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Esmiuçando uma entrevista

Questionado sobre se estava preocupado com a greve marcada para 8 e 9 de Julho, Leal da Costa responde que "Uma greve é sempre desagradável, mas o sector da saúde nem tem sido muito assolado.". Pois eu cá acho que desagradável - e grave - é ter um secretário de estado, médico, que responde ao lado e de forma displicente à pergunta que lhe foi formulada. Claro que o anúncio de uma greve dos médicos é preocupante, desde logo, como o senhor bem assinala, porque os médicos não têm por hábito avançar para a greve por dá cá aquela palha, quando o fazem é porque foram esgotadas outras possibilidades de resolução dos problemas.

 

Não vale a pena poluir a opinião pública nem tentar dividir os médicos com a insinuação de que está a haver uma manipulação "políticopartidária" da situação e assim justificar a marcação desta greve pela FNAM. Os médicos estão zangados, sim, e tristes, e preocupado. Não houve qualquer acordo, existiu um processo negocial "esquecido" pela tutela. Falar de "paz social" neste contexto, depois de nem sequer se ter assumido preocupado com a greve, seria risível se não fosse  muito grave.  

 

Errado e falso, outra vez, é a maneira como renomeia a Ordem dos Médicos: o terceiro sindicato. De certeza que, como médico, Leal da Costa conhece o "Memorando de Exigências" apresentado pela OM - basta procurar no portal oficial - e só por pura desonestidade dirá que está perante um conjunto de assuntos sindicais. Mal estaria a Ordem se se ficasse por um papel "éticonormativo". Mas pensando melhor, talvez seja porque existe esse desejo que a vergonhosa proposta de alteração dos Internatos Médicos elaborada pelo Ministério da Saúde tanto minimizou a OM no que às decisões sobre idoneidade formativa, por exemplo, dizia respeito.

 

 

Mas a que me encanitou até à medula foi mesmo Leal da Costa reduzir o que aconteceu no Hospital de S. João -  "Asfixia burocrática, subfinanciamento, equipamentos obsoletos e falta de material ditam demissão em bloco no Hospital de São João" - a "uma critica à burocracia". Estamos conversados.

 

Mais uma que se não fosse grave era pura ignorância: comparar a passagem de certificados de incapacidade temporária com actividades de medicina do trabalho. Acontece que é impossível um qualquer médico, por mais medíocre que seja, não saber que (1) os certificados de incapacidade temporária para o trabalho por doença - para os leigos "as baixas" - podem ser passados por qualquer médico, não são uma particularidade do trabalho dos médicos de medicina geral e familiar; e (2) que comparar a passagem de um certificado de incapacidade temporária com as competências da actividade de medicina do trabalho é pura demagogia e má-fé. Como escrevia aqui o André Nóbrega há uns dias "lembro a recente notícia de que o Ministério da Saúde queria tornar algumas consultas de Medicina do Trabalho em responsabilidade do médico de família. Ora, não bastasse o tamanho da lista, as dificuldades informáticas intermináveis e agora até a vontade de obrigar os médicos a fazer mais consulta no próprio dia, ainda se pretende impor mais uma tarefa aos mesmos. O pior desta pretensa medida é o facto de termos médicos especializados em medicina do trabalho, cuja formação está a ser totalmente desrespeitada.".

 

A bem da minha saúde mental vou interromper, pelo menos para já, este esmiuçar da entrevista. Deixo-vos abaixo a parte que vinha em caixa no Público e aqui o link para o resto.

Há uma greve de médicos marcada para 8 e 9 de Julho. Está preocupado?

Uma greve é sempre desagradável, mas o sector da saúde nem tem sido muito assolado.

 

Os médicos têm razão para estarem zangados?

Não diria isso. Há um sindicato que, violando um acordo que pressupunha a existência de paz social, entende que tem razões suficientes para fazer greve. Parece-nos ser uma decisão essencialmente motivada por razões de carácter politicopartidário.

 

Mas os dirigentes da Ordem dos Médicos também alegam que não têm razões para confiar no ministério, porque as promessas feitas não têm sido cumpridas.

A Ordem dos Médicos não é uma organização sindical, tem havido alguma confusão. Em particular, alguns dos seus corpos dirigentes têm tido uma deriva sindical, o que significa que o país passou a ter três sindicatos médicos [em vez de dois]. Mais preocupada em fazer trabalho de natureza sindical, tem abandonado o papel éticonormativo que lhe compete.

 

O que aconteceu no Hospital de S. João (Porto), uma unidade modelo em que as chefias pediram a demissão em bloco por falta de condições
de trabalho, não é um sinal claro de que há muita coisa a funcionar mal?
Convirá não fazer análises demasiadamente simplistas. O que aconteceu [ali] foi a necessidade de se fazer ouvir o descontentamento, foi uma crítica à burocracia. A máquina do Estado ainda é lenta.

 

Quer dizer que temos Estado a mais?
Não, temos é Estado lento a mais.

 

Além do Código de Ética, em que já houve um recuo, os sindicatos e a OM contestam o despacho que pôs os médicos de família a fazer medicina do trabalho.
Há um conjunto de reivindicações que não são suficientes para justificar uma greve, é fácil encontrar um entendimento. Com a medicina no trabalho, o que se pretende é a prestação de cuidados a um grupo específico de trabalhadores que não tem acesso a esse tipo de serviços.

 

Mas os médicos de família dizem estar já assoberbados com trabalho...
Os médicos, da mesma maneira que já emitem certificados de incapacidade para o trabalho, também passam a emitir estes certificados.

 

Ainda há muitos portugueses sem médico de família?
A situação melhorou, temos agora 
um número de utentes registados muito próximo do número de habitantes, 10,6 milhões. Houve uma redução de 20% no número de utentes sem médico de família. Mas há grandes assimetrias regionais: no Norte, 6% da população não tem médico de família, enquanto no Algarve [esse número] ronda os 30%.

 

Como é que isso se resolve?
Resolve-se de várias formas, por exemplo concebendo algum sistema de incentivos diferenciados.

 

Mas há condições financeiras para isso?
A pouco e pouco, vão ter que ser 
criadas. É preciso fazer escolhas inteligentes, entre gastar dinheiro com medicamentos de eficácia duvidosa...


Está a referir-se aos medicamentos inovadores?
Temos que saber fazer escolhas, perceber quais são verdadeiramente inovadores e com uma relação preço-benefício compensadora.

 

Os doentes queixam-se de não ter acesso a estes medicamentos.
Não se deve substituir a assistência médica em geral por dar medicamentos. Estou convencido de que os medicamentos necessários chegam às pessoas.

 

Quando entrou no ministério, disse que os portugueses tinham que estar preparados para abdicar de determinadas coisas.
Eu nunca disse isso.

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