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glória, o daesh, mariana e nós

é quase a minha vez na fila do embarque para amesterdão – de onde conto apanhar um comboio para bruxelas, cujo aeroporto está fechado devido aos atentados dessa manhã -- quando o telefone toca. 'alô, é mariana de sousa moreira.' mariana, 48 anos, é a única filha de glória fernandes de oliveira esteves de sousa moreira. glória moreira, em curto: a primeira portuguesa vítima mortal do daesh, assassinada na tunísia em 2015, aos 76 anos.

 

mariana vive no brasil. quando a mãe morreu, não teve forças para falar comigo. foi com o marido e a tia, irmã de glória, que recolhi a informação necessária ao perfil publicado no dn em que descrevia uma pianista intrépida que, três anos após a morte do muito amado marido, decidira ir de férias sozinha para o lugar onde costumava ir com ele. agora, quase um ano depois – os atentados que vitimaram a mãe e 37 outras pessoas, apanhadas na praia por um homem de 23 anos com uma metralhadora, foram a 26 de junho – mariana vinha a portugal e tinha combinado, por mail, encontrar-se comigo. daí a chamada. digo-lhe onde estou e porquê. 'imaginei que pudesse estar de partida.' a coincidência estremece: vou ao encontro de uma cidade atingida pelo terror que lhe matou a mãe num atentado cujo dia e número de mortos provavelmente na europa já ninguém recorda, à parte dos familiares das vítimas e dos turistas que lá estavam. nem os portugueses se lembram da portuguesa que morreu na tunísia. porquê? ainda nessa manhã escrevera no twitter: 'bombas na turquia, nenhuma comoção; bombas em bruxelas e ficamos malucos.' caiu uma chuva de insultos e respostas tortas: 'esperavas o quê? é normal ralarmo-nos mais quando morrem os nossos.'

 

os nossos. os deles. começa e acaba tudo aqui, nesta distinção, nesta fronteira. às vezes, muito raramente, conseguimos fazê-los, aos nossos e aos deles, coincidir. como quando vimos um menino sírio de três anos, jeans e ténis de borco numa praia turca e percebemos que era só um bebé e podia ser nosso – parecia-se mesmo com os nossos, caramba – e chorámos baba e ranho e dissemos 'temos de os salvar todos', até que dois meses depois o daesh matou em paris e pensámos melhor no assunto.

 

mas glória, que era mesmo mesmo nossa, portuguesa do douro, desapareceu porquê do nosso radar? por que raio a esquecemos? é disso que mariana me quer falar: do calvário burocrático que enfrentou sozinha, daquilo que descreve como zero apoio das autoridades portuguesas. 'sinto mais apoio do foreign office britânico que do governo português', diz. 'vai haver no mês que vem uma celebração e o reino unido convidou-me para estar presente. pediram-me desculpa por não me poderem pagar a viagem.'

 

tenho há muito uma teoria sobre a maneira como dividimos (e notem este 'nós'; é mesmo nós) os atentados entre aqueles que achamos que são connosco e os que não são. não tem a ver só com quem morre; tem a ver com o lugar e também com quem mata. em Istambul, a 12 de janeiro, morreram 12 alemães e um peruano; a 19 de março, na mesma cidade, morreram dois israelitas e dois americanos. ninguém em portugal se preocupou muito com isso. ninguém foi ‘enviado especial’ a istambul. o mesmo para os atentados no egipto, em bali, em mumbai, na tunísia e até na rússia (ah, a rússia; é europa mas não é bem, não é?). morreram europeus mas em lugares que, mesmo em alguns casos fazendo parte da europa, colocamos fora do nosso território sagrado.

 

como glória. não morreu nos nossos domínios. não foi em paris, não foi em bruxelas, nem em madrid. além disso, aquilo a que chamamos de ciclos noticiosos cada vez mais se acelera, cada vez mais nos falta indignação e energia para cada um dos escândalos, cada uma das catástrofes, cada vítima, cada dor. não temos que chegue, nem queremos ter. custa demasiado: melhor surfar sobre tudo isto, com umas partilhas de fb e tuita, e ala que vem a vaga seguinte. e este nós, volto a sublinhar, é nós mesmo – eu incluída, todos os jornalistas incluídos, tudo incluído.

 

daí nunca mais termos querido saber da história de glória, desta história, nunca termos perguntado: e depois? como foi? que se passou? que se passa depois das notícias? não saberíamos, não saberia, eu, se mariana não me tivesse ligado. obrigada, mariana, por nos lembrar; obrigada por nos dar oportunidade de saber, de querer saber. e de sentir. e de, talvez, podermos fazer alguma coisa.    

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