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O medo e a vergonha - sobretudo a vergonha - são portentosos

Há dias de consulta absolutamente lixados, daqueles em que nos confrontamos com o que de pior um ser humano tem. Ouvir a história de vida de uma mulher batida e humilhada durante quase duas décadas não me deixa, nunca me deixará, indiferente. E não é uma mulher sem recursos económicos, intelectuais ou afectivos, mas nada disso foi suficiente para a proteger da teia em que se viu envolvida e para a qual, como me disse, "contribuiu e pactuou". Puta que pariu os psicopatas narcísicos e sádicos. 

 

Dos internamentos compulsivos - pegando numa reportagem

Começando pelo fim. Quando um jornalista vai fazer uma reportagem sobre um qualquer tema tem obrigação de se informar, muito bem informado, sobre o dito tema. Neste caso imaginava eu que a primeira coisa a ter sido feita era estudar a Lei de Saúde Mental, onde os internamentos compulsivos estão referidos. Ora alguém que escreve "Não foi porém a avaliação de médicos independentes que trouxe algum descanso, mas sim o reconhecimento da justiça de que afinal não estava louco" não pode ter lido, nem se ter informado minimamente, sobre o processo geral de um internamento compulsivo nem da passagem do regime de internamento compulsivo para o de tratamento ambulatório compulsivo. Para que fique claro, a decisão judicial é tomada com base na informação clínica que o tribunal solicita, e recebe, sobre a evolução do caso - naquilo que na gíria chamamos a avaliação bimensal de um processo de tratamento ambulatório compulsivo -, donde nunca é a justiça a determinar quem está, ou não, "louco".

 

Dito isto, sem conhecer o caso concreto e sendo eu muito crítica do uso indevido deste articulado legal, arrisco a afirmar que o jornalista não se preocupou em saber o tempo médio de um internamento numa unidade psiquiátrica de doentes agudos, caso contrário teria percebido que 71 dias de internamento foge largamente à média, quer se trate de um internamento compulsivo ou não, e que só acontece em situações particulares e complicadas. Ora terão de me convencer que numa estrutura psiquiátrica com inúmeros psiquiatras, onde os casos clínicos são obrigatoriamente discutidos, não haveria ninguém a questionar não só a justificação clínica da manutenção da compulsividade do internamento como a sua longa duração.

 

(Faço aqui um parêntesis para deixar um comentário a este outro texto, também do i e sobre o mesmo assunto. A serem correctas e não descontextualizadas as citações do director clínico do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, merecem-me um reparo público pela sua leviandade, sobretudo tendo em conta que a clínica que determinou, em contexto de urgência, o internamento compulsivo pertence à sua instituição.

Para não ir mais longe na observação fico-me pelos aspectos menos relevantes humana e clinicamente, apenas me detendo nas questões  "economicistas". Ora sabendo, como eu, que quem dirige o serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental é um homem muito implicado nas políticas de Saúde Mental e na gestão de serviços de saúde psiquiátricos, como é que o primeiro pensamento de Salgado não foi "hummm, 71 dias de internamento?, como é que o Caldas de Almeida permitiria este isto sem razão?".).

 

Que se fazem muitos internamentos compulsivos que não estão de acordo com aquilo que esteve na base da criação desta lei - a salvaguarda do próprio e de terceiros tendo em conta os possíveis danos que a falta de consciência mórbida determina no comportamento do doente - não tenho dúvidas. E desse ponto de vista percebo este post do Vitor Cunha. Concordo com algumas das questões levantadas, ainda que discorde da maioria dos argumentos ali referidos. Como escreveu uma amiga e excelente psiquiatra numa trocas de mails onde discutíamos o assunto  "Eu acho que a realidade tem muitas mais dificuldades do que as expressas no texto do Vitor Cunha e não concordo com a sua argumentação, embora tenha razão quanto à discussão que é necessário fazer.

 

Respondendo ao texto, eu diria que "internamos pessoas compulsivamente para lhes proporcionar o melhor tratamento" em situações em que só isso evitará "dano pessoal de monta para o próprio ou terceiros". Segundo a minha leitura, o desacordo dele estará nos critérios para considerar que existe "dano pessoal ou patrimonial de monta para o próprio ou terceiros". Então quando é que devemos considerar que existe "dano pessoal ou patrimonial de monta para o próprio ou terceiros" e aceitamos o internamento compulsivo? Apenas quando o doente está agudamente doente, obviamente delirante, agitado e a destruir tudo à sua volta? Ou também quando existe um quadro insidioso, em que, pela via da ausência de insight, ocorrerá "dano pessoal de monta para o próprio ou terceiros"? Este é um dilema que vivemos na prática clínica. Na grande maioria dos casos só atuamos no primeiro caso, mas na minha equipa, por exemplo, que também visita e acompanha no domicílio (ou seja, não se limita a aperceber-se da situação num contexto de urgência, mas já fez tentativas de intervenção e de avaliação), já decidimos intervir perante casos do segundo grupo, talvez "impingindo coercivamente a quem quer que seja, só porque um serviço acha que é melhor para o indivíduo em questão." Até agora, com bons resultados para as pessoas doentes. Em ambas as situações estão a ser "retirados direitos básicos às pessoas, nomeadamente o direito de não ser tratado", mas no atual momento da vida em sociedade decidimos que isso faria sentido. 
 
E aqui começa outra discussão. É importante discutir a lei de saúde mental não só em relação à sua aplicação (haverá muitos abusos pelo país fora), mas também à sua própria natureza. Por esse mundo fora são cada vez mais fortes os movimentos de utentes que contestam a existência desta figura legal, alegando que as pessoas devem ser completamente livres de optar por não se tratarem, mesmo quando essa decisão é afetada pela ausência de crítica. É esta a discussão que me parece importante que comecemos a fazer, que o Vitor Cunha acaba por tocar ao de leve e que sai prejudicada de todo este episódio mediático.".
 
De tudo o que li sobre o assunto, e mais uma vez reassumindo que apenas conheço o caso pela imprensa, arrisco a assinar de cruz um bom resumo desta novela, feito por outro amigo também psiquiatra, "Este episódio parece-me um vergonhoso momento de anti-psiquiatria, alimentado por um doente paranóide, um advogado idiota e alguns psiquiatras imprudentes.".

Uma filha de 16 anos e uma mãe de 47

Já foram mortas este ano, que se saiba, 26 mulheres. Hoje foi uma mãe e uma filha, para já - a mais nova, de 13 anos, ficou ferida com gravidade.

Ajudem aí

Não tarda faz um ano que cheguei ao Alentejo, a Beja, para ir fazer o que gosto e sei - ser psiquiatra.

 

Recebida como só os alentejanos sabem, encontrei uma realidade plena de carência clínica mas, simultaneamente, repleta de gente superior que fez verdadeiras omeletes sem ovos nos últimos anos largos. Pessoas de grande qualidade técnica e humana a quem agradeço, não só mas também, enquanto cidadã portuguesa.

 

O Baixo Alentejo, e a Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA) em particular, merece mais e melhor. No que puder ajudar estou cá, se alguém quiser ir não se vai arrepender, garanto-vos.

 

Beja é o único distrito do país que não tem internamento psiquiátrico. O espaço físico existe e tem excelentes condições - o edifício onde funciona o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental desde 2012 foi feito de raiz para o efeito -, falta "material" humano. Enquanto directora do Serviço de Psiquiatria da ULSBA vou esfarrapar-me para que seja uma realidade muito em breve, ajudem-me a ajudar a abri-lo.

 

PS: Faço a viagem Lisboa-Beja-Lisboa semanalmente, não é nada do outro mundo, e a compensação de me sentir verdadeiramente útil ajuda a diminuir a distância.

Desonestidade intelectual o tanas

Escrevi na minha página de FB, a propósito do programa "Barca do Inferno" que ontem estreou na RTPInf: "Não vi (felizmente) mas diz que Raquel Varela insinuou aquela coisa do "estão mesmo a pedi-las". Coisa mai uinda, riqueza d'avozinha dela". Na sequência disso a Raquel Varela, também no FB, veio acusar-me de desonestidade intelectual, ao mesmo tempo que referiu "que muitas têm comportamentos que configurariam, pelos gestos e acções, assédio sexual a homens, se a proposta do BE de ilegalizar o piropo fosse para a frente". Ora se não é dizer de forma enviesada o que escrevi vou ali e já venho, desde logo porque o assédio sexual já está criminalizado e as "assediadoras" já podem responder por isso.

Entretanto, continuando sem ver o programa, tive acesso às declarações proferidas no decorrer do mesmo por Raquel Varela "Até porque se calhar o bloco de esquerda devia pensar - o bloco de esquerda ou quem seja a favor - ir ali a Santos às 2 da manhã e ver a figura que fazem as miúdas de 18 anos e se calhar metade daquilo já entrava num tipo de assédio ou de outra coisa qualquer" e "Há imensos casos que entravam num contexto de assédio de mulheres a homens pelos gestos, pela atitude, pelo que fazem e não entram porque alegadamente... sou absolutamente a favor do piropo. o piropo dever ser livre". A Raquel Varela que vá acusar de desonestidade intelectual o diabo que a carregue, desonesta teria eu sido se não tivesse referido que não tinha visto o programa. As fontes de informação que usei merecem-me a maior das credibilidades - como, de resto se pode provar pela citação supra -, não falaria do assunto de outro modo.

Para aliviar comichões e esclarecer quaisquer dúvidas

Fui candidata a deputada ao PE pelo LIVRE como independente, naquilo que foram as primeiras primárias neste país - fui escolhida para ser candidata, o que muito me orgulha.

 

Relembro o que disse e escrevi em Abril. Assumi durante a campanha para o PE que se fosse eleita nas listas do LIVRE escolheria os Socialistas Europeus como família e que a principal razão que me fez avançar foi ter a certeza que a convergência das esquerdas é uma urgência e a solução. Onde está a contradição em querer, de modo muito pró-activo, um Partido Socialista forte e bem governado? Sou uma mulher de esquerda, independente, só poderia ir votar nas primárias do PS, votar António Costa e ficar contente - e com esperança - com a sua vitória.

 

PS: não é de agora, aliás, o meu apoio público a uma candidatura de António Costa.

eheheh o próprio do acto falhado

A estupidez não tem mesmo país

Esta vem ali da vizinha Espanha: “Como se dice científicamente, todo óvulo que no concibe es un aborto. Es decir, cualquier menstruación de una mujer es un aborto incipiente, es un óvulo que no ha prendido, eso es un aborto”, señaló Rosa Valdeón.

 

Adenda modificada: Fui advirtida pelo António Parente nesta caixa de comentários, e pela Shyznogud, que as declarações de Alicia Latorre que tinha aqui lincadas eram antigas e foram desmentidas pela própria. Aqui fica o desmentido mais uma vez e a razão pela qual apaguei o conteúdo da adenda anterior. 

Safa! Vergonha alheia mesmo.

"Salsicha educativa"? Acho mesmo que estamos perante um caso de ténia cortical, mazé.

 

Adenda: Obrigada, Inês, por teres descoberto a verdadeira "salsicha educativa":