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jugular

sejamos sinceros

'Há de facto uma animosidade política e ideológica com IM, mas sobretudo uma animosidade dos modos de actuar em sociedade. Ninguém esperaria ver alguém tatuar no seu braço uma data «histórica», qualquer que fosse, sejamos sinceros! Por outro lado, há a agressividade dos textos nos jornais, e a obsessão da defesa de género que é todo um programa psicanalítico e psiquiátrico que, ao lado, deve dar boa renda à sra AMP. Uma mulher magricelas em poses ousadas na praia que se exibe num facebook aberto a públicos é outra forma de exibicionismo pessoal que precisaria de algum recato, sobretudo quando essa pessoa desempenha funções de estado que não são de somenos. O recato não é de direita nem de esquerda, é uma atitude de defesa da privacidade, que essa sim é um direito e um dever universais.'

 

eu percebo que as pessoas não gostem umas das outras -- oh se percebo -- e que tenham até ferniquoques perante aparições dos objectos do seu desgosto. percebo que se amofine alguém com a estética e ética alheias, que se amarinhem paredes por causa de um par de sapatos ou um corte de cabelo, uma maneira de pontuar ou maiúsculas em profusão. percebo tudo, juro, e até simpatizo, sou muito dada a repulsas desse jaez. percebo pois que a pessoa que escreve o excerto acima se torça toda perante imagens, escritos, voz e até nome da isabel moreira, como eventualmente de outras 'mulheres magricelas' que escrevem 'textos agressivos nos jornais' com 'obsessão da defesa de género' e outras cenas que a pessoa discerne à sua volta e a deixam enervadíssima até à psoríase.

 

bom.

 

o que me parece um pouco estranho é que esta pessoa sinta que tem de expressar este incómodo que lhe é tão particular e subjectivo tão publicamente e de forma tão assertivamente odienta. é que, concordo, se o recato não é de direita nem de esquerda -- é de bom gosto, direi eu --, nada nos revela melhor e de forma mais cruel que as obsessões que não conseguimos controlar, as raivas e ódios que nos assolam em ímpetos tresloucados. e tresloucado porquê, perguntar-se-á. por um motivo simples: a pessoa não consegue disfarçar que não é o acto que o deixa desvairado, é a 'im' -- ou, se quisermos ser compreensivos, o 'tipo im'.

 

repare-se que a pessoa, se receita recato, fá-lo apenas a 'mulheres magricelas'. se a mulher for pulposa ou mesmo badocha já pode, supõe-se, exibir-se em 'poses ousadas na praia' (quer dizer, de bikini, pouca-vergonha) e colocar as fotos no fb para esta pessoa, entre outras, apreciarem. mais: afinal o recato é sobretudo para quem desempenha 'funções de estado que não de somenos'. donde se retirará que, se a mulher, voluptuosa de preferência, não desempenhar funções de estado ou desempenhando-as forem de somenos, já pode ousar o que entender na praia e no fb. é isto, não é? 

 

portanto a questão em apreço parece ser que a pessoa não quer ver mulheres magricelas de bikini na praia, só gorduchas. (eu compreendo; também gostava de só ver pessoas bonitas e inteligentes e com sentido de humor, bom gosto musical e bem vestidas e calçadas -- e todas a acharem-me o máximo, faz favor -- por todo o lado, mas tenho a sorte que se sabe (excepto naquilo de me acharem o máximo, vá lá)). e também acha que pessoas com função de estado, se magricelas, não deviam ir à praia ou ter conta no fb (estou tentada a concordar, quase, derivados, mas no meu caso incluía também os gordinhos e os assim-assim). 

 

a grande diferença entre mim e esta pessoa, no fundo, é que apesar das minhas ilusões de grandeza e pancas variadíssimas consigo perceber que não vale a pena escrever textos a exigir que as pessoas de quem não gosto não sejam magras, não saiam à rua, não usem bikini, não vão à praia, não escrevam nos jornais, não defendam lá o que entendem defender (com limites, claro) e não sejam, se lhes apetece, exibicionistas. nem me passa pela cabeça achar que a defesa da privacidade é um dever. se a pessoa não quiser defender a privacidade dela é problema dela; o que me chateia é que haja quem ache seu dever impedir-me de defender a minha, e em nome da liberdade ainda por cima. 

 

no fundo (e mesmo à superfície) é tudo uma questão de, precisamente, privacidade. se eu fosse a esta pessoa guardar-me-ia de exibir de forma tão despudorada e descontrolada as minhas obsessões, nomeadamente a minha obsessão com a isabel moreira e com o que ela decide ou não tatuar no corpo dela, e em geral o que decide ou não fazer com o corpo e a vida dela. porque isso é a exibição muito pouco recatada de um ímpeto persecutório e de um desejo totalitário (e muito pouco cristão, já agora) de aniquilamento. esta pessoa, na verdade, queria que a isabel desaparecesse do espaço público (se até a tatuagem dela o deixa desvairado -- queria o quê, 'amor de mãe'?), que a isabel não tivesse 'funções de estado', que a isabel não fosse a isabel, que a isabel não existisse. 

 

sejamos sinceros: esta pessoa tem, além de problemas graves com o português e com os conceitos -- 'animosidade de'???, 'uma forma de exibicionismo que precisaria de recato???? --, problemas ainda mais graves com a liberdade, e nomeadamente com a liberdade das mulheres em geral e com a da isabel em particular. o que me parece, devo confessar, todo um programa psicanalítico (psiquiátrico não sei). não vou tão longe que queira que esta pessoa se feche em casa ou num mosteiro e cesse todo o discurso público; mas confesso que preferia, até por ela, que a pessoa guardasse estas ousadias de ódio para si. é que é feio como tudo e quiçá com o andamento pode tornar-se perigoso -- o que não é de direita nem de esquerda, é só mesmo o que é. 

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