seguiram-se anos de justificado silêncio parlamentar. A segunda vez foi pouco tempo depois, no caso das «viagens fantasma». Para «embolsar o dinheiro das deslocações entre Lisboa e o seu círculo eleitoral», Relvas terá dado aos serviços da Assembleia da República a morada «de uma vendedora de fruta no mercado». A vendedora, antiga colega de escola, naturalmente não gostou, mas Relvas nunca se atrapalha: «Desculpa, não era para tua casa, era para a senhora da frente». Assunto encerrado. António Tavares, antigo secretário-geral da JSD, conhece-o bem: «É persistente e resistente. Um sempre-em-pé».

Extraordinária ciência

Segundo Thomas Kuhn, há momentos na história em que as mudanças de paradigma transformam a ciência “normal” em ciência “extraordinária”. Podemos estar a testemunhar um desses momentos. Depois do Bosão de Higgs, na Física, temos agora o parecer dos Professores da Universidade Lusófona, António Fernando Santos Neves e José Fialho Feliciano, que vem revolucionar tudo aquilo que julgávamos saber acerca das modernas ciências sociais. Esse documento científico, descoberto hoje, diz respeito ao pedido de reconhecimento e creditação de competências apresentado por Miguel Relvas no âmbito da licenciatura em Ciência Política. Estes professores defendem a tese segundo a qual «A informação constante do currículo do candidato denota uma elevada experiência profissional», o que justifica o reconhecimento pedido. E como manda o método da falsificação de Popper, procuram testar empiricamente as três hipóteses explicativas que a acompanham.

Hipótese 1: O requerimento do aluno Relvas justifica-se por causa do «exercício de cargos públicos». Neste aspecto, «O currículo do candidato enquanto deputado, garantiu-lhe a aquisição de competências relevantes na área de estudo a que se candidata, Ciência Política, nomeadamente aquelas que dizem respeito [entre muitos outros] ao funcionamento dos sistemas eleitorais». Bastará passar pelos corredores da Assembleia da República para ouvir os deputados a dissertar sobre o método d’Hondt e as vantagens do sistema maioritário a duas voltas em relação ao sistema de voto alternativo. De resto, «No desempenho de cargos governativos, o candidato detém experiência em cargos ao mais alto nível, o que implicou profundo relacionamento com matérias do foro legal». Pode perguntar-se o que faziam os assessores jurídicos a que Relvas teve direito durante o desempenho desses «cargos ao mais alto nível». Mas os Professores Santos Neves e Fialho Feliciano sugerem a resposta: estavam a aprender «matérias do foro legal» com Miguel Relvas. 

Hipótese 2: O requerimento do aluno Relvas justifica-se por causa do «exercício de cargos políticos». A este propósito os autores lembram «O enquadramento de actuação das organizações de juventude partidária em Portugal» e asseguram mesmo que «o profundo envolvimento nessa realidade» pode «promover a aquisição de competências transversais de compreensão do papel de diferentes classes sociais e elites na modelação da sociedade». Infelizmente para Relvas, «a discussão curricular não permitiu, no entanto, afirmar que o candidato possuísse competências no que concerne ao conhecimento mais profundo da teoria do Estado e sua relação com fenómenos de democratização ou revolução». Por não referir a leitura de Marx, Tocqueville ou Skocpol no currículo? Não: isso são referências datadas. A prosa dos sábios da Lusófona é necessariamente densa, mas, fazendo agora de Fátima Campos Ferreira a falar do Higgs, parece-me que o que eles estão a tentar dizer é que a obrigatoriedade do famoso exame de Teoria do Estado, da Democracia e da Revolução se deve apenas ao facto de Relvas não ter estado na Assembleia da República entre 1975 e 1984, período em que podia ter aprendido muito sobre revolução e democratização.

Hipótese 3: O requerimento do aluno Relvas justifica-se por causa do «exercício de funções em domínios empresariais ou de intervenção social e cultural». De facto, «O terceiro domínio de experiência profissional declarada concerne essencialmente ao exercício de funções no domínio empresarial, embora também integre alguma experiência no domínio dos socio-media e de intervenção cultural», destacando-se, neste último domínio, a já conhecida experiência na Associação do Rancho Folclórico de Tomar. Aparentemente, «Para além das competências básicas ao nível da compreensão das organizações, e fenómenos associados que esta experiência acarretou, ela envolveu componentes de internacionalização, nomeadamente no espaço lusófono». Claro que isto não podia deixar de ser valorizado pela Universidade Lusófona.

Altos e baixos

Na coluna dos «altos e baixos» da semana, no Expresso, Martim Silva coloca Cavaco Silva entre «os altos», e não entre «os baixos», que é onde a gente o gosta de ver. Porquê? Porque «No final do ano [Cavaco] insurgiu-se contra os sacrifícios pedidos e sobretudo contra a falta de equidade que o Governo estava a revelar nas medidas. Seis meses depois, prova-se que estava coberto de razão». Num comentador político, ter razão antes do tempo pode ser sinal de inteligência. Num político costuma significar falta de influência. E se esse político for o Presidente da República, pode mesmo ser revelador de omissão grave. Ter razão antes do tempo, é bom em Martim Silva, mas é péssimo em Cavaco Silva.

No ranking semanal de Martim Silva, logo acima de Cavaco Silva, mas atrás da «campeã dos 10 mil metros, Dulce Félix», aparecem então Alberto Costa e mais uns (poucos) nomes, embora mal acompanhados pela referência ao contributo dos «comunistas» que, de facto, não contribuíram com nenhuma das 25 assinaturas necessárias à fiscalização da constitucionalidade dos cortes dos subsídios, e que, como tal, não justificavam tamanho destaque. Como não temos os limites de caracteres do Expresso, aqui ficam registados os nomes dos 25 deputados do PS e do BE, que, pelo alcance da sua iniciativa, talvez merecessem o primeiro lugar nos «altos» da semana, que Martim Silva decidiu atribuir à vitória da atleta Dulce Félix numa corrida de 10 mil metros: Alberto Costa, Ana Drago, Ana Paula Vitorino, André Figueiredo, Catarina Martins, Cecília Honório, Eduardo Cabrita, Fernando Serrasqueiro, Francisco Louçã, Glória Araújo, Idália Serrão, Isabel Moreira, Isabel Santos, João Semedo, José Lello, Luís Fazenda, Maria Antónia Almeida Santos, Mariana Aiveca, Paulo Campos, Pedro Delgado Alves, Pedro Filipe Soares, Renato Sampaio, Rui Santos, Sérgio Sousa Pinto e Vitalino Canas.

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Pode dar mais detalhes?

  • Paulo Pinto

    por acaso, a expressão do "saber só de experiência...

  • Luís Lavoura

    o melhor método que temos à nossa disposição para ...

  • Luís Lavoura

    É preciso um certo cuidado, pois o facto de algo n...

  • Filipe Gomes

    O problema das medicinas alternativas é o facto de...

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

blogs

media