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jugular

os piparotes

Lembro-me da PàF. Era uma coligação de dois partidos que concorreu às eleições de 2015, que ficou em primeiro e chegou a formar governo. Infelizmente, não teve apoio parlamentar para se aguentar mais que uns dias. Azar da democracia, o ser preciso uma maioria parlamentar a sustentar um governo, ficou o lembrete de, num futuro próximo, o país prescindir de tal pormenor desagradável e inconveniente. Foi-se o poder mas ficou - pensamos todos - a força. A força da PàF, paf, paf, um murro bem assente na irresponsabilidade, no populismo "de esquerda", no facilitismo, nos aprendizes de feiticeiro, no regabofe. A força da responsabilidade governativa, da prudência, do alinhamento com as realidades no mundo atual - leia-se Troika, Comissão Europeia, agências de notação - , do respeito pelos "mercados". Esses novatos, esses bandalhos, esses tolos que iam brincar aos governos e deitar fora quatro anos de reconstituição do respeito internacional e da credibilidade financeira iriam ser vigiados de perto pelo punho cerrado e implacável da razão, da sensatez e da reputação PSD-CDS. Não demoraria muito e não seria muito difícil. Afinal, um PS tosco e inexperiente, refém dos bloquistas e do Jerónimo, cativo das promessas fáceis e eleitoralistas de restabelecer pensões e salários, não tardaria a espalhar-se ao comprido. Uma geringonça. Cá estaríamos todos para dar o nosso soco, à vez, em grupo ou em salmo, naquele espetáculo constrangedor de um primeiro-ministro de sorriso permanente e um ministro das finanças meio tonto. Rimo-nos quando este falou na Assembleia da República, coitado, que tristeza, como foi possível o país ter trocado a dignidade da Maria Luís por este pateta? Punhos aquecidos, ia ser uma festa.

Porém, não se sabe bem porquê, as coisas começaram a correr mal. Estamos há dois anos à espera do grande desastre, o apocalipse já foi anunciado várias vezes mas tarda. Não há estatísticas, uma que seja, que ajude. Emprego, dívida, défice, índice de confiança, investimento, taxa de juro, resgate da dívida, exportações. País surreal este, onde tudo funciona ao contrário. A nossa legião de comentadores, jornalistas, opinadores, especialistas e exímios boxeurs faz o que pode a treinar os punhos, mas é uma frustração nunca passar dos ensaios. Sorte de principiante? Pacto com o Demo? Conspiração internacional? Mesmo tudo junto, não é possível. Agora, o Eurogrupo acaba de escolher o tonto. Assim vai o desconcerto do mundo. Tenhamos fé e esperança, porém, que é da adversidade que se forja a força imparável. De PàF pronta e iminente, acabaremos por derrubar o monstro. De piparote em piparote, muitos, infinitos piparotes.

Pedagogia

comcept.jpg

Comcept – Comunidade Céptica Portuguesa [Diana Barbosa, João Lourenço Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe], Não se deixe enganar – Guia de sobrevivência no mundo moderno. Lisboa, Contraponto, 2017, ISBN 978-989-666-148-9, pref. de Carlos Fiolhais e David Marçal.

 

Pedagogia é uma palavra, infelizmente, cada vez mais mal-amada e olhada com crescente sobranceria nestes tempos em que todos sabem tudo e largam sentenças (em português, “acham”) sobre qualquer coisa. E é uma pena. Ensinar quem não sabe e aprender com quem conhece são duas orientações que deviam nortear a nossa existência neste mundo. Aprender, aprender sempre. Pois eu digo que aprendi muito a ler este livro, e recomendo vivamente (para não dizer ferozmente) a todos que façam o mesmo. Já o fiz, aliás, e mais do que uma vez, quando deparo com determinadas conversas sobre transgénicos ou acerca dos malefícios dos micro-ondas. É um verdadeiro manual de iniciação científica sobre dúvidas correntes que nos invadem o quotidiano, os murais, as notícias e os fóruns. Um verdadeiro guia sobre crendices, mitos, desinformação, temores e terrores da era global, que busca – e alcança plenamente – um único objetivo: informar o que diz a ciência acerca de cada um deles.

O principal mérito desta primeira obra do Comcept é o de conseguir esclarecer evitando juízos de valor ou considerações morais ou religiosas. A homeopatia é uma burla? Não, apenas não tem qualquer fundamento científico (independentemente das intenções de quem a pratica ou recomenda); o mesmo para tantas ideias-feitas, mitos generalizados, práticas “curativas” (alternativas ou não) e alarmes. Vacinas, pulseiras magnéticas, chemtrails, organismos geneticamente modificados, acupunctura, suplementos alimentares, radiações wi-fi, que diz a ciência acerca de tudo isto? Há riscos? Como surgiram e como se propagaram os temores? É tudo falso, vigarice, superstição, engano? Não. Apenas existe – ou não – fundamento científico. Ponto final.

O segundo mérito do livro é o de colocar os pontos nos ii no que é ciência e no que é pseudociência. O que as distingue? Como se reconhece esta última? Que argumentos utiliza? Como se “camufla” e propaga? Que canais privilegia? No final, um pequeno curso de “introdução ao conhecimento científico” e informações preciosas acerca da validade, utilidade e rigor da ciência, os passos que dá, os riscos que corre, os problemas que enfrenta.

O terceiro mérito deste Não se Deixe Enganar é conseguir ir muito além do jargão-científico-para-cientistas, explicando conceitos, dando exemplos e fazendo analogias, conseguindo obter um discurso consistente, fluido e claro, mesmo para leigos (como é o meu caso). Pessoalmente, foi gratificante constatar a forma como sai dos campos tradicionalmente tomados por “científicos” e se aventura nos meandros da História – tantas vezes olhada, como as ciências sociais e as chamadas humanidades, com desdém paternalista tanto por gurus como por aprendizes da ciência - e nos exemplos de “pseudo-história”, como o das pirâmides submersas dos Açores, do yogi de Beja (pp. 138-139) ou da “teoria dos Astronautas Antigos” (pp. 156-159); a história do “Prof. Wilhelm Selhus” e do seu método de “veracidade” (p. 160) é magnífica.

Pelo meio, escrita atraente, clara, concisa, bem-humorada e, sim, divertida. Muito. E interessante, também. O leitor tropeça a toda a hora com pormenores relevantes, enquadramento adequado, informação útil. Por exemplo, eu cá desconhecia a forma como a medicina tradicional chinesa fez a sua aparição no Ocidente e foi promovida por Mao como arma política (pp. 108-109, 117-118). Ignorava igualmente qual a origem da chalaça do “monóxido de di-hidrogénio” (p. 55) ou a história do dr. Ignaz Semmelweis (p. 102).

Agora que estou perto de esgotar os elogios, passo às críticas. Só mais este: rigor de informação, referências em nota de rodapé e em bibliografia final, cuidado em apresentar o quadro mundial e a especificidade nacional. Estas informações são especialmente úteis, entre outras situações, pela evocação da legislação portuguesa sobre medicinas alternativas ou sobre o uso de suplementos alimentares.

Agora é que é. A primeira crítica é muito simples: não gosto da capa e detesto o título. Compreendo as razões que explicam ambos, mas isso não me convence a gostar. Pronto. Segunda: o esquema geral podia ser mais claro e ordenado, porque o que existe presta-se a alguma confusão e sobreposição, sobretudo quando se anda à procura do assunto X e já não sabemos onde está. Talvez um índice final resolvesse o problema. Terceira: há uma insistência em certos temas (movimento antivacinas, medicinas alternativas) e uma predominância da Química; não é grave, mas percebe-se o peso desigual que, por vezes, desequilibra. Por exemplo, quando se fala nas origens da medicina moderna, talvez fosse útil gastar mais uns parágrafos a explicar desenvolvimentos paralelos (a “teoria dos miasmas”, por exemplo). Quarta: há ajustes a fazer em termos de fusão dos conteúdos, porque detetam-se as arestas resultantes do facto de ter sido escrito por várias mãos; exemplo: a saga de Andrew Wakefield (o vígaro que aldrabou o estudo sobre os efeitos da vacina tríplice no autismo, com consequências trágicas) é reportada por duas vezes, nas pp. 68 e 149; um remissivo seria mais útil. Quinta: apesar do louvável esforço em incorporar a História no discurso do texto, há limalhas a aparar; exemplo significativo é o da história do yogi de Beja (p. 139). Para comprovar ou refutar a história, o primeiro passo a dar não é o das “análises de ADN e radioisótopos” sugeridas; isso são passos largos, a dar quando e se se justificar (tanto mais que não devem ser – acho eu – baratas). Em História, começa-se por coisas mais básicas. Fontes e enquadramento histórico que atestassem, sugerissem ou tornassem plausível tal eventualidade são o ponto-chave da questão. Sexta: aconselharia alguns ajustes e maior atenção prestada aos casos reportados, nomeadamente em Portugal. Exemplos: complementar a parte sobre OGM com o caso ocorrido em Portugal há uns 10 anos, com a destruição de um campo de milho transgénico; atualizar e incluir os recentes produtos para a coluna vertebral e dores reumáticas baseados em ímanes, que inundam o espaço televisivo português; também gostaria, confesso, de ver chamados os bois pelos nomes: Calcitrin, Cogumelo do Tempo e outras banhas da cobra afins. Ainda, dois pormenores formais: Francisco Barbarroxa não era “imperador romano do século XII” (p. 160), mas sim imperador do Sacro Império Romano-Germânico (ou seja, autoproclamado herdeiro ocidental do outro) e a expressão correta, em português, para by default não é “por defeito” (p. 200) mas sim “por omissão”, apesar da banalização da tradução literal. No final, há uma sensação de “saber a pouco”, mas trata-se certamente de uma impressão pessoal. Há questões que sempre me intrigaram e que gostaria de ver abordadas com maior pormenor. Exemplo: a permeabilidade às banhas da cobra (seja o calcitrin, seja a astrologia) é transversal, não depende de grau académico ou de estrato socioprofissional; um político sabe que os seus votos não dependem da posição dos astros, mas pode recorrer à homeopatia; um médico sabe qual a eficácia das vacinas mas pode viver condicionado pelas informações acerca do ascendente do seu signo.

Carl Sagan é mencionado mais do que uma vez. Eu recordo-o também, tanto na série Cosmos como, principalmente, num depoimento que proferiu acerca das teorias “dos Astronautas Antigos” que viam pistas de aterragem (extraterrestres) nas célebres Linhas de Nazca. Disse ele: “atravessam a galáxia, percorrem anos-luz pelo espaço sideral, e ao chegar à Terra, que vemos, Hurricanes? Spitfires? É inacreditável que “eles” precisassem de pistas de aterragem”. Vi isto quando era adolescente e nunca me esqueci, uma lição básica de ciência em duas frases. E desde então percebi que a divulgação do conhecimento científico é um fator essencial para a a erradicação da ignorância. Este trabalho da Diana, do João, da Leonor e do Marco, que deveria ser presença obrigatória em casas e escolas e um best-seller em vez de tanta trampa que se vê por aí, é um excelente contributo para esta causa.

Transparências, olhares e cartões da História

Na mais célebre telenovela brasileira exibida em Portugal, figurava um personagem singular, o dr. Argileu Palmeira, cuja marca distintiva era a declaração pronta e inevitável, quando interagia com alguém, de um “já lhe dei o meu cartão?”. No dito podia ler-se, entre outros méritos, um impressivo “autor de seis livros consagrados pela crítica”. Lembrei-me do dr. Argileu Palmeira ao ler as crónicas que João Pedro Marques (JPM) publicou desde abril passado. A mais recente é uma alegada réplica ao que escrevi no Público dois dias antes. Diz, entre outras coisas, que lhe “dediquei um texto crítico” e que é minha intenção “arrancar a conversa do campo da História e arrastá-la para o campo desprotegido da memória”. São ambas incorretas: contestei JPM num parágrafo porque é a voz que mais tem insistido num certo argumentário e não “arranquei” nem “arrastei” “conversa” nenhuma; o máximo que posso ter feito é tê-la criado, porque até esse momento, tanto quanto percebi, não passava de um monólogo. Confirmei, sim, que, ao fim de seis crónicas mais ou menos redundantes, JPM continua atolado a lançar dúvidas sobre a credibilidade dos que dele discordam e a escorar as suas posições na aspersão repetida do mesmo repelente para afastar esses mosquitos incómodos: os livros que escreveu, os artigos que publicou na imprensa, o tempo que dedicou ao estudo e, recentemente, os milhares de leitores que terão lido o seu romance histórico. Sim, JPM já nos deu o seu cartão.

A História é, certamente, a mais singular das ciências sociais (ou humanidades, se se preferir). Mais do que por qualquer outro traço ímpar – e vários se lhe podem apontar, a começar pela contradição entre a sua aparente inutilidade prática e a sua permanente evocação – esta singularidade decorre do facto de se debruçar sobre um objeto ausente. A História estuda o passado, e o passado desapareceu. Já não existe. Não pode ser recriado, repetido, ensaiado ou testado. A História não passa de uma aproximação imperfeita e lacunar, de um conhecimento construído a partir do que resta desse passado. Há muito que se perceberam as limitações desses restos – as fontes históricas – e desde o século passado que se debatem as condicionantes de quem os interpreta e estuda, ou seja, os historiadores. Numa palavra, não só não há fontes “transparentes” como também não existem historiadores “isentos”, porque a cada um corresponde um determinado olhar, uma certa perspetiva, um dado discurso. É por isso que o conhecimento histórico evolui cumulativamente e que a História de hoje difere da que se fazia no tempo de Alexandre Herculano ou de Fustel de Coulanges.

A estas limitações e “filtros” que moldam a nossa visão da História juntam-se as idiossincrasias da memória coletiva, as imagens identitárias que cada povo constrói do seu próprio passado e do passado alheio. As apreciações de JPM sobre História, memória e verdade, isolando-as em compartimentos estanques, não passam de simplificações grosseiras. Um historiador deve ter – se não tem, é grave - consciência das limitações do seu olhar sobre o passado, porque este não escapa à lente deformadora das preocupações e tensões do seu próprio tempo. Isto não tem nada a ver com “isenção” ou com “coisa séria”, com “comícios” ou com “demagogia barata” que, segundo JPM, separam a História da memória. Dizer que a História “serve para dizer aos cidadãos o que é verdade e o que é mentira” é cair na falácia de pensar – ou de tentar fazer crer – que o passado é um tubo de ensaio de vidro transparente ao historiador, que revela o seu conteúdo “a quem quiser saber”. A História não tem sentinelas nem guardiões, apenas observadores críticos.

JPM talvez não aceite as minhas posições – uma vez que, segundo o seu juízo, serei mais adepto de comícios, não sou um especialista nesta área nem no século XIX, nunca escrevi sobre este assunto e desagrada-me chamar a História para debates sobre factos do passado – mas talvez Jacques Le Goff e o seu Memória e História possua um patamar de autoridade que eu inegavelmente não atinjo. E, de caminho, quem sabe se a leitura de Marc Ferro e do seu Comment on raconte l’Histoire aux enfants (traduzido com o péssimo título de Falsificações da História, quando o correto seria “Como é contada a História às crianças”) dê algumas pistas sobre os mecanismos de truncagem da memória coletiva e a cristalização e replicação dos preconceitos identitários. Em particular, talvez ajude a responder à pergunta do “para que serve o debate” que proponho – eu e outros – sobre passado colonial e memória coletiva. Apenas servirá para “substituir uma mitologia por outra”, como diz JPM? Creio firmemente no inverso, ou seja, que servirá para revisitar todo o rol de ideias-feitas e estereótipos sobre a nossa história colonial/ultramarina, conhecer as ligações adormecidas entre o passado e o presente e compreender melhor a nossa relação complexa – de ontem e de hoje – com africanos, asiáticos e americanos. Algo que, diga-se, só peca por tardio.

(no Público de sábado passado)

Torres de marfim e poeira amnésica

Quem visita o Museu da História do Povo Judaico, em Tel Aviv, depara com uma parede onde consta uma única palavra, em alto-relevo: “Remember”. Nem sempre a História é encarada desta forma, ou seja, de que não envolve apenas o passado mas também o olhar que lançamos sobre esse passado e a memória que dele perdura. De facto, e tal como a individual, também a memória coletiva é construída a partir da retenção seletiva e acumulada de imagens e perceções, de narrativas e elaborações teóricas, emocionais ou afetivas organizadas num determinado sentido. Cada país, cada povo possui os seus mitos fundadores, os seus heróis e avatares, as suas referências identitárias. E, também, os seus fantasmas e vazios. Portugal, como é evidente, não é exceção.

Porém, a relação dos portugueses com o seu passado não é fácil, sobretudo com o seu passado ultramarino ou, se preferirmos, colonial. É uma memória inquieta, insegura e ambivalente, que deambula entre uma mitificada “idade de ouro” de grandezas passadas, um traumático fim do império, uma euforia europeísta e um desencanto com o presente. O traço dominante desta relação é um véu diáfano de poeira amnésica que cobre vazios e sombras, sedimentado por uma tradição enraizada de autoelogio ideológico em torno de um pioneirismo civilizador nos “Descobrimentos”. Os portugueses nunca fizeram o balanço do império, muito menos o luto e a catarse do seu fim abrupto.

Ocasionalmente, este torpor sofre abalos. O mais recente ocorreu há meses, no rescaldo das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Gorée que refletem os estereótipos dessa amnésia: a evocação de um alegado “pioneirismo” – mais um – de Portugal na abolição da escravatura, como reflexo da sua “vocação humanista”. A reação às suas palavras traduziu-se, fundamentalmente, num apelo a um debate aberto - e livre das velhas retóricas - sobre a nossa memória coletiva do período colonial e, em particular, do tráfico de escravos. Esta intenção foi de imediato contestada na imprensa e nas redes sociais, com várias justificações: 1. que se trata de um passado remoto e de um assunto resolvido; 2. que não há qualquer justificação ou utilidade em remexer e reavivar esta questão; 3. que quem o faz é movido pela ignorância ou por uma agenda ideológica; 4. que se trata de uma questão de História e, portanto, deve ser deixada aos especialistas.

O historiador João Pedro Marques (JPM) tem sido a voz mais persistente na defesa destes argumentos. Além de redundantes – não é por repetir uma mesma ideia que ela ganha validade – as posições de JPM são particularmente frágeis, ironicamente, onde o autor as julga mais sólidas: na História. JPM é um reputado historiador, algo a que o próprio não se esquiva de repetidamente relembrar e que eu, naturalmente, confirmo. Muito haveria e há a dizer sobre os dados históricos e o quadro explicativo que apresenta nos seus textos. Mas JPM falha, precisamente, por se limitar à História e “blindar” o seu raciocínio com a sua própria autoridade como historiador. Logo que sai da História, resvala para a apreciação grosseira, nomeadamente com um traçado caricatural e estereotipado de quem insiste na pertinência deste debate: “flagelantes que têm uma névoa política e ideológica no olhar”, “ingénuos bem-intencionados”, “académicos engagés” ou “jornalistas de causas” com “reivindicações (…) ideologicamente engatilhadas”, todo um submundo intelectual acima do qual JPM julga planar, isento e seguro com o peso do seu mérito académico.

Na minha opinião, trata-se de um erro e de um equívoco. Na realidade, o debate que urge fazer não é no plano académico ou histórico, mas sim no da opinião pública e da memória coletiva; não é no da discussão do passado, mas da nossa perceção dele, hoje; não envolve o esgrimir de argumentos entre historiadores – algo que já foi e continua a ser feito -, mas o despertar do interesse geral para o tema. Que tema? Este: que a memória dos portugueses enquanto povo permanece truncada no que diz respeito ao nosso passado colonial, ofuscada por “descobrimentos”, feitos, heróis, pioneirismo, brandos costumes e excecionalismo no que toca à relação com outros povos; e que essa memória truncada tolda o nosso entendimento do presente e impede-nos de debater com clareza e sensatez – primeiro passo para enfrentar de modo aberto e descomplexado – velhas questões enraizadas, como a existência de problemas raciais em Portugal. As reações aos recentes eventos na Cova da Moura ou às declarações de um candidato autárquico mostram que temos ainda um longo caminho a percorrer neste sentido. Esse caminho só será possível de trilhar por via de um debate alargado, onde os historiadores e o mundo académico desempenhem um papel fundamental mas não exclusivo, precisamente porque a restrição destes assuntos à esfera académica e às suas “torres de marfim” permanece há muito tempo – demasiado tempo – um hábito e uma prática em Portugal.

(publicado no Público de ontem)

Descubra as diferenças (final)

W. Clode, médico contemporâneo de Gentil Martins, publicou na Revista da Ordem dos Médicos (ROM) um artigo onde comparou a homossexualidade ao daltonismo. Reagi assim, na ROM, pedindo responsabilidades à publicação médica - não se tratava de um órgão de comunicação social generalista, Clode não estava a dar uma entrevista de vida, no IPO, Clode não era um decano da medicina nacional. Mais, Clode não era reincidente.

 

Quanto a Gentil Martins, aqui decidi não tomar conhecimento e aqui optei pela ridicularização. Desta vez, porque achei que os dislates clínicos e deontológicos já ultrapassavam o razoável, pelo conjunto de razões que já aqui referi e porque me pareceu que a convicção de impunidade era absoluta e insustentável, mal li a sua entrevista ao Expresso da semana passada pedi a atenção da OM e em especial  do bastonário ("linquei" Miguel Guimarães num post que coloquei num grupo fechado a médicos, no FB). Nada que a OM não tivesse feito recentemente com outros clínicos – aqui e aqui, por exemplo.

 

PS:Já tendo apelado à deontologia de outras classes profissionais, e à sua Ordem, estranho seria não o fazer agora, a bem da minha coerência.

Descubra as diferenças (I)

"Ana", 14 anos, morreu em 2005 por complicações de um aborto provocado sem acompanhamento clínico.

 

"O que é a morte de uma mulher comparada com a morte de 20.000 crianças", comentou Gentil Martins num debate público sobre o Referendo em 2007, enquanto apoiante do "Não".

 

Isto, que é uma barbaridade, é uma opinião - uma opinião bárbara, no meu "barbaritómetro" a maior que o senhor já disse, mas uma opinião. Não lhe pedi justificações deontológicas, não tinha de pedir.

Que triste, que grave.

Que triste é ver um médico que não sabe que uma entidade nosológica se sustenta na semiologia médica, que para definir uma doença (ou perturbação) é necessário existir uma hipótese etiopatogénica, uma clínica, um curso, um prognóstico e uma proposta de abordagem terapêutica, que a Organização Mundial de Saúde tem um instrumento, que revê amiúde, chamado International Classification of Diseases (ICD) que abarca todas as especialidades médicas, nas quais se inclui a Psiquiatria. Que triste é a ignorância, que grave é a ignorância clínica num médico e a sua terrível contribuição para a tão desejável literacia em Saúde.

 

PS1: o português também não é o seu forte, eu ajudo. A frase foi "Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la" (à pessoa, no contexto desta frase).

 

PS2: obrigada pelo cumprimento do formalismo, sendo docente académica não sou doutorada e, portanto, sou professora mas não Professora. Tenha havido pelo menos alguma réstia de honestidade e de verdade em toda a sua prosa, Sr Dr. Luís Carvalho Rodrigues.

"gentilmartinização e preconceito", um texto do Alexandre Camões Barbosa

Certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos e deparou-se na sua cama metamorfoseado em Gentil Martins.

 

Há muitos que acham que o Dr. Gentil Martins "apenas" expressou uma opinião, que não reflecte a sua posição enquanto médico.

 

Vejamos, exactamente, qual a declaração:

"Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade."

 

Isto trata-se, vá, para efeitos de argumentação, de uma "opinião", proferida por alguém, que é um médico reconhecido, num dos jornais de maior tiragem de Portugal.

 

No entanto, se substituirmos exclusivamente a palavra "homossexual" por "mulher" ou "preto" ou "cigano" ou "católico" ou "judeu", não alterando substancialmente a afirmação, mas apenas o sujeito da apreciação, parece que já temos um crime público, a julgar pela leitura do artigo 240 do Código Penal.

 

Quer dizer, seria crime, não se fosse dita à mesa da taberna, mas expressada por exemplo, vá, num dos jornais de maior tir... ah!

 

Por acaso, aquele mesmo artigo que torna crime a divulgação pública de "opiniões" daqueloutro teor, também consagra a protecção da orientação sexual, ao criminalizar a incitação ao ódio e à violência que a tenha por base.

 

Chegamos a um ponto, parece, em que a mesma afirmação pode ser condenada pelos nossos colegas apologistas do "direito à opinião" se tiver umas palavras, mas não outras, embora à luz da CP isso não seja bem assim.

 

Portanto, parece que a justificação para a não condenação das afirmações públicas do Dr. Gentil Martins se fundamentam, aparentemente, em duas ordens de razões.

 

Primeira, porque é o Dr. Gentil Martins, porque tem 87 anos, porque ganhou estatuto de senioridade, e aparentemente isso torna-o impune aos olhos da lei - portanto, o professor está acima da lei...

 

Segundo, porque se trata da homossexualidade, esse alvo fácil, e a nossa mentalidade colectiva machista ainda não absorveu que a discriminação com base na orientação sexual é tão grave como a discriminação com base na raça, no sexo, na etnia e na religião. E, se este ponto é verdade, então trata-se, verdadeiramente, de um "estupor moral", para usar a própria expressão do professor.

 

Ambos os motivos são, obviamente, inválidos.

 

Por outro lado, do ponto de vista deontológico, o médico não passa a ser "pessoa privada" quando quer, como se tivesse um botão "on-off", quando fala publicamente. O Dr. Gentil Martins foi entrevistado enquanto médico, não enquanto "pessoa privada", apesar da "magnanimidade" que mostrou ao informar que tratou e trata homossexuais "como outra pessoa qualquer".

 

Portanto, quando fala publicamente é reconhecido como médico, e, por isso mesmo, interpretado pelo leitor como médico.

 

Que se saiba, o Dr. Gentil Martins não tem uma metade de cérebro médica e outra metade "privada", ou uma personalidade Dr. Jekyll e outra Mr. Hyde. Por muito que se queira separar as coisas, quando fala, fala pelos dois. E responde pelo dois.

 

Existe um corpo de conhecimento na Medicina, que vai evoluindo ao longo dos séculos e que é independente da nossa opinião.

 

A preocupação relacionada com a correcta aplicação prática desse corpo constitui a Deontologia. É nosso dever deontológico respeitá-lo e veiculá-lo publicamente.

 

Quando o Dr. Gentil Martins faz afirmações contrárias ao estado da Medicina actual, na qual a homossexualidade é entendida como uma variante normal das orientações sexuais, incorre numa falha deontológica, para além de poder incorrer num crime público de incitação ao ódio, como se viu.

 

Pedia-se que, no alto da sua senioridade, o Dr. Gentil Martins já tivesse percebido que quando se manifesta em público devia moderar o que diz e como diz.

 

Pois as consequências estão à vista e bem presentes neste fórum: agitação social, discriminação disfarçada de "opinião" e, esse sim, estupor moral e deontológico.

 

Ah! e uma horda de fariseus que rasgam as vestes pelo "direito à opinião", sem perceberem que estão na verdade a propalar o direito ao crime.

 

Alexandre Camões Barbosa, médico

75 anos de Vel d'Hiv

Quando, em abril deste ano,  Vel d'Hiv entrou na campanha eleitoral para as presidenciais escrevi no meu facebook introduzindo o descurso de Chirac em 95,

 

«Não é preciso ter vivido em França para se ter a noção da forma complicada como a memória coletiva do país lida com a 2ª guerra. Gostam de se imaginar como uma "nação de resistentes" e, por isso mesmo, o Vel d'Hiv é talvez aquilo que mais lhe fratura a narrativa heróica. 

É muito interessante observar a forma como, no discurso polítco, se lidou com os acontecimentos de 16 de julho de 1942. Durante muito tempo não se falou do tema. De Gaulle, mais tarde reforçado por Miterrand, "resolveu" o assunto considerando que era responsabilidade do regime de Vichy e que este não representava verdadeiramente a França. Só em meados da década de 90 e pela mão de Chirac se muda de agulha e se assume que França é responsável (com uma pequena nuance muito interessante, é ao "estado francês" e "a franceses"e não a "França" e "aos franceses" que são imputadas responsabilidades). 
O discurso de Chirac nessa altura é muito interessante, tem tudo aquilo que é mito nacional - a pátria dos direitos humanos, etc, etc, insistindo na ideia de poucos franceses colaboracionistas - mas, pronto, há uma rutura clara com a forma oficial com que se lidava com aquela dolorosa memória (não por acaso, um dos que mais esperneou com isto foi Le Pen pai). Ah! Pormenor não irrelevante, o discurso de Chirac que fez a diferença aconteceu durante a guerra da ex-Jugoslávia.»

 

 

Hoje apetece-me mostrar Miterrand, é o exemplo perfeito de uma certa estratégia - "escapista"? - de lidar com a "memória nacional".E esta estratégia lembra-me tanto acontecimentos recentes em Portugal.

 

Adenda: o testemunho de Arlette Testyler, uma das crianças sobreviventes "On a été arrêtées à 5 heures du matin, on est venu nous chercher comme si on était des criminelles, c’était très bien organisé, très bien orchestré."

 

Adenda 2: Já depois de ter escrito este post Macron falou nas cerimónias do 75º aniversário e acabou de fechar o círculo, é a primeira vez que um presidente fala em "a França". 

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