A minha avó, que me criou e me ensinou este meu fado de estar – estes maus fígados que me impedem o calar –, vive há dez anos para além da vida. Um acidente idiota, um médico incompetente, uma mulher que viveria até aos cem anos. Há dez anos numa cama, num sofá. Raramente a visito. Agora está no hospital, a oxigénio. Não me reconhece. Sou o menino dela e não me reconhece. Não a visito. Guardo dela a imagem de uma mulher forte, cuja vida foi interrompida, há dez anos, por uma puta de uma argola levantada numa tampa de esgoto. Tropeçou, caiu, partiu. Operaram-na. Deram-nos as indicações erradas – a folha que dão a todos (que nos deram), uma coisa de papel com letras escritas, não era para ela. Afinal, uma mulher daquelas não devia fazer "levantes". O peso!, o peso?, o peso!! (era pesada, hoje já não é) não aconselhava o tratamento habitual. E nós a forçá-la, anda-anda-anda. Levanta-te e anda e anda e anda. E ela andava, cheia de dores. O osso era fraco para tamanho peso. Há dez anos. Foi operada outra vez e a segunda anestesia matou-a. Enterrou-se num sofá. Dez anos passaram. Hoje está à espera, num hospital. E eu ainda não tive coragem de ir vê-la. Já deixei de esperar o que tu anseias (rezarás?). Vou lá amanhã. Talvez. A minha mãe diz-me para não ir. Ela não me reconhece e eu não a reconheço – falo de “reconheceres” diferentes. A minha avó está para morrer, dizem. A minha avó morreu há dez anos, digo. Não amparo este sentir e repudio-o com todas as minhas forças. Gostava de ajuizar diverso, que este meu abandono parece-me egoísta – traição ao “até que morte nos separe”. Quando é que se morre, afinal? A certificação das carpideiras?, a terra que nos tapa? Nunca me vais morrer, querida. Para os homens que passam certidões vais desaparecer um dia destes; para mim, embora o teu corpo já cá não esteja, não vais morrer nunca. Madrinha?, fazes-me uns ovos com chouriço? Madrinha?, tosse a tua tosse na missa a que me obrigavas a ir (toda gente sabia que estavas lá; era uma tosse que não posso adjectivar – acho que a forçavas – forçavas, sim? –, só para me dizeres que estavas ali e que não me abandonarias nunca). Madrinha?, emprestas-me dinheiro para comprar um livro? (gozavas-me, já eu adulto, quando recordavas o puto que nunca te pedia dinheiro dado). Não mereces o fim que a carne te deu. Que te está a dar. O reiródes (um homem mau, explicavas; só muito mais tarde percebi donde vinha a palavra) bembonda (como se não bastasse) tudo o que já te fez insiste em não te deixar descansar. Quero-te paz, minha mãe.
(guardado aqui)
Não havia de ser nada. Afinal, já se ia habituando. Há mas é que dormir – fechar os olhos em faz-de-conta, que esta raça não dorme. Amanhã, as chaves haviam de voltar-lhe ao bolso. Já não era a primeira vez que os maus lhe faziam dói-doi. Aqueles aplausos mudos – mas se ele os via? – faziam-lhe salto alto. Andas (daquelas que permitem caminhar acima do solo) no espírito de um anão. Havia de lhe voltar tudo; a ele, que havia estudado na terra-do-nunca (tinha fotos que provavam a sua proximidade material aos irmãos iluminados, daqueles que não há cá).
Torpor, próximo das horas em que os homens dormem.
Canta o galo.
Ergue as pálpebras com alívio por mais aquelas horas que se tinham ido e esfrega os olhos. Sentia-se como novo. Arrastou-se (a coluna fazia-lhe falta) até à casa de banho e, com o piaçaba, esfregou os dentes na água da sanita, como sempre fazia desde a identificação plena que naquele sabor podre o seu permanecer havia encontrado.
Olhou-se e viu azulejo. No espelho da mamã – presente de aniversário – viu apenas a parede fronteira. Papel de parede a fingir azulejo. Virou à direita. À esquerda, depois. Enganava-se muitas vezes e se havia alguém a quem o admitia era ao seu amigo espelho-da-mamã. Procurou. Esfregou-se – e aos olhos. Viu de viés a moldura do espelho. Estava no primeiro sítio onde se havia olhado. Inspirou fundo e expirou de encontro à palma da mão para saborear o bafo – aquele som a merda que o mantinha vivo e lhe dava fomes. Ergueu-se do chão de alcatifa, onde repousavam minúsculos os seus contumazes irmãos acarídeos, e tentou de novo. Nada! Mais daquele amarelo eterno.
Estás estragado, marrano, viraste-te contra mim. Também tu. Dá-me as minhas cores pálidas de volta ou arrisco os sete anos de má-fortuna. À mamã digo que te encontrei assim.
Foi tomar os comprimidos, esperou pela moca, e voltou. Devolveu-lhe mais amarelo, o amigo da onça. Traidor.
Queixo-me à mamã, espécie de vidro mal parido, que este ser e não-ser não é razão para me negares. São cá coisas entre mim e deus-nosso-senhor-virgem-santíssima.
(Foi pedir conselhos aos inimigos dos seus inimigos, que amigos era coisa que não tinha)
Voltou cheio de unhas.
Devolve-me o meu reflexo!, ordenou.
(mais amarelo)
Arrancou-o da parede (contigo posso eu) e arremessou-o contra o linóleo roto atrás do bidé onde de noite se abluía e por donde já se erguiam ervas-daninhas (era o seu jardim possível); aquele chão que a moderna alcatifa não tinha conquistado (a mamã havia consentido, ordenando àquele homem, belo e hábil de mãos, para ali não chegar – atrás do bidé).
Antes de morrer, cortados os pulsos num estilhaço rombo do judas que imaginou partido, ouviu o espelho (continuava integro na parede) dizer: teve de ser. Tive que ser, fazer por mim, que um espelho é feito para mudar o reflexo que oferece à velocidade mansa dos anos que passam. E anos não são dias, como tu me fazias crer. Passavas demasiado depressa. Dou imagem a homens, lamento; um ser como tu que um dia é lusco (ao menos) outro dia é fusco não me devia ter violado dessa forma.
Devias ter-te limitado aos deleites que te davam o teúdo e manteúdo buraco de tijolo que guardas debaixo da almofada. Arriscaste-me a essência.
Lamento. Pela tua mamã.
(também aqui)

Dia-sim, dia-sim, vou além da minha taprobana, a mesma que decidi ser a vossa – e o mínimo que vos exijo. Quem se devia do meu virtuoso pensar, reconhecido por sondagens à boca-de-urna, leva com a guilhotina que cai de forma selecta do meu mui douto umbigo. Pára!, devias ter vergonha dessa letra, dessa maiúscula, desse ponto que puseste final [.], quando todos os pensantes (eu) o sabem ponto e vírgula [;]. Faço provedoria take-away porque sou boa pessoa e me envergonha o vosso existir (a notório meio-metro do meu) – doses e meias-doses, para quem queira saber tudo ou apenas metade. Sou o remédio óbvio e necessário ao mundo que se desvia do trilho que me dei ao trabalho de (vos) traçar. Nunca erro e quando me engano logo integro o desacerto no livro de estilo do meu pensar – como se sempre lá tivesse estado. Se tropeço numa pedra, foi a pedra que tropeçou em mim. De longe em longe, penso que talvez tenha mal traçado, mas o orgulho do Adamastor que me faz (ou eu a ele) impede-me de deixar avançar além o ser ralé – ou aquém, depende da perspectiva. Sou o Houaiss universal. Certo que nem cebola suíça, digo: quem não vai por mim, não está cá bem (no mundo). Existo para além da montra, assim mo digo. Quando acordo, ouço a voz iluminada e trovejante que me impele: além, escolhido, além. Pastoreia-os!, és a luz!
“Quando alguém diz que já sabe, eu já tenho uma imensa discordância em potência”, Christopher Hitchens, "Pessoal... e Transmissível"
(também aqui)
Exercício umbiguista: clique na imagem (não é obrigatório) para aceder a meia-dúzia de coisas que, por aqui e por ali, fui publicando.
(também neste arquivo de coisas)

Que Deus não existe, dizem. Parvoíce. Deus existe e eu conto-lhe uma história todas as noites — ando agora a ler-lhe o Pinóquio (antes foram os Maias para crianças — noto que ele estranha a mudança, vejo-o nos cocós, que andam menos consistentes). Há dois anos e meio, Deus escrevia-se com minúscula. Era o deus das guerras, o deus da barbárie, o deus redutor dos massacres em nome de, o deus das mortes nas gémeas. deus e o petróleo, a urina de deus. O diabo; deus era o diabo. O diabo dos homens e da puta que os pariu. Nunca me servi dele, com excepção de uma revolta intestinal sem casa de banho à vista. Nem ele de mim. Nasceu o Francisco e tudo mudou. deus cortou as barbas e passou a Deus. Era uma vez um puto. Este meu Deus tem um feitio tramado, porque aos 30 meses ainda se julga um deus. Eu sou o braço esquerdo, a mãe é o direito. Julga ele. Neste Deus, que está no sorriso e no choro, já assentei umas belas dumas palmadas. Já mandei Deus de castigo para o quarto. Este Deus usa fraldas, duas de pano para dormir e uma descartável para fazer as coisas que só Deus pode fazer por ele (vamos acabar com isso no Verão, introduzindo-lhe a tirania do pitó — e ele a nós a prepotência da cama molhada). Este Deus, ao contrário do outro, dá-me sorrisos. Diz-me "papá, não vás trabalhar" (traduzo para os incréus, ignaros na língua Dele). Eu explico-lhe as coisas e ele entende. Deus magnânimo assimila. O problema é a sopa e a negociação que a coisa envolve. Digo-lhe para comer só uma colher, ele diz não, eu proponho três e ele decide-se por dez. Done!, e damos cinco. Quando Deus está presente, sinto-me um negociador do FBI num livro de Kafka. Deus não quer, eu quero. Acabo por convencer Deus que é ao contrário, que ele quer e eu não. Raras vezes a coisa não resulta, ó tirania dos homens.
Neste momento, passa da meia-noite, Deus está a dormir. Antes de dormir, disse-me, como faz todas as noites: àputo-puto (amo-te muito, na língua de Deus). E depois pregou-me um susto: “Bu!”.
Se o diabo está nos detalhes, Deus está ali ao lado, a dormir. Aquela tábua onde me agarro, onde ele se agarra, onde a minha mulher se agarra. Tudo o que nos une aos três. Isso é Deus. O outro, o do paga agora e livra-te do fogo dos infernos, nunca se mostrou e não o concebo. Não lastimo a minha falta de fé, porque a tenho. Fé no amanhã. No próximo passo do meu filho, o pontapé na bola, o dizer puta em vez de porta (que embaraços já me causou). Que mais se pode querer de Deus, para além da vontade de correr para casa para o ver? O meu pequeno grande Deus. Quinze quilos de matéria divina (com a fralda limpa pesa menos).
(também neste arquivo de coisas)
É uma palavra feia. Rancor. Tem som de ódio, cor de desadoração. Cheira a aversão, o toque reage-lhe com repulsa, às vezes com (mera) embirração. Tem sabor de orgulho que cega. É uma palavra feia, pois. Ai de quem, coagido pelos sentidos reféns — dizem que são cinco nos homens, seis nas mulheres (o que as desculpa ainda menos) —, se aconselha por ela. O cheiro da sobranceria, o barulho do tijolo cru, a imagem do berro que ninguém compreende, a sensação da razão em fuligem. E tudo assim preferir, alimentando-se da altivez de quem prefere cair a agarrar-se.
Com rancor se faz e se desfaz. Países e paixões. Não sendo o rancor, o mapa dos homens seria talvez diferente, conceda-se. Estaríamos a falar inglês, alemão, castelhano. Latim? O rancor é também nosso, português e mais, e ai de quem nunca por ele se alumiou. Alucinou. Porque fomos rancor, somos (usem a desculpa com moderação).
Ao nascer, berramos raivosos. Ao morrer, gritamos vingativos. A causa é a mesma: rancor. A puta da luz que nos ensombra. Assombra?
Há, porém, quem pareça decidir viver assim, respirando só esse estar — certo da certeza de que a culpa não lhe pertence. Ainda que não haja culpa, ainda que as coisas sejam mesmo assim. Ainda que o delito seja das coisas que são. Só por serem.
Às vezes (quase sempre), o rancor serve apenas para roer a alma (a nossa e a dos outros), que os países já se inventaram e as paixões repousam na serenidade do que é ou do que foi. É também isto, o rancor: exculpação, projecção no outro do que correu menos bem.
Em suma, e do rancor: às vezes sim, outras vezes não.
(também neste arquivo de coisas)
O velho fez-me lembrar a minha avó. A minha avó, aos 90 anos, insiste em contar-nos as suas paixões de infância, os seus segredos mais escondidos — coisas outrora irreveláveis, ainda que tal revelação se aplacasse com mais avé-marias num dia do que aquelas que ela poderia rezar num ano. As misturas de tempos, de pessoas, dos salões grandes e arrumados das memórias antigas com as arrecadações amontoadas das lembranças mais recentes, como diz o Chico. Mas o que mais me veio à lembrança (o pensamento vai saltando de galho em galho sem pancada nos cornos que o impeça) foi o enterro da minha avó, há meia-dúzia de tempos. Cova aberta, no único metro quadrado de terreno que as suas posses lhe permitiram deixar aos vivos (que curiosas seriam as partilhas). Descido o caixão, e quando já se terminava a função, noto um saco azul, volumoso, esquecido ali ao lado. Que eram os ossos do meu avô; que ali tinham estado todos aqueles anos — o meu avô. Na cova. Ainda eu não tinha acabado de perguntar que lhe fariam e já o saco azul era atirado para cima do caixão acabado de arrecadar, como se de um saco de ossos se tratasse. E era um saco de ossos, não sentiu nada. E terra por cima de tudo, à pazada, que ninguém foi lá atirá-la à mão. Nem um torrão que fosse. Ali ficarão — tudo ao molho —, até que os cemitérios entrem em desuso ou lá caiba um centro comercial. Os ossos da minha avó, quando o tempo desfizer o caixão, e os ossos do meu avô, separados por um saco azul. Faz tempo — não o conto em anos — e continua a doer, porra.
Dirijo-te estas palavras sabendo que o faço a alguém cujos neurónios entraram em guerra fratricida e bastarda ao ponto de só restar um (o mais escasso e ligeiro) — lamentavelmente, o que te sobrou está meio metro acima do habitat natural, desfruta de cauda acelerante e tem como ambição única irromper por um óvulo. Ciente disso, mas porque tenho bom coração, avanço.
Na última semana, resolveste publicitar — várias vezes — a tua imbecilidade. Percebo, porque te enxergo a natureza, a tua cretinice genética e “eurotica”. Os genes fazem-te, os euros justificam-te (perante o espelho aldrabão que te dá as trombas a ver).
Assim, e munido do tal espermatozóide mascarado de neurónio, decidiste fazer história. Por fortuna de quem te lê e essência tua, não fizeste a dos outros e desvelaste a tua. És uma espécie de rei midas da merda: transformas em trampa tudo aquilo em que tocas. Se por acaso te caísse nas mãos um qualquer pasquim pago para ser gente, havias de conseguir reduzi-lo a um teu irmão de sangue, assemelhá-lo à tua essência estéril.
És uma peçonha, pois. Porém, essa dor que te atenta e que tentas, para te aliviar a mágoa, passar para os outros, esse beliscão na alma que não tens, essa vocação de idiota útil — e outro tipo de utilidade não terás — estão condenados a ser só teus. Olha para trás. Olha para o teu reles viver e para tempo que levas desde o nascer. Traduzes-te num zero abaixo da nula referência. Algo numericamente impossível. Não chegas a ser nada, portanto. Um dia que te atinjam com um espelho fiel, morrerás em agonia — envenenado pela verdade que a representação te dá.
Bufas as bufas do bufos (eis a tua biografia) e usa-las como se tudo (as ventosidades e os respectivos excretores) fosse gente. Lamentavelmente, e isso deve doer — os meus pêsames à tua mãezinha —, nunca (nem os “teus”!) algum dia te levarão a sério. O problema, bobo desta corte, é que tu próprio não passarás do vento malcheiroso dos cus que a cada tempo (há séculos) te vão expelindo.
No entanto, verdade seja dita, estás cada vez mais acompanhado – não partiram o cabrão do molde. O teu fedor, honra te seja feita, é evidente — não enganas ninguém. Outros perfumam-se à francesa e, por vezes, a confusão de aromas engana ao primeiro lanço. És um puro óbvio e por isso — sempre de mola no nariz — acompanho o teu percurso.
Continua a fazer por nos ilustrar, faz pela comenda que um dia, por merecimento, te afixarão no focinho. És-nos necessário, cumpres o papel de grilo mudo do inferno, como que um sinal de animais na estrada.
Ainda assim, e perante tão reles intruso, que se foda o carro.
(também neste arquivo de coisas)
Eça traçou-nos o perfil à espadeirada. Se percorrermos os seus romances, contos, cartas, acabamos por dar de caras, aqui e ali, com o filho da mãe e com a prima, com o doutor e com o vizinho. O deputado e a puta. O sério e o trafulha. O circunspecto e o fogoso. O cão e o gato. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Estamos lá todos. Ainda que sem absoluta correspondência, é raro não obter, cortando daqui e colando ali, o retrato de alguém conhecido. Não há defeito ou feitio que Eça não tenha passado para o papel.
De todos os retratos traçados, o mais marcante – por ser o que mais predomina na selva – é o de Dâmaso Cândido de Salcede, o da adresse riscada e corrigida para Grand Hôtel, Boulevard des Capucines, Chambre nº 103.
Ao longo da vida, pude encontrar aqui e ali partes desse ser untuoso, escorregadio e gelatinoso. Desse sujeito em forma de jogo de aparências, onde nada é o que parece mas em quem, paradoxalmente, tudo acaba por ser deliciosamente óbvio. Esses dâmasos da vida encontram-se por todo o lado, aparecem-nos à frente em qualquer tipo de circunstância e ficam ali, presos ao chão por uma mola, a fazer poing-poing-poing.
A partir de certa altura, comecei a encará-los como um jogo com a natureza. A mãe dita coloca-me à frente um dâmaso, ou um braço dele. Nas olheiras de uma segunda-feira de manhã ou nos fumos de um sábado à noite. Na caixa de um supermercado ou de beca vestida. A qualquer momento, em qualquer lugar. É um pacto que temos, eu e a essência. Ela, quando lhe dá na gana, atira-me com um. A minha comissão é dar com ele, apontá-lo a dedo. Normalmente ganho, outras vezes aceito ter perdido, que nem todos são assim tão óbvios – atributo que ganharam quando perceberam o óbvios que são. Folha daqui, ramo dacolá e vão tapando as vergonhas.
Tudo isto para dizer que nunca – mas nunca, mesmo – tinha pensado encontrar O ser em toda a sua grandeza, de forma tão aparatosa, tão óbvia e tão declarada como me aconteceu recentemente. Ao primeiro vislumbre, que nem foi visual, ouvi logo do imenso clarão negro que dali emanava. E o meu coração acelerou – tu queres ver?, pensei.
Era (é) de forma tão esplêndida, o espécimen, que até fiquei algo enfeitiçado, por dessa feita me estar a ser dado como que um prémio por anos e anos de esforço e dedicação à cata de. Parecia o modelo de Eça, o da adresse corrigida ele mesmo. O original tão original que fazia o original parecer incompleto. Até errado. Eis o homem, pensei. E agora vou escrever um livro.
Apareceu de abraço sempre armado, de elogio sebento na ponta da língua e da pena. Mas, dissesse o indivíduo o que dissesse, escrevesse sobre o que escrevesse, eu só conseguia ler algo como isto: “Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos... Um dia chic! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos às colchas”. Sentei-me e esperei e nunca fui às colchas com ele. Avisei quem tinha de avisar e quem podia dispor-se a ir às colchas. Esperei sentado. Não pelo tempo que a coisa ia demorar – que não perspectivava ser muito –, mas porque queria assistir de cadeira ao espectáculo que eu sabia inevitável, esperando que ninguém querido se magoasse.
Lamentavelmente, não foi assim. Talvez o meu aviso – desculpei-me – tenha sido um pouco tímido, talvez as pessoas não lhe tenham ligado muito. Fosse o que fosse, confessei-me depois, a verdade é quando a coisa se deu – o artigo plantado na Corneta do Diabo – até eu fui surpreendido, sem tempo de ir a correr ao Palma Cavalão (também esta curiosa personagem, director da Corneta, começa por aí a proliferar, qualquer dia dedico-lhe uns louvores).
Não era nada disso. Afinal, também o Eça tinha ficado aquém, percebi então. E eu com ele. Estávamos perante algo de novo, mistura de rematada insídia, intrujice cobarde e tiro nas costas. Qual Cavalão qual quê? O que eu tinha entre mãos era algo bem mais complexo. Não exigia o recurso – ainda que metafórico – a directores de jornais como o Cavalão, corruptos e caluniadores. O caso que se me apresentava, e essa foi a minha falha, é que aquele Dâmaso era auto-suficiente. Um Dâmaso-Cavalão. E nesse caso – pus-me nos sapatos dele –, para quê recorrer a outsorcing?
Com esta mistura explosiva é de chamar cópia ao original, que esse que eu conhecia e tinha antevisto e aprendido era só o velho e gasto Dâmaso. Cobarde, repelente, filho-de-agiota-agiota-é, vigarista, aldrabão, impostor, egoísta, sem réstia de ser homem – um cabrão, em suma. Este, sendo tudo isso, era mais ainda. Uma verdadeira e inútil aberração, espécie de prejuízo de pôr um burro a fornicar uma égua.
Andava ele, soube-se depois, de porta em porta a dizer: eu estive lá e sei dos recônditos. Eu conto! Quem dá mais? Não te chega? Não é suficientemente escabroso? – olha que ele chamou àquele filho da puta. Toda a gente já sabe? Então eu tenho aqui outro segredinho acabado de inventar – podes chamar-lhe investigação, se o publicares. Dou-te o que quiseres, quando quiseres, onde quiseres. É preciso é que me pagues com alguma coisa que me enfraqueça a dor que sinto. A dor de não ser gente.
(eu) Eu não sei o resto da história – que ainda está para vir –, mas adivinho-a. Nada te resolverá o problema, minúscula realidade!, nem à esquerda nem à direita. Nasceste com essa dor de não ser gente e há-de ser essa dor que te há-de enterrar, num cemitério deserto, sem ninguém a acompanhar os teus restos com forma de homem sem nunca o teres sido.
E até na morte serás falso.
É que nas costas dos outros vemos as nossas. Não sabes (eu sei que não), mas ensino-te se puderes: por mais que digamos mal uns dos outros – aquele “nós certos, eles errados” que te chega às ventas –, somos homens e mulheres. Tu és um verme e a gente – gente! – já percebeu.
Nem chegas a ser cabrão, que nem nunca terás quem te possa pôr os cornos. És apenas um remorso de gente.
(também no homem-garnisé)
O homem-garnisé é dono da verdade absoluta, aquela de que todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções - feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o homem-garnisé deita as cartas de forma imponente, vai sempre a jogo, ainda que não lhe conheça as regras. Paradoxalmente, só assim age (só assim é) fora do seu habitat natural. Neste, uma singular salinha com uma cadeirinha virada para um espelho, o homem-garnisé aceita-se como é.
Quando vai à procura de alimento e se afasta do espelho, o homem-garnisé transfigura-se. Não quer voltar ao assento redutor. Esquece-se da imagem pouca que o espelho lhe revela e confia no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe revela.
Fora da salinha, o homem-garnisé vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.
Sempre com fome, o homem-garnisé é todo um sistema judicial. Na toca onde guarda os alimentos, o homem-garnisé faz teatros de marionetes digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Como é ventríloquo manhoso, o homem-garnisé lança as vozes que quer aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”
O homem-garnisé faz músicas de uma nota só. E, tomando-nos por iguais, quer-nos pôr a dançar.
Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, o homem-garnisé afeiçoa-se. Deixa-se haver. Aceita ser a voz do dono que lhe dá ração longe daquele retrato fiel. O dono do homem-garnisé, note-se, raras vezes não é também ele um homem-garnisé. E por aí adiante. Ou por aí atrás, se quisermos ser mais precisos.
O homem-garnisé tem de provar que é corajoso - só assim lhe dão que comer - e para isso faz-nos uma sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que lhe dão. E depois diz: comam-comam, foi o meu dono que mandou e eu garanto que é de primeira qualidade.
E há quem coma e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pede para repetir, que está muito boa. São outros homens-garnisés. E o homem-garnisé incha de flato. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.
O homem-garnisé está agora enorme. Leva imensa gente à toca que arranjou longe da salinha com a cadeirinha virada para o espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Homens-garnisés, todos. Levam cromos para trocar. Mais ingredientes podres para as sopas, meias-histórias, coisas de vão de escada. Contam, como se lhes houvessem sido dirigidos, piropos ouvidos de passagem. Ali, na toca sem reflexos, decidem o que o homem-garnisé há-de opinar - entre irmãos de desgraça. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado. Escusa de tramar tão baixinho, o homem-garnisé, que já todos o conhecem. Já todos sabem o que dali vem – o que dali não vem. E ele sabe disso e é precisamente isso que não o deixa crescer (esta parte ele não sabe).
Quando acasala, o homem-garnisé fá-lo com os da sua igualha, para que dali não saia mula ou macho. E nisto tem facilidades, que um homem-garnisé reconhece outro ao primeiro olhar. Andam ao mesmo, por sombras, e encontram-se muitas vezes nas tais tocas sem espelhos. E amam-se e depois odeiam-se.
Entre a salinha reveladora e o sol enganador, o homem-garnisé já escolheu. Escolheu ser pequenino. Não o pisem.
No dia 23 de Novembro fui renovar o meu caduco bilhete de identidade. Rectius, fui trocá-lo – a ele e a mais uma carrada de documentos – pelo cartão do cidadão. Por distracção e estupidez, enganei-me (ligeiramente) na morada que indiquei. Em vez do direito, afiancei (assim mesmo) que era no esquerdo que morava – a minha mnemónica política deixou-me mal. Segundos depois de a senhora que me atendeu ter carregado no “enter” definitivo – e ela, quando me pediu para conferir os dados, avisou-me do carácter apocalíptico da coisa –, veio-me à memória (por mnemónica alternativa) que o meu lar-doce-lar era à direita e não à esquerda. A medo, disse-o (disse-lho). Ela olhou para mim como eu merecia ser olhado, pois se tinha tido o cuidado de me avisar. Mas tudo bem – não seria morte de homem –, haveria de receber uma carta em casa a avisar que o cartão estava pronto e, nessa altura, poderia emendar o erro. Quatro ou cinco dias, disse ela.
Chegado a casa, lembrei-me do óbvio: a carta iria parar à casa da minha vizinha. Nada de preocupante, bastava-me pedir-lhe para me fazer o favor de, assim que recebesse a carta, a depositar na caixa do correio ao lado. Por escolha do destino, nessa semana não a apanhei uma única vez. Passados cerca de dez dias, liguei para a conservatória e expliquei o caso. Que não havia nada a fazer, sem papel não iria ter direito ao cartão que me prova cidadão. Aproveitando a oportunidade, a senhora verificou se o tal do cartão já tinha chegado. Que não, estranhamente. Que não.
"– Só um bocadinho…"
(bocadinho)
"– Olhe, temos aqui um problema, o seu pedido está, desde o dia 23, bloqueado nas finanças, é melhor ligar para lá. Isto está tudo cruzado, sabe?"
Assim fiz, ciente que me deitava na cama que tinha feito. Ali, explicaram-me que “o sistema” havia instituído aquele bloqueio para obrigar o contribuinte a ir às finanças actualizar a morada (normalmente desactualizada nas finanças) e não havia previsto o caso de contribuintes [burros, digo eu] que se enganavam na morada que indicam na conservatória. Ou seja, como a morada das finanças é a correcta e a da conservatória é a errada, havia que corrigir o erro na fonte. Sucede que, como já disse atrás, depois do fatídico “enter”, ali (na conservatória) não havia nada a fazer. A única possibilidade seria esperar pela carta que iria para a caixa de correio da minha vizinha para, dela munido (da carta), emendar a mão.
O problema é que a carta não virá (olhó rabo na boca da pescadinha), pois se o processo só será desbloqueado nas finanças caso eu lá vá actualizar a morada – a tal que nestes serviços não está errada. Ou seja, para resolver o problema, teria de declarar nas finanças que moro no esquerdo e não no direito (o que é falso), ao contrário do que lá consta. O desbloqueador activa-se, eu recebo a carta, vou à conservatória alterar a morada – do esquerdo para o direito – e regresso às finanças para voltar a alterar a morada – da errada (que eu declararia – erro sobre erro para emendar o erro) para a certa. O problema é que isto bule com outras questões fiscais, que não vale a pena detalhar, mas que não são difíceis de adivinhar quais sejam – isenções de IMI e quejandos, pois se eu vivo no direito.
O problema vai resolver-se, depois de alguns taratatis e taratatás, algumas voltas e revoltas; mas tudo seria bem mais fácil se o tal “enter” inicial não tivesse aquele carácter teimoso e inflexível – coisa própria da natureza humana, mas que devia estar alheado dos sistemas informáticos, que nada têm de humano e nos deviam dever obediência. Tudo seria bem mais fácil se o homem que inventou a máquina a conseguisse convencer que ela está para nos servir e não ao contrário. A ordem natural das coisas não seria alterada e os escravos não seríamos nós…
Imaginem-se, num dia de rigorosa invernia, a esfaquear uma almofada de penas no cimo de uma montanha. Agora imaginem-se – arrependidos do vosso acto – a voltar no dia seguinte para tentar recolher todas as penas aventadas, de forma a recompor a almofada. Imaginem a remissão impossível. Agora imaginem que as penas da almofada – todas e cada uma – acolhem um boato, uma bisbilhotice, um diz-que-diz, uma escuta mal-parida, uma fotocopiadora forense com vontade própria. Isto imaginado, de faca na mão, e sabendo que a almofada é o encosto do país – do vosso –, ou o travesseiro de um qualquer desafortunado – vocês, por exemplo –, confessem o fácil (e fortuito) que é esfaquear uma almofada de penas no cimo de uma montanha ventosa. E imaginem também que a faca não está na vossa mão e que o recosto é (era) o vosso.
* adaptação (excessivamente) livre de uma confissão fictícia em Doubt, filme protagonizado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman
Comecei ontem a ler O Alienista, dum tipo que por uma dúzia de anos não calhou ser português. Nunca tinha lido este conto - alguns chamam-lhe novela - de Machado de Assis (é um pecado, eu sei), mas o que aqui releva é que as primeiras páginas, o asilo, a recolha e a afluência voluntária e massiva dos dementes, as janelas verdes, tudo me lembrou este Portugal com que lutamos.
Bzz, bzz, bzz. Alguns seres foram imaginados para serem enxotados (enxotar e esmagar são aqui sinónimos). Zotes bzudos, têm como destino um encontro imediato forçado e sangrento e de asas partidas com o vidro da janela que não percebem. Não percebem que o varejento disforme que os encara é o reflexo do filho da mãezinha que os desovou (são filhos únicos). Tentam desviar-se, uma e outra vez, até que alguém lhes ponha fim ao anseio. Um pano de cozinha basta. É um favor que lhes fazem, que as moscas domésticas querem-se higienizadas em casa ‒ e depois pela sanita abaixo. O horizonte que se vê de cá da janela, por mais cinzento que apareça, é um azul em potência que eles não podem impedir. O Campo Pequeno é prós touros.
Vamos fazer de conta que isto é a página 256 do livro de cozinha tailandesa do Cristiano Ronaldo. Ora, sendo isto a página 256 do livro de cozinha tailandesa do Cristiano Ronaldo, quem está a escrever deveria ser o biógrafo oficial do Cristiano Ronaldo para as questões culinárias – secção tailandesa.
Mas não.
Vamos então fazer de conta, para dar senso à coisa (coisa muito importante aqui, o senso), que eu sou o biógrafo oficial do Cristiano Ronaldo para as questões culinárias – secção tailandesa.
Recapitulando:
Isto é a página 256 do livro de cozinha tailandesa do Cristiano Ronaldo, escrita pelo biógrafo oficial do Cristiano Ronaldo para as questões culinárias – secção tailandesa.
Agora que estamos todos em sintonia, podemos dar de barato que vocês têm na mão o livro de cozinha tailandesa do Cristiano Ronaldo.
O problema é que a página 256 do livro de cozinha tailandesa do Cristiano Ronaldo não tem nada de útil, pois corresponde exactamente ao fim da secção de sopas, podendo ler-se: “aqui chegados é só polvilhar com sal a gosto e eis a sua sopa de espiráculo de golfinho pronta a servir”, e ao início da secção de sobremesas, onde, após um longo intróito sobre a importância das sobremesas na cozinha tailandesa, se começa a discorrer sobre a primeira das sobremesas, a “Duas bolas de gelado de melancia na taça de metal” – “Para fazer esta sobremesa é necessário dispor de duas bolas de gelado de melancia e uma taça de metal. Reunidos os ingredientes (…)”.
Por causa de uma crítica parcialmente negativa, na Ler, comprei e comecei ontem a ler o leite derramado, do Chico Burque. Como estava demasiado indisposto, por causa da entrevista do Vasco Pulido Valente em que havia acabado de tropeçar, na mesma revista, acabei por só ler os primeiros capítulos. Fala de um velho que fala. Deu-me a ideia de que o faz para quem passa, para quem o ouça, particularmente para quem o não ouça. Ainda só li meia-dúzia de páginas, mas deu para ver que o Chico está no seu melhor, que é possível um excelente compositor, um excelente cantor, ser um excelente romancista. Já o velho, que o primeiro capítulo dava um conto, fez-me lembrar a minha avó. A minha avó que aos 90 anos se compenetra em contar-nos as suas paixões de infância, os seus segredos mais escondidos, outrora irreveláveis, ainda que tal revelação se aplacasse com mais avé-marias num dia do que aquelas que ela poderia rezar num ano. As misturas de tempos, de pessoas, dos salões grandes e arrumados das memórias antigas com as arrecadações amontoadas das lembranças mais recentes, como diz o Chico (ou algo parecido). Mas o que mais me trouxe à memória, como o pensamento vai saltando de galho em galho sem pancada nos cornos que o impeça, foi o enterro da minha avó, há meia-dúzia de tempos. Cova aberta, no único metro quadrado de terreno que as suas posses lhe permitiram deixar aos vivos – irónico usufruto. Descido o caixão, e quando já se terminava a função, noto um saco azul, volumoso, ali esquecido ao lado. Que eram os ossos do meu avô, que ali tinham estado todos aqueles anos. Na cova. Ainda eu não tinha acabado de perguntar que lhe fariam e já o saco azul era atirado para cima do caixão acabado de arrecadar, como se de um saco de ossos se tratasse. E era um saco de ossos, não sentiu nada. E terra por cima de tudo, à pazada, que ninguém lá foi atirar à mão - um torrão que fosse. Ali ficarão, até que os cemitérios entrem em desuso ou ali caiba um centro comercial. Os ossos da minha avó, quando o tempo desfizer o caixão, e os ossos do meu avô, separados por um saco de plástico azul. Já estou arrependido de ter comprado a merda do livro, que tinha estas memórias bem mascaradas de quando a minha avó vendia na feira.
ilustração de João Cóias
e.g.: Era Inverno e estava um frio de rachar, mas há três 15 dias que dormia encarrapato. Espécie de auto-flagelação. Haviam-no acusado de dar o cu e 5 tostões pela promoção. Era verdade, mas ainda assim, e porque não estava habituado a ser acusado de tão torpes feitos, respondeu ao enjeitado, seu ex-chefe e ora subordinado: ´tás com a mosca ou cheira-te a palha? E agora ali estava, encarrapato, de telefone na mão a ligar para o Dói Dói Trim Trim. Tinha espirrado duas vezes naquela semana. Temia o Triunfo dos Porcos em versão vírica. O orgulho mata, mais valia ter-se decidido pelo cilício, que as mazelas benditas curam-se com rezas e betadine.
Recebi um hoje um telegrama (é verdade, um telegrama) de um senhor que habita numa casa que em tempos tive o azar de tomar de renda - coisa cheia de humidades, bolores e fungos vários e que, em virtude dessa tamanha insalubridade, em boa hora acabei por abandonar.
E dirigia-me uma série de palavras, o cavalheiro em causa, fulano de boa pinta cheio de conhecimentos e de uma inteligência e sagacidade que sempre me tomam de espanto. Que ao olhar pela janela virada a poente da casa que em má hora fora minha tinha visto uma vaca com asas. E cor-de-rosa. E a voar. E que por tetas levava torneiras de madeira rústica, indiciando que não era leite o que no respectivo ventre albergava. Dizia-me isto tudo, o senhor, quando de repente acrescentou: e olhe (faculto-vos o discurso directo), encontrei cá por casa uns escritos seus, coisas que deixou em gavetas esquecidas, aquelas do armário do tecto da cozinha, mesmo atrás da porta que dá para a sala, e aquela que está debaixo da sanita, e lembrei-me de lhe pedir se os posso publicar, assim duma forma que eu cá sei, juntamente com outras letras que outros ex-inquilinos e antigos proprietários, veja-se a coincidência, deixaram nas mesmíssimas gavetas. Como os deixou para ali, esquecidos ou lembrados, acrescentava ele, presumi que pudesse ser mesmo para isso, para que eu lhes possa dar o uso que bem entender.
Achei tão estranha e fabulosa a parte do pedido (já sou eu outra vez) que acabei por lhe responder apenas à questão da vaca, coisa bem mais corriqueira. Que sim, que quando lá vivi também a tinha visto muitas vezes, só que da janela virada a nascente - terá agora mudado de rumo. Certamente por uma questão prática.
Porque é que aquele palhaço me está a buzinar?, olha 'tá verde, afinal o gajo tem razão, vou levantar-lhe o braço (o meu) e acenar com a cabeça. Para agradecer e pedir desculpa. Braço? Levanta-te e põe a mão a abanar para o senhor – vá, é uma ordem! E tu, cabecita, faz um ligeiro aceno, em tom compungido, enquanto um de vocês, olhitos, olha pelo retrovisor e tenta fixar o olhar no senhor.
Bem, verde, verde, verde, agora é avançar. Bracito, pára de abanar a mão e manda-a baixar o travão dela (o de mão, lá está). Isso. Agora aquela cena difícil do ponto de embraiagem. Tanto pedal, Jesus. Pézitos, pézitos, pézitos. Porra, lá aconteceu outra vez isto das luzes vermelhas. Deve ser do motor, tenho que o mandar polir. Dar à chave, dar à chave. Bracito, diz à mão para dizer ao senhor que espere, que isto sem calma não se faz. Mas anda cá depressa que preciso de ti para pôr o carro a trabalhar novamente e para agarrar o volante e partir
Com o mesmo ímpeto com que os de outrora acorriam aos autos de fé, lá vai o portuguesinho de hoje correr comprar a Visão, comentar aqui, comentar ali, dizer que aquele nunca me enganou. E depois são as montanhas que parem ratos, queixam-se - pois se a acusação, julgamento e condenação populares se fazem à leitura da primeira parangona sangrenta. E a antecipação destemperada de cenários, senhores, essa ejaculação precoce de que o povo luso padece. E o temor reverencial pelos ingleses, aquele dobrar de espinha, aquele para inglês ver que nos está no sangue. Enfim, nada que me espante. Apenas gostava que, por uma vez, a coisa fosse diferente. Esperarei sentado, claro.
Com a morte. Hoje levei com a morte. E bateu-me mal, assim de uma forma estranha – não foi dor, como acontece quando me morrem pessoas próximas; não foi sensação de vazio, nada semelhante. Foi uma espécie de empurrão ao mesmo tempo pelas costas e pela frente. Dado à velocidade da luz - que nem saí do mesmo sítio. Tipo acorda pá, qualquer dia és tu. Podias ter sido tu. Não te lembras deste?, quem diria que o ceifava neste dia? Deu-me para aqui, podia-me ter dado para aí. Estás a ver como isto é? Espécie de banca francesa – a fortuna que sai dum corno.
Claro que a mandei para a puta que a pariu, que tenho um filho que aprendeu agora a andar e corre para mim quando chego da labuta e diz papá-papá-pápa. E dá-me abraços e beijos e dá-me sorrisos. Era o que mais faltava, que fosse comigo – não estou para aturar abusos idiotas de idiotas; e deixei-lhe isso bem claro.
Mas, confesso, foi só garganta – ainda os tenho bem apertadinhos. Podia mesmo ter sido. Esta cena da morte é um bocado pim-pam-pum e um gajo às vezes anda de gavetas desarrumadas e de repente dói-lhe uma unha e não é nada não é nada – é só uma unha. Vou amanhã ver disso, hoje tenho mais que fazer. E vai-se a ver e valia a pena ter ido mais cedo, que com estas idades a coisa depois foi sempre galopante. E tão novo, e o caralho. Não aguentou o galope, essa é que é essa.
Mas porquê este desatino todo com esta morte? Esta morte de hoje. Todos os dias morre gente conhecida, mais ou menos velha, mais ou menos amiga, mais ou menos próxima. Francamente, não faço ideia. Sei que me sinto agoniado. E que agora que escrevi isto ainda me sinto pior. E não devia ser para isso que um gajo escreve, para depois se sentir pior. Agonia por agonia bembondam as que provoca ouvir todos os dias a senhora de foice ao ombro. Aos berros de pim-pam-pum.
Pim-pam-pum.
(Não, ainda não ensandeci - bem sei que publiquei este mesmo post aqui há uns dias. Os berros é que voltaram a ouvir-se.)
"Há muito tempo que não concordava a 100% com Mário Soares", diz o Luís Rocha. Não vou discutir a substância do post, que pouco me interessa saber das regularidades com que cada um concorda ou deixa de concordar com Mário Soares e sobre que assuntos incide essa concordância. Também não é do casamento entre pessoas do mesmo sexo que será feito este post. A verdade é que passo bem sem ele e também, estou certo, passarei bem com ele - o mesmo que dizer que é questão que me é indiferente. E não se trata e de falta de percepção da realidade - reconheço a necessidade de conceder aos casais homossexuais os mesmos direitos dos restantes casais (adopção à parte, que ainda preciso de reflectir mais um pouco), trata-se pura e simplesmente de ser assunto que não me diz respeito, não me aquece nem me arrefece e agora estou a passar uma fase de demasiado egoísmo para ajudar velhinhas a atravessar a rua. Já agora, e só para meter um bocado de ferro, não concordo que lhe chamem casamento - proponho cazamento. Fulano e Sicrano anunciam o seu ca-zzz-amento. Amanhã não posso que tenho um cazamento. Casamento ou cazamento? 'tás surdo?, ca-zzz-amento.
E porra, que não há maneira de avançar para a vaca fria. O que me faz escrever este post, tento dizer, é a simples constatação da minha ignorância sobre o critério de atribuição de percentagens de concordância, de exactidão, de pontualidade, do que que quer que seja, a acontecimentos mundanos. Vejamos o caso Luís Rocha, que há muito tempo que não concordava a 100% com Mário Soares. Depreendo que no muito tempo em que Mário Soares não logrou alcançar o pleno junto do Luís Rocha, e nas muitas vezes que terá intervindo publicamente, o Luís Rocha lhe foi atribuindo percentagens de concordância - 33,4%, 78,7%, 99,9 (faltou-te um bocadinho assim) e assim por diante. E isto é que me faz confusão. Como aqueles jogadores da bola que dizem que estão a 80% das suas capacidades, os casais, em que cada membro que o compõe, em apreciação externa, tem 50% de razão. As culpas distribuídas num atropelamento - 60% (atravessou a correr e sem olhar) - 40% (ia em excesso de velocidade). Na verdade não tenho mais nada para dizer, o céu está 98% nublado, eu estou 79% aborrecido (só isso justifica este post), o meu filho ontem à noite estava 77% rabugento e a palmada que lhe dei na mão doeu-me mais a mim do que a ele em, digamos, 100%. Agora vou trabalhar a 66%, que me dói a cabeça a 25%.
Com a morte. Hoje levei com a morte. E bateu-me mal, assim de uma forma estranha – não foi dor, como acontece quando me morrem pessoas próximas; não foi sensação de vazio, nada semelhante. Foi uma espécie de empurrão ao mesmo tempo pelas costas e pela frente. Dado à velocidade da luz - que nem saí do mesmo sítio. Tipo acorda pá, qualquer dia és tu. Podias ter sido tu. Não te lembras deste?, quem diria que o ceifava neste dia? Deu-me para aqui, podia-me ter dado para aí. Estás a ver como isto é? Espécie de banca francesa – a fortuna que sai dum corno.
Claro que a mandei para a puta que a pariu, que tenho um filho que aprendeu agora a andar e corre para mim quando chego da labuta e diz papá-papá-pápa. E dá-me abraços e beijos e dá-me sorrisos. Era o que mais faltava, que fosse comigo – não estou para aturar abusos idiotas de idiotas; e deixei-lhe isso bem claro.
Mas, confesso, foi só garganta – ainda os tenho bem apertadinhos. Podia mesmo ter sido. Esta cena da morte é um bocado pim-pam-pum e um gajo às vezes anda de gavetas desarrumadas e de repente dói-lhe uma unha e não é nada não é nada – é só uma unha. Vou amanhã ver disso, hoje tenho mais que fazer. E vai-se a ver e valia a pena ter ido mais cedo, que com estas idades a coisa depois foi sempre galopante. E tão novo, e o caralho. Não aguentou o galope, essa é que é essa.
Mas porquê este desatino todo com esta morte? Esta morte de hoje. Todos os dias morre gente conhecida, mais ou menos velha, mais ou menos amiga, mais ou menos próxima. Francamente, não faço ideia. Sei que me sinto agoniado. E que agora que escrevi isto ainda me sinto pior. E não devia ser para isso que um gajo escreve, para depois se sentir pior. Agonia por agonia bembondam as que provoca ouvir todos os dias a senhora de foice ao ombro. Aos berros de pim-pam-pum.
Pim-pam-pum.

Devem estar curiosos por saber que foi feito do Silva.
Pois bem, depois de criar o seu paraíso no deserto, qual deus menor com a mania das grandezas, o Silva morreu, ao volante do seu camião cisterna novo-usado - parece que foi uma falha nos travões.
A estufa lá ficou, anos a fio. Abandonada.
E aconteceu.
É sempre fácil zombar das regras da natureza, munido de lápis e papel, inventando estórias num banco de jardim.
Das flores.
Morreram todas. Ou melhor, salvaram-se as que se adaptaram à nova realidade. Mas essas não eram bem flores, daquelas que aformoseiam esquifes. Sem água e adubos, sobreviveram, mas feitas mutantes, espécie de náusea aos sentidos.
As árvores.
Salvaram-se as de raízes revoltas e manhosas. Iguais àquelas que, diz quem sabe, fazem parte do jardim da legião dos seis mil.
E as abelhas.
Desprezaram o mel e, em sensualidade e luxúria, passaram a produzir fel. Aguçaram ferrões e, por Azazel - antes de este engenhar os cremes para a casca humana, mataram-se umas às outras, divididas em clãs. Mataram-se e reproduziram-se (outra espécie de morte) e aliaram-se e firmaram pazes podres. Fizeram pela vida, como os bolores humanos fazem.
Para melhor terem uma ideia da estufa do Silva depois da morte deste, deixem-me que vos conte dos vidros partidos, dos cheiros nauseabundos vindos directamente do inferno. Da confusão desassisada de sentidos.
Há quem diga que um formoso devir.
E depois…
Depois foi isto.
Isto.
Ainda a propósito da relação complicada que os deputados têm com o cumprimento de horários, coisa, de resto, bem à imagem de quem os mandatou, lembrei-me que talvez não fosse má ideia colocar-lhes (pelos menos nalguns) umas coleiras electrónicas. Por um lado, identificaríamos, ao vê-los na rua, quem nos representa, sendo certo que nesta altura da legislatura já poucos serão os originais; por outro lado, seria sempre possível localizar os nossos ilustres representantes quando, como aconteceu com alguns, andassem perdidos no trânsito de Lisboa (que é horrível, horrível, horrível) e ajudá-los a encontrar o melhor caminho.
Mas mais importante do que trazê-los de volta ao Parlamento, coisa de somenos importância
(convenhamos sem ironias), e agora falado a sério, seria ligá-los a um mapa-mundi em LCD em que cada deputado seria uma luzinha. Aproveitando o, estou certo, belo efeito proporcionado e a possibilidade de verificação dos locais onde os deputados fazem trabalho local, estou certo que os ditos LCD venderiam que nem ginjas. Assim de repente até me vem um preço à ideia, 248 euros, que parece ser o preço escolhido para ideias absurdas e de nenhuma utilidade (na óptica do consumidor).
Acordou mal disposto.
Era fim-de-semana e não podia ir trabalhar e anunciava-se mais um dia a ouvir a mulher aos berros. Das duas uma, ou a mandava foder ou fodia com ela e para esta segunda hipótese, bem mais apetecível, havia mesmo que a aturar. A verdade é que dificilmente arranjaria outra, certo que, em não mentindo o espelho, o seu aspecto, outrora de macho apenas feio, assumia agora formas cada vez mais grotescas, a raiar o inumano. Ou seja, a ficar sozinho seria de vez - que não havia quem o aturasse ou pegasse naquilo. Havia pois que aguentar, inchar que nem um porco, esperando que a matança viesse longe. Enquanto pensava nisto, arrotou. Lançou asinha a mão à estrepitosa eructação, prática em que se aproximava da categoria de perito, e foi a correr publicá-la. Que seria da sua vida de cronista sem a publicação diária dos seus arrotos? (continua um dias destes)
Ma gavte la nata é uma expressão em turinês que quer dizer, mais coisa menos coisa, "tira a rolha", "tira o pipo". Do cu, claro. Dito que deve ser aplicado, seja vociferado ou dito entredentes, àquelas pessoas que, de tão inchadas, certamente por não expelirem ventosidades anais, parece que estão vai não vai para rebentarem.
O peido é para ser dado. Foi criado para ser expelido com estrépito. O peido é um instrumento regulador da racionalidade humana. Sem o peido vão-se acumulando no organismo correntes de ar e humores que cumpria serem expelidos. E o corpo vai inchando e os ditos ventos vão ocupando partes do organismo que deviam estar ocupadas por cenas mais importantes, tipo cérebro. Aliás, não é à toa que vento, para além do mais, pode significar quer vaidade, quer flatulência.
Não sou pelo peido insolente, dado só porque sim. O acto do peido, como regulador orgânico, deve ser intimista, resguardado - quanto mais não seja por causa do fedor que traz associado. Mas, esse é o ponto, não se deve reprimir o peido.
Claro que este meu post não tem absolutamente nada a ver com Paulo Vento ou com Cristiano Ronaldo, agora conhecido por CR7. Nem com inúmeros outros indivíduos que, vê-se, andam bem peidados (a propósito, Messi é de longe, muito longe, o melhor do mundo, e o Paulo é bem melhor que o Detritus do Asterix - cumpre melhor o papel de desestabilizador corporativo, quero dizer).
Este post é serviço público.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
