Era este o título da transmissão da parada da vitória do Manchester City ontem à tarde na CNN. Claro que o jogo de domingo com o QPR foi digno de um 13 de Maio. Mas não se pode dizer que o título de campeão do City seja propriamente um milagre, tal a quantidade de dólares ali injectados pelo Sheikh Mansour. O verdadeiro milagre - que despertou certamente o interesse do Sheikh - foi a média de assistências em casa nos tempos em que o clube competia numa vibrante terceira divisão. Na época de 1998/99, por exemplo, o número de espectadores presentes no Maine Road oscilou entre os 24 291 com o Walsall e os 32 471 com o York City.
Temos de agradecer a São José Almeida, que fez o trabalho jornalístico, e a João Rodrigues, que o cita. A entrevista que Tarso Genro deu ao Público é de facto excelente. Toda ela. Incluindo esta parte:
Hoje passeava-se dentro do metro um senhor que ostentava um cartaz repleto das mais incríveis acusações a figuras gradas da República. Os tempos de austeridade prestam-se a estas coisas. É «a responsabilidade do Sócrates», é «o poder da maçonaria», é «o salário do Catroga». São agora os funcionários do Banco de Portugal, que continuam a receber subsídios de férias e de natal. O que interessa é que levem cortes salariais como os outros. A disponibilidade para pensar nos efeitos (para o Estado) dos cortes aprovados (apenas para o Estado) é pouca ou nenhuma. E só por isso estes economistas do BdP já mereciam o subsídio de natal:
Heidegger disse que só se pode pensar em alemão. A Senhora Merkel parece concordar e, para usar a expressão do seu líder parlamentar, tem conseguido pôr muita gente a “falar alemão”. Pelo menos entre nós. Ontem, na prova dos nove da tvi24, Constança Cunha e Sá, perante a hipótese de um papel mais interveniente do BCE na crise das dívidas, agitou logo o papão da guerra. E já Passos Coelho, no discurso de abertura do debate orçamental, tinha associado a inflação ao totalitarismo e à segunda guerra mundial.
Nick Cohen esclareceu bem este equívoco numa edição do Guardian da semana passada:
*Título inspirado neste vídeo de propaganda do BCE. São 8 minutos sobre a importância da estabilidade de preços: 7 dedicados ao “monstro da inflação” e 1 dedicado ao “monstro da deflação”.
A dimensão da derrota do PSOE impressiona. Dir-se-á que, perante a maior crise económica das últimas décadas, os eleitores penalizam quem está no poder, independentemente de serem socialistas ou conservadores. Pode ser que sim. Mas também pode haver aqui uma penalização diferenciada das políticas de austeridade, mais intensa no caso dos partidos de governo de esquerda, ideologicamente mais afastados das receitas políticas que se vão impondo. Este problema já tinha sido identificado pelo Braulio Gomez para o caso do PS (em conjunturas económicas mais favoráveis do que as de 2011), e pode ajudar a explicar a persistência dos bons resultados do PSD nas sondagens: na sequência de conjunturas económicas negativas, os eleitores de esquerda são mais exigentes com os socialistas do que os eleitores de direita com os seus partidos.
Como escrevia Nicolau Santos no Expresso de sábado, o preconceito contra o Estado é uma das grandes marcas deste Governo. E é também aquilo que mais o separa do PSD de Cavaco, ele próprio funcionário público de carreira. Talvez seja por isso que é à direita que tem sido travado o grande confronto político dos últimos tempos.
No final da semana passada, o secretário de Estado da administração pública voltou à carga e anunciou uma revisão completa de todos os salários na administração pública, prometendo uma análise comparada com o privado. Entretanto, o Governo já recuou nesta intenção. É pena. Aparentemente, a generalização da ideia de que os salários da função pública são mais elevados do que no sector privado tem assentado numa leitura incompleta de um estudo do Banco de Portugal, o único que se conhece sobre o assunto. O estudo é de 2005, portanto anterior aos congelamentos e cortes entretanto aprovados. Mesmo assim, vale a pena ler algumas passagens que o discurso governamental tem ignorado:
"O resultado mais saliente que se retira (…) é o elevado nível do prémio, avaliado na média, associado às profissões em que o sector público é o principal empregador, contrastando com uma penalização para as profissões em que o emprego é repartido pelos dois sectores. Esta última penalização é particularmente acentuada para as ocupações mais procuradas no sector privado, como é o caso dos engenheiros, especialistas da informática e economistas. Em 1999, a penalização para estas profissões rondava os 20 por cento e (…) apresenta ainda um valor considerável em 2005, sugerindo uma deficiente capacidade do sector público para recrutar ou manter os trabalhadores mais qualificados nestas áreas. Mais ainda, nesta análise foram consideradas apenas as remunerações de carácter regular, sendo de esperar que compensações em espécie e outros benefícios tenham particular relevância no sector privado. O elevado nível do prémio calculado para as profissões predominantemente públicas pode ser um indicador de que as mesmas não são totalmente comparáveis entre os dois sectores. (…) Pode esperar-se que a dimensão do prémio diminua com o tempo, à medida que o papel do sector privado se torne mais relevante (como está a acontecer na área dos cuidados de saúde), tal como ocorreu entre 1999 e 2005. (…) Neste contexto destacam-se os resultados obtidos para os dirigentes, com uma diferença superior a 40 p.p. (…). Estes funcionários parecem assim ocupar um espectro muito mais amplo de posições na distribuição dos salários no sector privado. Finalmente, os licenciados não especialistas têm uma penalização no sector público ao longo de quase toda a distribuição."
O secretário-geral do PS confessou recentemente que o seu périplo europeu foi muito importante para chegar a esta decisão de abstenção sem condições, simultaneamente “violenta e construtiva”. Aparentemente, não deu ouvidos ao líder trabalhista Ed Miliband:
O Governo acabou de apresentar uma proposta orçamental de “tudo ou nada”, no preciso momento em que muito daquilo que justificou a inevitabilidade (e o ritmo) da política de austeridade seguida desde 2010 está a ser posto em causa pela realidade. Aparentemente, não faltariam incentivos políticos para o anúncio imediato do voto contra de um PS em “novo ciclo”. Mas esta é uma daquelas situações paradoxais em que o choque da opinião pública com as propostas do Governo poderia ser seguido por um choque de dimensões idênticas com a mudança abrupta de posição do PS em relação a metas e objectivos. Não sendo conhecido até ao momento um balanço crítico em relação ao caminho da austeridade – o que se deve muito à forma apressada e quase clandestina como decorreram as directas socialistas -, talvez a leitura do artigo de Paulo Trigo Pereira ajude a resolver o problema por agora:
«A solução que defendo, seria uma situação mista em que se cortaria apenas o 14º mês aos funcionários públicos e se aplicaria um imposto extraordinário a todos os rendimentos, incluindo uma subida da taxa liberatória sobre rendimentos de capitais de 0,5 pontos. Bem calibrado, o impacto no défice e na procura agregada seria o mesmo, sendo que a redução do défice se faria quer do lado da receita quer da despesa. A repartição de sacrifícios, no cenário proposto, cairia ainda sobretudo nos funcionários públicos, mas agora todos contribuiriam para o esforço nacional. (…) De qualquer modo, uma atitude responsável de qualquer partido da oposição, em particular o PS, deve ser apresentar uma proposta alternativa que satisfaça o objectivo do défice enunciado, mas que garanta mais equidade, pois os funcionários públicos não têm responsabilidades acrescidas no défice. Caso o Governo seja inflexível deverão votar contra. Se o Governo for obstinado, dada a maioria parlamentar, deverá justificar publicamente por que é que considera a sua proposta original a melhor proposta e nomeadamente se considera que os funcionários públicos são os responsáveis do défice. Se não o fizer ficará a suspeita, e em política o que parece é, que fez esta proposta porque considera os trabalhadores em funções públicas como não sendo a sua base política eleitoral e porque perde menos votos com a sua proposta do que com uma alternativa.»
Público, 16 de Outubro de 2011
Manuel Alegre confessa ao Expresso que gostou da experiência das primárias socialistas em França: «Os políticos não podem ter medo dos cidadãos». Concordo com esta leitura, mas discordo da conclusão que Alegre daqui retira: «seria interessante que o PS escolhesse o seu próximo candidato à Presidência da República através de primárias abertas a todos os cidadãos recenseados. Evitaria muitos sarilhos». De facto, todos nos lembramos do grande sarilho que foi o espectro do célebre milhão de votos a pairar sobre a maioria absoluta do PS e o uso que dele se fez (ainda está por saber o impacto que isso teve na votação do Bloco em 2009). Mas para evitar este tipo de sarilhos, Alegre arranja-nos agora um sarilho ainda maior, e até pouco compatível com a visão dos poderes presidenciais que sempre revelou. Se o PS, e depois a direita, escolhessem o seu candidato à Presidência da República através de primárias, isso significaria a presidencialização do sistema de governo, sem ser necessária qualquer revisão constitucional para o efeito. Num cenário desses, em que os candidatos presidenciais surgem de disputas internas nos partidos, o Presidente da República transformar-se-ia imediatamente no chefe da maioria parlamentar ou, em caso de coabitação, numa espécie de líder da oposição. Admito que não sejam tão excitantes, mas se não quisermos arranjar mais sarilhos, as únicas primárias de que interessa falar são as primárias para líderes partidários (os naturais candidatos a primeiro-ministro).
Vale a pena ir acompanhando este Social Europe Journal: Krugman, Reich et al., todos no mesmo sítio. Hoje Roubini explica por que se deve levar a sério a manifestação de amanhã:
Debates entre os candidatos em canal aberto, 2,5 milhões de eleitores registados, crescimento da militância, mobilização da esquerda e correspondente subida nas sondagens. As primárias de ontem no PS francês mostraram por que razão os receios burocráticos revelados por Seguro não fazem qualquer sentido:
Já está disponível no site da Assembleia da República a proposta de lei que altera o estatuto do pessoal dirigente da administração pública, aqui referida pela Mariana há umas semanas. A proposta prevê a criação de um sistema independente de recrutamento. E logo na exposição de motivos lê-se o seguinte: «De entre os Estados Membros que apresentam regimes de recrutamento por concurso mais estruturados e com maior tradição, desenvolvidos por entidades independentes, destacam-se o Reino Unido, a Áustria, a Holanda e a Bélgica, a par da própria Comissão Europeia.» Aparentemente, o objectivo é «promover o mérito no acesso aos cargos e despartidarizar o aparelho do Estado». Só que, já se sabe, as aparências iludem. Não sei qual é a fonte dos autores da iniciativa, mas a avaliar por este relatório, para além do Reino Unido, da Áustria, da Holanda e da Bélgica, também podiam merecer «destaque» a Grécia, a Bulgária ou a Roménia (grandes faróis do «mérito» e da «despartidarização») como exemplos de outros países que «apresentam regimes de recrutamento desenvolvidos por entidades independentes».
Seguro falou do sinistro “plano de emergência social”, da recusa do imobilismo nas políticas sociais e da visão europeia do PS.
Assis explicou bem por que deve a classe média estar no centro do discurso do PS.
Alegre, dos poucos a denunciar esta provocação do Ministério da Saúde.
Mais duas frases que impõem respeito:
«O PS está na oposição, mas não é um partido de oposição»;
«Não se ganha uma maratona estando-se parado e fazendo depois um sprint final».
(Esta cena é que era perfeitamente dispensável.)
No dia em que arranca um «novo ciclo», vale a pena lembrar os clássicos:
Philip Gould, The unfinished revolution
Mário Soares e António Vitorino vão estar para a semana no congresso do PS. «É o regresso de duas referências. Uma forma encontrada por Seguro para marcar a diferença e mostrar que quer debate interno», explica hoje no Público São José Almeida. Para sublinhar o carácter extraordinário deste acontecimento, a jornalista lembra mesmo que «António Vitorino está afastado da direcção do PS e do espaço dos congressos desde o consulado de António Guterres». Eu gostava então de saber quem é este António Vitorino que consta da lista da direcção do PS eleita no XVII Congresso e que aparece aqui a falar no espaço desse mesmo Congresso, realizado há pouco mais de quatro meses, durante o «consulado» de José Sócrates.
Ultrapassado o necessário período de estágio, o Governo já fala sobre a Europa e já tem posição sobre as eurobonds. Aliás, duas posições. A posição do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, da semana passada: «as eurobonds podem ajudar a resolver a crise». E a posição do Primeiro-Ministro, conhecida hoje: «Acompanho em grande medida aquilo que disse a Senhora Merkel». Percebe-se agora melhor porque é que Carlos Moedas, confrontado com este tema fracturante, respondeu, de forma enigmática, que o Governo não tinha «uma posição oficial».
«Governo vai duplicar saídas de pessoal da Função Pública», lê-se hoje no Diário Económico, como se fosse uma coisa nunca vista. Convém perceber que não se trata de uma duplicação face ao ritmo da redução registado entre 2005 e 2010, mas apenas face ao que estava acordado, certamente por prudência, no memorando da troika (de 5 mil funcionários passa agora para menos 10 mil/ano). Até porque só entre 2005 e 2009 essa redução ficou em cerca de 75 mil funcionários. Ou seja: um resultado bastante melhor do que este esforço colossal que o nosso novo Governo se propõe realizar daqui para a frente. Feito sem recurso a despedimentos ou a «rescisões amigáveis». E, como se vê, sem a divulgação merecida.
«Onde estão os protestos?», pergunta hoje no Público Manuel Villaverde Cabral, a propósito do chamado Plano de Emergência Social, que, como se lê na peça, « é mais um passo para uma segurança social para pobres», com direito a medicamentos praticamente fora do prazo e sem a ASAE a atrapalhar. De facto, não se ouviram grandes protestos. Como aliás já não se ouviram na campanha eleitoral, quando Passos defendia em comícios a ideia do «tributo social». A explicação para a crescente falta de comparência da esquerda nestes debates (e para os seus fracassos eleitorais e ideológicos, que não se resumem a Portugal) pode bem estar no estudo citado pelo Economist na semana passada:
Em França, as relações extraconjugais faziam quase parte do ofício da política presidencial. Aos grandes «hommes politiques» exigia-se uma capacidade de sedução que ia muito para além da política. A avaliar pelas conclusões da procuradoria de Nova Iorque, o caso Strauss-Kahn poderá não ter afinal resultado de um qualquer comportamento criminoso (como se quis fazer crer) sendo antes um produto desse caldo cultural algo anacrónico, com o qual, aliás, os jornalistas franceses colaboraram (e com vantagem, diga-se, naquilo que se refere à protecção da intimidade e da privacidade). Não se tratando de histórias de interesse público nem de crimes, as situações não eram relatadas. Na reacção ao caso DSK, no entanto, a imprensa francesa foi conduzida ao extremo oposto, com a caça às bruxas e as convicções a posteriori, típicas dos processos mediáticos, a que nem faltou uma escritora que ao fim de quase dez anos se descobriu violada por DSK. «Como foi possível termos calado isto durante tanto tempo? Todos sabíamos que ele era assim», questionaram-se vários jornalistas. Nunca se publicou nada até então porque se calhar não havia nada para publicar: apenas casos que diziam respeito aos envolvidos e não à segurança da comunidade. Agora, como diriam os franceses, «les jeux sont faits». Em 2012, Sarkozy terá pela frente um cinzento sem «ar de presidente» (parece que os franceses são muito sensíveis a estas coisas) ou uma candidata que parece incapaz de apresentar um programa realista (isto se algum deles chegar à segunda volta). E na opinião pública reforça-se a narrativa da extrema-direita, que há muito tempo falava de uma cumplicidade entre elites políticas e mediáticas para esconder a verdade aos franceses.
Mitterrand fez o que pôde para evitar a reunificação alemã e o alargamento a leste. Thatcher acompanhou-o (na resistência à reunificação), mas os Estados Unidos, como sempre, tinham a última palavra. A contrapartida que Mitterrand obteve (para a França e para a Europa ocidental) foi a união económica e monetária. A fórmula, citada aqui por Timothy Garton Ash, era basicamente esta: "Half of Germany for Kohl, the whole D-mark for Mitterrand". É este compromisso, no qual assentou o equilíbrio da Europa pós-89, que o Senhor Schauble se propõe quebrar, ao dizer hoje que afinal o acordo de quinta feira não é para levar a sério e que a Alemanha não vai passar um cheque em branco para o fundo europeu comprar dívida pública. O título (e o conteúdo) do editorial do FT na véspera da cimeira mantém-se assim infelizmente actual: Saving the euro, saving Europe.
Ao longo da campanha, temos ouvido dizer que não há diferenças entre os candidatos à liderança do PS. É verdade que não há uma questão ideológica entre eles, mas há diferenças de estratégia e de discurso que, para mim, são suficientes. Três exemplos:
1) A relação do PS com a classe média. Francisco Assis defendeu a necessidade de o PS voltar a centrar o seu discurso na classe média. Para António José Seguro, «o PS não pode ser só o partido da classe média». Ora, se há coisa que o PS já não é há algum tempo é o partido da classe média. E este afastamento político entre a classe média e os mais pobres, que o «Novo Ciclo» reproduz, é justamente o que explica que os partidos socialistas europeus não passem dos 30 por cento em praticamente lado nenhum. Sobre isto, os conselhos de Stanley Greenberg, estratega de Clinton, mantêm-se actuais: o envolvimento da classe média no campo progressista é a melhor garantia de que o mundo do trabalho, no seu conjunto, terá políticas públicas que vão ao encontro dos seus interesses.
2) A linguagem. Seguro apresenta o PS como «o partido da sensibilidade social». Provavelmente sem intenção, mas como dizia o outro «as palavras são importantes». Sensibilidade social muita gente tem. A ministra Assunção Cristas, por exemplo, apesar de proibir o ar condicionado, é certamente uma pessoa cheia de sensibilidade social. O que distingue (ou deve distinguir) o PS é o facto de ser o partido das políticas sociais, dos serviços públicos da saúde, educação e segurança social, e da justiça fiscal. Justamente porque sabe que as oportunidades de cada um não podem ficar dependentes da sensibilidade social dos restantes.
3) A estratégia para as autárquicas. Assis percebeu que é por aí que se pode começar a ultrapassar o bloqueio de governabilidade à esquerda: «terão o apoio da direcção nacional do Partido Socialista todos os contactos realizados ao nível autárquico com vista à constituição de soluções eleitorais que alarguem o espaço de representação do PS e favoreçam condições de governabilidade à esquerda no poder local». Em 1997, pela primeira vez em muitos anos, PSD e CDS concorreram coligados em importantes câmaras do país. Pouco tempo depois, o CDS enterrou o antieuropeísmo e tornou-se o parceiro natural de governo do PSD.
Que as coisas não estão bem na Europa já todos percebemos. Mas também convém não exagerar. Nos últimos tempos, multiplicaram-se as comparações com a grande depressão e o caminho que levou à II Guerra Mundial. Hoje foi a vez de Paulo Rangel no Jornal de Negócios: «Não pensem que o cenário de Guerra na Europa está posto de lado.» Por muito que a origem prussiana da Senhora Merkel possa assustar, por comparação com a ocidental Renânia de Adenauer, um cenário de Guerra, nos termos em que Rangel o coloca (penso que não está a falar de conflitos sociais), não nasce apenas de crises económicas e de más lideranças. A II Guerra Mundial não teria sido possível sem a cultura de violência que vinha das trincheiras da I Guerra e que deixou uma massa de antigos combatentes à deriva, disponível para alimentar milícias e projectos totalitários. Felizmente, tirando o caso dos Balcãs, essa experiência de guerra hoje praticamente não existe entre os europeus. Pelo contrário, até há quem aponte o risco oposto: o da excessiva pressão das opiniões públicas europeias para a redução das despesas militares, com as consequências que, por exemplo, estamos a assistir na performance dos aliados na Líbia.
Nos últimos anos, com o fim dos alinhamentos de classe, a crescente personalização das campanhas e o consequente declínio da militância, vários partidos têm encontrado no método das eleições primárias (abertas a simpatizantes) uma forma eficaz para recuperarem a sua relação com a sociedade e melhor mobilizarem os seus eleitores. Ao contrário do que se tem dito, as primárias abertas a simpatizantes já não são um exclusivo dos Estados Unidos: existem em Itália, em Espanha e em França (pelo menos). Não há, pois, razão nenhuma para que os partidos portugueses, e nomeadamente o PS, passem ao lado do debate das primárias. Pelo contrário: se há país europeu onde se coloca o problema da falta de ancoragem social dos partidos, é Portugal. É por isso positivo que Francisco Assis tenha lançado o tema nestas directas do PS. Claro que a solução não está isenta de riscos e que a forma de participação dos simpatizantes deve ser bem ponderada. Mas de António José Seguro, alguém que tem estudado estes assuntos e que tem defendido reformas no sistema político, exigia-se um pouco mais do que responder à proposta de Assis com um simples: «Gosto muito dos militantes do meu partido».
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
