Segunda-feira, 08.09.08

O "caso Paulo Pedroso" podia estar encerrado. Já deveria estar encerrado. Mas não está, e corre o risco de arrastar-se indefinidamente. O "erro grosseiro" do juíz Rui Teixeira seria corrigido, justiça seria feita, e os danos causados ao deputado seriam indemnizados. E passávamos adiante. Em vez disso, já se avizinham recursos da Procuradoria, e aquilo a que se chama "colocar uma pedra sobre o assunto" ficou, uma vez mais, adiada. Isto sou eu a divagar. Porque o estigma nunca o largará, por muitos que sejam os reconhecimentos do erro. Sobre Paulo Pedroso penderá sempre a suspeita velada, o "não há fumo sem fogo" e outras manifestações mais ou menos confessadas de desconfiança. Será assim tão difícil admitir de vez que foi erro? Teremos da nossa capacidade de discernimento e dos juízos de Rui Teixeira uma opinião tão próxima da omnisciência e da infalibilidade? Ou há aqui algo mais do que a fria e desapaixonada análise dos factos?

Acompanhei o "caso Casa Pia" sem grande empenho para além de um mediano interesse informativo, como qualquer mortal. Uma coisa me chocou particularmente: a forma emotiva como a questão foi tratada, uma autêntica paranóia colectiva que via, subitamente, pedófilos em todo o lado, nascidos como cogumelos onde quer que houvesse crianças. Manifestações "espontâneas" de populares em Lisboa, com gente a gritar "Rui Teixeira! Rui Teixeira", como se o antipático juiz fosse um justiceiro que iria lavar Portugal da vergonha da mácula subitamente revelada nas manchetes. E um sentimento de "caça às bruxas", não a bruxas quaisquer, mas aos poderosos, aqueles sempre impolutos e acima da Lei. Houve dias de autêntica sanha de adivinhar que outros "famosos" surgiriam envolvidos no caso, nas primeiras páginas do dia seguinte. Como se uma rede pedófila fosse um pequeno clube de políticos e figuras públicas. Se havia um lobby gay, porque não um lobby pedófilo, não é mesmo? Mais grave, porém, foi a campanha de desinformação que amplificou, estendeu e alargou os preconceitos e ideias feitas sobre a questão, misturando pedofilia, abuso sexual de crianças, desvios à norma e... homossexualidade masculina. Não raras vezes ouvi comentários, mistos de ignorância, medo e revolta, sobre o assunto. Um homossexual como um pedófilo em potência ou, pior, um homossexual como um pedófilo preferencial. Um pedófilo como um homossexual realizado e satisfeito, em suma. Enormidades destas, sim, mais ou menos sussurradas ou ditas abertamente, e contra as quais não havia argumentos dissuasores eficazes. No que toca a Paulo Pedroso, lembro-me de me ter causado forte impressão, não exactamente os meandros do processo, mas o circo promovido pelo marshall Rui Teixeira de que todos estamos recordados. E algo muito pior, muito mais desagradável e, sob certo ponto de vista, assustador: Paulo Pedroso era o alvo ideal da frustração de um país assustado, do medo e da ignorância. Um político em ascensão, ex-ministro, deputado. Tinha tudo contra ele: uma figura de gabinete, pouco brilhante no discurso, voz desagradável, ar antipático, óculos. E percebi que possuía uma característica que suscitava uma desconfiança adicional e irracional: uma cara redonda, imberbe. Ouvi eu de várias pessoas, sim: "tem cara de pedófilo, pá". Quando pedia uma definição mais concreta sobre o que era exactamente uma "cara de pedófilo", ouvia respostas variadas mas convergentes: que não era "normal", que parecia "o Padre Frederico", que tinha "cara de bebé chorão", ou, mais prosaicamente, que "não sei bem, mas vê-se logo, pá, sabes bem o que quero dizer, não me lixes". Era "esquisito", em suma. E o "ser esquisito" dava-lhe passaporte automático para a culpa de envolvimento em abusos de crianças e jovens da Casa Pia. Lembro-me de ter divagado, entre o espanto e o incómodo, sobre estas formas de justiça ad-hoc que julgavam as pessoas pela cara, de forma tão taxativa e concludente. Pensei no que aconteceria se o Paulo Pedroso tivesse cara de Paulo Pires, voz de Cândido Mota, carisma de Mário Soares. Certamente que não suscitaria uma vaga tão unânime de certeza da sua culpa. Hoje, posso estar errado, posso estar a ser injusto, posso estar a ser, eu próprio, preconceituoso acerca dos meus concidadãos. Mas não me convenci de que os murmúrios e os desabafos de suspeita, de desconfiança, de incerteza, que na blogosfera pairam sobre este caso e esta figura, não têm nada a ver com isto.

Sexta-feira, 05.09.08

...aflorou ontem no meu rosto ao ver, na SIC-Notícias, o embaraço de Pezarat Correia perante a insistência de Mário Crespo em pedir um comentário às eleições em Angola e ao facto de o governo angolano ter proibido a entrada de jornalistas da SIC (e, de um modo geral, de todos os órgãos do grupo Impresa) para a cobertura das eleições, como represália pelo episódio do convite a Bob Geldof, que classificou a elite dirigente angolana como "um bando de criminosos". O jornalista, em tom de saborosa bonomia, relembrou que havia muita gente em Angola a assistir, naquele momento. De seguida, e para ver se conseguia desemburrar o gaguejante general, sacou (um "acto de guerrilha", como ele próprio o classificou) do seu passaporte e mostrou para as câmaras o visto que lhe foi concedido em 1986 para uma entrevista ao já então Presidente José Eduardo dos Santos e que, à última hora, foi anulado. Uma no cravo e outra na ferradura, dizendo que não concorda com essas proibições mas que as declarações do músico foram excessivas, o velho general na reforma engoliu em seco quando o interlocutor o confrontou com o facto de a imprensa portuguesa metralhar incessantemente o presidente Bush mas ser impensável que qualquer jornalista seja impedido de lá entrar em Novembro, e acabou por se sair com um "mas acha que Angola é os Estados Unidos, ou Portugal?". De facto, quando não se tem (ou não se quer proferir) respostas, fazem-se perguntas.

(Publicado originalmente no Caminhos da Memória) Todos os povos têm os seus heróis, os seus mitos fundadores, o seu imaginário fabuloso, o seu cimento identitário. Porém, a massa deste é formada não só por aquilo que une, mas também por aquilo que tenta o efeito contrário. Todos os povos têm inimigos. Não exactamente os inimigos reais, que podem variar consoante as épocas e as conjunturas, mas aqueles que são percepcionados desta forma, os que estão entranhados no fundo da alma de cada povo e sedimentados no imaginário colectivo ao longo de muitas gerações. Historicamente, os inimigos são sempre os nossos vizinhos, os que nos disputam os recursos, os que ameaçam a nossa integridade ou nos tolhem os movimentos. A pior sorte esteve sempre reservada aos pequenos povos que vivem em zonas de disputa de grandes potências hegemónicas e rivais. Os Balcãs e o Cáucaso, mosaicos de povos, línguas e religiões, teimam em recordar-nos este facto. Os polacos têm o supremo azar de estar entre alemães (prussianos, melhor dizendo) e russos. Os persas não morrem de amores por turcos e árabes. Os coreanos têm a poderosa China e o aguerrido Japão sempre à espreita.

Os portugueses, encurralados numa ponta da Europa, também temem desde sempre os seus vizinhos. Os castelhanos, não os “espanhóis”, porque Espanha é uma entidade política relativamente recente e artificial. Uma relação de amor-ódio, de atracção e repulsa com muito de inveja à mistura. Se a existência de Portugal implica a quebra da unidade peninsular, também é verdade que essa unidade teve que ser construída do centro para as periferias, de Castela-Leão para as outras regiões. Foi o que aconteceu, um movimento centrípeto, um vórtex iniciado nos século XIII, com a união das duas coroas, e reforçado, de forma irreversível, a partir dos finais do século XV. Portugal ficou de fora. Porém, a atracção era difícil de resistir. A nobreza portuguesa sempre sentiu uma enorme inveja pela sua congénere castelhana, pela riqueza das principais casas, pela extensão dos seus domínios, pela opulência das suas rendas. Até a Coroa portuguesa da Casa de Avis, a mesma que emergira em 1385 na luta contra Castela, não resistiu a uma aproximação dinástica gradual mas inexorável, que a curto prazo resultaria inevitavelmente numa união peninsular, como veio a ocorrer em 1580. Passadas algumas décadas, a história foi reescrita. Inventou-se uma “Restauração” para legitimar um golpe de estado e uma nova dinastia. E para a posteridade ficou a memória, também ela sedimentada ao longo de gerações, de um “período filipino”, de um “domínio espanhol”, de uma “perda da independência”, de uma “usurpação” e de outros epítetos bem menos simpáticos para designar o período em que Portugal, Castela e Aragão partilharam um rei comum, uma monarquia que era, à data, a mais poderosa da Europa e que dirigia o primeiro império à escala planetária, “onde o Sol nunca se punha”. Essa memória de usurpação e de “período negro” subsiste até hoje, nos manuais escolares, nas obras de divulgação, no senso comum. Os Filipes são os únicos reis de Portugal que não têm direito ao tratamento de “Dom”. E, geralmente, são até nomeados pelo título da Coroa de Castela e não de Portugal, ou seja, “Filipe II, III e IV” em vez de “D. Filipe I, II e III”. São reis estrangeiros, para todos os efeitos. Esquecido na penumbra fica o facto de as mais sérias e intencionais tentativas de união entre Portugal e Castela não terem partido de lá, mas de cá. D. João II, o príncipe perfeito, o nosso monarca iluminado do Renascimento, que fez correr muita tinta há pouco mais de uma década, em odes laudatórias à sua sageza, ao seu conhecimento premonitório sobre viagens atlânticas e Projectos das Índias, sonhava na verdade unir Portugal a Castela. E por pouco que não o conseguiu, não fosse o cavalo do príncipe D. Afonso ter baqueado no dia 13 de Julho de 1491, causando-lhe a morte. Já estava casado com a filha dos Reis Católicos e pronto para unir as três grandes coroas peninsulares. Igual sorte funesta teve, poucos anos mais tarde, o infante D. Miguel, filho de D. Manuel I e também ele jurado herdeiro em Portugal, Castela e Aragão. O desejo de unir as três coroas era de tal maneira intenso que foi baptizado D. Miguel da Paz, como forma de celebração de uma nova era de união e de paz ibérica. Estranha obsessão esta, a de um reino sobre o qual se afirma tantas vezes que estava de costas voltadas para Castela e virado para o mar e para as empresas ultramarinas. A longo prazo, o que persistiu na memória colectiva foi apenas o resultado final, o clímax desse longo processo de aproximação desejada. E assim, de uma forma perfeitamente acidental, pois não era suposto que o jovem D. Sebastião desaparecesse em África e deixasse o reino sem herdeiro, as seis décadas de União Ibérica passaram a uma espécie de Dark Ages do imaginário nacional, sinónimo de decadência, de opressão, de guerra, de perseguições, de submissão a um poder estrangeiro, em contraste com a luz da Golden Age dos Descobrimentos que a precedera. Submissão a um rei estrangeiro, mas não um rei qualquer: o rei de Castela, o rei vizinho. Até o nosso feriado nacional foi criado em tons carregados, sombrios, teatrais, trágicos. Camões foi, de facto, um herói da propaganda republicana, que conheceu o seu auge nas celebrações do 3º Centenário da sua morte. O Dia de Portugal não é uma data de celebração de uma batalha, de um tratado, da morte de um mártir da causa nacional. Não é Aljubarrota, o Tratado de Zamora, um qualquer Tiradentes. Não é sequer a data da “Restauração”. É a data da morte de um poeta que cantou glórias e heróis passados, numa era luminosa que morreu com ele, em tom premonitório e de mau augúrio. Lembro-me, algures por volta de 1970, de uma colecção de cromos sobre a vida de Camões que terminava precisamente com um epitáfio deste tipo: “a 10 de Junho, já as tropas do Duque de Alba entravam em território português, apagou-se a chama do Poeta e, com ele, a independência nacional”. O “período filipino” é o luto dos Descobrimentos, a ressaca da pimenta e da canela, o purgatório do ego nacional, que veio, todavia, a ressuscitar após 60 anos de incubação e de amadurecimento. A aversão aos espanhóis atravessou séculos. “De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”, diz o ditado. Durante os séculos XVII e XVIII, Portugal pendeu, primeiro, para os vizinhos-nas-costas-dos-vizinhos, ou seja, a França, e depois para a velha aliada britânica, numa clara opção atlântica. As aventuras de Napoleão e os delírios de Manuel de Godoy agravaram a crispação. Só em 1861 é que surgiram por cá as primeiras teses iberistas, mal-aceites de um modo geral e pronta e publicamente contestadas por uma “Comissão Central 1º de Dezembro”. Este núcleo de feroz oposição às ideias que preconizavam a aproximação e, eventualmente, a união com Espanha veio posteriormente a dar origem à Sociedade História da Independência de Portugal, instituição que ainda existe e que conta entre os seus objectivos a “promoção do culto do amor pela pátria” e “a preservação da dignidade de Portugal como nação livre e independente”. Nem a sintonia entre Salazar e Franco fez abrandar a tonalidade sombria, céptica, carregada, das percepções e impressões acerca do país vizinho, herança de séculos de desconfiança sedimentada. Espanha era o país da guerra civil, a terra de pesetas fracas perante o orgulhoso escudo forte, de prostitutas, de caramelos e de bárbaras touradas de morte, onde havia terrorismo e atentados a ministros, uma terra sem os nossos brandos costumes, sem a nossa tradição civilizadora enraizada em África e na Ásia, sem a nossa vocação atlântica, multicultural e multirracial. Espanha pariu conquistadores sanguinários que destruíram civilizações inteiras, com um passado feito de convulsões internas e de envolvimento em guerras europeias. Portugal, pelo contrário, concebeu navegadores pacíficos que descobriram o mundo, com uma história marcada por feitos heróicos de amor à Pátria, em perfeita sintonia com o facto de possuir a mais velha fronteira da Europa. Uma Europa turbulenta e longínqua. Lembro-me de uma caricatura germanófila da 2ª Guerra, onde uma URSS aflita espera a ajuda do Tio Sam. Um lusito barra o caminho e diz, orgulhoso: “isto aqui é Portugal!”. A sua História apenas regista um período negro, do qual veio, porém, a renascer fortalecido e revigorado: precisamente, o do domínio espanhol. Subitamente, Portugal vê-se parceiro da Espanha numa comunidade europeia, num processo que avança para uma união aduaneira e monetária. A união política está na calha. Vivemos numa época em que se discute uma Constituição Europeia e, posteriormente, um Tratado de Lisboa, que mais não são do que trilhos para uma futura Federação da Europa, alargada até às portas da Rússia e do Médio Oriente. Mas o que por cá suscita debate mais aceso não são os efeitos duráveis destes passos. São as simpatias iberistas de Saramago e a forma desabrida como as expõe. Ninguém parece preocupado em denunciar o risco de invasão por húngaros ou lituanos ou por a locomotiva da Europa estar longe, para lá dos Alpes. Mas sentimos a inundação de produtos, de peixe, de fruta, de empresas e de marcas espanholas. E paradoxalmente, olhamos para o quintal dos vizinhos e invejamos o seu “nível de vida”, os seus salários, os seus índices, a sua dinâmica e o seu think big. Muitos sussurram que não se importavam de ser espanhóis, num misto de inveja, desencanto e oportunismo. Ontem como hoje, a ambivalência prevalece. Curiosamente, o único verdadeiro ponto de ruptura formal entre Portugal e Espanha está hoje relegado à condição de mera curiosidade de baú, uma teima de uns quantos indefectíveis, um assunto de que ninguém fala e toda a gente ignora ou prefere ignorar. Olivença é uma vila alentejana que foi ocupada pelas tropas espanholas há mais de dois séculos e nunca devolvida. O seu estatuto permanece num limbo que Portugal aceita na prática mas não reconhece de jure, numa Europa em vias de federalização, num mundo globalizado, numa era que alguns dizem ser de “fim da História”. Os esconjuros do passado bem que podiam começar por aqui. Não seria muito, mas sempre era um começo. 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Quarta-feira, 03.09.08

... ou a bandeira portuguesa hasteada hoje em Varsóvia estava mesmo virada ao contrário, ou seja, com o escudo invertido? Foi o que vislumbrei, por breves instantes, no meio de uma reportagem televisiva. Era montagem? Seria a bandeira içada numa cerimónia oficial, ou algum maduro polaco que quis fazer uma gracinha? Ninguém viu, ninguém deu por isso? Presidente da República, jornalistas, corpo diplomático, nada, ninguém? Só têm olhinhos para a joaninha da Biedronka? Bom, se fosse eu a mandar, já se sabia o que iria acontecer: quando o Kaczyński cá viesse, era certinho que seria recebido com a bandeira indonésia.

Domingo, 31.08.08
Paulo Pinto

Por antecipação, regressei ontem a casa após uns dias de pausa, evitando os previsíveis congestionamentos de trânsito que se adivinham para hoje. Há anos que não me calhava na rifa esta viagem Algarve-Lisboa em fim do mês de Agosto. Depois da experiência, fiquei com pouca vontade de repeti-la. Há um não-sei-quê de arrepio na viagem de regresso de férias. Por acaso, sei bem o quê: os automobilistas portugueses, que habitualmente conduzem como imbecis, comportam-se como loucos assassinos nestas ocasiões. Ou como energúmenos ressabiados. Ou, ainda, como VIPs a caminho da sua finest hour. Sem ironias: não sei como é que morreram umas dezenas de pessoas na estrada, nesta quadra estival. Não fosse um qualquer deus luso que no Olimpo vai metendo a mão por baixo, e teríamos que fazer uma qualquer conta "ao quadrado".

As situações são variadas, mas posso condensá-las em três tipos principais: 1. o velho ressabiado: é aquele que circula a 90 ou a 100 e que só acelera quando está a ser ultrapassado, sobretudo se for numa subida e o "outro" vier carregado ou não possuir um bólide; muitas vezes, após infrutífera resistência à ultrapassagem, toma-se de calores, borra-se todo para nos fazer o mesmo e depois abranda; mensagem: "toma lá e aguenta, cabrão". 2. o raticida: é aquele que considera o automobilista seu vizinho um rato e que se acha, portanto, no direito e no dever de montar armadilhas, como seja fazer ultrapassagens seguidas de desvios bruscos para a direita, deixando-nos a poucos metros da sua traseira e obrigando-nos a travagens involuntárias, ou circular pela faixa da esquerda em ultrapassagem lentíssima, propositada, como fito de nos manter atrás daquele camião pesado; mensagem: "toma lá e vai-te foder, cabrão". 3. o meteorito: é aquele que esmifra a fundo todo o HP da sua viatura, não olhando a consumos, estado do pavimento, tráfego, condições atmosféricas ou respeito pelos outros, pequenos pormenores de gente tacanha e atrasada; portanto, circula na faixa da esquerda a 160 kms/h, de médios acesos e sinais de luz constantes, encostando-se à nossa traseira em ameaça velada; muitas vezes efectua a sua manobra preferida, o ziguezague, sem, evidentemente, o uso de pisca, esse instrumento para atrasados mentais; mensagem: "toma lá e sai-me da frente, cabrão". Há momentos em que desejo ardentemente ser polícia. Sinceramente. Sempre me acalmaria a sensação de impotência de ver tanta irresponsabilidade tantas vezes repetida. Talvez fosse melhor, de facto, desejar ser deputado ou ministro para legislar convenientemente sobre estas matérias. Se bem que eu saiba que não há lei que evite, não há polícia que chegue. Há, sim, aquela coisa chamada respeito e civismo, velhos chavões e lugares-comuns repetidos até à exaustão. Acredito que é na estrada que as pessoas revelam a sua natureza, ali, chapa com chapa, como gladiadores do Rollerball na arena, sem maneirismos ou etiquetas sociais, sorrisos e mesuras de circunstância. É ali que dissipam frustrações e fazem descargas do fel que se pensava derretido pelo sol algarvio. Creio firmemente que boa parte das pessoas gostava, no fundo, de ter os carros armados de bazucas para poder derrubar vitoriosamente, com um yeeees!, os inimigos, perdão, concidadãos. Ou então pára-choques para poder bater à vontade. E o que acho mais engraçado é que, quando estão fora das suas máquinas, são unânimes em considerar que as estradas portuguesas são um perigo. Por culpa dos outros, evidentemente.

Segunda-feira, 11.08.08

Alguém me sabe dizer o que fazer a velhas cassetes VHS, já sem uso? A empresa municipal do concelho onde resido não tem destino para elas e aconselhou-me a "colocar tudo num saco e metê-las no contentor". Aguardam destino final há vários meses e não tardará muito, sigo mesmo o conselho. Também tenho CDs e DVDs inutilizados para deitar fora. Ninguém sabe o que lhes fazer. Há dias ouvi, no espaço da Quecus na Antena 1, dizerem que não podem ser reciclados e que o melhor é reutilizá-los, por exemplo, como bases para copos...

Sábado, 12.07.08

Uns diazinhos de praia no Algarve profundo. Talvez não seja exactamente profundo, mas é, certamente, o mais procurado: uma extensa faixa de areal, gasolina mais barata a poucos quilómetros e uma época do ano propícia, ainda antes da avalanche do típico mês da silly season. As praias têm algum interesse e alguma piada. A começar pela sua ordenação. Em conversa com um nadador-salvador, percebi que ali, para poente, é Vila Real, aqui é Castro Marim e ali, para nascente, é outra vez Vila Real. Curiosamente, descobri que ali, a norte, também é Vila Real, como demonstram os passeios, a 200 m da areia, que ostentam orgulhosamente a sigla “algarve – cidad ra” [sic]. A primeira ainda desculpei, dada a proximidade com Espanha. Já a segunda, que daria algo como “Real António”, ficou obscura. Se daqui a séculos forem encontradas peças destas, os arqueólogos terão matéria para acesa discussão. Hei-de verificar, num mapa administrativo, mais esta deliciosa peculiaridade da estrutura municipal portuguesa. O mar aqui é ora azul, ora verde. Azul nos dias pares, verde dos limos e das algas nos dias ímpares. Por vezes, azul de manhã e verde à tarde, ou vice-versa. Um verde lindo, clarinho ao perto, escurinho ao longe. As algas dividem-se, também elas, em duas categorias: umas que flutuam e que se assemelham a gigantescas escarretas e outras, mais discretas, que se limitam a enrolar-se nas nossas pernas, e que parecem mesmo alfaces frisadas cortadas em juliana. Dizem que é da poluição, do vento, do aquecimento global, não sei. Vaticino que, num futuro não muito longínquo, quando for impossível tomar banho por aqui, os Gonçalos Ribeiros Telles dirão que se trata de um excelente fertilizante agrícola natural para utilizar nas hortas, mas os projectos estruturantes em curso certamente que as utilizarão para dar cor aos campos de golfe. O areal é agradável e extenso. Ocasionalmente passam um jipes giros e modernaços a dizer “marinha” com uns senhores de uniforme (invariavelmente azul, e nunca, que eu tenha reparado, verde) a vigiar o povo. Julguei que andassem à caça de sacos de haxixe largados durante a noite, de contrabandistas prevaricadores ou de perigosos traficantes. Há dias desenganei-me, quando um deles abrandou e pregou uma descasca a um velhote que catava conquilhas, na maré baixa, com uma rede. Aparentemente, é proibido apanhá-las com aquilo. O agente da autoridade afastou-se, com a consciência tranquila pelo dever cumprido, e o velhote voltou às suas lides ilegais. Tudo normal, portanto. A minha consciência burguesa e anti-ecológica vociferou contra o acto que tinha acabado de presenciar. Eu quero que as conquilhas se conquilhem, mas é. Queria era que os agentes andassem munidos de armas automáticas e que disparassem à queima-roupa e sem aviso prévio contra a maior praga destas zonas, umas bípedes criaturas brancas armadas de caixas, uma de cada lado, e que poluem tudo com pregões estridentes repetidos de 2 em 2 minutos. Ainda por cima, e a bem das regras do mercado e da concorrência, são várias as pastelarias que aqui procuram o seu nicho de mercado. Logo, é “óóóóóó boliiiiiiinha, há com creeeeeeeme e sem creeeeeeeme” em estéreo e surround. Anteontem, onde eu estava e a certa hora da tarde, cruzaram-se quatro. Uma sinfonia de miadeira desafinada. Não estou a brincar. Chegará o dia em que se reconhecerá que poluição não é só lixo nas praias. Agora até há tipos a vender camisas e artesanato africano na praia. Tardarão os mendigos, os vendedores de flores, as mulheres com crianças ao colo ou arrumadores de chapéus de sol? De resto, há cães na praia a passear-se alegremente por entre os nadadores-salvadores e pessoas de cana de pesca eriçada. E gente que usa o areal como se de um morgadio de família se tratasse, com quadrados demarcados na areia a simular campos de jogo. Tudo ilegal. Alguém se rala? Se não, porque é que o pobre velhote da pequena rede pagou as favas? Por aqui há sobretudo crianças e velhos, muitos. Netos e avós. Walking grandpas e grandmas, que percorrem, incansáveis, quilómetros de areal. Em Lisboa, provavelmente, não mexem o rabo e andam de carro para todo o lado. Mas aqui, não. Este Algarve está a tornar-se um poiso de reformados que trazem a 2ª geração de descendentes. Os filhos, esses, devem estar em casa a fazer contas ao spread. Ou então estou a ver tudo mal e largaram a prole com os velhadas e foram mas é para as Caraíbas à conta da Cofidis. Aqui também há muitos bifes, sempre desejosos do sol a pino e em processo de transmutação alvo-vermelhusca. Bifas, também as há. No outro dia vi uma a besuntar-se. Ainda me passou pela cabeça dar uma de Zezé Camarinha, mas falta-me o bigode e o charme de macho latino e, além disso, duvido que ela apreciasse a proposta de lhe passar natas pelas costas, como parece ser apanágio de célebre escritor algarvio. As pessoas reparam muito em certos pormenores. Soube que uma conhecida minha ficou muito incomodada por ter descoberto alguém com um fato-de-banho igualzinho e ontem assisti a uma demonstração de idêntico desagrado. É curioso verificar como as pessoas se vestem segundo uma bitola quase única durante 11 meses, usando fatos e gravatas como se de uniforme obrigatório se tratasse, e depois, durante umas semanas, querem à força ser diferentes. Lá mais para nascente, há uns pobres pescadores que apanham magros quilos de peixe local. Demoram horas a conseguir desenvencilhar os bichos das redes e cada um deles não excede um palmo, entre pele e espinha. Mas parecem divertidos, sobretudo por serem motivo de curiosidade e, presumo, divertem-se à brava com as perguntas imbecis da gente urbana que não parece distinguir uma carapau de uma solha. A terra mais próxima é interessante. Até tem um casino e tudo. E muita gente nas ruas à noite. E carrinhos de choque e uma roda gigante. E lojas com tudo a, pelo menos, 40% de desconto. Há um “Restaurante Suiss” que apregoa cozinha tradicional portuguesa. Ontem descobri um cartaz a informar que um outro restaurante possui características especiais: lareira, nada de micro-ondas e, sobretudo, “family atmosphere”. Falta-me paciência para ir lá verificar, se bem que me fique a roer de curiosidade. Os estrangeiros acharão, certamente, very typical mais esta inovação da cozinha portuguesa, agora que parece definitivamente arredado o chicken piri-piri. Mas os douradinhos da Iglo com batatas fritas, esses, ninguém lhos tira.

P.S. – estas palavrinhas estão alinhavadas há 3 dias. Anteontem dirigi-me ao espaço internet disponibilizado pela autarquia, mas estava fechado, sem aviso nem explicação. Disseram-me que “de Inverno está aberto, agora não sei”. Ontem tive sorte ligeiramente melhor, mas ainda assim insuficiente. O espaço estava aberto, mas era obrigatória uma vestimenta que eu não possuía e a preguiça impediu-me de lá voltar. Hoje, veremos como estamos de sorte.

Quinta-feira, 12.06.08
Paulo Pinto

Há dois dias, na TVI, depois de mais uma bela interpretação desse grande hino que é o "sou português", ouvi o inefável Toy dizer algo como isto: "desde o Tratado de Tordesilhas que Portugal é, como Espanha, um dos maiores países do mundo". Confesso que na altura não percebi bem se ele se referia ao tamanho do país, do orgulho nacional, da alma lusa ou da selecção de futebol. Hoje, finalmente, fez-se luz: falava da raça portuguesa.

E de onde me veio a iluminação? De um post de Nuno Lobo sobre o 10 de Junho. Mais precisamente, sobre a célebre expressão relembrada por Cavaco Silva e as reacções (oh que espanto) do PCP e do BE, em nome da democracia. "Democracia que significa aqui, para o PCP e o BE, a promoção do multiculturalismo, a ideia de que todas as culturas são igualmente dignas de admiração, a promoção do relativismo preguiçoso e irresponsável que acaba em nada". Fiquei esclarecido: as diferentes culturas humanas não são portanto igualmente dignas de admiração. Há umas mais dignas do que outras, e a nossa é evidentemente a mais digna de ser admirada, pelos vistos, pelas restantes. Depois, explica: ainda bem que Cavaco falou do "dia da raça", entendida como "a celebração dos portugueses com raça" (ahh, isso quer dizer que há portugueses que não têm o tal pedigree), "dos portugueses capazes da grandeza própria dos grandes povos". Aqui, confesso, fiquei ligeiramente confuso. Então sempre há outros povos grandes? Um deslize multiculturalista, concluo. Mas está perdoado, pronto. No fim de contas, talvez fosse um pouco exagerado dizer assim de caras que os portugueses são o único grande povo do planeta.

E que portugueses puro-sangue serão esses? Os exemplos são, afinal, decepcionantes. Em primeiro lugar, o Infante D. Henrique e a sua famigerada Escola de Sagres. Compara-a com a NASA actual, mas nunca existiu. Triste balanço, portanto, opôr à agência espacial uma inexistência histórica. Aproveito para dizer ao ilustre blogger que o retrato do "homem do chapeirão" é, possivelmente, do seu irmão D. Duarte. E depois, o Poeta Camões. Ohh Camões, sempre Camões. E que mérito teve Camões, segundo Nuno Lobo? Vai buscar Montesquieu para concluir que escreveu uma epopeia que se assemelha à Odisseia e à Eneida, coisa que, bom, salta um bocado à vista sem ser preciso ir consultar o De l'esprit des lois. Pobre Luís, pára lá de dar voltas na tumba, o cavalheiro quase que te chamou de plagiador mas não foi por mal. Ah! ainda tem outro mérito: foi "um grande poeta, capaz de cantar as glórias de um grande povo". Ora, cada cultura tem os seus bardos e os seus poetas, que cantam as respectivas glórias. Camões é o nosso. Não entendo bem qual é o espanto.

A raça portuguesa não se esgotará, pensei, aqui. Porém, constatei, com grande mágoa, que o blogger acaba por frustrar as expectativas e por ceder às tentações multiculturalistas. E porquê? porque esperava que definisse e exemplificasse de modo profícuo a raça. Em vez disso, avança para "os grandes homens e as grandes mulheres da história humana", cujo exemplo deverá guiar as nossas crianças e jovens, contrariando, portanto, o PCP e o BE que "permanecem empenhados em continuar a nivelar as crianças portuguesas a um denominador comum, a fazer da educação dos portugueses uma aventura sem destino". E que personagens-guia serão esses? Decepção. Esperava Vasco da Gama, Eça de Queiroz ou a Padeira de Aljubarrota, saíram-me um grego, um alemão e uma albanesa. Não percebi o que terão os três a ver com a raça portuguesa que faz, afinal, o título do post. Conclusão, "o 10 de Junho poderia e deveria ser o dia da raça dos grandes homens e grandes mulheres da história humana".

No rescaldo, ficou-me uma dúvida: para que quererão e porque precisarão os homens e as mulheres da história humana, grandes ou menos grandes, da raça?

Quarta-feira, 11.06.08
Paulo Pinto

Vamos imaginar uma qualquer multinacional (veio-me à cabeça a Union Carbide) que tenha causado considerável dano a um país asiático ou africano. Vamos imaginar uma qualquer empresa portuguesa que também se tenha portado mal. Ou vamos imaginar uma ideologia, um indivíduo, uma arma, uma estirpe de vírus, um hábito de consumo, o que quiserem. Algo que tenha causado devastação. Um porta-voz espertalhaço poderia justificar o acto dizendo que Luís de Camões também diz, n'Os Lusíadas, que os reis de Portugal "as terras de África e de Ásia andaram devastando". Todos nós ouviríamos a explicação mal enjorcada e acharíamos um disparate.

Pois no 31 da Armada não é bem assim. Nuno Miguel Guedes mete paninhos quentes na língua destravada do Presidente da República, a propósito do "dia da Raça". Bastava dizer que "foi erro, pá, nunca se enganaram?". Nada disso. Pelo contrário. Não foi erro nenhum, foi apenas o uso do "sentido em que era usado no século XVI, significando gesta, povo, colectivo". Uma bela lição de patriotismo, afinal, e os cães (rafeiros, provavelmente) do Bloco de Esquerda deviam ladrar menos e ler mais Camões, que é o que lhes falta. No fundo, basta que qualquer expressão venha nos Lusíadas para poder ser usada. Eu sugiro então que, das próximas vezes que alguém vier falar da al-Qaeda, não mencione "terrorismo" mas sim "Maura lança" (imaginar Bush como D. Sebastião e "novo temor da Maura lança" enche-me o peito). Adiante. Tudo isto são divagações mais ou menos prosaicas. Gostava era que o ilustre blogger, uma vez que parece versado em epopeia camoniana (ao contrário dos analfabetos detractores do Chefe de Estado), nos ilumine com a informação devida acerca da fonte. Ou seja, que nos diga onde é que n'Os Lusíadas consta exactamente esse conceito de "Raça" (sim, com maiúscula) que tanta tinta tem feito correr. É que eu, na minha modesta ignorância, percebi que a edição que possuo deve estar truncada, certamente expurgada, por um qualquer censor comunista, dos maravilhosos conceitos patrióticos do Poeta. Na verdade, apenas encontrei uma referência, no Canto Décimo (100) que, se aplicada conforme as disposições do blogger, não será muito abonatória dos nautas lusos, nossos egrégios avós, ali cantados: "Olha as Arábias três, que tanta terra/ Tomam, todas da gente vaga e baça,/ Donde vêm os cavalos pera a guerra,/ Ligeiros e feroces, de alta raça". Aguardo, portanto, esclarecimentos. É que o blogger diz que "a raça (...) neste contexto somos nós" e eu, apesar de pouco dado a tiques de sangue azul, não fico lá muito satisfeito por ser comparado a um cavalo árabe, ainda que ligeiro e feroz. Talvez para quem se considere um jumento seja um elogio, mas eu ainda vou mantendo algum amor-próprio.

Terça-feira, 10.06.08

Hoje, eram quase 9 da manhã, dirigi-me a um posto de combustível para cumprir mais um episódio da minha missão de poluidor- consumidor- utente- contribuinte e, sobretudo, pagador. Na Galp estava uma bicha (ups, fila, fila) enorme. Na BP, um pouco adiante, estavam duas viaturas. É natural, os preços são um pouco mais elevados e o combustível está pela hora da morte. Já só havia gasóleo numa das bombas. O carro da frente atestou o depósito, até transbordar. A camioneta atestou e encheu três bidões da caixa. Saí do carro e olhei para os que estavam atrás de mim: jerrycans e bidões nas malas.

 As notícias da rádio matinal estavam a surtir efeito. As gentes, temendo a secura suprema, precipitaram-se para as bombas. Não era abastecer para assegurar a circulação por uns dias. Nem era sequer atestar. Era tudo isso e ainda encher mais uns recipientes. Na minha terra, chama-se a isto "açambarcar". Que curioso, o gasóleo, antes caríssimo, ficou subitamente uma barateza. Quando eu disse que "só" queria 40 litros, conta certa e habitual, o empregado fez uma cara estranha. À sua frente estava um pelintra armado em carapau ou um lunático, de certeza. Se ele conhecesse a Alexandra, decerto diria que "era da idade". Lá me abasteceu e perguntou se podia fazer a "conta certa ao euro". Atrás de mim, a fila aumentava, tal como a minha vontade de perguntar directamente para que é que queriam aquilo. Ainda pensei que houvesse algum novo produto bancário vantajoso que convidasse à acumulação de combustível. Não, toca a andar. Tive, ao menos, o prazer de um resmungo cúmplice com o aflito funcionário, que esperava um feriado tranquilo. Já se desenganara e preparava-se para "ligar a um colega para o vir ajudar". "Vai tudo para casa encher a banheira de gasóleo, ao que vejo, hein?", foi o meu comentário final. Depois ouvi as notícias sobre algumas carências nos hipermercados, o problema especial do leite e a questão dos frescos. Afinal os camiões do Pingo Doce mereceram escolta policial. No noticiário da SIC, uma jornalista simpática, perspicaz e inteligente pergunta num piquete (se não me engano, no Carregado): "foram vocês que apedrejaram os camiões?". Não, claro que não, as pedras levantaram-se da calçada e dirigiram-se espontaneamente para as viaturas que iam a passar, mas que pergunta. O nosso PM explica e diz que está em negociações para minimizar os efeitos. Recebe apupos e assobios em Viana. Uma festa, este 10 de Junho. O Portugal solidário, o Portugal do Euro, o Portugal vestido de verde-rubro que se abraça e beija quando a selecção marca golo, o Portugal da "raça", na feliz expressão nostálgica em boa hora relembrada pelo Chefe de Estado em dia de celebração nacional, esse Portugal deu lugar, por umas horas, ao velho Portugal que apedreja camiões e que açambarca combustível, mesmo que isso seja irracional, desnecessário e estúpido, mesmo que cada litrada que se guarda no cofre faça falta ao vizinho. Problema dele e cada um sabe de si, não é? Hoje combustível, amanhã arroz, depois de amanhã, sei lá, talvez latas de Bom Petisco. Eu vou já despejar a minha garrafeira e encher as garrafas de gasóleo, que vinho não puxa carroça, e o depósito de água que tenho para ali, vou atestá-lo do precioso líquido para quando for preciso. Se não houver água para o banho, paciência. E se não precisar dele, bom, vendo-o a alguém daqui a uns tempos, nessa altura já dará um bom lucro. No fim do episódio matinal, suspirei. Estava a exagerar, certamente. Afinal, amanhã, antes das 5, já estará tudo resolvido. Ou não?

Segunda-feira, 09.06.08

Portugal está de novo em transe, em mais um ritual colectivo de catarse de pecados, fantasmas, neuras, crises, complexos de Édipo e de inferioridade, psicoses, traumas, dores de crescimento, rinite alérgica, acne e caspa. Dura, na melhor das hipóteses, até ao fim do mês, na pior, até ao próximo domingo. Até lá, em crescendo, a Nação deposita graciosamente nos pés de uns moços a esperança de redenção dos pecados de todo um povo. As expectativas são altas e as consequências, profundas: tanto nos pode sair a glória como a desgraça. Confesso que tudo isto me parece ridículo. Lamento se soa ofensivo, a intenção não é essa. É, apenas, a de relembrar que é apenas um jogo. E que nenhum jogo deveria ser elevado ao estatuto de causa nacional como o é a presença portuguesa em campeonatos internacionais de futebol.

O circo já está em marcha e entra-nos pelos olhos e pelos ouvidos dentro, até à náusea. As bandeiras esvoaçantes, nos automóveis, nas varandas, nas portas das casas. Os portugueses, que desprezam os símbolos nacionais, enchem-se momentaneamente de um sentimento supersticioso, aquele patriotismo em time sharing, vazio, falso, beato, descartável, ridículo. Confesso, eu que nunca vivi nos tempos de exaltação da trilogia do "Deus, Pátria, Família", que me faz impressão, entre outras coisas, a forma como se banaliza a bandeira nacional, que é o símbolo do meu país e da minha terra, onde nasceram os meus antepassados e onde espero vivam os meus descendentes. Como se o destino de um país estivesse pendente do resultado de um jogo, como se Portugal fosse uma coisa que voga ao sabor da perícia dos pés de uns quantos. Lembro-me sempre que tudo isto é uma máquina de fazer dinheiro bem oleada, um excelente negócio para vendedores de bandeirinhas, empresas de toques de telemóveis, cervejeiras, operadoras telefónicas, bancos, eu sei lá que mais. Todos a partilhar da mística bacoca e a apelar ao "apoio à nossa selecção". "Nossa"? Porquê "nossa"? Que eu saiba, o treinador é brasileiro. Alguns jogadores são estrangeiros. E alguns dos que são portuguesinhos não jogam cá, têm a sua carreira no estrangeiro e, se a vida lhes correr bem, só voltarão à pátria depois de acabada a carreira, como qualquer emigrante. Não percebo porque é que um grupo heterogéneo de jogadores profissionais de um desporto há-de ser o avatar da alma portuguesa. No decorrer do jogo de ontem, perguntei a um grupo de familiares e amigos se Bosingwa era apelido trasmontano. E que o sotaque do Pepe me estava a soar estranho, porque o imaginava beirão, como o Deco, aliás. A reacção foi desagradável. "Chato, cala-te, pá". Eu estava a ser desmancha-prazeres, pois claro. Decerto que estava. Mas não consegui deixar de olhar de soslaio e de pensar para com os meus botões "pois, mas se visses o Bosingwa noutras circunstâncias, ele seria apenas um preto das obras, e até eras capaz de achar que devia mas era voltar para a terra dele". Mas isto foi só um mau pensamento, típico do tédio que o jogo me causava. Senti simpatia pelos turcos, não que apreciasse especialmente o seu futebol, mas porque achei que a equipa vermelha, que até jogou melhor e, diga-se, mereceu ganhar, era tudo menos a minha selecção. E o que estava ali a ser jogado não era verdadeiramente futebol, era uma batalha onde nós lutávamos pela sobrevivência. Quando soou o primeiro golo, senti-me triste. Não pelo golo em si. Mas pelo facto de não me ter causado qualquer comoção patriótica. Oh que traidor. Não fiquei a achar subitamente que Portugal fosse o maior, não senti mais amor pela minha terra ou pelos meus conterrâneos. Achei que foi apenas um belo golo e isso, naquelas circunstâncias, era uma tristeza, uma desfeita imperdoável, uma incompreensível falta de patriotismo. Hoje, ao ver os noticiários, deparei com as habituais manifestações de euforia, como se subitamente o caos neste mundo tivesse encontrado o seu equilíbrio e um novo rumo para a harmonia, como se renascesse a esperança de um amanhã melhor. Depois percebi que não era um "amanhã", era um "daqui a três dias". Então, o futuro amanhecerá ainda mais risonho, para um domingo radioso, rumo a horizontes de glória. Ou talvez não. Aí é que vai ser uma gaita de uma ressaca, pá. Paulo Pinto Myshkin

Sexta-feira, 23.05.08

Bokors in the religion of vodou are sorcerers or houngan (priests) for hire (…), meaning that they can practice both dark magic and benevolent magic. Their black magic includes the creation of zombies (…). (da Wikipedia) 

De vez em quando, o zombie-Colombo Português é ressuscitado por algum feiticeiro nacional. A história é velha de barbas brancas, mas de cada vez que há uma crise do orgulho nacional, alguém encarrega-se de o trazer novamente à baila. E como é algo que mexe com os brios cá da terra, tem sempre audiência, livros vendidos e holofotes apontados. A última vez fora em plena euforia do oásis cavaquista, com o pitoresco Mascarenhas Barreto. Se alguém quiser ler a delirante entrevista que deu a Pedro Ayres Magalhães (que pela imparcialidade demonstrada se percebe porque é que faz música e, felizmente, nunca se dedicou ao jornalismo) à Kapa, em 1991, é algo que aconselho vivamente. A coisa deu algum barulho e, até, debates na televisão. Infelizes, porque não é possível desmontar, perante o apertado ritmo do directo, os disparates de quem se apresenta como defensor de Portugal, que puxa pelo orgulho nacional e dispara teorias da conspiração que nos enchem o ego. Alfredo Pinheiro Marques fê-lo e fez figura de "académico" e de "intelectual", rótulo imperdoável neste país. A coisa morreu de morte natural. R.I.P., pensámos todos. O zombie acaba de regressar, uma vez mais, da tumba.

Desta vez são outros autores a requentar velhas balelas mas que contam com importantes cumplicidades, ainda que cientificamente nulas, como José Rodrigues dos Santos e o seu Codex ou Manoel de Oliveira e o seu último filme. O Público de hoje, na página 14 da ed. impressa, aplica mais um balão de oxigénio ao morto-vivo, sob o título "Cristóvão Colombo era português, e de Cuba?". Lá vêm novamente as ideias estafadas das contradições e das omissões das fontes, do pintelho e da cagadela da mosca. Desta vez não há propostas de decifrar siglas cabalísticas. Mas a ideia-chave permanece: Colombo era agente de D. João II e agiu a mando deste para afastar as atenções dos castelhanos da Índia, mandando-os no sentido oposto. O pormenor de Cuba, ou seja, que o navegador seria originário da vila alentejana e que teria dado o nome da ilha à sua terra natal é enternecedor, não fosse o facto de a mesma ter sido baptizada de "Juana" (em homenagem à filha dos Reis Católicos) e o nome da ilha ter, na realidade, uma origem local. Sim, porque havia gente a viver na ilha, possuía uma língua e tudo, não sabiam? Para conceder a "chancela" (e desde que vi o Herman José a falar disto, não deixo de me rir com o termo), lá estão as declarações de Veríssimo Serrão. O mérito e o valor do decano da historiografia portuguesa não pode ser contestado, mas as suas ideias nacionalistas são bem conhecidas. Podiam ter pedido a opinião a outro, por exemplo, a Luís Adão da Fonseca, mas a mais que provável resposta estragava-lhes o retrato. Não quero aqui debater argumentos, aliás sem novidade (remeto, por exemplo, para as "Dúvidas e certezas na história dos Descobrimentos Portugueses", de Luís de Albuquerque). Mas constato como a "História" que interessa aos media, que faz vender papel e espevita o público é a historieta romântica de personagens, sobretudo se houver uma conspiração, um enredo e um final feliz. E onde os "bons" e os "espertos" são os portugueses. Como nos filmes. E que nos faz esquecer que há 10% de pobres em Portugal, que a gasolina não pára de aumentar e que a sempre anunciada "saída da crise" conheceu nova prorrogação. No caso presente, se se confirmasse, sem margem para dúvidas, que o famigerado Colombo sempre era português, seria uma verdade não merecedora do que mais que uma nota de rodapé ou, no máximo, um folheto. Em vez disso, é uma hipótese menor que se presta à escrita de grossos volumes. Na verdade, é perfeitamente irrelevante se era português, castelhano, italiano, moldavo ou cazaque. Isto porque a "nacionalidade" não era no século XV o que é hoje (melhor dizendo, no século XX). Não faltam exemplos de portugueses ao serviço de Castela, de que Magalhães é o caso mais célebre. Porém, o que motiva os bokors nacionais é a intriga oculta do semi-deus omnisciente D. João II e dos beatos papalvos Reis Católicos. Bem papados que foram, hein? Bom, cada um acredita no que quer. A realidade histórica é outra. A ideia de que os castelhanos poderiam perturbar o processo de descoberta do caminho marítimo para a Índia é falsa. Não havia tensão entre Portugal e Castela que pudesse levar a tal interferência. O Tratado de Alcáçovas-Toledo acabara com a guerra, resolvera as questões pendentes e firmara uma aliança, selada com a promessa de casamento dos respectivos príncipes. Os Reis Católicos tinham outras preocupações, à data: sarar as feridas de um país dilacerado por uma guerra civil, apaziguar uma nobreza indisciplinada, uniformizar do ponto de vista administrativo, fiscal, religioso e ideológico o espaço nacional, terminar o processo de conquista territorial peninsular.  Mas vamos ao que interessa. Se Bond-Colombo era agente português, prestou um lamentável serviço à Pátria. Deixem-no lá estar italiano, sff. Porque era, de facto, um nabo. Com nabos italianos podemos nós bem e este país já tem essa espécie em número suficiente. Em primeiro lugar, porque deveria ter navegado a norte da latitude das Canárias, cujo espaço estava atribuído a Castela pelo Tratado. E a latitude era uma coisa fácil de medir. Bastava o Norte da actual Florida. Tendo chegado às Antilhas, entrou em território reservado a Portugal, o que suscitou de imediato uma crise entre as duas coroas (que veio a ser resolvida em Tordesilhas). Ora, Portugal e Castela haviam saído de uma guerra. Seria patriótico causar outra? Em segundo lugar, D. João II não era omnisciente, mas também não era idiota. A esfericidade da Terra não estava comprovada, mas era a tese mais aceite na época. Mandar o seu agente para ocidente era um tiro no escuro. E se houvesse de facto uma passagem ou não houvesse continente americano nenhum? Teria os castelhanos no Japão e na China antes do final do século. Bela estratégia, de facto. Por fim, mesmo se admitirmos a omnisciência geográfica joanina, Colombo levou os conquistadores direitinhos a um vasto continente, rico em ouro e prata, que garantiu a Castela um império colonial durante 400 anos. Os Reis Católicos, esses otários, lançaram as sementes de um estado moderno, eficiente, altamente organizado e burocratizado, que viria a transformar um país pobre e dividido na maior potência europeia durante mais de um século. Em que nós participámos durante seis décadas. Mas isso é outra história. A que não merece os escaparates das livrarias nem a luz da ribalta e que por cá continuamos a preferir designar por "domínio espanhol" ou "perda da independência".

Sexta-feira, 25.04.08
Paulo Pinto

Em 1974 tinha 7 anos e vivia fora de Lisboa. Não tenho, portanto, memórias directas do que foi e do que era esse tempo, nem o "antes" nem o "depois", exceptuando alguns fragmentos do que passava na rádio e do que me chegava pela televisão. mais tarde, na década de 80, é que comecei a compreender melhor o país e o mundo onde vivia. O conhecimento que adquiri desses anos foi, portanto, obtido a posteriori e quase sem vivências directas. Não pude, contudo, deixar de ver, ontem à noite, o debate na RTP-1, onde Otelo, no seu jeito esbracejante habitual, cheio de "pás", de tiques e de desvios alongados da conversa, explicou e deu a conhecer a sua versão dos acontecimentos, nomeadamente do Verão Quente de 75. É certamente alguém com quem deve ser um prazer ter uma longa conversa. Quase que me fez esquecer a nódoa indelével que possui ao peito, o caso Projecto Global/FP 25 de Abril. Concorde-se ou não com o senhor, é inegável a sua lucidez e a forma desempoeirada e aberta como fala sobre as questões mais melindrosas, em flagrante contraste com aquele monumento à imbecilidade, versão puto queque, chamado Nuno Melo que, armado de sorriso irónico, citações flamejantes e, sobretudo, de uma ignorância sem medida, se permitiu lançar alfinetadas insensatas, piadas infelizes e insinuações sem fundamento. Que um indivíduo destes seja deputado da Nação e faça figuras destas na televisão pública é, infelizmente, um pequeno efeito colateral da democracia que temos que suportar. Democracia, acrescente-se, que tudo deve ao 25 de Novembro, segundo o mesmo personagem.

Não tenho memórias directas do 25 de Abril. Não tive familiares próximos presos pela PIDE ou na guerra em África. Não tive uma família politizada ou directamente envolvida com o regime. Não fui prejudicado no turbilhão do PREC. Posso, portanto, falar sem sombras do passado ou preconceitos incutidos na infância a toldar-me os pensamentos.

O 25 de Abril não impressiona pelos factos. Impressiona, sim, pelos não-factos.

dias, ao rever o documentário chamado 74-75, de Joaquim Furtado (editado em DVD pelo Público há 4 anos), visionei umas imagens de Julho de 74, quando o Otelo foi graduado em brigadeiro. Disse, então, que "fomos nós, entre os 25 e os 40 anos, que tomámos sobre nós o peso imenso da responsabilidade de derrubar um governo que todos nós deplorávamos, mas que os nossos generais, apesar de toda a sua juventude provável de espírito, não tiveram a coragem de derrubar". O general Silvério Marques, chefe do Estado-maior do Exército e membro da Junta de Salvação Nacional, acusou o toque e retorquiu de imediato: "eu não aderi às ideias do movimento, porque as ideias do movimento, expressas no programa, eu era um aderente talvez antes de o senhor ser oficial." Ora, depois do edifício do Estado Novo derrubado, é muito fácil invocar adesões prévias. Contudo e pelos vistos, secretas. A verdade, porém, é que foi um punhado de capitães a agir e não uma qualquer parelha de generais. E aqueles, como lembrou Otelo ontem, tinham tudo a perder caso o golpe fosse um fracasso. Não os generais, que se limitaram a emergir em Junta de Salvação Nacional como os salvadores da Pátria. Se a iniciativa tivesse sido deixada às altas patentes militares, nunca teria havido golpe e o governo teria caído, possivelmente, de podre. Assim, desfez-se ao primeiro safanão. Não houve reacção da cadeia de comando. Nem a fiel GNR fez defendeu o Presidente do Conselho. uns pides assustados e acossados deram uns tiros para a rua, no dia seguinte. Um deles teve o supremo desplante de o confessar com orgulho, frente às câmaras de televisão, em 1994, face-a-face com J. M. Tengarrinha, preso político na altura, num dos mais patéticos momentos de televisão em directo a que assisti.

Marcello Caetano chefiava um regime-zombie. Não houve praticamente resistência, a população saiu para a rua em exuberante festa, e de festa foram feitos os dias seguintes. Esta inactividade, esta letargia, este arrastamento até ao último estertor de um regime moribundo, este não-facto, revela uma das características mais bizarras do 25 de Abril: a sua inexplicável demora. O seu carácter tardio. Como é possível que não tivesse ocorrido mais cedo, logo após o tombo de Salazar em 1968 ou, o mais tardar, depois da sua morte em 1970? Como pôde um regime-zombie sobreviver tanto tempo? Porque Portugal era um país pobre, beato, analfabeto, dilacerado há mais de uma década por uma guerra ultramarina em três frentes, sem fim à vista, sangrado pela emigração, isolado do ponto de vista internacional. Um país inertedécadas, inapto para reagir às suas próprias mazelas auto-infligidas, um corpo adormecido, incapaz de acordar do seu próprio pesadelo. A Revolução dos Cravos ou a Revolução Sem Sangue são epítetos que nos enchem a alma de simpatia e contentamento. Eu poderia chamá-la apenas de Revolução dos Tomates (os tais que o Otelo e outros tiveram e os generais, não depois). Contudo, tudo isto revela algo bem mais sombrio, triste e vergonhoso. Uma prova de imaturidade enquanto povo, de fragilidade enquanto consciência comum, de débil fraqueza enquanto corpo social: o regime sobreviveu à oposição civil e política, à resistência cívica, ao descontentamento social, às lutas laborais. Caiu apenas pela força das armas, sem ter havido exactamente acção armada. Portugal acordou estremunhado nesse dia, sacudido pelos actos de uns quantos carolas de camuflado. Depois, como se viu, quis sofregamente viver em poucos meses o que negou a si próprio durante décadas.

Portugal não é um país de revoluções e de rupturas. Não é. Nunca o foi. Porque é que o 25 de Abril, com a sua peculiaridade, haveria de sê-lo? No entanto, foi-o, porque tudo mudou a partir desse dia. Por mais que certa esquerda venha dizer que voltámos ao antigamente, por mais que certa direita rosne contra os excessos do PREC. E o facto de se ter construído uma revolução-sem-revolução é das coisas mais admiráveis da nossa História.

Quarta-feira, 23.04.08

Dr. Emmett Brown: Then tell me, "Future Boy", who's President in the United States in 1985? Marty McFly: Ronald Reagan. Dr. Emmett Brown: Ronald Reagan? The actor? [chuckles in disbelief] Dr. Emmett Brown: Then who's VICE-President? Jerry Lewis? Este post esteve para se chamar "Ronda das Mafarricas". Depois pensei que seria injusto. Ou, melhor dizendo, que não faria inteira justiça à probabilidade do chibo velho Alberto João Jardim vir a ser candidato à liderança do PSD, algures entre os deserdados da Ala Meneses e o tabu santanista. A imagem das quatrocentas bruxas à espera da lua cheia é interessante e não faltará quem pense que é adequada. Sim, sem dúvida, mas hoje de manhã o cenário mudou com a putativa chegada ao poder de um nome maior do humor nacional. Como quase tudo em Portugal, não se trata de um humor fresco e corrosivo, mas sim de uma anedota rasca de travo amargo. Uma chalaça da revista à portuguesa. Ouvi há pouco um senhor da distrital de Lisboa do partido nomear explicitamente o Presidente do Governo Regional como o melhor candidato para a disputa que aí vem. Não era um qualquer militante de base. Era o responsável da maior distrital do maior partido da oposição, que já foi poder e que voltará a sê-lo, um dia. Ouvi-o dizer claramente que a meta de tal candidatura seria "fazer em Portugal o que fez na Madeira" (se não foi isto foi parecido). O meu sorriso, ao escutar estas palavras, foi também ele um misto de humor agridoce. Isto porque há piadas que têm piada, sem dúvida. Mas há o resto, oh se há, que não tem piada nenhuma. Felizmente que o Continente não é a Madeira. No dia em que for, darei graças e cantarei loas à União Europeia que me permite mudar-me para o país vizinho sem precisar de controle de fronteira.

Domingo, 20.04.08
Paulo Pinto

A imagem é conhecida há muito tempo. Eu, infelizmente, só tomei conhecimento dela anteontem, ao ouvir a crónica da Joana Amaral Dias na TSF. Trata-se da Ministra da Defesa espanhola, Carmen Chacón, a passar revista à tropas no dia da sua posse, grávida de 7 meses. A notícia está, entre outros locais, aqui.

O facto de o governo Zapatero ter mais mulheres do que homens já era, em si, desconcertante. Ter nomeado uma mulher para a pasta da Defesa já parecia ultrapassar os limites das regras convencionais, que atribuem aos homens os cargos de responsabilidade e deixam às mulheres simples postos honoríficos (como "Primeira Dama" - vai ser um fartote de riso se a Clinton for eleita, ver o maridinho rebaixado à condição de "Presidente Consorte") ou lugares de segundo plano. É claro que há a Merkel. Mas uma coisa é ser chefe de um governo. Outra é comandar os homens da guerra. Ainda por cima, grávida de 7 meses e de barriguinha saliente. Parece que a hierarquia militar não pestanejou e que já afirmou que a tratará com o mesmo respeito que com os seus predecessores. "Talvez com uma maior delicadeza". Parece que há reacções dos sectores mais conservadores, a quem a imagem choca. A mim diverte-me e causa-me um profundo respeito, por constituir um inequívoco sinal de maturidade. Há algo de muito enraizado no fundo dos nossos genes greco-romano-judaico-cristãos que nos causa sobressalto. A sacrossanta função maternal e o sublime papel doméstico feminino misturados desta maneira com a suja, fera e viril arte da guerra? Ainda por cima, em posição de domínio? Oh quem viu Espanha há 40 anos e quem a vê agora. Não foi só na dinâmica empresarial que aquilo deu uma volta, e que volta...

E se alguém se atrevesse a sugerir que esta imagem pudesse ser vista cá, nas Forças Armadas Portuguesas, em 2008? Eu diria que estaria louco, com certeza.

Sexta-feira, 28.03.08

Nunca como hoje se discutiu tanto e tão profundamente os problemas do país. Por vezes, demasiadas vezes, mais em extensão que em profundidade, é certo. Ensino, saúde, justiça, segurança, etc. O recente caso EPAT (escola, professora, aluna & telemóvel, perdoem-me a insistência) desencadeou a discussão generalizada e a divulgação, repetida até ao enjôo, do infeliz vídeo. A notícia do dia é a formalização de queixas judiciais, contra a aluna e contra a turma, por parte da docente. A novela soma e segue, até se esgotar o filão. Depois, o assunto cairá no esquecimento e outra notícia bombástica, alarmista, fará as primeiras páginas dos tablóides. Mas há algo que fica e que se vai sedimentando. A ideia generalizada de que isto está tudo pior, a imagem, feita de pequenos pedaços, de que o ensino em Portugal atingiu o ponto de ruptura. O Ensino, como tudo o resto. Reformas curriculares, mudanças de nome e de terminologias, mexidas em todo o sistema educativo, protestos dos professores, agora isto. Tudo cada vez pior, é o que oiço. Até parece que, por exemplo, há 20, 30 anos não havia problemas. O tanas é que não havia.

Lembro-me bem do meu Ciclo Preparatório, feito nos saudosos anos de 1977-1979. Uma escola pré-fabricada, inaugurada no ano anterior. Localizada no meio de mato, com um autocarro a funcionar de hora a hora e que era o único elo de ligação à povoação mais próxima. Um horror. Não havia biblioteca nem sala de convívio nem espaços lúdicos, chovia nos corredores, nas salas e no ginásio. Um mar de lama. Em 1977-78 houve greves de professores de mês a mês. A certa altura foram todos postos na rua. Tive 4 professoras de inglês, nesse ano. A escola fechava às 17.30, de Inverno, porque não havia iluminação nocturna. Durante metade do ano não tive Educação Visual, por este motivo. Para quem achar que estou a inventar, procure alguém que tenha frequentado a Escola Preparatória Visconde Juromenha nessa altura. Entre 1979 e 1981, ou seja, nos 7º e 8º anos, mudei para outra escola. A sede estava lotada. As aulas decorriam numa quinta cedida, já degradada, sem o mínimo de condições para o efeito. Não havia ginásio, os alunos tinham Educação Física numa sala grande, a sala de aulas servia de vestiário. Balneário? Ora. Turmas de 30 e muitos alunos. Não havia refeitório nem guarda de portão, nem sala de convívio. Hoje a quinta é a sede da Segurança Social de Sintra. Toda uma geração apanhou um célebre professor de educação física que apalpava as raparigas, sobretudo quando media a "pulsação". Para os rapazes era simplesmente bruto e arrogante. Estes assuntos não chegavam nunca à imprensa. O país estava muito ocupado com outros problemas. A imagem da Educação era anual, quando invariavelmente o Ministro ia à televisão, em Outubro, anunciar o sucesso da abertura de mais um ano escolar. Lembro-me particularmente da figura patética e da voz ridícula de José Augusto Seabra. Se os meus filhos fossem confrontados com condições destas, hoje, eu acharia que estava tudo pior ou, no mínimo, na mesma. O que se passa na Educação ocorre igualmente noutros sectores. Há 30 anos o SNS funcionava melhor? Quem se lembrar do que era ir à urgência do Hospital S. José talvez ache o contrário. Hoje, as estatísticas revelam que Portugal tem uma invejável taxa de mortalidade infantil. Há uma reforma do sector da saúde em curso. Aberta e amplamente debatida. Mas a imagem que fica é a da degradação do Serviço Nacional de Saúde, dos protestos populares contra o encerramento de maternidades, de mais uma criança que nasceu numa ambulância. Os dados mostram que os índices de segurança não pioraram, mas basta uma actriz ser assaltada em plena CREL para lá vir o coro de temores exigindo mais polícia nas ruas e denunciando o aumento generalizado da criminalidade. Isto está tudo cada vez pior. E quanto à Justiça, alguém se lembra de intervenções públicas do Ministério Público, do Bastionário da Ordem dos Advogados ou do Provedor de Justiça há 20 anos? Alguém falava de tribunais sobrelotados? Eu, confesso, não me lembro. Portugal é um país de memória curta. Que vive muito por ondas e vagas, consoante as primeiras páginas do Correio da Manhã. E a percepção geral das pessoas é a de que está tudo pior. Ninguém percebe que os problemas estão simplesmente mais visíveis e expostos, que se discutem questões práticas, muitas e variadas, quando há 30 anos eram as temáticas ideológicas e políticas que mereciam todo o destaque. O país, esse, viveria sem problemas? Os que existiam e que mereciam destaque eram restos do fascismo ou do PREC, consoante a perspectiva. Hoje, a generalização dos debates e das discussões, a denúncia dos casos gritantes de injustiça, de pobreza, de ineficácia, a pluralidade de opiniões, de blogues, de canais de televisão, de fóruns, que constituem simplesmente efeitos e benesses de uma democracia consolidada e estável, não produzem o efeito desejado. Tudo o que nos deveria levar ao esclarecimento e à informação, ao confronto de ideias e à abertura de soluções, à análise e à compreensão para melhor se detectarem e resolverem problemas, produz o efeito contrário. O clima pessimista espalha-se porque as pessoas vêem-se mergulhadas num turbilhão de incertezas que parecem anunciar o Apocalipse. Sentenças emanadas de fóruns respeitáveis (como a recente posição da SEDES) sobre o colapso da democracia consolidam e cristalizam este sentimento. Este país está perdido. Lá vêm as culpas para a ministra ou para o sistema. Só, lá de vez em quando, aparece um período de tréguas: quando a selecção obtém um sucesso num campeonato. Depois, este país orgulhoso da sua portugalidade arruma as bandeiras verde-rubras e regressa à rotina. Não sei se é algo genético da alma lusa. Mas que está bem incrustado, está.

Quarta-feira, 26.03.08

A novela acaba de conhecer mais um desenvolvimento. Agora é o Ministério Público que quer apurar se houve ilícito penal, indo mover-lhe um processo no Tribunal de Menores. Prevejo que amanhã o assunto seja debatido na Assembleia da República e que, depois de amanhã, conste na agenda do Conselho de Estado. Se é que não foi já. Uma vez mais, lá está a ministra a pagar por tabela. Se a culpa não é da professora (impotente para se fazer respeitar), se não é da aluna (vítima da degradação do sistema educativo e do quadro geral de valores), se não é da escola (possivelmente sobrelotada, mal apetrechada ou sub-financiada) é do "sistema". E este tem uma cara. Nada demais, a bola da "culpa" sobe a escala até entrar no cesto-costas-largas de Maria de Lurdes Rodrigues. Já ouvi responsáveis sindicais e deputados da oposição virem a terreiro chutarem a bola para cima, para variar, dizendo que algo como "a situação resulta da degradação do ensino, consequência da política deste governo". E não saímos disto.

Começo por dizer algo de absolutamente básico e inconveniente: a disciplina no interior das escolas e, em especial, das salas de aula é indispensável. Não há pedagogia modernaça que pegue sem disciplina. Firme, segura, eficiente. Implacável, se necessário. Está na hora de fazer ver aos alunos que a sala de aula não é local de recreio e que a autoridade do professor é para ser respeitada. Mude-se, legisle-se, decrete-se, faça-se correr sangue, se for preciso. De uma vez, de um só golpe. A doer. Zás! Sem anestesia, sem paninhos quentes e sem paliativos. Lembro-me do meu 8º ano, numa dasquelas escolas públicas muito mal classificadas nos rankings da moda, em instalações provisórias, com condições precárias, no longínquo ano de 1980. O pobre professor de matemática que era motivo da chacota geral, de insubordinação recorrente, de algazarra total. Já com a professora de geografia, por sinal bem franzina e de voz sumida, era o silêncio geral. Não havia apelo nem agravo. A escola era a mesma, os alunos também. Mas um não se sabia fazer respeitar, e a outra usava bem os instrumentos à sua disposição. Confesso que aprendi muito mais geografia do que matemática, nesse ano. É claro que muita água correu debaixo da ponte desde então, e confesso a minha ignorância sobre a margem de manobra actual de um docente para impôr regras de funcionamento numa sala de aula. Sei que é preciso coragem, determinação, inflexibilidade e uma grande dose de paciência e, sobretudo, de amor à profissão. E mais não sei. Sei, sim, que o famoso Caso EPAT (Escola, Professora, Aluna & Telemóvel) é apenas um caso. Um, um apenas, de entre muitos, muitos, que diariamente ocorrem nas nossas escolas. Mas é um caso escolar. A escola deve ser um microcosmos nestes assuntos: ocorre lá dentro, é resolvido lá dentro. Não estou a ver em que é que a colherada do Ministério Público vem ajudar, para além de espalhar o óleo na rodovia, para mais gente escorregar e, eventualmente, alguém incendiar. Isto, evidentemente, a juntar ao ridículo. Aliás, gostava que alguém me dissesse o que diz a lei acerca do confisco de bens. Porque foi isso que se tratou. Um confisco. A retirada de um bem que era propriedade da aluna. Ora, se estivesse claro, clarinho, que o uso do telemóvel na aula era motivo de pesada e irreversível sanção disciplinar, duvido que a aluna se atrevesse a ligá-lo, sequer. O que cortava o mal pela raiz e hoje não estaríamos todos a assistir a este espectáculo deprimente. Repito: o confisco de telemóvel é permitido e aceitável? Se alguém o usar numa biblioteca, num cinema, numa conferência, sujeita-se ao seu apresamento? É que, se a resposta for positiva, já sei o que fazer da próxima vez que um médico, num serviço de urgência de um centro de saúde e no meio de uma consulta, o utilizar para chamadas pessoais, sem pedir desculpa ou permissão sequer, como verifiquei recentemente. Ou um "senhor doutor" tem direitos de cidadania superiores a uma miúda ranhosa de 15 anos? O caso adquiriu foros de manchete noticiosa não pela sua gravidade, pelo seu insólito ou pelo seu especial interesse. Chegou à imprensa, à classe política e ao Magistério Público porque alguém filmou e colocou na internet. Só por isto. Sign of the times. E, já agora, o(a) aluno(a) que filmou, usou uma Canon Reflex com lentes Carl Zeiss? Que eu saiba, não. Usou um telemóvel. Pelos vistos, até há casos em que o seu uso é louvado. E agora?

Domingo, 23.03.08

Fiquei abismado com a mais recente crónica de José Pacheco Pereira (JPP), publicada no Público de ontem e reproduzida hoje no Abrupto. O tema é a invasão do Iraque. Os argumentos não são famosos, a estratégia é primária, o balanço é tristonho. No fim, fiquei convencido de que há ali uma teimosia irredutível, um orgulho indisfarçável, uma falta de humildade gritante. E um conjunto de ideias preconceituosas a roçar o patético. Sempre tive por sensato que reconhecer o erro não é sinal de fraqueza, mas indício de inteligência. Mudar de opinião não é vergonha, é prova de humanidade. Reconhecer que se avaliou mal e que se julgou pior é sinal de maturidade e marca de abertura de espírito, porque estamos sempre a aprender, porque estamos conscientes das nossas limitações, porque erramos. Porque somos humanos, em suma. JPP não faz nada disto. Ninguém, aliás, exigia que o fizesse. Se não mudou de opinião acerca do assunto, está no seu direito. Como no meu direito estou eu de o comentar. Estamos entendidos acerca disto. Mas escusava de se assumir como mártir, em tom de ironia infeliz, ao afirmar que está a cometer "delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes". Na minha terra, chamava-se a isto "atirar areia para os olhos".

Nem me ponho a escavar considerações prolongadas pelo infeliz uso de "turba" que, pelo que sei, quer dizer algo como "multidão descontrolada, populaça, massa de gente enfurecida, ralé". Não percebo onde está a "pequena turba". Uma "pequena turba" é um grupinho. Que, no presente caso, nem sequer é da "populaça" mas, pelos vistos, de políticos, intelectuais, comentadores, jornalistas. Mas percebo que JPP goste de se mostrar acossado. Não percebo é a torrente de atributos e intenções atribuídas aos que o criticam, todas unidas em torno de, segundo as suas palavras, "uma visão do mundo assente num único pilar, o antiamericanismo militante por razões puramente ideológicas". Depois lá vem a habitual referência ao Bloco de Esquerda e a Mário Soares. Recuso-me a acreditar que JPP pense que quem criticou a invasão do Iraque ou hoje aponte para o cenário catastrófico dos últimos 5 anos o faça apenas movido por "razões ideológicas". Orgulho e preconceito, escrevo acima. Obstinação e dissimulação, acrecento agora. Porque o fracasso dos 5 anos de guerra é de tal maneira evidente que só uma cegueira por "razões puramente ideológicas" ou outras pode justificar. JPP não se atreve a defender o indefensável. A bater-se pela justeza de 5 anos de guerra. Limita-se a paliativos, enquadramentos, ironias, exemplos alegadamente comparativos e, como se viu, a fazer-se passar por injustamente criticado. Reconhece que muita coisa correu mal, mais por culpa posterior do que por erro de princípio. E assina como "historiador". Então, nessa qualidade, deveria saber bem que os exemplos comparativos que apresenta não fazem sentido. Eu digo: JPP afirma que "as críticas a Bush têm um precedente curioso, parecem as críticas a Churchill e a Reagan". O Abrupto inclui gravuras de propaganda da ex-RDA e de outras proveniências a ridicularizar ambos. E acrescento: comparar o panorama da II Guerra Mundial ou o da Guerra Fria com o actual só pode ser entendido como uma manobra de diversão ou uma demonstração de ignorância. Ponto primeiro, a "decisão de invadir". Segundo JPP, pouco teve a ver com a existência de armas de destruição maciça ou com o apoio de Saddam à Al-Qaeda. Não sabia desta, fiquei a saber. A decisão teria a ver com a "resposta à crise suscitada pelo terrorismo apocalíptico"  se manifestou em Nova Iorque, Bali, Madrid, Londres "e um pouco por todo o lado". Apenas comento que o 11 de Março e a atentado em Londres ocorreram em 2004, pelo que não compreendo como podem ter pesado na decisão de invadir o Iraque. E também me escapa o raciocinio que desligaria estes atentados da Al-Qaeda mas que os ligaria a Saddam. Espero que JPP me ilumine. Seguindo a crónica, a Administração Bush terá desenvolvido a ideia de que, "para combater a nova forma de guerra que é o terrorismo, não bastava erradicar as bases terroristas onde elas existiam (como no Afeganistão ou Sudão), o que era visto como um sintoma, mas ir à causa, à relação de forças que bloqueava todos os processos políticos que deveriam "distender" o Médio Oriente e permitir a resolução de conflitos antigos como a Palestina". Então, nada melhor para "distender" do que invadir o Iraque, pergunto eu? Desanuviar a tensão no Médio Oriente conseguir-se-ia com uma intervenção militar maciça num país soberano, que não tinha ligações à Al-Qaeda nem constituía ameaça iminente para o equilíbrio regional? Curioso raciocínio, curiosa estratégia. JPP apressa-se a dizer que os conflitos locais (como o da Palestina) eram uma espécie de "irritante geral, bloqueavam as forças moderadas e moderadoras no mundo árabe-muçulmano e impediam a estabilização da região". Aqui, confesso, perdi-me, porque entramos no reino do delírio. Não consegui identificar essas "forças moderadas" (presumo que se trate, uma vez mais, da moderadíssima Arábia Saudita) e não percebi como é que a invasão de um país sob falsos pretextos lhes daria fôlego e dinamismo para melhorar a situação regional e promover a paz. Toda a gente percebeu ou acabou por perceber (e alguma avisou bem a tempo) que o Médio Oriente não é um tabuleiro de xadrez convencional, que o ódio antiamericano em particular e antiocidental em geral iria crescer em flecha e, consequentemente, reforçar os extremismos, que a intervenção iria agravar, até ao bloqueio, a crise palestiniana, que os efeitos da guerra seriam imprevisíveis, duradouros e muito perigosos para todos. Se as supostas ligações à Al-Qaeda e a existência de armas de destruição maciça foram apenas "razões apresentadas publicamente para a justificar" (à invasão), ainda que mentiras juradas verdades a pés juntos por Bush e Blair, quais terão sido as verdadeiras motivações? JPP não esclarece. Nem fala dos interesses americanos na região ou do petróleo (apenas faz a graçola infeliz de dizer que é um "líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados"). Diz, sim, que à tal "turba" que lhe ladra "não lhes interessa Saddam, não lhes interessa a submissão dos xiitas, não lhes interessa a natureza de um regime que atacou aldeias curdas com armas químicas, não lhes interessa um ditador que provocou guerras, essas sim, com mais de um milhão de mortos, e que invadiu os países vizinhos". Presumo, portanto, que a ele e a quem decidiu a invasão, interessa. E agora comento eu: Saddam interessou só a partir do momento em que invadiu o Koweit, o regime só interessou quando se tornou desafiador para o Ocidente, a guerra com o Irão interessou, sim, mas no sentido oposto, porque então era este último o alvo a abater (e, hoje, de novo, por ironia do destino - ou pela inabilidade americana, cada um que escolha o que preferir). Quanto aos massacres nas aldeias curdas, não interessaram a ninguém, como não interessaram nem interessam as atrocidades ocorridas em todo o mundo a toda a hora e desde há tanto tempo. Só quando convém. Dizer que a invasão do Iraque teve as motivações que JPP aponta, é de uma ingenuidade ou hipocrisia sem limites. Em que, em 2003, ainda alguém poderia acreditar. Muita gente acreditou. Hoje, não. Já ninguém acredita. E é esta queima permanente de crédito, este desbaratar da confiança nas intenções da Casa Branca e do Ocidente em geral que iremos pagar com juros durante as próximas décadas. Mas isto, a couraça do orgulho e do preconceito de JPP não deixa, aparentemente, transparecer. A crónica continuará, com a "questão das armas de destruição maciça". Cá estaremos, nós, a turba, para exercer o direito de opinião. Ou, se preferirem, de delito.

Terça-feira, 11.03.08

Hoje fiquei a conhecer um pouco melhor o país em que vivo. Hospital Amadora-Sintra, 9.30 da manhã. Urgência. A pessoa que transporto tem dificuldades respiratórias, logo, em caminhar, portanto, tenho que a deixar à porta. Depois, arrumar o carro. Está tudo congestionado. Impossível arranjar lugar. Nem perto nem longe. Fica a milhas. Mas, mesmo assim, numa zona irregular, embora sem prejudicar acessos ou terceiros.

Simplesmente, fica estacionado encostado ao passeio (e não em cima deste), a pisar um risco amarelo. À saída, 4 horas depois, tenho uma multa de estacionamento. 60 euros. Toma. Filha da puta da polícia, que nunca está onde é preciso, nem a ordenar o trânsito, nem a fazer coisa nenhuma. Só a passar multas. Não o faz à porta dos estádios de futebol. Mas num hospital, quando as pessoas vêm apressadas, preocupadas, e um bocado a borrifar-se para os pormenores do estacionamento, toma, sem dó nem piedade. Cabrões. A partir de hoje, qualquer euro que eu consiga surripiar ao fisco, à Segurança Social, à Câmara Municipal, será uma pequena vitória pessoal, a saborear longamente. Assim se destroem anos de campanhas pelo civismo, pela imagem do Estado como "pessoa de bem". O hospital não passa "baixas" nem "atestados". "Só o médico de família", dizem-me. Embora achando o maior absurdo a situação de ir primeiro a uma urgência e, depois, a um centro de saúde falar com o médico de família só para que este ateste a doença ou incapacidade para dois dias de baixa, lá acedo. Ok. Chamada para o Centro de Saúde. Pedido de informações sobre horários e outras minudências. "Qual é o médico de família? Não tem médico de família? Olhe, então é assim, isto abre às 8 da manhã entre as terças e sextas, mas aconselho-o a vir muito cedo porque há muita gente para tirar senhas para a consulta... sim, sim, só amanhã, e é como lhe digo, venha muito cedo". A sensação de absurdo aumenta. Ir à urgência hoje e ter que ir amanhã, às 6 da manhã ou o raio, perder (mais) uma manhã de trabalho, esperar horas, roubar eventualmente a vez a um qualquer velhote carente de medicamentos e atenção, só para ver um médico desconhecido que se limitará a passar um "papel" pareceu-me o cúmulo. De nada adiantaram as explicações de que se trata apenas de uma formalidade, porque o hospital não pode passar atestados. "Deixa, meto dois dias de férias", foi o epitáfio. Por isso, da próxima vez que me vierem falar em simplexes, em confiança entre os cidadãos e o Estado, em reformas simplificadoras, em racionalização, no raio que os parta, não aceitarei tangas de orçamentos, taxas, estatísticas, milhões e outros grandes paleios da treta. Se alguém me pedisse opinião, sugeriria apenas "correcção" e "bom-senso". Somente isto. Seria o melhor dos princípios.

Quarta-feira, 20.02.08
Paulo Pinto

Para os garbosos defensores da recente bambochata kosovar, e para dar pleno cumprimento às legítimas aspirações de independência de todos os povos balcânicos (ou os kosovares serão mais do que os outros?), venho desde já propôr a Lahorização dos Balcãs. Eu explico: em 1940, a All India Muslim League reclamou pela primeira vez o direito à existência de um estado separado muçulmano no que era ainda a Índia Britânica. Foi em Lahore, no que ficou conhecida como a Lahore (ou Pakistan) Resolution. O princípio era simples (e quem já viu o Gandhi de Attenborough reconhecerá a expressão): onde houver maioria muçulmana, aí será o Paquistão. Por acaso, esta operação simples dividiu a Índia em 3 pedaços, Podia ter dividido em muitos mais. Os Balcãs no subcontinente indiano, que giro. Os resultados foram dolorosos e as dores são ainda bem visíveis, 50 anos passados.

Agora que as potências ocidentais abriram a Caixa de Pandora nos Balcãs, com o reconhecimento de uma independência unilateral proclamada por uma maioria étnico-religiosa espirra-canivetes de uma província de um estado soberano, falta o resto. Ou só os albaneses do Kosovo é que têm direito? Peguemos nos Balcãs e toca a Lahorizar: onde houver uma maioria de albaneses, albanize-se; onde houver uma maioria de sérvios, zás!, um estado; onde houver uma maioria de bósnios, ou croatas, ou macedónios, ou montenegrinos, ou húngaros, ou romenos, ou gregos, ou turcos, ou eslovenos, criem-se estados independentes. Pequenos ou grandes, não importa. Tudo democraticamente escolhido pela força da maioria. Não é isto a autodeterminação dos povos?  Depois, cada um quererá juntar-se à mãe-pátria onde estão os compatriotas, para dar origem a uma Grande Albânia, a uma Grande Sérvia, a uma Grande Croácia, etc. Infelizmente ficarão todas sobrepostas umas às outras, o que dará um lindo mosaico, de suaves cores e variadas tonalidades. Nessa altura, já os restantes europeus terão todos emigrado para a Austrália ou para Marte e os americanos terão regressado ao seu isolacionismo, deixando os bravos democratas a matar-se uns aos outros. No fim, talvez, contarão os cadáveres e recolherão, se os houver, os despojos. Ora digam lá que não são radiosos, estes amanhãs que cantam?

Segunda-feira, 18.02.08
Paulo Pinto

"O problema do ordenamento do território já não é o mais sério em Portugal". Palavras do morto-vivo, aka Ministro do Ambiente Nunes Correia, ao responsabilizar as autarquias pelo amanhecer desolador do dia de hoje na região de Lisboa. Pois claro. Não é um problema de ordenamento a menos, que, como todos sabemos, sobeja em Portugal. Talvez seja apenas, no fim de contas, um problema de água a mais. Já quem a mete, é uma outra história.

Paulo Pinto

O Ocidente lá deu mais um arzinho de boa consciência da Humanidade. Os bravos paladinos da paz e da justiça na Galáxia, perdão, na comunidade internacional, dotados de superiores qualidades morais, poderes sobrehumanos e espadas flamejantes. E a Força, não nos esqueçamos da Força, que é, neste contexto, o Direito Internacional e, tcharan, o direito à autodeterminação dos povos.  Os antecedentes não constituem grande abono, mas enfim. Que o digam os curdos, os tibetanos, os palestinianos. O Kosovo acaba de declarar unilateralmente a independência e os garbosos Jedi, com o chefe supremo Yoda-Bush à frente, dão a sua bênção. Não me admiro com a posição americana. É sabido que os americanos nunca foram dotados de perspicácia para a diplomacia. E os Balcãs ficam muito longe da Florida. Já a da Europa causa-me engulhos, por ser de uma irresponsabilidade a toda a prova. Custa-me muito ver como os europeus plantam minas no seu próprio quintal e depois, qundo elas rebentam, vão a correr, para apagar o fogo, a chamar o amigo americano, que vai-não-volta lá usa napalm para resolver o assunto.

A independência do Kosovo é mais um episódio infeliz na já longa tradição europeia de demissão das suas responsabilidades e de falta gritante de coordenação entre os vários parceiros. A novela jugoslava parecia acabada mas não, oh não, ainda agora começou. Todos nos lembramos da forma como as potências europeias deram um infeliz espectáculo de desunião quando a Jugoslávia cambaleou, com a Alemanha a reconhecer e a apoiar o separatismo croata, contra todo o bem-senso e timing político e sem consultar ninguém. Depois viu-se no que aquilo deu. Lá veio a crise bósnia e, por fim, a tragédia do Kosovo. Neste processo, como noutros, houve muito pouco cuidado em entender o que se passava. Houve muito maior atenção em identificar os maus. Os sérvios, voilá. Não sei se já eram Sith nessa altura, mas calhavam mesmo bem, sobretudo quando o seu chefe se prestava tão bem ao papel de Darth Vader. Que os seus inimigos não fossem melhores (como aquele sinistro personagem croata chamado Franjo Tudjman) era pormenor de somenos. Que a barbárie balcânica de séculos de ódio feroz em erupção súbita afectasse em doses igualmente generosas sérvios, croatas, bósnios  e mais uns quantos, era um rodapé noticioso. Em toda a imprensa ocidental, os sérvios foram elevados à categoria de vilões e os seus vizinhos e adversários, à de pobres vítimas. E assim se fez a guerra dos Balcãs na década de 90, com massacres, atrocidades várias e, bem entendido, planos de genocídio. Aquelas gentes não brincam. Nem faltaram os bombardeamentos "cirúrgicos" americanos a Belgrado e tudo, a centenas de quilómetros do Kosovo, arruinando todo um país e matando centenas de pessoas. Foi nessa altura que entrou no nosso vocabulário o belo conceito de "efeitos colaterais". Seria de esperar que, com o arrefecer das armas, a Europa tivesse aprendido alguma coisa. Não aprendeu. Sempre a reboque dos EUA, lá embarcou em mais um Dakar balcânico. É a humilhação suprema da Sérvia que, de último baluarte da cristandade perante o avanço otomano, noutras épocas, a enclave aliado de franceses e ingleses contra as Potências Centrais, mais recentemente, viu, no espaço de menos de duas décadas, desaparecer a federação de que era potência hegemónica e principal cimento, sofreu pesadas derrotas militares, o enxovalho e a infâmia internacionais e, por fim, a amputação de uma província, precisamente a que constitui o seu berço e o espaço de referência da sua coesão nacional, num cenário de autêntica paranóia. Todos os povos desta região estão profundamente traumatizados e guardam rancores insolúveis aos vizinhos. A paranóia do cerco, a tara da nação, a panaceia da independência, o medo do inimigo secular. Católicos, ortodoxos, muçulmanos. Restos do poder otomano, migalhas do orgulho austro-húngaro. Um mosaico de minorias e maiorias, fronteiras artificiais, um historial de migrações forçadas, de colonizações, de lutas seculares, de genocídios. Um belo caldo onde cada peça que se move faz abalar todo o conjunto. Como se conseguirá resolver o assunto? Absorver e integrar gradualmente a região na UE, diluindo os conflitos, atenuando as rivalidades num espaço comum de segurança e de desenvolvimento económico, tornando as causas independentistas obsoletas? Ná! Se os kosovares albaneses querem ser independentes, porque não? Foram encorajados a isso. Afinal, são muçulmanos e tudo, e um apoio mouro cai que nem ginjas na propaganda americana. Muçulmanos a correr de bandeira americana em riste não é, reconheça-se, imagem habitual. E, no fim de contas, cá estarão os Jedi para zelar pela paz e pela justiça no Cosmos. Uma independência é um acto irreversível. Não quiseram arrefecer os calores albaneses, agora não há volta a dar. Bush bate palmas e os europeus macaqueiam aplausos. Ninguém parece perceber que o envolvimento americano na questão serve primordialmente de manobra estratégica para fazer mossa à Rússia e para criar um enclave de apoio americano na Europa Central, às portas da ex-URSS. Porque o Kosovo é um país abortado, sem abertura para o mar, encravado entre a Albânia, a Macedónia e a Sérvia, com uma economia paupérrima, uma sociedade dividida entre a maioria albanesa e a minoria sérvia (e outras). Um jornalista, ao relatar os eventos de hoje, dizia ironicamente que "os kosovares decidiram, por um dia, esquecer o amanhã". O país vai precisar de muitos polícias e muitas tropas americanas, europeias, da ONU ou o raio para que não degenere num banho de sangue e de muitos milhões para não colapsar. Até quando? Ninguém sabe. O passo natural seguinte será a união à Albânia. Parabéns, Europa, acabas de comprar o teu próprio Iraque, mesmo à porta de casa. Aqui nem há petróleo para deitar a unha, nem  uma colmeia, sequer, apenas um vespeiro, e dos tramados. E veremos o efeito que vai ter noutras situações idênticas, e podem crer que há muitas por ali. E se se mexe nas fronteiras da Sérvia e da Albânia, porque não, por exemplo, nas da Hungria e da Roménia, à conta da minoria húngara neste país? Porque estes já cá estão na UE? Ora, ora, a presença na Europa tem poucos anos, os rancores têm séculos. Ninguém adivinha porque é que a Espanha reagiu negativamente à proclamação, ao mesmo tempo que houve imediatamente manifestações de júbilo no País Basco, pois não? Há aquela feliz mas cínica expressão que diz que "com os problemas dos outros, posso eu bem". Infelizmente, este problema é de todos.

Quarta-feira, 13.02.08

"Olho por olho fará com que todo o mundo fique cego". É mais ou menos isto a célebre frase de Gandhi, não é? Então eu adapto e digo "lustro por lustro fará com que todo o mundo fique ofuscado". É uma pobre glosa, eu sei, mas foi o que me ocorreu de imediato após a leitura deste post de Henrique Raposo, no sítio do costume. É um post acerca do último número do The American Interest, cuja capa diz "Iraq. What if we win?". É um conjunto de reflexões sobre a situação actual no Iraque. A revista diz "Thanks to a fragile but real improvement in the security situation in Iraq, it has become possible to imagine the United States and its allies achieving what could plausibly be described as a win" (bold meu). Alguém sabe inglês? Não tenho a certeza de que HR saiba. E porquê? Porque o post é um embandeirar em arco com um "o Iraque, afinal, está a recuperar". E, no fim de contas, uma pirraça (tipo nham nham nham) contra "o desejo mal escondido de muitos para que o Iraque rebente num caos".

Observação primeira: A revista em causa não é propriamente um modelo de isenção, imparcialidade e independência em relação às opções militares do executivo americano actual. Crítica, muito menos. Basta ver quem foi o fundador (Fukuyama) e em que circustâncias foi criada (2005). Mais não digo, porque conheço-a mal e não gosto de falar sobre aquilo que não conheço ou não leio, ao contrário do que é, infelizmente, habitual em tanto lado. Como simples espectador medianamente informado e interessado no assunto, não tenho nada, mas mesmo nada a ideia de que a situação esteja a melhorar no Iraque. Mas posso estar desactualizado. E mesmo que estivesse a "melhorar", perguntaria "para quem?". Para os iraquianos? Duvido mesmo muito. Mas isso é o que menos parece interessar nestas análises táctico-estratégico-geopolíticas, sobretudo americanas. O que lhes importa realmente? Oh o título da revista resume admiravelmente o assunto. Observação segunda: a revista refere uma " fragile but real improvement in the security". Estaremos entendidos? "Segurança". Não sei o que diz, por exemplo, da situação económica. Não se trata exactamente da Bolsa de Bagdad. Antes a sobrevivência de milhões de pessoas, de muitos milhares de famílias à beira do colapso, de uma terrível taxas de esperança de vida à nascença, de condições de vida, de saúde, de educação verdadeiramente deploráveis. Um país destroçado. Mas pronto. Aceitemos a tal "melhoria na segurança". Afinal, se for verdade, já não é mau. Já é um princípio. Observação terceira: HR não discute, não critica, não contextualiza as informações. Parece que nem as lê. Esfrega é as mãos de contente com as pessoas que alegadamente desejam o fracasso americano (a que ele chama "aliado", um piadista, este Henrique) e que terão que "engolir muito sapinho". Isso é que importa, mesmo que se tome por "vitória" o que é apenas desejo de vitória sobre uma "possibilidade de imaginar" uma vitória, como se lê no original. Palmadinhas nas costas, embandeirar em arco, euforia espampanante e puxar muito o lustro e o brilho, mesmo que isso nos ofusque a visão e nos tolde a capacidade de entendimento. Mesmo que a situação continue mais do que precária, sem fim à vista e sem solução previsível num país à beira da guerra civil. Mas o brilho é irresistível. E atrai, oh se atrai. Observação final: "Afinal, o caos não apareceu" é o clímax apoteótico. Em boa verdade, em boa verdade vos digo: o caos existe há anos naquele país, provavelmente é a situação actual e, infelizmente, é bem possível que prossiga por tempo indeterminado. Infelizmente. Porque todos desejamos que assim não fosse, que o Iraque fosse uma democracia pacífica, onde as pessoas pudessem viver sem medo dos vizinhos, das tropas americanas ou do seu próprio governo. E se isto tivesse sido atingido imediatamente após a queda de Saddam, como imaginava Bush e os seus lúcidos conselheiros, melhor seria. Não conheço quem deseje que "o Iraque rebente num caos". Eu não, de certeza, e incomodar-me-ia muito que alguém dos meus círculos nutrisse tal sentimento. Gostava que HR dissesse, exactamente, a quem se refere, para que eu lhe deixasse uma cabeça de cavalo nos lençóis de cetim. Ou então sou eu que sou muito ingénuo e, como se dizia há uns anos, pouco vivido para pensar assim. Não posso dizer, como B. Barker, que "I too I've sail the world and seen its wonders", mas posso concordar que "for the cruelty of men is as wonder as Peru".

Sexta-feira, 08.02.08

Estamos em Fevereiro e o país espreguiça-se à conta dos dias de sol e da ressaca de mais uma ponte de Carnaval, já a pensar na Sexta-Feira Santa e na Páscoa. Não há-de tardar muito, na aproximação da Primavera, a chegada da sazonal maré noticiosa sobre a preparação de mais uma "época de fogos". Falar-se-á muito dos meios, dos investimentos, dos aviões, da logística e da Protecção Civil. Depois ficaremos todos à espera, que venha ele. E virá, certamente. Em Agosto, entre banhos de Algarve e mais um Verão de seca, lá nos lembraremos do assunto ao abrir os noticiários e ao desfolhar os jornais. Lá virão mais umas imagens aflitivas de gente desesperada, mais umas estatísticas e mais umas leituras de uns comentadores de serviço. No final da estação seca, o balanço será mau ou nem por isso. Mesmo que seja péssimo, será sempre possível achar a média com o Verão de 2007, que foi excepcionalmente bom, mais por graça do S. Pedro que da Protecção Civil.

Confesso que não sou particularmente alarmista com a questão dos fogos. Não é uma calamidade apocalíptica. Um país de clima mediterrânico tem que saber viver com ele, controlá-lo, minimizá-lo, utilizá-lo favoravelmente. Há dias, porém, ouvi uma notícia na rádio que me fez reflectir sobre a questão. Curiosamente, não a vi reproduzida em nenhum jornal nem em nenhuma televisão. Nem na Net vi qualquer referência ao assunto. Cheguei a pensar que teria sonhado. Só depois percebi que é um tema que não interessa a ninguém, por enquanto. Aposto que lá para Julho virão todos repescá-lo, e algum espirituoso irá dizer, entre outras coisas, que é uma pena que só se fale disto no Verão, quando nos começa a cheirar a queimado.

A notícia, que ouvi na Antena 1, mencionava um relatório-diagnóstico feito pela Universidade de Trás-os-Montes que detectou falhas graves no dispositivo de combate aos incêndios. Falhas graves, sobretudo na estrutura de comando na prática, no terreno. Não falava de falta de viaturas, de homens ou de dinheiro. Mencionava, isso sim, descoordenação de meios, falta de informação em tempo real, falta de especialistas em fogos nocturnos, montagem de postos de controle tardios ou mal localizados. E mais uma série de erros que me escapam agora. Numa palavra, uma balda, uma trapalhada, um caos. Os bombeiros atropelam-se, ninguém sabe o quê, o comando não decide com base em informação actualizada e completa, o combate é feito muito por carolice e por valentia pessoal dos bombeiros . Depois, de vez em quando, lá fica um, dá-se-lhe uma medalha póstuma e lamenta-se a fatalidade. Nesse dia, ouvi declarações de um chefe de bombeiros a dizer que estas conclusões não o surpreendiam. Aguardava ainda a reacção da Protecção Civil, mas entretanto o assunto morreu nos noticiários. Como disse acima, nunca chegou aos jornais ou às televisões. Parece ter sido um estudo encomendado pelo governo em Julho e cujos resultados, aparentemente, terão saído agora. O silêncio geral sobre o tema não deixa de me inquietar, no que significa de controle de informação, manobras de diversão mediáticas e fogachos para o povoréu se entreter. De vez em quando aparecem umas informações que vão dando o tom. Ora são os chilenos que vêm cá e admiram-se com o portuguese way of combater incêndios, dizendo, entre outras coisas, que o desperdício de água é mais do que muito. Os chilenos, viram bem? Ora são as notícias atrapalhadas de que começaram os fogos mas os aviões ainda não estão alugados, porque ainda não é a época deles. Como se fossem morangos. Ora lá vêm novas sobre a intenção de comprar aparelhos em vez de alugá-los e que só falta escolher entre os Beriev ou os Canadair. Ora viram tudo do avesso e afinal decidem que Portugal já não irá comprar aviões, mas sim helicópteros. Há dias ouvi que os helicópteros adquiridos ou a adquirir afinal não servirão para muito, porque não têm espaço para transportar as brigadas de intervenção rápida, que fora um dos factores que levara a adoptar esta solução em vez da dos aviões. Uma trapalhada, como a do relatório. No Verão passado tive fogo à porta de casa e vi a confusão com que os meios (muitos) actuavam, mas sem uma palavra que fosse às populações, porém com todo um belo aparato para jornalista ver, circo mediático, presidentes de câmara, ministros e altas individualidades na ribalta. Mas que merda. Um país mediterrânico como Portugal não pesca nada de combater fogos florestais? Até parece que o fogo é uma modernice. Não devíamos estar treinados, aprender com os erros, melhorar de ano para ano, dar lições lá fora? Somos bons só a fazer árvores de Natal gigantes e rolhas para o vinho californiano, temos o maior centro comercial da Península Ibérica e somos campeões em número de telemóveis por habitante, para além de outras medalhas de valor e utilidade duvidosas, e não sabemos combater fogos? Uns inaptos? E, bem pior, só descobrimos isso em 2008, após um estudo feito por uma universidade? Das duas, uma: ou ficamos surpreendidos, o que quer dizer que alguém nos anda a atirar areia para os olhos há décadas, ou concluímos que "já se sabia", o que significa que somos burros e aprendemos devagar, ou não aprendemos de todo. A brincar com o fogo, em suma.


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