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(transcrição das declarações feitas por Abel Matos Santos no Você na TV de ontem, dirigindo-se a Isabel Moreira)
Gostava que me dissessem onde está, neste post que escrevi e que reitero, a calúnia e o ataque pessoal ao Abel Matos Santos de que fui acusada pelo próprio e por João Távora.
Aproveito, entretanto, para dar conta de mais uma postura "cientificamente séria" do Abel. Como diz o Rui «Portugal é hoje uma grande maçada porque já vai tendo nisto da ciência alguma massa crítica. É uma chatice muito grande porque já não basta um gajo às direitas dizer "ah este meu amigo é um tipo com uma credibilidade à prova de bala e chama por tu todos os senhores doutores do Santa Maria" para obrigar os demais a vergar perante a sapiência e indiscutível seriedade de um "profissional".».
Usando uma expressão agora em voga, o "maior psiquiatra americano" é bicha. Isto foi a senhora de Fátima, obrigada Maria.
Anda para aí um grande burburinho com a Maria Alves - a jornalista e escriba do Corta Fitas que ontem escreveu a deliciosa frase "Como vêem há mais jornalistas que pensam como eu, e que são lúcidos", assumindo assim a sua não lucidez - por causa dos seus escritos sobre homossexuais e homoparentalidade. Como para mim já não são novidade as alarvidades da senhora sobre as mais diferentes temáticas, encanitam-me bem mais os posts que o João Távora tem publicado, assinados pelo Abel Matos Santos como "Psicólogo Clínico e Sexologista". Que o Abel queira, enquanto cidadão, debitar a sua opinião nos locais que lho permitam é uma coisa, já que use o seu estatuto de, e cito, "Mestre Doutor e Assistente Especialista em Psicologia Clínica do HSM" (seja lá isso o que for) para fazer um exercício de legitimação é outra completamente diferente e, nesse caso, terá que jogar com as regras profissionais, académicas e, já agora, deontológicas existentes.
Disse Abel Matos Santos, em declarações à RR, que na discussão sobre adopção e co-adopção "nós temos de nos cingir à ciência". Apesar de questionar esta afirmação, ou melhor, dela discordar, façamos-lhe a vontade e cinjamo-nos, então.
No artigo de opinião que escreveu no Público da passada semana, cujo conteúdo e a forma me abstenho de comentar, pelo menos para já, tenta pincelar a coisa com umas referências "científicas" dizendo "(...) Um estudo australiano (Children in three contexts)" (...) "De acordo com um dos maiores psiquiatras americanos (Fitzgibbons)" e (...) "No estudo de 2010 (US National Longitudinal Lesbian Family Study)".
Fazendo um movimento empático vou numerar os parágrafos, parece que é do gosto do Abel Matos Santos.
1. Quanto ao "estudo australiano" é estranhíssimo que um doutorando em Psicologia, como refere ser, utilize referências de 1996 quando tem à mão bibliografia deste ano, mas pronto, as pesquisas bibliográficas não são para todos. Mais estranho ainda é o facto de utilizar um estudo publicado numa revista sem revisão por pares, com erros metodológicos importantes, nomeadamente no que diz respeito às histórias pregressas e acontecimentos de vida das crianças dos três grupos, e no qual quase todos os dados sobre o seu funcionamento se basearem em relatórios de professores, sendo o próprio autor do trabalho a assumir o enviesamento que isso pode determinar, sobretudo tendo em conta a área de estudo em questão.
2. Não sei a altura de R. Fitzgibbons, referido por ele como "um dos maiores psiquiatras americanos" - com mais de 2m conheço pelo menos três - mas sei que integra a National Association of Research and Therapy of Homosexuality (NARTH), defensora das terapêuticas de reconversão, prática "clínica" formal e deontologicamente condenada (cf, a este propósito, uma conversa antiga aqui e aqui). Perceberão, portanto, que a referência "científica" de Abel Matos Santos não mereça grande crédito desde logo porque incorre em má praxis - coisa pouca.
3. Por último escreve "No estudo de 2010 (US National Longitudinal Lesbian Family Study)". "No"? A que estudo se refere e em que contexto surge a informação de que "40% dos pares que tiveram um filho (por inseminação artificial) tinham-se separado"? Para quem advoga que nos devemos "cingir à ciência" tem obrigação de, pelo menos, saber indicar uma referência bibliográfica.
Nada disto é novo, o Abel parece insistir neste seu papel pouco digno e pouco sério, que de resto já lhe valeu uma queixa pública, apresentada por pares, junto da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É pena, a Psicologia nacional é muito melhor que isto e merece mais.
sobre co-adopção, qual é a parte de "estas crianças já existem" que é complicado perceber?
A Organização Mundial de Saúde elaborou o Plano de Acção para a Saúde Mental 2013-2020 que vai ser discutido pelos estados membros da Assembleia Mundial da Saúde durante esta semana. Vamos aguardar mas é, desde já, uma excelente notícia para a Saúde Mental. (daqui)
A Assembleia da República votou favoravelmente a lei que consagrada a co-adopção para casais do mesmo sexo. Com uma maioria de centro-direita no Parlamento, a aprovação só foi possível porque alguns deputados do PSD e do CDS-PP tiveram a coragem de romper as lógicas partidárias e corresponder aos superiores interesses das crianças que já vivem com casais do mesmo sexo. Esta matéria assume uma dupla relevância política e social uma vez que estes projectos está em causa: 1) o superior e inalienável interesse das crianças que, em caso de falecimento de um dos pais se vêm privadas de ficar com o outro elemento do casal; 2) a eliminação de uma parte das discriminações legislativas em função da orientação sexual que ainda subsistem no panorama jurídico português.
Há um voto que, pelo seu simbolismo, não deixou de causar enorme estranheza e perplexidade: Hugo Soares, presidente da JSD, votou contra todos os projectos. Este voto, simbólico, demonstra que apesar de se auto-intitular como representante de uma geração, Hugo Soares não soube estar à altura da sua própria geração pretendendo impedir que algumas crianças possam ter o seu futuro assegurado junto daqueles com quem vivem. É um voto ainda mais incompreensível quando se sabe que o Hugo Soares tem apoiado de forma genuína campanhas que visam o promover o fim da discriminação em função da orientação sexual, atitude que só pode e deve ser enaltecida (e não escarnecida).
Sei, porque acompanho o seu percurso político há vários anos, que o Hugo Soares acredita na importância da remoção de todas as discriminações em função da orientação sexual que ainda subsistem no nosso quadro legislativo. E sei, porque partilho o mesmo espaço urbano e algumas lutas políticas, que o Hugo Soares já percebeu que no seu círculo de amigos, nos seus colegas de trabalho e no interior do seu partido, há alguns homens e mulheres que não se sentem confortáveis com esta posição que assumiu enquanto deputado e líder da JSD, contribuindo para que nem todos acreditem que tudo vai melhorar.
Em resposta à contestação pública e silenciosa que chegou de todos os quadrantes políticos e sociais, o Hugo Soares teve necessidade de esclarecer que a sua posição pessoal não reflectia a posição da JSD, mas reafirmou que o seu voto vinha ao encontro do "superior interesse da criança" e que reflectia "uma opção de modo de sociedade". É aqui que estamos em profundo desacordo. Em primeiro, porque o seu voto não respeita os superiores interesses das crianças que vivem em famílias constituídas por um casal de pessoas do mesmo sexo e que estão completamente desprotegidas pelas Leis em vigor. Em segundo, porque o seu voto não atende às posições que têm sido formuladas por inúmeras entidades independentes nacionais e internacionais que encorajam a co-adopção e a adopção por todos os casais como forma de proteger os direitos das crianças e assegurar os seus inalienáveis interesses (permito-me destacar a posição da Associação Americana de Pediatria, conhecida em março de 2013, e fundamentada pela melhor e mais recente investigação científica neste domínio). Em terceiro, porque o que se espera das juventudes partidárias é que não funcionem como extensões dos partidos mas que tenham a capacidade de interpretar as expectativas dos mais jovens e gerar soluções que ajudem a conformar o tal modo de sociedade do futuro.
Mesmo que as suas posições públicas (talvez um pouco precipitadas pelos acontecimentos) tenham tornado muito difícil uma revisão da sua posição na próxima votação global (o que, todavia, só enalteceria o seu percurso político), estou certo que o Hugo Soares reconhecerá a justeza das críticas, o valor dos argumentos e o inequívoco assentimento dos pareceres especializados, por forma a que, num futuro muito próximo, volte a estar do lado certo da História.
Acabei de ler no i "No PSD o ambiente também era de alguma revolta entre os parlamentares que votaram contra. Os deputados lamentam que a direcção da bancada “não se tenha preocupado com fazer as contas” e com “assegurar que a posição do partido não sairia fragilizada”. O diploma foi aprovado com 99 votos a favor, 94 contra e nove abstenções." (os sublinhados são meus).
Não tenho ideia de ter lido onde quer que seja a posição do PSD sobre a co-adopção mas, como aqui é referido, estava no jantar em que Passos Coelho respondeu o seguinte quando questionado sobre a possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo: "entendo que neste tipo de questões deve existir liberdade de voto dentro dos partidos" e "a questão não é se o casal é do mesmo ou de diferente sexo, a questão deve ser sempre o superior interesse da criança, por isso, em tese, não me oponho".
À dúzia é mais barato. Foi a vez do Minnesota
"O projecto conhecido como 'cura gay' que hoje começa a ser debatido na Câmara dos Deputados do Brasil está a provocar polémica no país. A proposta de autoria de um deputado e pastor evangélico tem como objectivo anular uma resolução do Conselho Federal de Psicologia de 1999, que prevê que 'psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades'". Por lá há uma tomada de posição formal, por cá não se passa nada apesar destas posições públicas.
Não ouvi Marques Mendes, vou sabendo dos dislates do senhor pela comunicação social, mas este sujeitinho não se enxerga? Não tem um pingo de ética. Partilho o pedido da Mariana, "Quando alguém descobrir como e quando ocorreu a elevação de Marques Mendes a senador, peço que me esclareçam, sff".
O Zé Reis Santos mostrou-me e eu deixo aqui: o que pode a UE fazer para combater a violência e a injustiça contra as mulheres?
Só pode, um destes dias era o Burkina Faso e hoje queria que o PS pedisse desculpa a Cavaco Silva por o João Galamba ter dito que o senhor "endoidou". O João respondeu a única possível: "Quem deve um pedido de desculpas é o Presidente da República, que quinta-feira insultou os portugueses, a democracia e o 25 de Abril de 1974. O que fez na quinta-feira no Parlamento foi de uma enorme gravidade, porque no dia em que se celebra a libertação de um povo de uma ditadura, em que se celebra a soberania democrática e liberdade, o mais alto magistrado da nação disse no Parlamento, a casa da democracia, que as eleições deixaram de ter qualquer relevância.".
*adaptação da frase da Alex
De acordo com uma avaliação da Entidade Reguladora da Saúde a Maternidade Alfredo da Costa teve classificação máxima em obstétricia e neonatalogia... portanto fecha-se. Está bem.
"Grupos radicais ligados à extrema-direita multiplicaram ultimamente ataques físicos contra homossexuais em ruas e bares" de várias cidades francesas. (via Expresso)
Como dizia um destes dias o Miguel Vale de Almeida "O que está a acontecer na França em relação ao casamento igualitário (já aprovado na lei...) é muito estranho - e único. É como se toda a raiva racista, xenófoba e classista, acumulada nas últimas décadas com outros "problemas" sociais, e auto-reprimida pela vergonha social sentida em relação àqueles sentimentos, tivesse encontrado na homofobia, ainda "permitida", a sua válvula de escape.".
Sobre a nomeação de Berta Cabral para a Defesa: "Por seu turno, o presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), Manuel Cracel, disse também à Lusa encarar com “surpresa” a nomeação para a pasta da Defesa, hoje conhecida, especialmente por se tratar de alguém do sexo feminino, uma situação inédita em Portugal." (sublinhados meus), e continua "O facto de ser mulher confere-lhe alguma sensibilidade para ter uma percepção mais adequada e correta do papel das Forças Armadas e para que servem os militares”. Isto tudo foi mesmo dito assim?
Não conheço o trabalho de Abigail Norfleet James de lado nenhum, mas alguém que num primeiro momento diz "O problema da neurociência é que observa os indivíduos" para logo a seguir justificar as suas posições com "Sabemos que no cérebro, o hipocampo (o órgão que torna as memórias de curto prazo em memórias de longo prazo) se desenvolve mais cedo nas raparigas" não me merece grande credibilidade.
@paulohenriques: Já percebi a catch phrase que encantou o Relvas: "CV é newsletter e newsletter é spam".
"maioria dos crimes sexuais em pt são sobre crianças. a maioria das vítimas são do sexo feminino. e a maioria dos agressores são familiares
nada de novo, em suma (comentário ao ler um artigo do público de hoje)"
"Pela primeira vez, a Associação Americana de Pediatria (AAP) pronunciou-se sobre o casamento homossexual, considerando que os direitos de uma criança ao ter dois pais ou duas mães legalmente unidos ficam reforçados." Via ILGA
Eram os idos de Março de 2011 quando escrevi isto. Muitas reacções discordantes teve esta minha opinião, também da parte de vários transexuais. Hoje, ao ler o comunicado do Grupo Transexual Portugal sobre o programa Você na TV emitido pela TVI no dia 14 deste Março de 2013, não pude deixar de me lembrar do assunto João Décio Ferreira.
PS1: ah, entretanto Coimbra avançou com as cirurgias de mudança de sexo no SNS.
PS2: As declarações de Abel Matos Santos nem comento, de tão aberrantes que são.
PS3: De referir que sou desfavorável à "despatologização" por razões que já tive oportunidade de discutir publicamente.
Porque a manipulação social e política da desgraça não pode, ou não deve, ser feita. As relações de causalidade nos comportamentos suicidários e nos suicídios consumados devem ser muito cautelosas e sustentadas, se assim não acontecer podem determinar um efeito negativo e perigoso.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
eheh isto lido a posteriori é ainda mais hilariant...
Está a falar de quem?
Ainda estou à espera que me explique este seu come...
Melhor só se fosse possível atirar-lhe com uma tar...
De qualquer modo, o visado não tem de se queixar.C...