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O Ricardo Araújo Pereira e umas paneleirices minhas

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Querido Ricardo,

 

já terás reparado que este post é sobre ti. Certo, o facto de o teu nome estar no título não torna a referência particularmente subtil. Ainda assim, vale a pena marcar que quando vês uma coisa sobre um 'Ricardo Araújo Pereira' automaticamente percebes que isso é sobre ti.

Isto para explicar que eu é 'paneleirices'. Sempre que oiço falar em paneleirices, acho que é sobre mim. Ou mesmo em 'mariconços'. Sabes porquê? Foi de ouvir tantas e tantas vezes palavras como estas, ao longo da vida toda - e, provavelmente ao contrário de ti, de as ter ouvido mesmo sempre, cada uma delas. É que prestei atenção - porque até soube sempre que eram sobre mim. Sim, ouvi as piadas diárias de pessoas que infelizmente não são humoristas, as piadas sistemáticas de pessoas que até são humoristas mas não particularmente inteligentes ou sensíveis ou empáticas ou capazes de compreender o mundo em que vivem - e não te estou a incluir nesta lista. E ouvi os risos mesmo sem piadas a serem ditas e, sim, vi todo o tipo de olhares e, claro, ouvi todo o tipo de insultos; ouvi mesmo bem todas as palavras que me diziam "não existas" ou "pelo menos, não digas que existas" ou "não perguntes, não digas". Aprendi bem que o insulto é comigo, foi nele que me construí. É tipo Luís XIV, o insulto sou eu.

A construção não terá sido fácil, mas mesmo assim foi bem mais fácil do que para muita gente; em vários casos, viver no insulto não deixa que lhe sobrevivamos. Mas eu tive, afinal, sorte; sou como tu: branco, homem, sem dificuldades económicas, com acesso a educação e com a possibilidade de desenvolver as capacidades que são mais valorizadas, num e dum país europeu - e também tive alguma sorte nas pessoas à minha volta. Com estas vantagens todas, consigo chegar a esta altura e falar à vontade de paneleirices e dizer a outras pessoas que 'paneleiro' é comigo. Mais: digo que é sempre comigo. Sim, as pessoas que usam a palavra nem sempre pensam no conteúdo. Mas eu penso sempre nele, porque aprendi - porque sei - que a palavra é sobre mim. 

 

Bom, mas isto para dizer que não pude deixar de ler e ouvir a tua entrevista naquela publicação chamada i em que falas de uma pessoa cuja intervenção admiras mas que exagera e tal, numa história sobre gin e paneleirices. Claro que achei que era sobre mim, já te expliquei como a minha cabeça funciona. Mas o senhor do gin percebeu o que expliquei acima - e sentiu o peso de tantos casos que acabei por transmitir, não só por palavras. Não, é verdade que não tem muita piada - e é chato para quem faz carreira do humor, mas mesmo assim, tentando comparar, e valorizando o humor como valorizo, não acho mesmo que o teu trabalho acabe por ser mais difícil do que o meu. 

Acho que tu e eu gostamos da liberdade de expressão. Mas acho que, por isso mesmo, concordarás comigo: a primeira liberdade de expressão é a da identidade. De cada vez que uma pessoa não sobrevive, mas também de cada vez que uma pessoa sobrevive controlando cada gesto ou cada palavra, de cada vez que uma pessoa é forçada a negar-se, é essa liberdade de expressão que está em causa. A primeira.

E conhecendo a dinâmica dos crimes de ódio como conheço, também conheço a sua ligação aos insultos. É também por isso que para mim é importante que os insultos sejam controlados, há liberdades fundamentais em causa. E que as pessoas percebam o impacto que esses insultos têm, para que possam controlá-los. E que humoristas façam humor inteligente usando os sistemas de poder que temos e invertendo-os, como tu já soubeste fazer tantas vezes.

E é por isso que a culpa do Trump não é do 'politicamente correto'. Ser politicamente correto é só perceber que a linguagem nos constrói e que temos o dever de a controlar, é perceber que devemos alterar o pensamento que vem dessa linguagem, é perceber que temos toda uma história para corrigir, politicamente. É perceber que o peso dessa história é hoje. A culpa do Trump é sobretudo do facto de não termos ainda conseguido interiorizar que temos que fazer isto tudo em conjunto. E por acaso não acho mesmo nada que o senhor do gin tenha ficado com vontade de votar no Trump.

 

 

Conheço-te há uns anos - e agradeço-te muitas coisas, entre as quais um sketch brilhante sobre aborto que ficará para a história da política por cá, um sketch brilhante sobre o vrnhieccc que foi fundamental para clarificar o que estava em causa no casamento entre pessoas do mesmo sexo (parece que era só uma palavra...) e muitas piadas inteligentes na apresentação dos Prémios Arco-Íris todos os anos. Sim, eu sei, algumas eram fáceis - o Pedro Arroja é tipo Trump - mas outras eram muito mais interessantes. E, sobretudo, lembro-me de não só rir contigo mas chorar contigo, quando partilhaste em público o motivo para estares ali todos os anos: porque também tu tiveste uma perda importante para a homofobia que aí anda e porque também tu já mostraste que sabes sentir o peso da coisa. 

Ou seja, espero que este ano nos Prémios, supondo que a tua adesão se mantenha, haja boas piadas do Ricardo Araújo Pereira não sobre o Arroja ou sobre o Trump, mas sobre o Ricardo Araújo Pereira, mesmo. Tipo dizer que não deves dizer que és um 'mariquinhas a ir dar sangue' - até porque os maricas como eu não podiam dar sangue até este ano. Mas vou deixar o humor para ti, porque confio que sabes que o poder que tens traz responsabilidade - e que a nossa liberdade também a exige. 

 

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