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A deserção como escolha ética, por José Queirós

Num post anterior, desafiei à discussão sobre a atitude de deserção durante o período da guerra colonial. Um amigo com o qual tinha falado sobre o assunto,  no Porto, José Queirós, enviou-me este texto. Como me reconheço nele, publico-o como mais um contributo para a discussão sobre o tema.

 

«A deserção como escolha ética

Julgo que o tema da deserção merece estudo e debate. Ele enquadra-se, aliás, no tema mais geral dos diferentes posicionamentos das oposições à ditadura portuguesa face à guerra colonial.

Na minha opinião, algum silêncio que nestas quatro décadas se abateu sobre a importância histórica da deserção maciça nos últimos anos da guerra não poderá ser desligado do facto de se tratar de um tema incómodo para sectores da oposição tradicional (com posições ambíguas sobre a questão colonial), do PCP (que se opunha à deserção dos seus militantes) e dos militares vencedores de Abril (que tinham feito a guerra, antes de darem a contribuição decisiva para o seu fim). Sem falar da direita política, uma parte da qual verá ainda hoje na deserção uma "traição à pátria".

A história que (espero) venha a ser feita o dirá, mas parece-me claro que não deve continuar a ser desvalorizado o papel muito significativo que a recusa maciça dos jovens portugueses (refractários e desertores) em participarem na guerra nos últimos anos do Estado Novo teve no enfraquecimento do regime, no desgaste das tropas coloniais e na perda de legitimidade externa do regime.

Conheço o argumento contrário, segundo o qual a ida para as colónias de oficiais milicianos oriundos das universidades politizadas da época ajudou a acelerar o descontentamento no seio das Forças Armadas e a dar-lhe algum enquadramento político contra o regime, contribuindo assim para a vitória da rebelião militar de Abril de 1974. Haverá nisso uma parte de verdade, mas que não deverá ser sobrestimada. Julgo que, com ou sem esses putativos agitadores, o descontentamento provocado pela perpetuação da guerra no seio da oficialidade intermédia e os outros factores que se conjugaram para a queda da ditadura estavam de qualquer forma em marcha acelerada.

Em qualquer caso, e independentemente de considerações políticas e estratégicas ou mesmo de (re)avaliações historiográficas, convirá ter presente que a posição perante a guerra e a deserção colocava  uma questão ética incontornável aos jovens que então defendiam  a legitimidade e a justeza histórica da insurreição anti-colonial dos nacionalismos africanos. Incontornável mas divisiva, como se viu nas posições a esse respeito contraditórias das várias forças oposicionistas que nos últimos anos do Estado Novo se afirmavam, com maior ou menor clareza, contra a continuação da guerra.

Essa questão ética (o dilema de desertar ou participar na guerra) colocava-se de forma inescapável  aos jovens do sexo masculino em idade militar dotados de uma consciência anti-fascista e anti-colonialista. Não era possível, não era moralmente sustentável, apoiar a causa dos movimentos de libertação e ao mesmo tempo pegar em armas contra eles. Era aliás clara, a esse respeito, a posição dos próprios movimentos africanos, que apelaram à deserção dos soldados e oficiais portugueses e sempre saudaram as iniciativas nesse sentido.

Pessoalmente, estou certo (e julgo que a boa historiografia tenderá a confirmá-lo) de que a atitude abertamente anti-guerra e pró-deserção defendida e praticada, nos anos finais da ditadura, pela generalidade da chamada extrema-esquerda, e em particular pelos chamados movimentos maoístas, bem como por muitos jovens sem filiação partidária, contribuiu nessa época, de modo decisivo, para o fenómeno do rápido crescimento dessas forças entre a juventude, em detrimento, nomeadamente, da influência do PCP.

Entre os que então apelavam à deserção existiram, naturalmente, algumas diferenças de ordem táctica. A organização a que ambos pertencemos nesse tempo defendeu (e praticou) para os seus militantes e simpatizantes do sexo masculino a ida para a tropa (com excepção dos que ingressavam antes na clandestinidade), seguida de deserção, sempre que possível com armas. E apelou à deserção de todos os jovens em idade militar, apoiando e procurando organizar também aqueles, certamente a maioria, que simplesmente davam o "salto" e escolhiam o exílio para não terem de ingressar na tropa colonial. Hoje, a décadas de distância dos meus pressupostos ideológicos de então, continuo a entender que essa era, para um anti-colonialista, a única opção eticamente aceitável. E, para um anti-fascista, a posição mais acertada e útil.

E acho que é importante reafirmá-lo hoje, quando se ouvem vozes a falar da "cobardia" das muitas dezenas de milhares de refractários e desertores que recusaram fazer a guerra e partiram para o estrangeiro. "Cobardia" de quem assim corria importantes riscos pessoais, de quem cortava com projectos de vida, com a família e a comunidade, muitas vezes com a actividade profissional ou os estudos, sem saber se um dia poderia regressar ao país sem ser perseguido e preso, pois ninguém sabia até quando duraria a ditadura? Pelo contrário, a deserção deverá ser vista como demonstração de coerência e de coragem de quem se opunha, no plano individual, a uma guerra indefensável. Repito: não era possível nem sustentável no plano ético declarar apoio aos movimentos de libertação e ao mesmo tempo pegar em armas contra eles.

José Queirós»

 

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