Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

jugular

Esmiuçando a mudança de narrativa (parte 2)

«Para Isilda Pegado, presidente da Federação pela Vida, mais importante do que o valor a cobrar é o fim do regime de exceção que foi concedido ao aborto." e Isabel Galriça Neto "adianta que a definição da taxa moderadora está em linha com o que foi decidido no Parlamento e o valor da taxa não impede nenhuma mulher de interromper a gravidez."» (sublinhados meus)

 

Frases que são todo um "pugrama" ideológico. De facto o que está em causa não são preocupações com a saúde, tão pouco com o principio "seguro, legal e raro". Assumam-no.

 

Para abortar é preciso estar grávida. A alínea a) do artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 113/2011, de 29 de Novembro, isenta as grávidas e parturientes do pagamento de taxas moderadoras. Portanto, impor o pagamento de taxa moderadora é criar um regime de excepção entre grávidas.

 

As taxas moderadoras são um "instrumento de controlo de uma utilização excessiva dos recursos, de sensibilização do utente para a escolha e adequação do serviço a utilizar e de valorização dos serviços prestados", escreveram os deputados da maioria. Que querem moderar exactamente? A ida a instituições autorizadas? Patetas.

 

O valor anunciado é o adequado para manipular a opinião pública - "vá lá, são só 7,75 euros" - em época pré-eleitoral e fazer esquecer o que de facto está na base desta proposta: moer e expor as mulheres que vão fazer uma IVG. Um meio perverso de identificar as cabras. Cobardes.

 

E o afã com que andam para formalizar coisa? Medrosos.

 

Sabem que mais? "lá lá lá não é? lá isso é"

Interrupções de gravidez até aos 19 anos

 

 

 2009

 

 2010

 

 2011

 

 2012

 

 2013

 

 2014

 

 menor de 15 anos

 129

(128)

 

 105

(102)

 

 84

(83)

 

 71

(70)

 

 79

(76)

 

 59

(52)

 

 15-19 anos

 2291

(2258)

 2292

(2262)

 2274

(2249)

 2043

(2020)

 1865

(1841)

 1751

(1726)

 

Números retirados dos relatórios da Direcção Geral de Saúde. Entre parêntesis estão as IG feitas "por opção da mulher até às 10 semanas".

Não é verdade que tenha havido um aumento, ponto.

Esmiuçando a mudança de narrativa

Margarida Neto disse ontem na SICN  que "o número de abortos tem vindo sempre a aumentar" e justificou essa falsa afirmação* recorrendo a uma nova narrativa: o uso da relação número de abortos por nados vivos no decorrer de um ano. Dá-se o caso da taxa anual de aborto não ser assim encontrada. Basta fazer uma pesquisa rápida na informação científica sobre o assunto para se aprender que o indicador metodológico usado na literatura é a razão entre o número de abortos e o total de mulheres em idade fértil. E assim cai por terra a realidade reinventada. 
 
*

gráfico.PNG

Vamos, contudo, fazer o exercício de olhar para o binómio número total de abortos e número total de nados vivos no decorrer de um ano. No caso português, e comparando com os dados disponíveis de outros países**, havendo uma diminuição consistente do número de abortos ao longo dos últimos anos em paralelo com uma diminuição do número de nascimentos pode e deve concluir-se que estamos perante um indicador de que as mulheres portuguesas  têm das contracepções mais eficazes na Europa.
 
** 

quadro.PNG

qud p.PNG

Atingir o desejável "seguro, legal e raro" consegue-se com mais e melhor informação sobre planeamento familiar, com desenvolvimento de políticas de educação sexual nas escolas e com centros clínicos multidisciplinares disponíveis para colmatar as insuficiências pessoais, clínicas e sociais que cada mulher específica entende ter, não com consultas obrigatórias eventualmente feitas por gente como esta.
 
Nota: O gráfico e os quadros apresentados constam do "Relatório de Registos de Informação da Gravidez 2014", da Direcção Geral de Saúde, que pode ser encontrado aqui.

 

Da decência

Adolfo Mesquita Nunes no Expresso de hoje sobre as alterações à lei 16/2007: "Há uma redução do espaço de liberdade da mulher. Isso seria suficiente para eu votar contra." e "a alteração não vem colmatar nenhuma falha na aplicação da lei.".

 

PS: À atenção do Carlos Abreu Amorim.

 

ó pá, ó pá, ó pá

Capturar.PNG

Jura o meu amigo JG que isto consta da página 71 do programa eleitoral da coligação PàF. Como ele diz, "Um email disponível 24h (deduzimos que seja por dia). Ao contrário dos outros que fecham para almoço. Estão a gozar com isto tudo.".

 

Vamos ver se é desta

Acabou de ser publicado o DL 136/2015, cujo número 2 do Artigo 31º diz "A existência de comorbilidade de foro mental ou a deficiência mental não são fatores de exclusão para admissão nas tipologias de resposta da Rede*  que se afigurem mais adequadas às necessidades de reabilitação motora ou outras ações que possam ser prestadas na Rede." (sublinhados meus). Está feita alguma justiça e, espero, será uma esperança de resposta para situações deste tipo, pelo menos a médio prazo. 

 

*Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados