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jugular

bruxelas, 24 de março de 2016

a grande dificuldade de um repórter é destrinçar, no que sente e aprende, o que é dele próprio e do que observa.

não chego a bruxelas como quem nunca tivesse estado em cidades pós atentados. se em paris em novembro já trazia a bagagem de janeiro, aqui chego com toda a liturgia parisiense na memória, as perguntas e respostas em eco. é de mim ou dos belgas, este cansaço triste, este nevoeiro que afasta a emoção? é de mim ou dos belgas esta vontade de silêncio, de dizer - não me perguntem como lidamos com isto, não me perguntem por que isto sucede, não me perguntem como podemos evitá-lo, se podemos evitá-lo'?

talvez tenha sido só acaso que cada pessoa com quem falei parecesse tão perdida, tão sem pistas como eu. que o discurso torrencial dos franceses contraste com a hesitação e contenção dos belgas. mas seria possível reagir ao terceiro atentado nesta zona da europa em orgulho e força? é o terceiro em menos de ano e meio, e o facto de ter sido perpetrado pela mesma célula que o segundo, o de novembro em paris, só adensa a noção de impotência, de fatalidade.

caminhar nas ruas desta cidade com soldados de camuflado, capacete, colete anti bala e máscara, com metralhadoras enormes nos braços, remete-me para imagens de outras reportagens. de há 23 anos em belfast, há 24 anos em jerusalém. quando o horrível passa a ser normal, quando cada saída à rua, cada viagem de metro, comboio, avião é um risco cujo cálculo já integrámos, já nem fazemos.

não vale a pena perguntar se podemos viver assim, porque sabemos que sim: outros vivem assim e muito pior, e vivem. e quando não vivem dizemos-lhes, nas nossas fronteiras, que o problema é deles.

do corporativismo

Há poucas coisas mais estranhas do que a ideia de que uma ocupação ou uma profissão criam um colectivo de iguais, irmanados pelo métier. Por que carga de água as pessoas que escolheram ou aterraram no mesmo negócio ou indústria, decerto pelos motivos mais diversos e com os empenhos mais variados, hão-de ser vistas e verem-se como próximas ou até idênticas, geminadas, nos seus objectivos e atitudes?

 

A ideia está implícita na palavra geralmente utilizada para denominar os que ganham a vida a fazer o mesmo tipo de trabalho: “pares”. Ou seja, a par -- ao lado de, como iguais – mas também em parelha, como que em sintonia e simbiose, devedores de ajuda mútua, compreensão, solidariedade. Tudo bem, é bonito e é basicamente o que se espera de boas pessoas. Em relação a toda a gente, claro, e não apenas às que fazem o mesmo que nós só porque fazem o mesmo. A coisa começa a ficar esquisita, porém, quando nos damos conta de que existe a expectativa de que os tais “pares” se solidarizem ainda que considerem que quem faz o mesmo não o faz exactamente bem ou da maneira que consideram boa, desejável, ou até suficiente – em suma, nem sequer faz o mesmo.

 

Como se terá chegado a essa noção de que sapateiros, camionistas, professores, juízes, polícias, jornalistas, devem estar um por todos e todos por um, cúmplices no bem e no mal, no certo e no errado, como se fossem família, amigos, companheiros de armas – daquele género que diz “nenhum soldado fica para trás”? Como se terá estabelecido a certeza de que é suposto olhar-se para o outro lado perante as faltas dos pares, calá-las e defendê-los por mais que se considere não terem defesa, e nunca nunca os denunciar sob pena de opróbrio? De que forma enviesada e perversa se estatuiu que alguém deve atraiçoar-se a si próprio e àquilo em que acredita, atraiçoar a própria ideia que tem da profissão que desempenha, em ordem de, supostamente, a defender? Quando é que o errado se tornou certo e o certo se tornou errado?

 

Fazer da ideia de “corporação” e da sua “imagem” algo maior que a soma dos indivíduos que a compõem, criando uma entidade a que se dá o nome de “interesse comum” que sobreleva e comprime os imperativos éticos de cada um deles resulta nessa monstruosidade que faz polícias mentirem acéfala e criminosamente por polícias, médicos recusarem testemunhar contra médicos, juízes perdoarem a juízes as faltas que noutros lhes mereceriam pesada condenação. É a ideia dos “nossos” contra os “eles”, do “ou estás por nós ou contra nós”, do “de que lado estás”. A ideia de que quem fala “contra colegas” renuncia à irmandade e deve ser tratado como traidor e pária. Uma ideia contra a qual todos se manifestam – como ideia, claro, e desde que o mal em causa se remeta para “as outras corporações”, mas que na prática quase toda a gente aplica, execrando quem o não faz.

 

Nessa matéria, ninguém é mais judicioso que os jornalistas, sempre vigilantes e denunciantes dos variegados corporativismos, sempre lestos a investigar as cumplicidades e tráficos das outras profissões e profissionais, sempre disponíveis para considerar todos sob suspeita de encobrimento até cabal prova em contrário – mas tão ou mais avessos a apuramentos de responsabilidades ou a questionar procedimentos no seu seio como aqueles que tanto criticam.

 

Espantoso que os que em palavras e sobretudo em actos pugnam pelo mais arreigado e irracional corporativismo não se dêem conta de que ao fazê-lo arruínam aquilo que alegadamente pretendem preservar – a imagem da profissão.

 

Disse estranho e espantoso? Queria dizer deplorável.  

 

 

(publicado na coluna sermões impossíveis da notícias magazine, já não me lembro quando) 

a rtp, o provedor, o gonçalo e o sentido de humor (ena, fez verso)

o provedor do espectador da rtp aceitou a queixa da plataforma feminista maria capaz sobre a promo da rtp da cobertura das comemorações da república e pôs no ar no sábado a peça sobre o assunto.

 

estando em causa uma promo da rtp que a direcção respectiva aprovou (é assim que funciona) e depois decidiu retirar devido aos protestos, o provedor entendeu que as partes a serem ouvidas deviam ser uma representante da maria capaz (rita ferro rodrigues) e o tipo que faz as promos, um tal de gonçalo morais leitão.

 

ou seja, o provedor, que aliás se eximiu de tomar qualquer posição sobre a questão, resumindo-se a uma conversa anódina sobre as obrigações da rtp como serviço público, sem sequer opinar sobre a promo em questão e a sua admissibilidade ou não, nem sequer dizendo que a promo foi retirada (quem veja a peça sem o saber fica sem perceber até quase ao fim que isso sucedeu e muito menos porquê) e o que acha desse facto, achou que não valia a pena incomodar a direcção da rtp, tratando o caso como se se tratasse de uma mera questão de “gosto” ou de “humor” ou falta dele.

 

é óbvio que se se tratasse de uma promo que apelasse à xenofobia ou à discriminação racial ou com base na orientação sexual (aliás basta ver como a rtp se apressou a fazer um comunicado sobre o caso rodrigues dos santos/quintanilha) o provedor acharia que a direcção da rtp tinha de ser ouvida, porque a gravidade do assunto assim o determinaria. mas era só uma promo que banalizava o assédio a que as mulheres são, e desde crianças, submetidas nas ruas portuguesas; era só uma promo que certificava que qualquer mulher, como diz o rapaz das promos, “gosta de ser elogiada”, ou seja, gosta que perfeitos desconhecidos a tratem por tu na rua a comentar-lhe a aparência e se está boa de comer ou nem por isso.

 

aliás, se não gostar, depreende-se da mundividência do tal gonçalo, é porque tem alguma coisa de errado. Porque, como ele diz, “é preciso encarar a vida com humor”. gonçalo, não imaginas como tens razão. não tens a menor ideia (se tiveres alguma, coisa de que se duvida atentando à tua prestação) do sentido de humor, entre outras coisas, que é preciso ter para lidar com idiotas como tu e não passar a vida à estalada. Idiotas a quem não passa pela cabeça que pode ser possível que uma mulher não goste de sentir que os homens acham que se ela sai à rua é porque está disponível para qualquer avanço sexual, e que a sua função na vida é ser 'boa' ou não ser nada. Idiotas a quem não passa pela cabeça o que miúdas de 10, 11, 12, 13, 14 anos são obrigadas a ouvir diariamente de homens com idade para serem pais e avós, e o que isso condiciona a forma como lidam com o seu corpo, com a sua autonomia e com o espaço público. idiotas que acham que fazer claro desde a infância às mulheres que na rua estão sempre em perigo de serem abordadas de forma grosseira, humilhadas, perseguidas e expostas é uma coisa divertida, com a qual é giro fazer piadas. idiotas incapazes de empatia, imaginação, de sair do par de calças mentais em que entraram mal abriram os olhos e que não conseguem por um segundo colocar-se no lugar de quem tem de lidar com essa incapacidade 24 horas por dia a vida toda.

 

idiotas que, aposto, se escandalizam com as burqas e os niqabs (tens todo o ar, gonçalo, de te achares moderno e quiçá defensor dos direitos das mulheres, mas as dos países árabes, claro) e a quem não passa pela cabeça que as burqas e os niqabs foram decretados lá naquelas paragens por motivos que têm a ver exactamente com o que desculpa, banaliza e defende o assédio de rua: a ideia de que a rua é dos homens e que as mulheres sempre que nela se aventuram arriscam ataques sexuais se não convenientemente recatadas e acompanhadas por um dono.

 

idiotas que, aposto, se se tratar da maninha, da mãe ou da namorada ou da mulher ou da filha acham inadmissível que alguém lhes diga aquilo que acham tanta graça, e não concebem que haja quem não ache, que os homens digam às outras mulheres todas.

 

gonçalo, bem sei que não és capaz de perceber mas as mulheres não existem para os homens, não fazem depender toda a sua valia do que os homens acham do aspecto delas e não querem ouvir de qualquer grunho que passe por elas na rua o que pensa do corpo dela ou o que gostaria de fazer com ele. um elogio, gonçalo, é uma coisa muito diferente de um assobio de um desconhecido, de uma boca de um desconhecido, de uma chusma de ordinarices de desconhecidos. um elogio pressupõe respeito e comunicação entre iguais, e o interesse de ouvir como de dizer; pressupõe que as pessoas ou se conhecem ou, no caso de não se conhecerem, se abordam com educação; um elogio não é uma agressão, uma exibição de suposta virilidade, uma imposição e uma afirmação de poder.

 

toda a gente gosta de elogios, nisso tens razão; só te falta perceber o que é e o que não é um elogio. só te falta perceber  que uma mulher tem o mesmo direito que tu ao espaço público, a andar na rua sem ser incomodada; só te falta perceber que tem o mesmo direito que tu a ter cara de parva, ou a ter o rabo gordo ou usar roupa foleira e não ter de o ouvir na rua de todos os homens com quem se cruza. só te falta perceber tudo, portanto.

 

o mesmo, gonçalo, vale para a direcção da estação que aprovou a porcaria de promo que fizeste e o provedor que achou que a queixa não merecia que se incomodasse a direcção da estação ou sequer que ele próprio se dignasse a tomar posição sobre ela. neste ano da graça de 2015, num país europeu que se quer crer civilizado, este é o respeito que as mulheres vos merecem. não é novidade, e cansa ter de o anotar e repetir, e ter sentido de humor para ainda conseguir rir da vossa burrice e insensibilidade, porque, garanto-te, rimo-nos de ti e da tua conversa. porque és ridículo, gonçalo. és limitado, gonçalo. és tonto, gonçalo. o que nos rimos quando dizes 'disruptivo' e 'challenger', deus. que parolo. e, naturalmente, não te importas que to diga assim sem pudor no espaço público, sem nos conhecermos de nenhum lado, como sucede às mulheres ouvir na rua, sem cerimónia, o que perfeitos desconhecidos pensam delas. tenho a certeza de que achas piada. desculpa não dizer nada do teu rabo mas não deu para ver na peça. para a próxima vê se te viras de costas para podermos apreciar e opinar.

 

ver peça do provedor aqui.

 

para patti (e debbie e chrissie)

patti smith é, com chrissie hynde e debbie harry, um dos vértices do triunvirato que elegi, aos 13/14 anos, como meus role models. três raparigas em que a única coisa enganadoramente dócil é o diminutivo e nas quais discerni a atitude que queria também ter, construir, exibir: desafiadora, rebelde, iconoclasta, fast and furious mas também melancólica e auto-irónica, cheia de alma e de guts.

 

da feminilidade agressiva, punk rock'n'roll meets playboy bunny meets dance floor diva de blondie à androgenia pós-hippie de patti, passando pelo streetwise londrino all in leather e o sexy swing de chrissie, pareciam-me congregar todo o glamour e energia e woman power possível. três mulheres entre homens, sempre entre homens, nas capas dos discos e no panorama pop e num mundo em que era raro, raríssimo, ter mulheres a dirigir bandas, e que diziam que querendo podíamos ser -- seríamos -- o front da nossa vida, do nosso gig.

 

em patti, chrissie e debbie encontrei a minha tribo antes de conhecer, em carne e osso, alguém remotamente dela. estas 3 certificavam-me de que algures no mundo havia mais pessoas assim, como eu queria ser, e portanto provavelmente haveria mais como eu -- as miúdas que queriam ter um perfecto encarnado e olhos esborratados a negro como na capa do primeiro álbum dos pretenders, vestir um fato de homem como patti em horses e empoleirar-se numas chinelas de pau, vestido de alças e mãos nas ancas, como debbie em parallel lines. as miúdas que sabiam, queriam, que tudo era/fosse possível, enquanto trauteavam 'it's eleven fifty nine/and i want to stay alive', decoravam because the night do primeiro ao último acorde (ainda hoje o sei de trás para a frente), saltavam sozinhas no quarto na fúria catártica de rock'n'roll nigger e criavam coreografias para heart of glass e brass in pocket. we were special -- oh so special.

 

obrigada, minhas queridas. (e sim, devia estar hoje no porto, mas como não estou escrevi isto: é a minha forma de estar lá.)

filipe silva não é uma excepção, não

é a regra. como a atitude geral dos colegas presentes e da corporação e sindicatos face à evidência demonstra.

 

(e como outros vídeos da noite de domingo -- viram aquele polícia que no marquês se aproxima a correr de um homem de camisola do benfica que caminha descontraidamente e, pelas costas, lhe desfere um pontapé que o desequilibra e de seguida uma cacetada? --, para os quais não há uma palavra da direcção da PSP, da IGAI, seja de quem for com responsabilidade de tutela, a anunciar inquéritos ou averiguações, ilustram).

 

perante a brutalidade sem justificação e a mentira oficializada no auto do caso de guimarães, ambas públicas e sem negação possível, a única preocupação da psp -- e da tutela -- é limitar danos, ocultando-se atrás de procedimentos administrativos e tentando que o tempo traga o esquecimento e permita a impunidade (como sempre, aliás). o simples facto de perante o que sucedeu instaurar só um procedimento disciplinar -- e os outros agentes que colaboraram na brutalização e/ou assistiram impávidos não cometeram também faltas disciplinares/crimes? sério? -- demonstra a intenção de mais uma vez fazer crer que os problemas de desrespeito pela lei e missão da polícia são de 'elementos' e não a cultura da instituição.

 

e no mesmo sentido, para não variar, vai o discurso geral dos comentadores e dos políticos.

 

chegou-se mesmo ao ridículo de incensar um polícia que agarra a criança aterrorizada como se de um acto de heroísmo se tratasse, e não da coisa mais normal do mundo: é um agente das forças de segurança, fez o que seria de esperar de qualquer pessoa -- repito, qualquer pessoa -- e está tudo a falar daquilo de uma forma que só pode querer dizer que da polícia, ou daquele corpo da polícia, não se espera que aja como pessoa normal, como pessoa simplesmente.   

 

não, meus queridos. não. deixem-se de meter a cabeça na areia, deixem-se disso que nos trouxe onde estamos, que é ao facto de hoje, 2015, a polícia portuguesa ter, continuar a ter, um grave problema de brutalidade e impunidade. nunca perdeu os tiques autoritários e militaristas do pré-25/4. nunca se democratizou.

 

41 anos disto, 41. e ainda há -- aliás é o que mais há, e mesmo neste momento de momentânea indignação nacional (viva o futebol por uma vez), quem defenda que exigir que os polícias cumpram a lei e a constituição é 'diminuir-lhes a autoridade'.

 

enquanto assim for, todos -- todos, todos, mesmo todos, como descobriram se calhar no domingo os que acham que se for na cova da moura ou com ciganos, brasileiros, putas, manifestantes, anarquistas e quejandos está bem e só se perdem as que caem no chão, estamos sujeitos à pura arbitrariedade no uso de uma força que investimos e armámos para nos defender.

acordar o acordo, rewindzinho

Não sou propriamente uma entusiasta do Acordo Ortográfico. Na verdade, e confesso-o com alguma vergonha, já que sendo jornalista teria a dupla obrigação de me informar e de me formar, tenho sido uma resoluta ignorante em relação a tudo o que lhe diz respeito. Fiz gala de não querer saber. No Diário de Notícias deram a todos os jornalistas um livrinho com as novas regras: agarrei nele, levei-o para casa e larguei-o em cima de uma pilha qualquer de livros, sem sequer o abrir.

 

As razões deste comportamento são mais ou menos óbvias e abordadas na introdução do primeiro livro que li (realmente li) sobre o acordo, Saber Usar a Nova Ortografia, da tripla Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão: é o vínculo afectivo à língua como a conheço, às palavras como as memorizei, à sua estética e contorno, mas também, admito-o, pura preguiça. Dá-me maçada reaprender grafias, parar para pensar no meio de um texto, hesitar na composição de uma frase. As palavras não se escolhem apenas pelo sentido, mas pelo seu som, ritmo, desenho. Gosto de umas e odeio outras; agora que o Acordo vai entrar em vigor e me verei obrigada a conhecer os seus ditames, odiarei umas mais e talvez me reconcilie com algumas.

 

Percebo muito bem Teixeira de Pascoaes e o seu lamento (a propósito da reforma ortográfica de 1911) sobre o fim do y em abysmo e lyrio, como me revolto por cair o p em Egipto quando, ainda por cima, se mantém em egípcio, ou me arrepio por actor, com c, deixar de o ter, ruptura passar a rutura (e assim se confundir com rotura com o) ou, incompreensível para mim, infeccioso, cujo primeiro c sempre li, ser agora infecioso. E fico irremediavelmente decepcionada por decepção passar a deceção. Sei, claro, que me habituarei: não é a primeira vez, longe disso, que a grafia muda e as pessoas se habituam.

 

Aliás, confesso que não alinho na maioria das críticas que têm sido feitas a este acordo, baseadas em simples e tacanho conservadorismo, em mero oportunismo politiqueiro ou, pior, em nacionalismos inflamados e a roçar a xenofobia que não se ensaiam em falsear os factos para tentar marcar pontos, como quando garantem que facto passará a fato quando – e isso até eu já sabia – é um facto, com C, que as consoantes não mudas não caem. Este tipo de argumentação tem a virtude de me conseguir quase reconciliar com a ideia de que vou levar mais tempo a escrever e a escolher palavras, e que vou franzir muitas vezes o sobrolho durante a leitura, indecisa sobre a correcção do que se me depara. Qualquer batalha contra o obscurantismo me conquista, e tanto mais se temo albergar em mim resquícios dele.

 

Além disso, e descobri-o ao ler este livro que é a

a minha primeira incursão na nova ortografia, há coisas no acordo que me agradam. Muito. Por exemplo, o fim das maiúsculas em várias denominações. Sua feroz adversária e sobretudo da respectiva utilização como certificado de importância e vénia (nunca percebi por que motivo governo, ou presidente, ou cardeal haviam de ostentar maiúscula), aplaudo a novidade com entusiasmo. E constato que há várias outras alterações que fazem sentido, tanto porque não havia já realmente justificação para a anterior grafia, como porque simplificam a escrita e diminuem a possibilidade de erro (e nesse sentido gostaria que se tivesse ido mais longe nos hífenes, sem dúvida uma das maiores complicações da língua portuguesa).

 

Não será alheio a esta minha descoberta o facto do livro em causa explicar, de forma muito simples e fácil de apreender, as alterações, dando delas vários exemplos e não se detendo em justificações muito elaboradas de teoria gramatical.

Talvez porque as autoras saibam que há muita gente como eu, que aprende gramática intuitivamente e não por empinanço, pessoas preguiçosas que só querem que lhes façam a papa e não as macem muito com coisas que, por definição, já as maçam bastante.

 

E pronto: só falta render-me. Ainda não foi desta – nem eu nem o meu Mac instalámos no disco esta nova aplicação – mas lá irá. Iremos todos. Que remédio. Até porque se, como Pessoa, vejo no português a minha pátria, posso dizer, como alguém disse do seu país, a minha língua, certa ou errada.

 

(publicado na coluna sermões impossíveis da notícias magazine de 2 de outubro de 2011)

maria elisa, lina: in memoriam

a minha apresentação do livro do João Bonifácio, sobre o chamado caso Palito (o homicídio, a 17 de abril de 2014, de duas mulheres, tia e mãe da ex mulher do homicida, a tiro de caçadeira. o autor das mortes também feriu a ex mulher, maria angelina, e a filha dos dois, sónia, que se colocou à frente da arma para salvar a mãe).

 

Maria Lina Silva, Elisa de Jesus. Lina e Elisa.

Ninguém conhece estes nomes. Ninguém sabe dar-lhes um rosto, sequer idade. Sabemos só isto: que eram mulheres, e velhas. E que foram assassinadas – na categoria de ex sogra e irmã da ex sogra, respectivamente mãe e tia da ex mulher do assassino.

Desse conhecemos a cara, até o corpo – franzino, baixo, um caganita de homem, como lhe chamam, ou coisa parecida, a dada altura neste livro.

Sabemos o nome e a alcunha, e fomos sabendo coisas díspares, reveladas num dia, desmentidas no outro em manchetes sucessivas que o João Bonifácio relembra, com humor e perplexidade.

A perplexidade do jornalista ante os jornais, e isso que os jornais são hoje e talvez tenham sempre sido (gostamos de pensar que houve uma idade do ouro, mas terá havido?): primeiro matou porque tinha cancro, depois afinal não tinha, etc. Porque tudo andou à volta dele, o Palito – quem é, o que fez, por que fez.

Quando comecei a ler este livro esperava encontrar nele outra história – a destas mulheres que foram mortas. Não porque foram mortas, se é que há mesmo um porquê, e se ele é traduzível, se sequer interessa, esse porquê individual.

Quem eram.

Mas o João, que partiu para esta história por pura vontade de a contar, sem sequer um jornal por trás, inteiramente a suas expensas, financeiras e todas as outras, porque percebeu que havia muito mais nisto que as manchetes imediatistas, voyeurísticas, aflitas, urgentes, de quem tem de dar notícias todos os dias sem notícia nenhuma para dar e apanha a primeira frase que alguém diz para compor um artigo porque tem de sair um artigo e pronto – é assim que as coisas são, garanto – não conseguiu saber.

Porque é difícil pôr as pessoas a falar, porque é ainda mais difícil pôr as mulheres, e numa situação destas, a falar, e a falar com um homem.

Tenho pena.

A única, última, derradeira coisa que se podia fazer por elas, Lina e Elisa, era conhecê-las, marcar-lhes o nome e a história na nossa história, provar que não se pode matar duas pessoas assim, com a caçadeira encostada ao peito, e apagá-las da vida e da memória como se nunca tivessem sido.

Mas, como se costuma dizer, pronto.
Pronto: o livro não é pois a história, ou também a história, destas mulheres. É outra coisa também importante.
A história de um repórter à procura de uma história, a tentar perceber, com tudo o que isso implica e que raras vezes se percebe nas histórias contadas nos jornais: o processo.

O processo de tentar, o processo de ir tentando, de encontrar um fio no meio do que se vê e ouve e sente, e ir puxando por ele até chegar a uma espécie de enredo, uma espécie de mapa, de caminho, até poder dizer: estou pronto para contar isto, mesmo se sei que não sei, mesmo se agora sei mais o que não sei do que não sabia no princípio.

Jornalismo. Jornalismo é assim, não o encontrar a verdade mas saber que a verdade não se encontra, só se procura, e ser capaz de mostrar isso e fazer disso uma história.

Precisamente: “Do princípio ao fim, Trevões é esta relutância em dizer a verdade”, escreve o João.

Trevões é o lugar da matança*, o lugar onde, conta o livro, um homem terá assistido sentado num banco aos homicídios e sorrido; o lugar onde ajudaram o homicida a manter-se escondido e alimentado, acalentado, no quente, o lugar de onde, provavelmente, vieram as pessoas que o aplaudiram como herói à porta do tribunal.

As pessoas que dizem, e de quem um GNR diz, que tendo ajudado o homicida não cometeram crimes porque este ainda não fora condenado e portanto à luz da lei não era um homicida.

Se calhar não interessa muito se é crime ou não do ponto de vista legal, mas não é verdade que não o seja – existe o crime de obstrução à justiça.

Mas o João procura um crime maior: o da violência persistente, aceite, calada, habitual, a que chama doméstica, a que se costuma chamar doméstica, e que o GNR com quem João se encontra no meio da estrada em encontros supostamente clandestinos -- mas à vista de toda a gente, talvez seja essa a ideia, aliás -- lhe define tão bem:

“Isso das mulheres... sabe como é. Terra pequena, não há nada para fazer, chega-se a casa todos os dias e elas estão ali... E não ficam mais bonitas com o tempo. Bebe-se uma pinga e quando se dá por ela já só se fala à chapada. É assim.”

Isto das mulheres.

Isto dos homens.

O que é isto, que, aspas, é assim?

Esta é a pergunta essencial a fazer, a pergunta essencial deste livro.

Um dos capítulos tem aliás este título: os homens aqui são do século xviii.

Como se o problema fossem os homens dali, como se o problema fosse de um tempo outro.

Lamento: não é.

O problema, aliás, não é isso a que se dá o nome de violência doméstica, não só porque isso a que se chama violência doméstica e que geralmente se usa para caracterizar homicídios é a ponta do iceberg, mas porque a violência doméstica abarca toda a violência no contexto relacional dito familiar ou amoroso (passe o paradoxo).

E o problema é mesmo a violência sobre as mulheres, que como o GNR resume é mesmo só por causa das mulheres – por serem mulheres, por estarem ali.

E esta violência não é de Trevões – é de todo o lado, é a violência que, e volto ao início, permite que perante o caso Palito ninguém tenha querido saber quem são, quem foram, a Elisa e a Lina.

A violência que no caso que mais me revolve as entranhas, o da Manuela Costa, 35 anos, em 2009 assassinada também com uma caçadeira – outra vez a caçadeira -- à porta da GNR (outra vez a GNR) de Montemor-o-Velho, dentro de uma ambulância e com a filha de cinco ou seis anos nos braços, a violência que, digo, permitiu que os guardas nem revistassem o ex marido depois de a ter executado, ou o algemassem, quanto mais outra coisa qualquer como mandá-lo ao chão apontando-lhe uma arma, e o levassem para dentro do posto assim à vontadinha, de modo que ele matou um deles lá dentro com outra arma que trazia consigo.

Pensem nisto: um homem executa uma mulher dentro de uma ambulância à porta de um posto de polícia, depois de ela lá ter ido pedir ajuda -- para já, como é que isto pôde suceder? – e ainda vai para dentro do posto a seguir sem sequer ser revistado, algemado.

“Isso das mulheres”, como diz o GNR do João.

Isso das mulheres.

Durante muito tempo pensei que não, que era um erro, uma derrota, uma condenação antecipada, assumir, admitir que esta vitimização existe e é global, que somos todas, à partida, se não à chegada (espero que não à chegada) vítimas de uma coisa maior, global, quase inelutável.

Isso que desde bebés nos remete para um lugar específico, o de ouvir e calar, o de andar e calar, o de comer e calar, nunca responder, nunca levantar os olhos, enfrentar, lutar.

O lugar da vergonha mas também do medo de que fala, no fim do livro, finalmente fala, Maria Angelina, a ex mulher de Palito --

não, tudo sempre assim, à volta de Palito, não,

dizer antes: a filha de Maria Elisa, a sobrinha de Lina.

Ela, a Maria Angelina, a filha de Maria Elisa, a sobrinha de Lina, fala da vergonha e de medo.

De denunciar, de admitir. A vergonha disto – de saber que se é vítima, sem se ter escolhido, sem ter tido escolha.

Falaram-me disso, há umas semanas, e segurem-se nas cadeiras porque vou fazer aquilo que vos vai parecer uma curva apertada a grande velocidade mas é só a mesma, mesmíssima, estrada, miúdas do liceu Camões numa conversa sobre o dia internacional da mulher.

Dizia uma, a Inês, 16 anos: “Desenvolvi uma maneira de andar no metro que não tem nada a ver comigo, tipo rapaz (e faz assim). Porque a minha atitude física determina a dos outros. Já me senti muito mal em transportes públicos e muito assustada e com medo, e desenvolvi esta forma de me mexer e de falar. Porque fisicamente enjoa-me e enoja-me honestamente o tipo de situações a que estamos submetidas. Porque sinto-me muito fraca, e odeio sentir-me fraca.”

Lisboa, não Trevões.

Isso a que se dá o simpático, desculpabilizador, acariciador nome de piropo. Não, decerto, chumbo de caçadeira.

Agora estão a pensar: ela passou-se.

Que tem agora isso, a forma como os homens tratam as mulheres desde crianças na rua, como deixamos os homens tratar as mulheres desde crianças na rua, como fracas, como vítimas, como coisas disponíveis, “sempre ali”, disponíveis para a violência, para tudo, como ensinamos as mulheres a sentirem-se desde crianças sempre como uma espécie de crianças, como ensinamos as mulheres desde crianças a verem os homens, que tem isso agora a ver com mortes, com o desprezo pelas mulheres que o GNR do João tão bem resume?

Tem tudo. Tudo a ver.

Estamos ali, estamos aqui, estamos sempre aqui, e quando se dá por isso, quando damos por isso, e damos por isso até deixarmos de dar, até ser normal, levamos chapadas.

É um processo, a violência sobre as mulheres, como o jornalismo: temos de aprender a vê-la, ser capazes de perceber de onde vêm as mortes, de onde vem o desprezo que mata e a vergonha, a impotência, a noção de fragilidade e vitimização que se deixa matar.

Temos de aprender – nós, mulheres, eu, mulher – que não é por recusarmos ser vítimas que os outros deixam de nos ver como vítimas e nos tratar como vítimas. Que nomear e apontar essa vitimização não é ser fraca: é a forma de a combater, a forma de ser forte.

Que não é fraqueza reconhecer que temos de nos haver, de lutar contra uma coisa maior que nós, uma espécie de destino decretado – que não é vergonha admitir que esse decreto está lá, está aqui, que nos condiciona e que só admitindo que nos condiciona pode deixar de nos condicionar. A nós mulheres, a nós homens.

Porque ninguém, absolutamente ninguém, está livre disto, e nunca estaremos se não percebermos que a luta contra a violência começa a montante, muito a montante, connosco, em nós.

Que o primeiro passo é o de, como os alcoólicos, como os junkies, sermos capazes de nos levantar e dizer:

eu faço parte desta violência.

E só eu, eu, posso fazer alguma coisa contra ela, só eu – eu -- posso quebrar este ciclo.

 

*nota: trevões não é o lugar onde ocorreram os homicídios, é a terra de palito; os homicídios ocorreram em valongo dos azeites, muito perto.

coerente comó milho

estou com pouco tempo e talvez não muita paciência, pelo que vou ser rápida.

 

 

portanto:

 

1.lembro-me bem da primeira vez que me senti como um objeto sexual, na rua. tinha 14 anos e estava a vir da escola,(...) foi mesmo na minha rua, quase a chegar a casa. um senhor bastante mais velho fez um comentário qualquer – não me recordo das palavras exatas (...)';

2. 'o piropo é um companheiro habitual de quase todas as mulheres que circulam pelas ruas do nosso país';

3. 'será que podemos dizer que o piropo é inofensivo? não';

4. 'quando passo por grupos de homens, é também usual que se tornem mais afoitos, passem já para convites ou cheguem mesmo a tentar uma aproximação ou invasão do meu espaço';

5. 'os piropos são desagradáveis e às vezes ofensivos, mas o mais grave é que refletem uma cultura masculina de agressividade sexual e – ainda mais grave – de sujeição da mulher à vontade do homem.'

6. 'mais, os piropos, quando vêm acompanhados de algum encurtamento da distância física, geram medo. podia dizer temor, mas o que se sente, não raramente, é mesmo medo. medo desse bicho papão que é a violação';

7. 'o medo que os piropos geram nas mulheres – medo este que também sinto, claro – é um medo simbólico, irracional, corresponde mais a uma lembrança do que nos pode faltar, a qualquer momento: a esfera de segurança e de conforto que julgamos que os homens disfrutam (o que nem sempre é o caso, aliás, por outras razões)';

8. 'apresenta-se como uma lembrança desagradável e inconveniente da nossa condição de mulheres, da nossa fragilidade, da nossa impotência, caso algum homem decida efetivamente atacar-nos, ali mesmo, no meio da rua. e até pode ser que os piropos encerrem em si, deliberadamente, tais propósitos.'

 

resumindo: o dichote sexual de rua tem (também ou sobretudo) como objecto raparigas muito muito jovens;

acontece a todas as mulheres;

não é inofensivo;

invade o espaço das mulheres e meninas;

reflecte uma cultura de agressividade sexual e de sujeição da mulher ao homem, ou seja, de inferiorização das mulheres;

gera medo;

frisa e simboliza a desigualdade entre mulheres e homens no espaço público;

pode ter o propósito expresso de fazer as mulheres sentirem que no espaço público estão sempre sujeitas à violência masculina, ou seja, de as fazer sentir que no espaço público estão sempre em situação de insegurança e de dependência em relação à vontade dos homens, restringindo a sua liberdade e arbítrio -- ou seja, em situação de cerco permanente.

 

isto assente, as 'conclusões jurídicas':

 

1. 'a palavra “assédio”, antes de ser apropriada pelos juristas, queria dizer o seguinte: “ação que consiste em cercar militarmente uma posição inimiga, geralmente durante um período prolongado ou que se calcula dever durar muito”. isto é, um “cerco” ou “sítio”';

2. 'o termo “harassment”, independentemente da conotação sexual, encontra-se associado a comportamentos repetitivos de forte intimidação, constrangimento ou perseguição. costuma falar-se em “sexual harassment” quando (...) uma pessoa assume um comportamento sexual agressivo, de “sedução” não desejada ou correspondida': '

3. 'poderemos dizer que o piropo constitui uma forma de assédio sexual? a minha resposta é negativa. (...) quanto muito, seria uma espécie de injúria sexual. Porém, como também sou contra a criminalização da injúria – que, aliás, é crime, art. 181º do cp – esta conclusão em nada abala a minha convicção.'

4. 'por que é que podemos incriminar o assédio sexual e não o piropo? Precisamente, porque o assédio constrange e o piropo não.'

5. 'o assédio pode também ficar-se pelo mero uso de certas expressões verbais, insinuações ou sugestões sexuais, quando exista alguma relação de dependência ou de pré-constrangimento. por exemplo, quando a vítima não possa retirar-se da relação sem um prejuízo relevante (como nas relações laborais), ou não possa de todo retirar-se fisicamente (caso esteja num elevador ou num outro espaço fechado do qual não possa sair imediatamente). todas estas condutas que descrevi como assédio merecem ser crime. e são já crime. o piropo não.'

6. 'o discurso da criminalização do piropo é totalitário na sua perspetiva sobre o relacionamento social e contribui para uma visão do feminismo com a qual não me identifico. não parto do pressuposto de que todos os homens são uns alarves machistas ou potenciais agressores sexuais;' 

7. 'não podemos criminalizar tudo o que nos desagrada. tudo o que seja de mau gosto, feio ou ordinário. uma maria capaz não resolve todos os seus problemas gritando pelo irmão mais velho e mais forte, que é como quem diz, criminalizando.'

 

concluindo:

assédio é cerco;

assédio é 'forte intimidação' -- ou seja, é criar medo, e o assédio sexual é quando um comportamento sexual cria medo;

piropo, apesar de, como a autora admite, criar medo e ter eventualmente esse mesmo objectivo, ser um comportamento generalizado e repetido dos homens sobre as mulheres e as fazer sentir inferiores e vulneráveis, não é assédio sexual, seria só injúria (ou seja, atentaria à honra e dignidade, portanto não criando um clima de medo) e a autora acha que a injúria deve ser livre;

o assédio constrange e o piropo não, apesar de a autora ter explicitado longa -- e precisamente -- no mesmo texto o quanto o piropo constrange, pondo a hipótese de ter mesmo sobretudo esse objectivo, o de constranger;

assédio é quando a vítima não pode retirar-se da relação ou do espaço (portanto, na rua não é assédio porque as mulheres podem fugir ou até não sair à rua, ou andar sempe acompanhadas de um homem que as proteja);

assédio é crime -- não, não é, é apenas contraordenação, e para as empresas, quando ocorra no local de trabalho (o assediador pode ser sujeito a processo disciplinar, se a empresa assim entender) -- convinha a autora, que é jurista, informar-se antes de escrever sobre o assunto;

a criminalização do piropo é totalitária, ou seja, é uma imposição que não deixa lugar ao arbítrio individual -- o que deve querer dizer que no entendimento da jurista autora todas as mulheres seriam obrigadas a fazer queixa-crime por qualquer coisa que homens lhes dissessem na rua, o que significará que o assédio sexual não seria apenas crime público -- portanto não dependente de queixa de eventual vítima -- mas obrigatório, e todos os homens que dissessem alguma coisa na rua a mulheres iriam para as galés, ou quiçá para o cadafalso;

a autora não parte do princípio de que todos os homens são uns alarves machistas e agressores sexuais, assumindo, sabe-se lá porquê, que quem defende a criminalização parte desse princípio e não apenas do princípio de que a própria autora explicitou comungar, o de que os homens que dizem dichotes sexuais na rua a mulheres e miúdas agem como alarves machistas e são por estas percepcionados como agressores sexuais, e portanto que, como resulta de mero bom senso, a imputação do crime só se aplicará a quem o praticar;

a autora acha que não se deve criminalizar tudo o que nos desagrada, algo com que toda a gente deve concordar (desde logo, não se deve criminalizar a tolice, por mais que nos ofenda a inteligência, a má fé, por mais que nos pareça desprezível, a ignorância, por mais que seja atentatória da nossa paciência, e a desonestidade, por mais que impeça a qualidade dos debates);

a autora acha também que criminalizar é assim como pedir ajuda aos homens para controlar os homens (esta piada tem tanta mas tanta piada que não vale a pena comentar).

 

enfim. 

 

 

 

 

indigência emergente, ou machete strikes again

lê-se e não se acredita. a indigência intelectual do governo português, e ainda mais do ministro dos negócios estrangeiros,  é conhecida, mas nem um comunicado simples, em condições, sobre um facto tão grave como o do ataque ocorrido em frança, se consegue produzir?

 

ora veja-se:

 

às 13.27 da tarde, hora da postagem do comunicado, já estavam confirmados pelo menos 11 mortos e quatro feridos graves; no ministério dos negócios estrangeiros não percebem francês? não têm lá ninguém que siga as notícias? mas adiante, que isso é o menos.

 

o ataque teve como alvo um jornal e os mortos foram sobretudo jornalistas e caricaturistas. mas o governo português limita-se a lamentar 'a perda de vidas humanas' (para o caso de poder haver vidas animais, ou vegetais, a lamentar); nem uma palavra sobre a liberdade de expressão e o ataque ao jornalismo (às tantas machete, não se sabendo a nacionalidade dos criminosos, pensou 'deixa-me estar caladinho não vão ter alguma coisa a ver com angola').

 

a seguir, esta frase fantástica: 'espera que os suspeitos deste ato bárbaro sejam rapidamente detidos, julgados e condenados.' aqui temos um mergulho resoluto no absurdo. esperam que os suspeitos sejam detidos? 'suspeitos' ??? não quererão dizer os autores? e esperam que sejam 'rapidamente detidos, julgados e condenados'? isto quer dizer o quê, que o governo português acha que a justiça francesa é lenta? e não quer também dizer a que pena os quer ver condenados, já agora? custa assim tanto escrever 'esperamos que os autores deste acto bárbaro sejam rapidamente detidos e colocados perante a justiça'?

 

por fim, a cereja: 'Não havendo ainda indicação quanto à identidade das vítimas, as autoridades portuguesas estão a acompanhar a situação a partir da Embaixada de Portugal em Paris e do Consulado Geral naquela cidade, estando em contacto permanente com as autoridades francesas.' sabia-se à hora do comunicado que tinham morrido dois polícias e o resto dos mortos seriam da redacção do charlie hebdo -- aliás sabe-se disso pelo menos desde as 12.30 hora francesa. portanto o que o governo português, numa demonstração de provincianismo atroz, quer dizer com esta frase absurda, é que pode haver portugueses ou lusodescendentes entre as vítimas, e que acha que deve colocar essa hipótese como relevante num comunicado sobre um ataque terrorista a um jornal na capital de um país europeu, como se da queda de um avião se tratasse. 

 

mau de mais para ser verdade -- e no entanto é. tão mau quanto verdade. 

 

 

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