"Na eterna busca de bens posicionais que os distingam dos pequenos e médios ricos, cujas fileiras engrossam a olhos vistos, mansões na Côte d’Azur, iates de 150 metros e ilhas privadas não bastam hoje para sinalizar o nababo genuíno. De modo que, quem quer ser alguém, compra antes um clube de futebol, como fizeram Abramovich ou o xeque Mansour Nayhan. Ou então, imitando Berlusconi, opta por comprar um cargo de primeiro-ministro, com os resultados que se sabe. Num plano incomensuravelmente mais perverso, pode fazer como Bin Laden, que aplicou a riqueza familiar na construção de uma rede terrorista internacional dedicada a chacinar infiéis."
O resto do meu artigo de hoje no Negócios pode ser lido aqui.
In illo tempore, tínhamos na instrução primária livros de estudo impregnados de bendita ruralidade, famílias à volta da lareira, santinhos patrióticos e heróicos guerreiros façanhudos.
As crianças reuniam-se nas eiras ao luar nocturno escutando os pais debitarem provérbios populares que ressumavam humildade natural e respeito pela autoridade.
Ao contrário das localidades e das habitações que conhecíamos, havia nessas páginas muitos animais de carga e nenhuns automóveis, nem cinema, nem rádios, nem jornais, nem qualquer espécie de electrodomésticos. Acima de tudo, não havia plásticos.
Segundo Crato e amigos, nessa época abençoada levava-se pancada da professora, fazia-se exames e aprendia-se a sério. Desse esforço desumano resultaram, como herança oferecida às novas gerações, milhões de cabeças brilhantes como a dele.
O bucolismo fifties está, evidentemente, out. As pessoas hoje precisam que lhes expliquem o que é aquele objeto recurvado que se vê na bandeira dos comunistas. (Refiro-me, é claro, à foice.)
A mentalidade retrógrada, porém, permanece viva, de modo que a utopia passadista que o ministro hoje se propõe implantar nas escolas inspira-se menos na agricultura de outrora e mais no artesanato industrial dos tempos felizes em que usava bibe e ia aos pardais.
Vamos, por isso, ter agora um ensino profissional inteiramente voltado para a caça do javali, a criação de gado, a pesca à linha, a carpintaria, a serralharia, a oficina automóvel (não esqueçam os bate-chapas!) e a soldadura.
Absolutamente out estarão a partir de agora os cursos de multimédia, informática, design, moda, marketing e animação cultural, actividades que, por não terem futuro e inocularem ideias malucas nas mentes infantis, passarão a ser ferozmente reprimidas pelo estado.

Muito civilizada, a mudança de governo em França, com os membros do executivo cessante a receberem nos seus ministérios aqueles que vêm substituí-los e a brindá-los com discursos de boas-vindas, retribuídos com toda a elegância pelos novos inquilinos.
Espero que, num dia não muito distante, cá também seja assim.

Os portugueses estão habituados a esperar que alguém, de preferência o Estado, lhes arranje emprego. Falta-lhes capacidade de ir à luta, criar o seu próprio posto de trabalho e produzir riqueza. Vivem demasiado acomodados à sombra de direitos adquiridos. Esperam que alguém lhes resolva os problemas, enfronhados numa atitude resignada e fatalista.
Concordam? Eu também não.
Ouvi ontem Marcelo explicar que, se todas as pessoas que o desejassem entregassem aos bancos as suas casas para saldar os empréstimos à habitação, isso agravaria dramaticamente o equilíbrio dos bancos, com gravíssimas consequências para o sistema financeiro.
Isto é aquilo a que se chama uma visão parcial e interesseira.
Reparem que a degradação da situação patrimonial dos bancos seria exactamente simétrica à melhoria da situação patrimonial das famílias no caso de essa dação em pagamento ser autorizada. Vai daí, elas melhorariam os seus saldos bancários, o que, por sua vez, contribuiria para equilibrar a situação financeira dos bancos.
Logo, o que está em causa na operação proposta não é o risco de uma degradação dos equilíbrios do sistema financeiro - que não existe - mas uma redistribuição de recursos dos bancos para as famílias. Coisa que, naturalmente, os gestores e os accionistas dos bancos (e o professor Marcelo) não desejam.
À interpelação: “Mas, afinal, ainda vivemos em democracia, ou não?”, a resposta só pode ser: “Claro que sim.”
Introduzamos, porém, alguma nuance na questão, perguntando-nos antes como deve a nossa democracia ser classificada numa escala de 0 a 20, porque faz mais sentido um juízo sobre o grau relativo de democraticidade de que disfrutamos do que um simples “sim” ou “não”.
Ora, postas as coisas nestes termos, a minha avaliação não irá acima de 11 valores. Temos ainda alguma democracia, mas não muita.
Pensem um pouco. Até há pouco tempo, toda a gente concordava que um governo de gestão, carente de apoio parlamentar, não tinha legitimidade para mais do que assegurar a gestão corrente do país até às eleições seguintes.
Em 2011, porém, achou-se normal que um executivo demitido negociasse com a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional um acordo de ajuda financeira que resultou na imposição de um programa genérico de governo para os anos seguintes que forçosamente teria que ser cumprido por quem ganhasse as eleições seguintes.
Não esqueço que a pressão do tempo foi invocada para justificar a inevitabilidade do procedimento e que, para dar um ar mais respeitável à coisa, os restantes partidos foram convidados a envolverem-se nas negociações.
Todavia, se as formalidades constitucionais podem ser dispensadas quando se revelam inconvenientes de algum ponto de vista ou para alguém, caem por terra a santidade da democracia formal e do estado de direito em que assenta uma definição ainda assim minimalista (logo, menos exigente) da democracia.
Depois, convém recordar que a rápida degradação da situação financeira a partir de meados de Março de 2011 que determinou o desembarque da troika foi directamente provocada pelas movimentações nada inocentes da oposição ao governo da época.
Primeiro, o Presidente da República transformou o discurso da sua tomada de posse numa declaração de guerra ao executivo dirigido por Sócrates.
Segundo, o Bloco de Esquerda manifestou a sua disponibilidade para votar favoravelmente uma moção de desconfiança com o argumento de que pior do que aquele governo não poderia haver.
Terceiro, Passos Coelho afirmou falsamente que não tinha sido informado do conteúdo do PEC4 e, pressionado pelas suas bases, anunciou que votaria contra ele.
Quarto, PSD e PP declararam que a alternativa à austeridade proposta por Sócrates seria o corte das gorduras do estado, assim poupando os portugueses a mais sofrimentos.
Quinto, o PSD pressionou por várias vias a troika a agravar as condições do auxílio financeiro prestado, convindo não esquecer que Durão Barroso é Presidente da Comissão Europeia e que António Borges, à data Director do FMI para a Europa, fora até um ano antes vice-presidente do PSD.
Junte-se a isto as movimentações de magistrados guiados por uma agenda política, as agressivas e continuadas campanhas dos media contra o primeiro-ministro da altura e os pronunciamentos de banqueiros acossados pelas consequências dos seus próprios erros, e teremos uma ideia da gravidade do que se passou.
Faz falta recordar estes factos, seja por estarem um tanto esquecidos, seja por a distância temporal nos ajudar a entender o seu sentido global.
Poderemos falar de golpe de estado constitucional? É ao menos inegável que assistimos a uma gigantesca fraude eleitoral e, na sequência, à subversão das instituições, perante, mais do que a complacência, a colaboração activa do Presidente da República.
Dizem-nos que é vulgar os governos eleitos desviarem-se consideravelmente das suas promessas e que, afinal, as pessoas foram livres de escolher quem agora as governa. Mas o princípio da representatividade, embora concedendo larga margem de manobra aos eleitos, não pode ser elástico ao ponto de autorizá-los a fazerem exactamente o contrário do que haviam proposto decorrido um breve mês sobre as eleições, como há dois anos sucedeu no Reino Unido e no ano passado ocorreu entre nós.
Percebe-se que, mudando as circunstâncias, mudem as políticas; mas não se aceita que a má-fé tão descaradamente se sobreponha à vontade dos cidadãos. Quem quererá voltar a ser enganado na próxima ocasião em que seja convidado a pronunciar-se?
Vozes autorizadas consideram que uma boa parte das políticas adoptadas pelo presente governo contrariam frontalmente não só a Constituição de República como os próprios alicerces do Estado de Direito, com o seu desrespeito selectivo pelos direitos estabelecidos e pelos contratos assumidos pelo estado português.
Vivemos ainda sob o mesmo regime ou terá já ele sido mudado? Talvez seja mais rigoroso dizer-se que, não sendo já o mesmo, também ainda não é outro. Mas não pode haver dúvidas sobre o sentido geral das transformações em curso.
Ao subir a parada desta forma, a direita portuguesa parece comprometida com um caminho sem retorno: ou sofre uma derrota estrondosa equivalente à que experimentou em 25 de Abril de 1974, ou subverte o regime constitucional actual e logra impor o regresso ao passado por que, intimamente, sempre ansiou.
Estariamos, nesse caso, a viver um estado de excepção que, a pretexto de circunstâncias extraordinárias, avança progressivamente na suspensão dos direitos e garantias constitucionais enquanto paulatinamente instaura uma nova ordem cujas semelhanças com a que até agora conhecemos serão uma mera coincidência.
Nós só estranhamos ouvir Vítor Gaspar elogiar os progressos da economia portuguesa apesar do crescimento continuado do desemprego porque não percebemos nada de economia.
Se todos estudassemos pela cartilha de Gaspar, saberiamos que o desemprego é um fenómeno inteiramente voluntário. Por outras palavras, como as pessoas não conseguem arranjar emprego por um salário suficientemente atraente, optam por tirar férias por um tempo até que se esgote o subsídio ou o apoio familiar e se convençam de que não terão outra alternativa senão aceitar o que lhes é oferecido.
Não há nada de errado ou de lamentável numa taxa de desemprego de 15,3%, visto que ela resulta, afinal, das livres decisões dos trabalhadores tendo em conta as opções existentes. Só por demagogia ou ignorância pode falar-se a esse propósito de tragédia humana.
Porém, se o povo quer mesmo reduzir o desemprego, há receitas seguras para consegui-lo: elimina-se o subsídio de desemprego, proibe-se a contratação colectiva e abolem-se os direitos adquiridos que inibem o despedimento e logo veremos se não passa rapidamente aos desempregados o desejo de prolongarem as suas férias.
Se vocês se sentem horrorizados com esta linha de raciocínio é apenas porque ignoram a mais moderna teoria económica de que Gaspar é fiel depositário. Consolem-se pensando que não estão sós: ao que consta, também dentro do governo cada vez mais gente acredita que o Ministro das Finanças é lirú.
Os rocambolescos acontecimentos de hoje nas lojas da cadeia Pingo Doce, com confrontos e feridos confirmados à mistura, sugerem que, em Portugal, os saques aos supermercados são organizados pelos seus proprietários. Temos capitalistas muito à frente.
Como se pode constatar pela leitura dos múltiplos comentários sobre o assunto que proliferam na net, nada disto contribui para melhorar a já degradada imagem que o marketing tem entre a população mais instruída.
Terá a iniciativa sido um sucesso para o Pingo Doce do estrito ponto de vista comercial? Não há dúvida que a insígnia conseguiu mais uma vez chamar a atenção para si própria e que terá batido todos os seus records de vendas num só dia.
Embora o Pingo Doce não tenha propriamente necessidade de aumentar a sua notoriedade, publicidade gratuita é sempre bem vinda. Além disso, terá reforçado o seu posicionamento de preço baixo face ao seu concorrente mais directo, que é o Continente.
Por outro lado, mesmo ignorando uma possível condenação por concorrência desleal, a empresa tornou-se responsável por cenas degradantes que ofendem a consciência de muitos de nós. É difícil negar-se que o estado de necessidade de muita gente foi objectivamente transformado num espectáculo ao serviço da estratégia promocional do Pingo Doce.
Tampouco é bonito pôr consumidores contra trabalhadores (forçados a trabalharem no 1º de Maio), situação que, naturalmente, terá desagradado a muitos deles, para mais nas condições de caos, grande incómodo e algum perigo em que foram colocados.
Talvez isto não preocupe muito a administração do Pingo Doce, que, consabidamente, mantém uma relação muito descomplexada com a ética empresarial. Apesar disso, mesmo que muita gente se sinta indignada, não lhe resta grandes alternativas viáveis para fazer as suas compras.
A degradação da reputação de uma empresa pode não provocar prejuízos imediatos, especialmente quando ela detém uma vantagem competitiva evidente. Todavia, em igualdade de circunstâncias, situação que tarde ou cedo ocorrerá, a má vontade de clientes, fornecedores, parceiros e colaboradores acabará por fazer-se sentir.
Mas suponho que este já será um raciocínio excessivamente abstracto para os gestores do Pingo Doce.
Reconheço como igualmente verosímeis duas avaliações distintas da mais recente viragem opinativa de Pacheco Pereira: a) o homem é um genuíno espírito independente; b) o homem é tolo.
Há um ano, anunciava que o desgoverno orçamental conduziria o país à ruína, exigia sangrenta austeridade, aplaudia freneticamente os pronunciamentos do Presidente da República, sofria terríveis alergias de cada vez que falava Sócrates, execrava a moleza do PEC4, queria eleições já, pedia uma intervenção estrangeira (se possível, armada), ansiava pelo governo da troika.
Agora, vomita à simples menção de Passos Coelho, cospe no PP, teme que a coligação destrua a economia e a classe média, pede moderação, condena o determinismo económico, quer organizar a resistência ao diktat alemão, desespera com a inconsequência de Cavaco, lembra quanto de magnífico se conseguiu nas últimas décadas.
Por mim, diria que qualquer das teorias acima mencionadas é compatível com a informação empírica disponível. Não vos parece?
Porque necessitamos afinal de empresas ou instituições? Esta é a questão que coloco no meu artigo no Negócios desta semana, a propósito da polémica suscitada pela anunciada extinção da Maternidade Alfredo Costa.
Enquanto não o lêem todo, fica aqui a conclusão:
Instituições confiáveis, como a Maternidade Alfredo Costa, demoram décadas a construir. Não se pode permitir que uma facção de bárbaros engravatados destrua de uma penada a dedicação e o esforço de gerações de profissionais justamente orgulhosos da qualidade do seu trabalho.
Recordo anos em que, no 25 de Abril, eramos brindados com um sol de luxo e as praias abarrotavem de gente.
Mas, agora, parece que estamos no Outono, e já dei por mim a pensar que, não tarda, será altura de começar a fazer as compras para o Natal.
É melhor assim. Em indo para a praia, os adultos bebem cerveja, as crianças lambem gelados e a austeridade sai irremediavelmente prejudicada. Se nos distraímos um pouco da nossa recomendável condição de indigência, lá dispara outra vez o défice externo.
Não podemos de forma alguma perder o foco, justamente agora que lá fora tanto se gaba a lusa mansidão.
Já basta o risco que corremos de as pessoas perderem o tino caso a seleção sobreviva à fase de grupos do europeu.
O tempo que por estes dias faz está em perfeita consonância com o clima político. Não, não é acaso, antes fruto de muita persistência e de um empenhado sentido estratégico.
Diziam ontem na tv que, nas previsões do FMI, só voltaremos a crescer em 2017, e, ainda assim, apenas 1,7% (creio que era isto).
Não ponho grande fé nesse oráculo. Primeiro, porque a adivinhação não é uma ciência; segundo, porque o FMI tem errado sistematicamente em relação a Portugal.
Mas quem acredita nessa perspectiva - ao que parece, a generalidade dos jornalistas e dos economistas profissionais, Banco de Portugal incluído - deveria preocupar-se mais do que aparenta, até porque estas profecias têm uma certa tendência para serem self-fulfilling.
Onde estará o desemprego com um desempenho assim nos próximos cinco anos? Vá, comecem a fazer as contas, e digam-me se será possível evitarmos ter daqui até lá um quarto da população activa desocupada.
Depois, comecem a pensar como será possível pagar subsídios de desemprego a toda a essa gente, manter os hospitais e as escolas em funcionamento e assistir os reformados. Mais concretamente, digam-me se imaginam que uma sociedade mergulhada na penúria como essa que se antevê terá condições para continuar a viver com alguma normalidade.
E supõem que as pessoas permanecerão atentas e venerandas a votar de quatro em quatro anos para a Assembleia da República e de cinco em cinco para o Presidente da República?
Está claramente na hora de começarmos a pensar noutra coisa.
Na 5 de Outubro, à hora do almoço, nota-se pouco movimento e muitos lugares de estacionamento vagos. Não é bem como se fosse domingo, mas tampouco parece aquilo a que se convencionou chamar dia de semana.
Escasseiam os transeuntes, restaurantes às moscas recuperam de canseiras passadas. Cansadas parecem de facto as poucas pessoas que olham as desoladas montras. Lojistas sem freguesia vêm até à porta ver em que páram as modas que, aliás, não páram.
Nalgumas ruas laterais reina por vezes durante demasiados segundos um silêncio estranho e ameaçador.
15% de desemprego? Não me façam chorar.
Os trabalhadores explorados deste país, humilhados quotidianamente por uma coligação que junta meninos copo-de-leite do PP e tiranetes casca-grossa do PSD, têm por fim uma voz que exprime eloquentemente a sua revolta todas as 5as feiras na Quadratura do Círculo.
Não me refiro ao sorumbático António Costa, com o seu eterno sorriso de bonzo tranquilo, mas a Pacheco Pereira. Depois de ter feito tudo o que estava ao seu alcance para derrubar Sócrates e pôr lá Passos, Pacheco explica agora semanalmente ao povo, com idêntica convicção, que este governo não deixará pedra sobre pedra se o deixarem prosseguir tranquilamente a obra de destruição a que há 10 meses se abalançou.
O plácido Costa acredita que há toda a vantagem em o PS votar a favor da regra do estrangulamento orçamental, ajudando o país a adiantar-se aos seus parceiros da União. Pacheco contra-argumenta, por palavras suas, que, "lá fora", isso apenas reforçará a ideia de que somos uma nação de parvos com cujo sentimento ninguém precisa de preocupar-se.
Ocorreu-me ontem que, se o PS se sente demasiado cansado para fazer oposição, poderia talvez subcontratar a tarefa ao Pacheco Pereira. Ou então, no mínimo, tomaria boa nota dos argumentos que ele usa e repeti-los-ia, como papagaio bem comportado, quando não soubesse o que dizer - ou seja, quase sempre.
Pessoas tão proficientes no uso da língua chinesa como Jorge Jesus no da portuguesa asseguram-nos que, na exótica fala do Império do Meio, a palavra "crise" também significa "oportunidade".
O artifício retórico não poderia, como se compreende, deixar de contribuir para engrossar o arsenal de dislates da actual maioria. Infelizmente para ela, trata-se de mais uma treta sem fundamento.
A oportunidade que se arriscam por isso a perder é, apenas e só, a de estarem calados.
Faz-me impressão o à-vontade com que entre nós se ignora as eventuais consequências da aquisição de empresas portuguesas por proprietários estrangeiros.
É verdade que, na maioria dos casos, não há nada a perder e muito a ganhar com a troca.
Mas nem sempre é assim.
A nacionalidade dos detentores da propriedade de uma empresa conta - e muito - como Adam Smith bem sabia.
Que circunstâncias poderão eventualmente tornar uma tal operação nociva para o país? É esse o tema do meu artigo desta semana no Negócios.

Já ouvi argumentar que, sendo a regra de ouro do equilíbrio orçamental exigida pela Alemanha uma bizarria inócua, não faz mal que o PS vote a seu favor.
Assim como assim, ninguém sabe exatamente o que significa e como poderá ser operacionalizado o limite de 0,5% ao longo do ciclo, de modo que mais valeria o país continuar a transmitir para o exterior uma imagem de unidade.
Sucede que isto é errado, mesmo do ponto de vista do governo (admitindo tratar-se de um governo empenhado em proteger os cidadãos que ele é suposto servir). Efectivamente, um executivo ganha margem de manobra negocial quando, nos fóruns internacionais, pode resistir a pressões argumentando que "lá em casa" será difícil conseguir fazer aprovar esta ou aquela medida.
Veja-se, por exemplo, como a necessidade constitucionalmente imposta de referendar decisões importantes tem ajudado vários países, mormente a Irlanda, a dar-se ao respeito ao mesmo tempo que conquista espaço de manobra. Dir-se-ia que, afinal, a democracia continua a ter as suas vantagens.
Se outras razões não houvesse para o PS votar contra a regra de ouro - e há-as em abundância - acredito que esta bastaria.
De há uns tempos para cá, não há dia em que não seja interrompida a circulação numa linha do metro de Lisboa por períodos prolongados, frequentemente em horas de ponta, com considerável transtorno para os passageiros.
Curiosamente, esta ocorrência não parece ter valor noticioso para os media. A perturbação continuada da vida dos lisboetas não vale uma reportagenzinha?
Como se explica isto? Os jornalistas não andam de metro? Andando, não enxergam o mesmo que os outros cidadãos? O tema só seria relevante se resultasse de uma catástrofe natural, ou, em alternativa, se motivasse suicídios em massa?
Mais perguntas: o município não tem nada a dizer? Os vereadores também não andam de metro nem conhecem alguém que ande? Parece-lhes o tema irrelevante?
Voltou a censura prévia?
Que país mais estranho.
O profissional da indignação Pedro Lomba ficou em estado de choque ao descobrir no relatório da Inspeção de Finanças que em certa escola foram descobertas coisas escabrosas como "iluminação decorativa", "estores eléctricos" e "iluminações de parede".
O deslumbramento do Lomba por tudo o que envolve electricidade levou-o a esquecer-se de denunciar que há até estabelecimentos com aquecimento central e que, noutros, nem sequer chove lá dentro.
Além do mais - pasme-se - a Parque Escolar gastou 15 mil euros (15 mil!) em trabalhos de design e publicidade, verba milionária capaz de dar a volta ao miolo a um semi-proletáriario que ganha o seu sustento torturando mentes adolescentes na Faculdade de Direito de Lisboa.
Mas o ponto mais notável do artigo é a frase de abertura, onde o hábil escriba compara esses luxos escolares aos "reluzentes limpa-neves" do aeroporto de Luanda.
Se o moço tivesse querido informar-se, teria sabido que a história é falsa: jamais houve um limpa-neves (muito menos vários) no aeroporto de Luanda; o que houve foi uma fraude de empresários portugueses envolvendo diversas facturas falsas, uma das quais mencionava o tal limpa-neves.
Verdade ou mentira, porém, isso pouco interessa, desde que se produza o desejado efeito de fazer salivar de gozo os racistas que o Lomba procura divertir.
Não havendo limpa-neves em Luanda, existe, porém, um no Público, que, no caso vertente, assume a forma de um calhau com olhos.
"O Tratado da Carta de Energia (TCE) prevê uma gama de garantias para investidores estrangeiros como poucas vezes se viu num tratado internacional. De entre elas destaca-se a cláusula de nação mais favorecida e da igualdade de tratamento com os investidores nacionais. Mais radical ainda, estabelece-se a possibilidade de qualquer litígio entre o investidor estrangeiro e o Estado do país receptor poder ser dirimido num tribunal arbitral internacional.Ora,
"Em Novembro do ano passado o governo espanhol foi confrontado com um pedido de arbitragem internacional feito por 14 empresas estrangeiras gestoras de fundos e que haviam investido no sector da geração de energia fotovoltaica. O pedido resulota de uma decisão unilateral de Madrid no sentido da redução das tarifas de venda da electricidade à rede."Sucede que Portugal é não só um dos 46 países subscritores do TEC, como, tendo ele sido assinado em Lisboa em 1994, se tornou seu depositário. Isso passou-se no tempo do Prof. Bom Aluno, o qual assim assumiu, com a habitual leviandade, um compromisso que agora nos deixa de pés e mãos atados. Vivemos, como é sabido, num estado de direito, onde todos são iguais perante a lei. O problema é que se acaba sempre por descobrir que alguns são protegidos por leis que têm precedência sobre as que protegem os outros.
Tendo desistido temporariamente de rezar o terço, aquela ministra que transporta em permanência atrás de si uma equipa da RTP lá enunciou algumas ideias para proteger a agricultura da seca persistente.
A primeira da lista pôs-me os cabelos em pé e o pé atrás. Consiste ela em permitir que os produtores de carne biológica alimentem os seus animais com rações. Espanto: mas então é precisa uma autorização ministerial para não se deixar morrer o gado à fome?
Obviamente, não é bem isso. Do que se trata é de permitir que seja comercializada como carne biológica - logo, a um preço mais alto - carne que não o é. Em suma, a primeira ideia da ministra foi sancionar uma aldrabice.
Concordo que os criadores sejam protegidos, não concordo que os consumidores sejam levados a comer gato por lebre.
Por outro lado, é reconfortante saber-se que o pitoresco espírito trampolineiro de Cristas está vivo e recomenda-se. Foi isso que pensei mais tarde, ao saber do originalíssimo arranjo congeminado na Liga de Futebol para evitar a despromoção de dois clubes na presente temporada.
Para salvaguardar os regulamentos, eles são de facto despromovidos, mas logo de seguida repescados. Quem não se sente confortável com estas coisas está a mais neste país.

Já todos ouvimos dizer que o número de óbitos aumentou subitamente em Janeiro deste ano, mas deixem-me contar-vos em pormenor o que de facto se passou.
O número de mortes ocorridas em Portugal e registadas pelo INSA oscila permanentemente de semana para semana, de modo que, após a necessária correção do fator sazonal, se calcula a média e o desvio padrão da série temporal. Se as observações ficarem dentro de um intervalo de mais ou menos três desvios padrões em torno da média, as variações serão consideradas normais no quadro de um processo aleatório estável.
Pelo contrário, suspeita-se que algo estranho aconteceu quando se regista uma observação fora desse intervalo, dado que a sua probabilidade é igual ou inferior a 0,3%. Se, como agora foi o caso, a situação se repete em quatro semanas consecutivas, estaremos perante uma circunstância verdadeiramente invulgar que só pode dever-se a causas especiais e que deve ser investigada.
Tem sido adiantada a hipótese de que o súbito agravamento dos óbitos, com especial incidência na população com mais de 75 anos de idade, poderá dever-se à vaga de frio que atingiu o país. Não me parece crível, dado que, para além de o frio só ter sido mais intenso no final de Janeiro, não julgo que as condições climatéricas tenham sido particularmente dramáticas em relação ao que é usual.
Alguns especialistas entendem que o empobrecimento brusco conjugado com crescentes dificuldades de acesso ao SNS podem explicar boa parte do que se passou. Talvez. Mas não se esqueçam que as pessoas também morrem de abandono, desesperança ou simples tristeza. São assim, os velhos.
Uma oportunda reportagem da RTP mostrou-nos ontem como são maltratadas as pessoas que se dirigem aos balcões da Segurança Social, obrigadas a esperar durante longas horas, muitas vezes desde os alvores da madrugada e ao frio, pela esmola de uma senha de atendimento.
Trata-se, na sua grande maioria, de gente pobre, sofredora e fragilizada, sem voz nem poder reivindicativo. Terá a humilhação a que são sujeitas um sentido punitivo, tratar-se-á de uma espécie de taxa moderadora a ser paga com indignidade adicional?
É incompreensível que uma administração pública modernaça, que já só recebe as nossas declarações e pedidos pela internet, trate os mais necessitados daqueles que a ela se dirijam com semelhante prepotência.
Dir-se-ia, à primeira vista, que a criação de condições condignas de atendimento nessas repartições depende mais de um sentimento de humanidade do que de dinheiro. Ou não será assim?
Estas situações, mais comuns do que se julga, raramente são mostradas na televisão. Talvez porque revelam, com a evidência de um murro na cara, a crueldade a que os mais pobres - os velhos pobres, senhor presidente! - continuam a ser sujeitos entre nós, como se tivessem sarna e não merecessem sequer ser olhados.
Um troço da Elias Garcia foi encerrado há bem mais de um ano devido ao risco de derrocada iminente de um prédio abandonado.
Desde então, têm-se multiplicado casos semelhantes, embora menos graves, nas Avenidas Novas. Aqui e acolá, os passeios estão vedados aos transeuntes junto a edifícios de paredes descascadas ou varandas periclitantes.
Por este andar, irão sucessivamente sendo bloqueados passeios e ruas, até tornar a zona numa ruína que os lisboetas se habituarão a evitar ou tornear.
Julgo que a legislação que permite ao estado expropriar os proprietários de casas cuja degradação põe em risco a segurança pública é excessivamente complicada. Ainda assim, surpreendem-me a inércia e o silêncio do município de Lisboa.
Todas as 5as feiras à noite, os lisboetas ficam a saber assistindo à Quadratura do Círculo o que pensa o Presidente da Câmara de Lisboa sobre o programa da troika, o desemprego galopante, as primárias nos EUA, a política de defesa nacional e por aí fora. Mas raramente se lhe ouve uma palavra sobre o estado da capital, que está aliás longe de ser brilhante.
Fico por vezes com a sensação de que nesta cidade temos um Presidente da Câmara absentista. Se António Costa não tem aqui a cabeça, deveria ter tirado as consequências em devido tempo e poupar-nos o interlúdio Seguro. Assim, como estamos, a situação nem é boa para nós nem para ele.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
