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jugular

Uma filha de 16 anos e uma mãe de 47

Já foram mortas este ano, que se saiba, 26 mulheres. Hoje foi uma mãe e uma filha, para já - a mais nova, de 13 anos, ficou ferida com gravidade.

Ajudem aí

Não tarda faz um ano que cheguei ao Alentejo, a Beja, para ir fazer o que gosto e sei - ser psiquiatra.

 

Recebida como só os alentejanos sabem, encontrei uma realidade plena de carência clínica mas, simultaneamente, repleta de gente superior que fez verdadeiras omeletes sem ovos nos últimos anos largos. Pessoas de grande qualidade técnica e humana a quem agradeço, não só mas também, enquanto cidadã portuguesa.

 

O Baixo Alentejo, e a Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA) em particular, merece mais e melhor. No que puder ajudar estou cá, se alguém quiser ir não se vai arrepender, garanto-vos.

 

Beja é o único distrito do país que não tem internamento psiquiátrico. O espaço físico existe e tem excelentes condições - o edifício onde funciona o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental desde 2012 foi feito de raiz para o efeito -, falta "material" humano. Enquanto directora do Serviço de Psiquiatria da ULSBA vou esfarrapar-me para que seja uma realidade muito em breve, ajudem-me a ajudar a abri-lo.

 

PS: Faço a viagem Lisboa-Beja-Lisboa semanalmente, não é nada do outro mundo, e a compensação de me sentir verdadeiramente útil ajuda a diminuir a distância.

Desonestidade intelectual o tanas

Escrevi na minha página de FB, a propósito do programa "Barca do Inferno" que ontem estreou na RTPInf: "Não vi (felizmente) mas diz que Raquel Varela insinuou aquela coisa do "estão mesmo a pedi-las". Coisa mai uinda, riqueza d'avozinha dela". Na sequência disso a Raquel Varela, também no FB, veio acusar-me de desonestidade intelectual, ao mesmo tempo que referiu "que muitas têm comportamentos que configurariam, pelos gestos e acções, assédio sexual a homens, se a proposta do BE de ilegalizar o piropo fosse para a frente". Ora se não é dizer de forma enviesada o que escrevi vou ali e já venho, desde logo porque o assédio sexual já está criminalizado e as "assediadoras" já podem responder por isso.

Entretanto, continuando sem ver o programa, tive acesso às declarações proferidas no decorrer do mesmo por Raquel Varela "Até porque se calhar o bloco de esquerda devia pensar - o bloco de esquerda ou quem seja a favor - ir ali a Santos às 2 da manhã e ver a figura que fazem as miúdas de 18 anos e se calhar metade daquilo já entrava num tipo de assédio ou de outra coisa qualquer" e "Há imensos casos que entravam num contexto de assédio de mulheres a homens pelos gestos, pela atitude, pelo que fazem e não entram porque alegadamente... sou absolutamente a favor do piropo. o piropo dever ser livre". A Raquel Varela que vá acusar de desonestidade intelectual o diabo que a carregue, desonesta teria eu sido se não tivesse referido que não tinha visto o programa. As fontes de informação que usei merecem-me a maior das credibilidades - como, de resto se pode provar pela citação supra -, não falaria do assunto de outro modo.

Para aliviar comichões e esclarecer quaisquer dúvidas

Fui candidata a deputada ao PE pelo LIVRE como independente, naquilo que foram as primeiras primárias neste país - fui escolhida para ser candidata, o que muito me orgulha.

 

Relembro o que disse e escrevi em Abril. Assumi durante a campanha para o PE que se fosse eleita nas listas do LIVRE escolheria os Socialistas Europeus como família e que a principal razão que me fez avançar foi ter a certeza que a convergência das esquerdas é uma urgência e a solução. Onde está a contradição em querer, de modo muito pró-activo, um Partido Socialista forte e bem governado? Sou uma mulher de esquerda, independente, só poderia ir votar nas primárias do PS, votar António Costa e ficar contente - e com esperança - com a sua vitória.

 

PS: não é de agora, aliás, o meu apoio público a uma candidatura de António Costa.

eheheh o próprio do acto falhado

A estupidez não tem mesmo país

Esta vem ali da vizinha Espanha: “Como se dice científicamente, todo óvulo que no concibe es un aborto. Es decir, cualquier menstruación de una mujer es un aborto incipiente, es un óvulo que no ha prendido, eso es un aborto”, señaló Rosa Valdeón.

 

Adenda modificada: Fui advirtida pelo António Parente nesta caixa de comentários, e pela Shyznogud, que as declarações de Alicia Latorre que tinha aqui lincadas eram antigas e foram desmentidas pela própria. Aqui fica o desmentido mais uma vez e a razão pela qual apaguei o conteúdo da adenda anterior. 

Safa! Vergonha alheia mesmo.

"Salsicha educativa"? Acho mesmo que estamos perante um caso de ténia cortical, mazé.

 

Adenda: Obrigada, Inês, por teres descoberto a verdadeira "salsicha educativa":

Engraçadinhos

Roubei a foto ao Rui Castro, ali ao lado no twitter.

 

Fazemos assim, o Tolentino de Mendonça vai presidir o CNECV e a Palmira Silva vai presidir a Ecclesia, boa?

Violência doméstica

Diz o Expresso de hoje "Só nos primeiros seis meses do ano, 24 mulheres foram assassinadas, o número mais alto da última década". Nada que me espante e que não receasse.

É isto uma reforma???, texto do Tiago Antunes

António José Seguro anda a prometer, pelo menos desde 2012, que vai apresentar «ainda este ano» uma reforma do sistema eleitoral. Tantas vezes foi prometida (e adiada) esta «grande reforma» que se esperava que, por esta altura, existisse já, no Largo do Rato, um trabalho estruturado sobre o assunto: estudos técnicos, análises comparativas de diferentes modelos eleitorais, simulações com vários números e tamanhos de círculos eleitorais, a opção por um determinado figurino e, designadmente, um corpo consistente de propostas normativas concretas. No mínimo, um conjunto de ideias consolidadas sobre o tema que, desde 2012, tanto preocupa Seguro.

 

Nada de mais errado, porém. Chegados ao dia de hoje, em que a proposta foi finalmente conhecida, ficámos todos a saber que ela não passa de 3 alíneas com objetivos vagos e uma data:

 

1. A Assembleia da República delibera iniciar um processo de alteração à Lei Eleitoral da Assembleia da República com os seguintes objetivos:

a) Garantir aos eleitores a escolha do seu Deputado;

b) Reduzir para 181 o número de Deputados à Assembleia da República, sem distorção da representação proporcional das várias correntes de opinião;

c) Assegurar que todas as partes do território nacional tenham representação adequada no Parlamento.

2. Este processo deve ser conduzido pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e deve estar concluído até ao dia 31 de dezembro de 2014.

 

Nisto consiste, portanto, a «grande reforma», repetidamente prometida e longamente aguardada, do sistema eleitoral. Ao cabo de 2 anos de trabalho, o máximo que a equipa de António José Seguro conseguiu produzir foi isto. Pior: aquilo que Seguro pensa sobre a reforma do sistema eleitoral – autêntico pilar do regime democrático – resume-se a 3 soundbites absolutamente genéricos e mal enjorcados, sem qualquer ideia concreta quento à sua concretização. Foi para isto que esperámos 2 anos? Foram precisos 2 anos para isto? Seriously?

 

Dizer que “a montanha pariu um rato” seria um eufemismo. Talvez seja mais correto afirmar que o (Largo do) Rato pariu um deserto (de ideias).

 

De facto, e sem entrar sequer no populismo bacoco da promessa de redução do número de Deputados, a proposta em questão é juridicamente esdrúxula, conceptualmente oca, tecnicamente inepta, de redação descuidada e politicamente risível.

 

É juridicamente esdrúxula, porque vem apresentada sob a forma de «Proposta de Deliberação» da Assembleia da República (AR), que é uma figura legal que nem sequer existe. As formas dos atos da AR vêm taxativamente previstas no artigo 166.º da CRP: lei constitucional, lei orgânica, lei, moção e resolução. Em momento algum se prevê aí uma «deliberação». Mais: se a iniciativa vem de dentro da AR, teria de ser, na melhor das hipóteses, um «projeto de deliberação» e nunca uma «proposta de deliberação». Mas mais graves que as questões formais, são as questões procedimentais: não é assim que se inicia um processo legislativo. O processo legislativo parlamentar inicia-se com a apresentação de um projeto-lei ou de uma proposta de lei, que contenham normas concretas que possam ser apreciadas, discutidas e votadas. Um processo legislativo não se inicia com um «deliberação» a decretar o seu início e a estipular uma data para o seu termo. Se o PS quer rever o sistema eleitoral, tem de apresentar um projeto de reforma, com um articulado normativo próprio, definindo exata e detalhadamente aquilo que quer alterar; não pode limitar-se a exprimir uma vontade de reforma, em 3 vagas alíneas. É algo nunca visto. As coisas, pura e simplesmente, não se passam assim. E António José Seguro, há tantos anos Deputado, tem obrigação de o saber.

 

É conceptualmente oca, porque manifesta uma intenção – de personalização do voto nas eleições legislativas – mas não esclarece como se concretizaria essa intenção; e, sobretudo, porque assenta em dois postulados de sentido contrário – a redução do número de Deputados e a representação proporcional – sem explicar como é que os mesmos se compatibilizariam.

 

É tecnicamente inepta, porque não se fundamenta em qualquer estudo técnico. Nem mesmo o aspeto mais palpável do documento em questão – a redução para 181 Deputados – surge fundamentado: porquê 181 e não 200, 215, 180, ou outro número qualquer? Dá a impressão que foi um número atirado ao ar.

 

Padece de uma redação descuidada e feita à pressa, em cima da joelho, o que bem se comprova pelo facto de, na versão que foi originalmente divulgada (entretanto já corrigida no site do PS), a alínea a) garantir aos ELEITOS (!!!) a escolha do seu Deputado. O que diz muito quanto ao rigor, à ciência e ao grau de reflexão e estudo com que esta proposta foi preparada.

 

É politicamente risível, porque não tem conteúdo, sendo apenas uma manobra de show-off, para fazer número antes das Primárias, sem qualquer substrato; e porque uma reforma do sistema eleitoral carece de uma maioria de 2/3, que desta forma nunca será obtida.

 

Por fim, resta uma dúvida. Uma das 3 – três – alíneas da proposta hoje divulgada frisa a necessidade de representação adequada de todas as partes do território nacional (mas poderia ser doutra forma???). Perguntar-se-á, no entanto: incluindo a corte dos iluminados de Lisboa?