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Esperemos que não mudem nunca

Afinal o melhor do congresso do PSD ainda estava para vir. Refiro-me evidentemente ao post Uma conversa com Pedro Passos Coelho, de Mário Amorim Lopes, publicado no início da semana no blogue Insurgente.  

Aparentemente, «Pedro Passos Coelho disponibilizou-se para uma conversa de cerca de meia hora com os social media», sendo que por social media devemos entender aqui «Eu [Mário Amorim Lopes], o Carlos Guimarães Pinto, o Vítor Cunha, entre outros». O Insurgente, portanto.

O texto arranca com uma afirmação inquestionável: «A pontualidade não define um grande líder (…) mas define um homem pontual». A frase deve ser mais profunda do que parece à primeira vista, pois «um homem pontual é alguém que leva os seus compromissos a sério, e isso não é pouco», especialmente quando o compromisso é conversar com o Insurgente.

A conversa com o antigo primeiro-ministro decorreu num espaço que «era o melhor que um contentor montado de improviso em zona privada do Congresso poderia proporcionar». Essa privacidade poderia ter permitido «uma ou outra piadola de circunstância, os ice-breakers, que seduzem quem se quer deixar seduzir» - e se há quem queira deixar-se seduzir por Passos Coelho é Amorim Lopes.

Infelizmente, o Insurgente só teve direito a «uma referência a “gajos” e nada mais se aproximaria do coloquialismo». Pensando bem, nem poderia ser de outra maneira, já que, para quem não sabe, «Pedro Passos Coelho, o homem e o político, são a mesma pessoa. Frio, sereno, responsável, determinado, como haveria de dizer Santana Lopes», insuspeito desse tipo de virtudes.

«A primeira [e única] questão prendeu-se inevitavelmente com algo que há muito me preocupava.» O que seria? O desemprego, a segurança internacional; o Sporting, o Benfica? Nada disso: «preocupava-me o slogan que Passos decidira adotar: Social-democracia, sempre! Credo». Amorim Lopes socorre-se de um clássico para justificar tamanha angústia: «em 2008, Henrique Raposo definiu bem o posicionamento ideológico dos partidos portugueses: mais coisa menos coisa, tudo de esquerda». Mais coisa menos coisa.

«Era isto que o PSD ambicionava voltar a ser? Impôs-se o silêncio. Expectante, Passos aguardava por uma questão.» Amorim Lopes reformula: «O que é a social-democracia em 2016?». E Passos dá finalmente sinais de vida: «a nossa social-democracia não é a social-democracia de Bernstein ou de Rosa Luxemburgo». Amorim Lopes estava agora «um pouco mais descansado». É que, para este insurgente, «essa social-democracia [de Bernstein e Rosa Luxemburgo] é socialismo de fato e gravata, pérolas e iPhones».

Mas se não é das pérolas de Rosa Luxemburgo nem dos iPhones de Bernstein, do que fala Passos quando fala de social-democracia? O mistério adensa-se e Amorim esclarece: Passos Coelho «refere-se à Dinamarca, à Suécia e à Finlândia», que agora aderiram à liberdade de escolha. Ficamos todos mais descansados, a começar pelo autor que mesmo assim continua a preferir o modelo da Irlanda. O seu lema para Portugal lembra um título muito conhecido: «somos aquilo que quisermos ser», ou em inglês, «Aim for the sky and you’ll reach the ceiling».

Ground Control to Major Mário. Estava na hora de descer à terra: «Um assessor avisa que o tempo está a terminar, há afazeres a fazer». Passos foi à sua vida, seguindo o bom exemplo «dos verdadeiros heróis acordam às 7 da manhã, trabalham sine die e não têm tempo para congressos», como os Insurgentes. O objetivo também era só dar a conhecer Passos, se possível «com um traço de humor», o que, voluntária ou involuntariamente, foi plenamente conseguido. «Passos é isto. Esperemos que não mude nunca». Esperemos que não, e só podemos desejar o mesmo ao Insurgente em geral e ao Mário Amorim Lopes em particular.

A superioridade moral de Massamá

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De acordo com a biografia oficial do Primeiro-Ministro, de Sofia Aureliano, Pedro Passos Coelho revelou desde muito cedo uma grande curiosidade intelectual. Se Miguel Relvas diz que pautou a sua vida «pela procura do conhecimento permanente», Pedro mostrou logo na infância «uma avidez, quase aditiva, pela busca do conhecimento». Ainda não tinha completado a 4ª classe e já o nosso primeiro-ministro «escrevia melhor que muitos doutores». Deve ser daqui que vem a ideia de que o país tem licenciados a mais. O amigo Relvas foi mesmo um dos pioneiros dessa causa nacional, tendo-lhe sido atribuído pelo ministro Crato o título de ex-licenciado.  

Na juventude, não foi um rapaz especialmente namoradeiro, mas o nome da primeira namorada fica na memória: Maria Luís. «Foi um namoro bonito mas curto, que terminou quando chegou o verão.» Anos mais tarde, em 2013, um tipo malvado chamado Dr. Paulo Portas também quis que o relacionamento de Pedro com uma outra Maria Luís terminasse quando chegou o verão. Como diria Marx, a história repetia-se. Só que, apesar da breve passagem pela UEC, Pedro não quer nada com Marx. Prefere uma versão caseira do princípio thatcheriano do «no such thing as society»: «somos aquilo que escolhemos ser». Escolheu ignorar a carta de demissão «irrevogável» de Paulo Portas, e a verdade é que dois anos depois ainda cá anda.

«O Movimento das Forças Armadas nascido da revolução dos cravos» (não foi ao contrário, Sofia?) apanhou o jovem Pedro com a família em Angola. O pai, António, «ouvia relatos de grande euforia em Portugal, mas não via eco dela em Angola». Sofia acha que «o pós-25 de abril demorou a chegar a Luanda». Deve ter sido por causa da diferença horária. De resto, o jovem Pedro recuperou o tempo perdido e cinco anos depois, já estava na JSD, a impressionar com os seus «famosos discursos de improviso», que agora fazem as delícias da oposição. Pedro Pinto recorda que no discurso de estreia, ele foi «o único que verdadeiramente defendeu aquilo em que acreditava com base na informação que tinha, ainda que as premissas estivessem todas erradas». Ainda hoje é frequente isto acontecer.

Também vale muito a pena perceber como se divertia Passos e o grupo da jota. Segundo Sofia Aureliano, «Nos anos 80, a ausência de televisão e de novas tecnologias fazia com que o ato de pertencer a um grupo com os mesmos interesses fosse a forma mais natural de conviver em sociedade». Estranhos tempos, esses em que não havia «novas tecnologias» e em que pertencer a um grupo era a forma mais natural de conviver… Seja lá como for, o convívio passava por um bar de Luís Represas, «frequentado por artistas, profissionais que [como nota Sofia] já nessa altura seguiam maioritariamente uma orientação mais à esquerda». Foi justamente aí que Passos conheceu a sua primeira mulher: essa artista de esquerda chamada Fá, uma das famosas Doce. Mas talvez por causa da «ausência de televisão e novas tecnologias», Pedro não associou logo a cara ao nome. Fá despertou-lhe a atenção por um motivo muito especial: «tinha um rosto muito parecido com uma senhora que ele conhecia, a mulher do senhor Faria, com quem Fá partilha traços de um rosto tipicamente judeu».

O pai nunca lhe quis dar dinheiro «para ele andar metido na política» (safa, safa). Foi nos cursos de formação da JSD que ganhou o seu primeiro sustento. Esse bichinho da formação voltaria anos mais tarde, durante a travessia do deserto, através dos famosos cursos para técnicos de aeródromos da Tecnoforma. Nessa empresa, Passos teve como missão gerir toda a formação à distância. A coisa deve ter sido gerida demasiado à distância, porque o resultado de que o atual PM mais se orgulha é «ter estado muito próximo de criar uma escola de ensino superior em Cabo Verde». Ângelo Correia, conhecido caçador de talentos, deu valor a isto e foi buscar Pedro para junto de si na Fomentinvest, onde esteve até 2010. Desta magnífica experiência no setor privado ficou-lhe «o valor do risco (…) que falta na maior parte dos que dependem dos favores e dos benefícios do Estado». A Tecnoforma e a Fomentinvest devem ter sido as únicas empresas de formação profissional e de serviços ligados ao ambiente que nunca beneficiaram de dinheiros públicos.

Em 2010 Passos vê-se forçado a depender «dos favores e dos benefícios do Estado»: torna-se líder do PSD. Nessa qualidade, «viabilizou a governação socialista enquanto achou que essa seria a melhor alternativa para o país» e, já agora, enquanto os prazos constitucionais impediram o Presidente de dissolver a Assembleia. Preferiu chegar a primeiro-ministro no tempo certo, quando «ganhava força a alternativa social-democrata de virar a austeridade para o Estado e não para as pessoas». Estranhamente, apesar desta excelente plataforma social-democrata e apesar de Passos estar a «pôr o país no mapa do investimento e na senda do crescimento», os portugueses continuam a achá-lo uma pessoa má como as cobras. Mas para grandes males, grandes remédios: reúnem-se uns depoimentos de gente desinteressada, como Marco António Costa ou Secundino Cardoso do restaurante O Comilão; revela-se o historial de doenças da família inteira; e finalmente mostra-se a intimidade do apartamento de Massamá.

Sofia Aureliano esteve lá e conta-nos como é «o estado de espírito». À entrada, foi recebida por Peluche e Olívia, «as cadelas da família que completam, com o seu entusiasmo sonoro, o quadro mais genuíno da arte de bem receber». Lá dentro percebeu que as gravatas não combinam com o ambiente, embora isso não se deva felizmente a «qualquer recalcamento ideológico mal resolvido ou a qualquer simbolismo adjacente». De resto, em casa, Passos até estende a roupa e põe a loiça na máquina, «para sentir um registo de normalidade». Pedro é um de nós, que também só lavamos a loiça e estendemos a roupa para sentir «um registo de normalidade».

Ultrapassada que está a tese da superioridade moral dos comunistas, este livro propõe-nos assim a tese da superioridade moral de Massamá. É certo que Passos confessa «não gostar de dar a ideia de poder estar a manipular o sentimento das pessoas em favor de um determinado objetivo». Mas infelizmente, como lembra em epígrafe a própria Sofia Aureliano, «em política o que parece é» (frase que a autora atribui a Sá Carneiro).

 

 

“Criança que fui e homem que sou e nada mudou”

 

Foram convocadas eleições primárias para abrir o PS à sociedade, mas a avaliar pela entrevista que deu à Visão, para já o que temos é uma abertura do próprio António José Seguro à sociedade. «Seguro nunca falou assim em público. Duro e direto. Solto. Numa tarde em Penamacor, Seguro abriu o livro», nota Miguel Carvalho da Visão. E a abertura do livro começa justamente na Penamacor que o viu nascer e nos ensinamentos que recebeu de António Ribeiro Sanches, médico e velho sábio: «Todo o poder assenta no saber, dizia ele. Hoje parece o contrário». Ah pois parece, sem dúvida. «Seguro fala das pedras graníticas e de memórias, com um olhar quase infantil». Qualquer semelhança entre isto e a poética de Tony Carreira não será pura coincidência nem marketing eleitoral, já que o cantor é também ele natural da beira baixa. (“Em cada canção trago esse lugar no meu coração/Criança que fui e homem que sou e nada mudou/ E hoje a cantar não posso esquecer aquele lugar que me viu nascer”.)

Seguro recorda que na juventude «via a televisão espanhola, mais do que a RTP. Vi a chegada ao poder de Felipe Gonzalez e Alfonso Guerra, no PSOE, trinta e poucos anos cheios de garra. Em Espanha, a política era feita com muita alegria». Alfonso Guerra, grande exemplo de separação entre política e negócios, deu realmente muitas alegrias a Gonzalez. Mas pronto, antes assim: se tivesse visto mais a RTP, ainda podia ter ido para o PSD de Sá Carneiro, que «simbolizava a coragem para afrontar o sistema e o politicamente correto». Convites para isso não faltaram. A outra referência política é Mitterrand: «Tenho talvez aquela força tranquila de Mitterrand». Talvez.

Aos 19 anos, António José foi forçado a ir para junto da «corte de iluminados de Lisboa», de onde, apesar destas tentativas recentes, ainda não conseguiu sair. Naquele tempo, os anos 80, Penamacor ainda não tinha a Universidade que ali vai nascer quando Seguro for primeiro-ministro. O «dinheiro era contadinho», embora nem sempre tenha conseguido resistir aos vícios da capital: «pertencia ao grupo que terminava as noites no Cacau da Ribeira, ia ao Jamaica e também ao Plateau». «Gozei bem esses tempos e não precisei de muito dinheiro. E a intervenção na associação de estudantes foi a melhor formação para gerir orçamentos». Seriam assim basicamente estes os modelos de política orçamental em confronto no próximo ano eleitoral, não fora esse imitador do António Costa: de um lado Passos que, inspirado em Merkel, segue o modelo da dona de casa; do outro, Seguro que, inspirado na sua própria experiência, segue o modelo da associação de estudantes. Mas se contra tudo e contra todos, Seguro vencer Costa e depois Passos, ainda vamos assistir a mais inovações: «não irei tolerar que qualquer membro do meu governo tenha a mínima suspeita. Na dúvida deve demitir-se». Teríamos remodelações numa base quinzenal e assim nenhum quadro do Laboratório de Ideias ficaria triste por não chegar a ministro.

Dos Bourbons diz-se que não esqueceram nada nem aprenderam nada. De Seguro também se pode dizer que não esquece nada, mas aprendeu agora, ao fim de 30 anos de JS e PS, que na política «para algumas pessoas, o que interessa é aquele que dá poder e o distribuiu». Seguro não esquece, por exemplo, o comportamento de António Costa: «foi o pior que se podia imaginar. E foi feito na frente de todos os portugueses»... Se ainda tivesse sido feito numa comissão política, em que acabassem os dois aos abraços, tudo bem. Agora, em frente de todos os portugueses? Chocante. Outro erro de Costa é não compreender que «a esquerda precisa de mostrar que é rigorosa com a despesa e as finanças públicas». A direita, que tem gerido isto tão bem, não precisa de mostrar nada. A esquerda é que precisa. Além disso, Costa e os seus apoiantes também não perceberam que, em 2011, «o PS teve 28%, o segundo pior resultado em legislativas. Não aprendemos nada?». Nem perceberam que, agora, em 2014, os portugueses deram ao PS «uma grande vitória», meta atingida quando se supera em três pontos percentuais uma derrota histórica.

A causa dos problemas políticos de Seguro está, segundo o próprio, no facto de «haver, em Portugal, um partido invisível». Ao falar em partido invisível pode parecer que se está a referir àquele partido da «abstenção violenta», mas não: estamos a falar de «um partido que tem secções sobretudo nos partidos de governo, que capturou partes do Estado, que tem um aparelho legislativo paralelo através dos grandes escritórios de advogados e influencia ou comanda os destinos do país. O PS associado aos negócios e interesses apoia António Costa». Em princípio, isto deve ser gente que entrou há pouco tempo para o PS, uma vez que Seguro foi eleito com o apoio da quase totalidade dos militantes e nunca se tinha queixado. De resto, em toda a entrevista, Seguro só aceita uma crítica, e nisto não podemos deixar de o acompanhar: «não sou um bom vendedor de mim próprio».

Um candidato muito estimulante

É a primeira entrevista de Santana Lopes sobre presidenciais desde a última entrevista de Santana Lopes sobre presidenciais. Santana preferiu gravar esta última entrevista ao Expresso no seu escritório de advogado. Ficámos assim a conhecer um piano de cauda, com o qual ele se entretém enquanto espera pelos clientes e pelas eleições presidenciais, e uma prateleira branca, que funciona como uma espécie de mausoléu da social-democracia à portuguesa, com ephemera de antigas glórias do PPD/PSD, como Sá Carneiro e Durão Barroso.

Sim, tudo indica que Barroso é mesmo passado, pelo menos no que às presidenciais diz respeito. É certo, como reconhece Santana, que «em política, we never know it», ou como diriam os portugueses, em política nunca se sabe. E quando se trata de Durão Barroso, ainda menos: «dele já nenhuma proeza me espanta». Se um dia destes o virmos a treinar o Real Madrid, não se admirem. O problema é que Barroso fugiu para Bruxelas, onde, segundo PSL, «não quis ser acusado de privilegiar Portugal e acabou por deixar a imagem de ter sido absolutamente independente, para usar uma palavra simpática». Marcelo também merece palavras simpáticas, mas infelizmente autoexcluiu-se da corrida: «tem a mania que Guterres é imbatível».

O perfil do próximo candidato presidencial do centro-direita está escrito nas estrelas: «Logo se vê no ano que vem quem é a pessoa mais indicada para fazer bem a Portugal. A regra deve ser essa». Ora, nem Barroso nem Marcelo são as pessoas mais indicadas para «fazer bem» a quem quer que seja. Fazer o bem sem olhar a quem é mais coisa de presidente da Santa Casa da Misericórdia. Então e as sondagens desfavoráveis? «Mário Soares ganhou umas eleições em que partiu nas sondagens com 8%». Claro que a história eleitoral está cheia de candidatos que partiram nas sondagens com 8% e chegaram às urnas com 8%, mas Santana também é especial.

De resto, para o nosso entrevistado, o próximo Presidente da República «deve ajudar sempre o Governo do país». O seu Governo, por exemplo, não foi ajudado pelo Presidente da altura, quando ainda estava na incubadora, e se as coisas tivessem sido diferentes, «acho que o país teria poupado tempo e dinheiro». Neste sentido, Santana defende a tese de que «os países mais desenvolvidos são aqueles em que o Presidente não discute em público com o chefe do Governo», países tão desenvolvidos como o Portugal no tempo do Estado Novo em que o Presidente também não discutia em público com o chefe do Governo.

Santana acha que tem uma «capacidade razoável de arrumar os assuntos em prateleiras» e, a avaliar pela prateleira do escritório, tem mesmo. Arruma Barroso, arruma Marcelo e arruma o seu próprio passado enquanto primeiro-ministro, através de uma «exigente análise desdramatizada do que se passou». Ele é «alguém que amadureceu». «Hoje sabe-se que procurei afastar opções que eram inadequadas com as minhas responsabilidades públicas». (Santana parece estar convencido que foi um lenço na cabeça numa festa da Caras que causou danos à sua imagem, e não tanto o que fez enquanto presidente da câmara ou primeiro-ministro.)

Santana Lopes até já se reconciliou com Jorge Sampaio: «ainda na semana passada encontrei o dr. Sampaio duas vezes e já sorrimos os dois». Realmente, só mesmo o dr. Santana para pôr o dr. Sampaio a sorrir. E o próximo alvo desta política de reconciliação nacional de PSL é quase de certeza José Sócrates. Cavaco pode ter sido «um grande primeiro-ministro no enriquecimento em infraestruturas mas Sócrates teve visão», coisa que realmente Cavaco nunca teve.

Já Passos Coelho não é nenhum «insensível», como por vezes se diz. «Até pela história de vida», diz Santana. Quem é que com uma história de vida toda ela passada no parlamento, na Tecnoforma e nas empresas de Ângelo Correia pode ter falta de «sensibilidade»? E PSL, já falou com ele sobre presidenciais? «Matéria reservada». E com Portas? «Matéria reservada». Ou seja: já falou. Não fala aliás de outra coisa, e até diz que «Guterres seria um candidato muito estimulante para o centro-direita». Mais: ao contrário do que teme Marcelo, para Santana «Guterres não é imbatível». Imbatível só mesmo o próprio Pedro Santana Lopes. Um candidato muito estimulante. Tanto para o centro-direita como especialmente para o centro-esquerda.           

Quem sabe, sabe e o arquiteto é que sabe.

Alguns terão ficado surpreendidos quando, há uns anos, o arquiteto José António Saraiva admitiu a hipótese de vir a receber o prémio Nobel da Literatura. Hoje sabemos que na altura o arquiteto não pecou por excesso mas por defeito. A diversidade temática das crónicas de Saraiva na revista do Sol revela um conhecimento enciclopédico, merecedor não apenas do Nobel da Literatura como até, eventualmente, do Nobel da Economia ou da Medicina. Está ainda fresco, na memória de todos, o seu recente ensaio de anatomia sobre pêlos e calosidades.

Na última crónica, o arquiteto debruça-se sobre o ofício da Publicidade, mais uma «área em que, passe o autoelogio, julgo que tenho algum jeito». Saraiva olha para a publicidade a partir de um ângulo particularmente original: «Os publicitários têm de superar um problema que nunca vi referido. Ao publicitarem um produto, precisam de convencer os consumidores de que aquele é o melhor produto do mundo, que não há nada igual». De facto, não é todos os dias que vemos referido que os publicitários precisam de convencer os consumidores de que aquele é o melhor produto do mundo.

José António Saraiva fala, como sempre, com conhecimento de causa. Para ele, a arte da publicidade não tem segredos: «Quando cheguei ao semanário Expresso, a chamada 'assinatura' do jornal era O jornal dos que sabem ler». Dez anos depois do 25 de abril e já com a taxa de analfabetismo a descer, Saraiva teve a capacidade de perceber que «o slogan o jornal dos que sabem ler já não fazia sentido». Contratou então uma agência de publicidade, mas «Quando veio a proposta, apanhei uma tremenda desilusão: Se vir no Expresso a notícia de que aterrou na Terra um disco voador, deve acreditar, porque o Expresso é um jornal de confiança». O atual diretor do semanário Sol achou aquilo «um disparate total»: «associar a imagem do jornal à fantasia dos discos voadores minava por completo a sua credibilidade». Este reputado especialista em pêlos e calosidades jamais poderia permitir que a fantasia dos discos voadores minasse a credibilidade do seu jornal.

Refeito de mais uma «tremenda desilusão» com profissionais especializados, o arquiteto Saraiva pôs de novo a sua cultura geral em ação: «Este desconforto moeu-me durante vários dias. Até que, numa viagem de comboio para o Porto, ocorreu-me subitamente a ideia salvadora: um grande cartaz com esta frase a toda a largura: Acredite, se ler no Expresso». Genial. Ligou imediatamente ao patrão a dar a boa nova. «Estava-se ainda na idade da pedra dos telemóveis», e o arquiteto era portador de «um admirável tijolo», não menos pesado do que o saco do próprio Expresso. Balsemão ficou praticamente sem palavras com a chamada do arquiteto: «Perguntou-me apenas se punha uma vírgula ou não entre o 'acredite' e o 'se ler no Expresso'».  

Além do «Acredite, se ler no Expresso», claro, para Saraiva, as duas frases publicitárias mais «impactantes» de sempre são «Bosch é bom!» e «OMO lava mais branco». «Por mais tempo que passe, sabemos a que marcas reportavam», talvez porque, à semelhança do clássico «Acredite, se ler no Expresso», são frases que já vêm com o nome da marca. «Este é o segredo dos grandes anúncios». Quem sabe, sabe e o arquiteto é que sabe.

 

PS: Era inevitável que estas brilhantes incursões multidisciplinares começassem a prejudicar as faculdades de analista político do arquiteto. Hoje, no Sol, retoma a “política à portuguesa” para escrever o seguinte: «Em 1999, o PS alcançou 43 % nas europeias e 38% nas legislativas (perdeu 5 pontos); e o PSD passou de 31 % para 40% (subiu 9 pontos). Em 2009, o PS obteve 27% nas europeias e 28 % nas legislativas; já o PSD passou de 32% para 39%.» Ora, em 1999, nas legislativas, o PS elegeu os famosos 115 deputados, o que não seria possível com os 38% do arquiteto. Por outro lado, em 2009, Sócrates ganhou as legislativas a Ferreira Leite, o que também não teria sido possível se o PS tivesse tido 28% e o PSD 39%, como pretende o arquiteto. Saraiva conclui em seguida que «Não é possível tirar quaisquer ilações de umas eleições para outras». Assim, de facto, não é possível.   

Obrigatório ler

Vítor Gaspar por Maria João Avillez é uma boa leitura para o primeiro fim de semana pós-troika. O livro está na 2ª edição e vem envolto numa fita vermelha, descartável e ameaçadora: nela surge Vítor Gaspar, com cara de Vítor Gaspar, a preto e branco e de braços cruzados, a dizer «Obrigatório Ler». Provavelmente, o receio de mais um aumento de impostos terá levado muita gente a colocá-lo nos Tops de vendas. Desse ponto de vista, pode não ter valido de muito comprar o livro, mas vale muito a pena lê-lo, a começar pelo texto de Maria João Avillez na contracapa: «Caía o dia e soprava um ar gelado sobre o Terreiro do Paço. Estávamos a 6 de Dezembro de 2011 e era a primeira vez que via Gaspar. Há um tempo que perseguia uma intuição simplicíssima: o ministro das Finanças iria marcar o país e deixaria nos portugueses uma impressão forte». O ministro das Finanças, que tinha como objetivo declarado cortar além da Troika, haveria de deixar nos portugueses «uma impressão forte». De facto, o que seria de nós sem a «intuição simplicíssima» de Maria João Avillez?

Desde esse pôr-do-sol gelado em que se conheceram, Maria João Avillez nunca mais largou Vítor Gaspar e Vítor Gaspar nunca mais conseguiu largar Maria João Avillez. E aqui temos então o resultado de dois anos de entrevistas. Maria João Avillez começa pelo fim: pela famigerada carta de demissão em que ficou a ideia (errada) de que Gaspar apoucava as qualidades de liderança do primeiro-ministro. Gaspar esclarece: «Liderança é por vezes definida como sabedoria e coragem, combinadas com desinteresse próprio, o que naturalmente julgo que são características de Pedro Passos Coelho». Sabedoria. Coragem. Desinteresse próprio. Devia-nos ter vindo logo à cabeça Pedro Passos Coelho.  

Depois, Gaspar é convidado a recuar aos seus tempos de estudante: «Conheceu Cavaco Silva numa sala de aula, como seu professor, não foi?». Foi, foi: «dava aulas por um livro da sua autoria, um compêndio muito bem organizado, que seguia com muito rigor». Não sendo manifestamente Cavaco, quais foram então os autores que influenciaram as posições políticas do nosso entrevistado? «Não fujo à sua pergunta e desse ponto de vista confesso que me considero muito próximo da posição de David Hume, Frank Ramsey, Amartya Sen, Adam Smith, Immanuel Kant, Friedrich Hayek, Isaiah Berlin, Karl Popper ou Michel Foucault». Ainda bem que Gaspar não foge às perguntas.

Por estranho que pareça, ao longo dos anos Vítor Gaspar foi colecionando alguns amigos. Um deles é o famoso economista Jorge Braga de Macedo, homem com «um humor absolutamente extraordinário» que «produz ideias a uma velocidade estonteante». Recentemente ofereceu um livro ao próprio Gaspar com a seguinte dedicatória: «Para o Vítor Gaspar: still crazy after all these years». Qual dos dois será o «crazy» da dedicatória? A dúvida é legítima.

Politicamente, Gaspar revela que foi eleitor de Mário Soares, aliás como quase todos os portugueses (pelo menos uma vez). Confessa também que «nunca olhou para o PSD». Simplesmente, nas vésperas da assinatura do acordo com a troika, apercebeu-se que o negociador do PSD, Eduardo Catroga - que enquanto ministro das Finanças de Cavaco Silva representou Portugal em múltiplas reuniões com atores internacionais -, «para desempenhar bem o papel que estava a fazer, precisava de informação sobre a forma como funcionavam os vários atores internacionais». Toma então a iniciativa de «conversar com o Eduardo Catroga». Catroga deve ter ficado eternamente grato: Gaspar foi para as Finanças e ele acabou na EDP.

Mas se Gaspar nunca tinha olhado com atenção para o PSD, já não se pode dizer o mesmo em relação a Paulo Portas, que, nos tempos do Independente, «chamava ao então muito jovem Vítor Gaspar o Mister Wonderful…». Gaspar lembra-se que «chegou a considerar-se a possibilidade de nos encontrarmos» e admite mesmo que «o engraçado é que essa possibilidade levou-me a ter uma curiosidade um pouco maior do que o habitual em saber as características da pessoa com que eu talvez me fosse encontrar…». Contudo, o entrevistado não parece muito satisfeito com o que veio a descobrir de Paulo Portas, anos mais tarde, no Governo: ao contrário do que se terá passado com o PSD, colocou-se «a conveniência de que houvesse um secretário de Estado do CDS/PP para garantir a representação da coligação na equipa das Finanças». A escolha recaiu no Dr. Paulo Núncio, «alguém que considero de muito mérito e grande qualidade para a função que desempenha», que é, afinal, a de «garantir a representação da coligação na equipa das Finanças». De resto, Maria João Avillez ainda quis saber a partir de quando é que Paulo Portas foi posto ao corrente da medida da TSU que o fez aparecer muito indignado nas televisões a seguir ao 15 de setembro de 2012. Gaspar responde: «Em Julho». Dois meses antes, portanto. Só «não tenho presente o dia e a hora». 

Da entrevista do Dr. Pedro Santana Lopes ao jornal Público

Pedro Santana Lopes interrompeu ontem, no jornal Público, o longo período de silêncio a que se tinha remetido desde o congresso do PPD/PSD, há três semanas. Para Santana Lopes, o manifesto dos 70 pela reestruturação da dívida não passa evidentemente de «um ato de redenção» dos signatários. Santana não precisa de se redimir porque em devida altura, «em 2004, disse e repeti que não podíamos consentir as Scut». Contra ele, esteve «António Mexia, inteligência distinta da nossa praça, e digo isto sem ironia». Não sendo agora possível resolver o problema da dívida apenas com o fim das Scut, Santana - outra inteligência distinta da nossa praça, e digo isto sem ironia - recusa a reestruturação da dívida e propõe antes «uma solução nos termos da Alemanha do pós-guerra», que por acaso até foi uma solução de reestruturação da dívida.

Santana diz que foi «ao congresso principalmente para falar da Europa», mas para benefício de todos acabou a falar daquilo que sabe e gosta: da obra social da Santa Casa e de festas surpresa. Do que ele não gosta é de ter sempre razão antes do tempo e de não ver isso devidamente reconhecido. Sobre isto, o Público faz uma observação bastante pertinente: «Parece que todas as ideias foram antecipadas por si e ninguém o levou a sério…» Santana aparentemente concorda, quer com a parte de ele próprio ter tido a capacidade de antecipar todas as boas ideias do mundo, quer com a parte de ninguém o levar sério: «em Portugal, olha-se muito para as pessoas e ouve-se pouco o que elas dizem.» Santana, que não reconhece «a ninguém no meu partido mais preocupação na ação concreta em relação às questões sociais», antecipa agora que «o Estado Social vai acabar». Esperemos que, por uma vez, esteja enganado.

Pedro Santana Lopes debruça-se ainda, e como não poderia deixar de ser, sobre as presidenciais. «Gosta da ideia de ser candidato?» Santana defende que «nenhuma pessoa pode olhar para o seu umbigo a propósito de uma decisão como essa». Estamos a falar de alguém «que se propõe ser símbolo de unidade nacional, ser comandante supremo das Forças Armadas, ser chefe de Estado. É uma decisão bem… quase não tem qualificativos…» O Público não esclarece, mas nesta parte ficamos com a sensação de que se lhe cortou a respiração. Não é caso para menos, já que estamos a falar de um «símbolo nacional», que passa revista às tropas e representa o país no estrangeiro.

Ao mesmo tempo que garante não estar a olhar para o seu umbigo, Santana não nega que esteja a olhar para o umbigo do professor Marcelo. O comentador da TVI «leu os jornais desse dia e pensou que seria um erro não ir» ao congresso, diz Santana. Recorde-se que os jornais desse dia tinham uma notícia em comum: Santana Lopes ia falar ao congresso do PSD. Mas Santana não está verdadeiramente preocupado com esta concorrência. De resto, até tem «pena que ele [Marcelo] não fale de issues, de policies». Isso deve-se ao facto de o Professor nunca ter tido oportunidade de desempenhar funções que lhe permitissem estar perto das pessoas, para além de dar aulas que é muito bonito, mas isso é outra coisa». Por outras palavras, “quem sabe faz, quem não sabe ensina”.

«Então, não afasta a hipótese de se candidatar à Presidência da República?» O Público pergunta e Santana responde: «Em abstrato, posso ter várias condições para exercer funções como essa». Em abstrato, sem dúvida que Santana reúne as várias condições para exercer funções como essa: é cidadão português e maior de 35 anos, conforme prevê a Constituição. O problema coloca-se mais em concreto. É que ao contrário de Marcelo, Santana já teve de facto demasiadas «oportunidades para desempenhar várias funções que lhe permitiram estar perto pelas pessoas».       

Luís Filipe Menezes, um animal político em vias de extinção

Verdadeiramente, o que é que separa Luís Filipe Menezes de Rui Moreira? Na entrevista deste domingo à TSF e ao DN, Menezes dá-nos a sua versão da história: “uma grande diferença é que eu não mudo de opinião com muita facilidade em relação ao mundo, à vida e às pessoas”. Menezes considera-se “um pouco como um animal político em vias de extinção”, que continua a ser “quer do ponto de vista ideológico quer do ponto de vista idiossincrático, um social-democrata nórdico dos anos 60.” Claro que estamos a falar de Menezes candidato ao Porto, porque Menezes líder do PSD via-se certamente como um neoliberal anglo-saxónico dos anos 80, já que queria “desmantelar o Estado em seis meses”. A “facilidade” com que Rui Moreira “muda de opinião em relação ao mundo, à vida e às pessoas” deve ser mesmo muito impressionante.   

Mas o que é, para Menezes, “um social-democrata nórdico dos anos 60?” Do ponto de vista ideológico, trata-se de alguém que “acredita que a economia serve para criar condições para haver um Estado igualitário.” Do ponto de vista “idiossincrático”, Menezes refere-se àqueles políticos que “arriscam até a ser mortos, como Olof Palme, no meio da rua.” Deste ponto de vista, o próprio rei D. Carlos, recentemente recordado por Mário Soares, para além de nórdico - que de facto era -, pode ser entendido como um social-democrata dos anos 60 “avant la lettre”. De resto, como bom social-democrata nórdico que agora diz ser, Menezes “acredita no Estado de direito democrático”. Então e se não puder ser, por deliberação do Tribunal Constitucional, candidato à Câmara do Porto? Aí as coisas mudam de figura: “Vou ser candidato ao Porto. Aconteça o que acontecer com a lei, nunca deixarei de ser.” Ou seja: nesse caso, o social-democrata dos anos 60 dá lugar ao fascista dos anos 30. 

A entrevista é também uma oportunidade para Menezes falar do seu modelo de governação local.  Menezes vai seguir “o modelo francês parisiense e agora londrino: o mayor está lá em cima para as grandes questões, para os grandes problemas, para ir buscar investimento ao estrangeiro, para promover o turismo da cidade...” Depois, há os presidentes de junta que “fazem a gestão do território por proximidade.” Vamos ter um “upgrade” a esse nível, assegura Menezes. Gente com conhecimento da administração local para as freguesias? Melhor: “Vamos ter novidades, jornalistas de primeira linha, de televisão...” 

Para terminar, resta saber como é que Menezes viu a última remodelação governamental (a entrevista reporta-se à de 12-04-13). Para ser sincero, Menezes “veria com melhores olhos, mas é uma opinião meramente pessoal, o dr. Marques Guedes manter-se no lugar em que estava, de coordenador da parte mais administrativa, mais burocrática, mais jurídica do Conselho de Ministros”. No fundo, Marques Guedes dava um bom Diretor-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. Ora, do que o Governo precisava era de ter “um ministro de Estado com perfil mais político, com mais experiência de coordenação política”. Fernando Nogueira ou Marques Mendes, nomes já sugeridos pelo Prof. Marcelo? Melhor ainda: “Por exemplo, o dr. Marco António Costa.” O que leva Menezes a desejar tal sorte a Marco António? A resposta vem logo a seguir, na reação dos jornalistas:  “De Marco António Costa fala-se mas é para o substituir a si, no Porto, se não puder avançar com a sua candidatura...”

Joaquim Jorge e coisas piores

A desafinação de Miguel Relvas acabou por ofuscar o desempenho de Joaquim Jorge na última reunião do Clube dos Pensadores. Mas é para corrigir estas injustiças da comunicação social lisboeta que existe o Porto Canal. Por isso, e a pretexto do seu último livro, o Porto Canal decidiu entrevistar o Professor Joaquim Jorge. A solo. Entrevistou uma vez, entrevistou duas, e à segunda foi de vez: a entrevista já está no youtube.   

«Portugal está dizimado», e este pensador não percebe como é que após a decisão do Tribunal Constitucional «é possível o país continuar a atuar». Só que mesmo com o país sem capacidade de atuação, o livro de Joaquim Jorge já vai na terceira edição.  O autor não estará menos surpreendido do que nós com o sucesso editorial da sua obra mais recente. Ainda assim,  arrisca uma explicação para este aparente mistério: em primeiro lugar, «o livro é barato, custa 9 euros, e depois acho que fui muito feliz com o título». O título é “Política e coisas piores”, o que resume bem a programação do Clube dos Pensadores ao longo dos anos.

Ao bom preço e à felicidade do título juntam-se «duas ou três medidas que mudavam isto radicalmente».  O autor estima que, mesmo dizimado, «Portugal continua a ter dois milhões de pessoas na classe média. Eu, classe média, tenho 5 mil euros. Fazendo as contas de matemática, apesar de eu ser de biologia, se multiplicarmos 5 mil euros por 2 milhões dá 10 mil milhões de euros». Resolvia-se assim o défice das contas públicas. Mas há mais: «depois fazia uma coisa que se pode fazer numa semana.» Trata-se apenas de uma nova reforma da segurança social. E finalmente, há outra coisa que, de acordo com Joaquim Jorge, podia ajudar a salvar o país: «Observatórios, acabava com eles, Fundações não dava mais dinheiro, carros não comprava mais carros». Nisto, Maria (a jornalista do Porto Canal) interrompe: «Estamos a falar de um mundo utópico?». Aparentemente, a utopia de Maria não é uma sociedade sem classes mas uma sociedade sem observatórios, carros e fundações. Joaquim Jorge tem outro conceito de utopia, não menos original: «Maria, utópico é uma pessoa não ter emprego, utópico é um flagelo social que ninguém percebe».

Segundos depois, Maria volta a questionar o sábio de Gaia: «Tem visões que já foram apreciadas por aqueles que podem utilizar as suas ideias?». Maria só pode andar distraída. É evidente que Joaquim Jorge tem visões e que essas visões só podem ser apreciadas pelo Governo. No essencial, a agenda de Jorge também passa por taxar a classe média e penalizar os pensionistas. Joaquim Jorge apenas vai mais longe no que toca aos cortes nas gorduras. Além das gorduras do Estado (observatórios, carros e fundações), Jorge quer ir diretamente às gorduras das pessoas: «Eu vou ao health club (esta do health clube só ouvindo) e assim não gasto dinheiro ao Serviço Nacional de Saúde. O Estado devia pagar-me as sapatilhas e a joia. É o mínimo, se não ficamos uma sociedade de gordinhos». E como mostrava o difamado excel do Rogoff, “quanto mais gordos, menos os países crescem”.

História Incorreta do Portugal Contemporâneo

A primeira página do Jornal de Negócios de sexta trouxe-nos finalmente uma boa notícia: «não estamos livres de ter uma crise a sério, como a de 29». O alerta vem do mestre (em ciência política) Henrique Raposo, num momento em que vários economistas e o milhão de portugueses que se manifestou no sábado pensavam que já estávamos «numa crise a sério como a de 29». Aparentemente – economistas e portugueses – precipitaram-se.

Esta reconfortante declaração de Henrique Raposo surge numa entrevista que deu a Anabela Mota Ribeiro a propósito do seu último livro, “História Politicamente Incorreta do Portugal Contemporâneo”. A entrevistadora destaca uma confissão curiosa, vinda de quem diz que passou por todo o sistema público de ensino, aliás com notório aproveitamento: «Tenho 34 anos e ainda não vi o Estado Social». Em contrapartida, graças a esse Estado Social, este jovem historiador consegue ver coisas que mais ninguém vê: Soares era afinal um nacionalista e Salazar, esse sim, foi um europeísta. Raposo está prestes a descobrir que o Partido Socialista foi fundado em Santa Comba, e não em Bad Munstereifel como pretende a mitologia soarista. Escusava só de ter escolhido como representativo das posições atuais do PS um militante muito interessante mas cuja última quota paga deve ser a de Dezembro de 1985: «O Alfredo Barroso disse recentemente que o euro não é muito bom e que se calhar temos de pensar em sair do euro. Podemos, neste caso, dizer: “Estão a voltar às raízes”.»  

Fica ainda assim uma dúvida: em que factos e leituras se apoiam tão extraordinárias teses? Anabela Mota Ribeiro põe o dedo na ferida: «Esses factos são os que constam dos livros de História de Fernando Rosas e Irene Pimentel? A bibliografia que consulta para a elaboração destes textos é sobretudo a de historiadores de direita…» Raposo não se fica: «Ao nível da História económica, [consultei] o Pedro Lains, que é um homem de esquerda, o Bruno Cardoso Reis, que é um homem de esquerda. O que pode dizer é que consultei uma historiografia que é muito mais nova do que [a feita por] esses dois [historiadores] que mencionou». Tendo em consideração que «esses dois» que Anabela mencionou têm historiografia que não é menos «nova», e que Lains e Reis (boas referências) não os substituem com vantagem no assunto aqui em causa (o salazarismo), na melhor das hipóteses o que aconteceu foi que Raposo, em vez da tradicional pesquisa bibliográfica, optou por uma ida à Feira do Livro do ICS.  

A entrevista também chega à atualidade. Só que quando pensa como contribuinte, Raposo esquece os ensinamentos de Max Weber: «aflige-me que os ministros cheguem aos ministérios e não sejam capazes de dizer: “Preciso destas pessoas, destas, destas. Destas, não preciso”». Então, isso não traria o risco do clientelismo, pergunta Anabela Mota Ribeiro? Aparentemente, Raposo nunca ouviu falar da Dra. Ana Manso: «Que clientelismo pode haver nos hospitais?» Mas pronto, tal como todos nós, Henrique Raposo anda amargurado com o destino da pátria. Felizmente, este Alexandre Herculano dos tempos modernos já encontrou a sua Vale de Lobos: «Só há uma salvação: (…) é a agricultura. Eu, mais dia menos dia, vou ser um jovem agricultor.»

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