Quinta-feira, 09.02.12

Muito do que se escreve, lê e comenta acerca do Acordo resulta de simples preconceito ou de deficiência de informação; há também teimosia, bairrismo, disparate puro e muito de "protesto" (contra a crise, contra a agitação do presente, sabe-se lá que mais?). Uma boa amostragem pode ser vista na página "ILC contra o acordo ortográfico", sobretudo nos comentários. Apreciei, em especial, a parte respeitante à subscrição que dela fez Ricardo Araújo Pereira, a 13 de janeiro. Os comentários na página do Ricardo, no Facebook, no mesmo dia, são também interessantes. Numa palavra, é uma espécie de bazucada em todas as direções e um "não porque não". Mas, como comecei, reduzo tudo isto a cinco erros principais. 

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Quando, em 1492, Isabel, a Católica, perguntou para que servia a gramática de língua castelhana que Antonio de Nebrija acabara de escrever, alguém lhe respondeu que "después que vuestra Alteza metiesse debajo de su jugo muchos pueblos bárbaros y naciones de peregrinas lenguas, y con el vencimiento aquellos terían necessidad de recebir las leyes: quel vencedor pone al vencido y con ellas nuestra lengua". Do lado português, a primeira gramática, de Fernão de Oliveira, já enunciava, em 1536, que um objetivo era "que a possamos ensinar a muitas outras gentes e sempre seremos delas louvados e amados, porque a semelhança é causa do amor, e mais nas línguas" mas, "agora que é tempo e somos senhores", era chegado o momento de fazer uso da portuguesa, "porque melhor é que ensinemos a Guiné cá, que sejamos ensinados de Roma". Pouco depois, João de Barros completava o raciocínio: as armas e os padrões de pedra que os portugueses deixavam além mar acabariam por ser consumidos pelo tempo, mas não a língua e os costumes de Portugal, "pois é certo que mais pode durar um bom costume e vocábulo, que um padrão"

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Quarta-feira, 08.02.12

Já suspeitava, Portugal está a tornar-se um país insuportavelmente maçador. Apesar da propalada crise (que é sobretudo moral), os portugueses teimam nos seus vícios e maus hábitos enraizados, típicos de uma terra atrasada. O mais preocupante e perigoso de todos é, sem dúvida, o de procurarem uma vida melhor, em especial o de estudar, habilitar-se, mandar os filhos para a universidade. Não sei quem, e ao serviço de que obscuros interesses, terá inventado a triste máxima de que o povo também tem direito à educação. Mas já se sabe: estas coisas crescem como os cancros, e depois de incutidas num qualquer pobre de espírito, propagam-se como a peste. A verdade é que Portugal vai de mal a pior: procura-se uma criada de servir e não se encontra, a preços razoáveis; as que há são estrangeiras, careiras e nunca modestas; tenta-se encontrar um mainato que nos lave a roupa, nos leve a carga e nos trate dos afazeres normais de um normal cavalheiro, e é um problema para conseguir alguém decente, com referências e que nos cobre o preço justo; só há estrangeiros; busca-se uma ama competente para cuidar dos infantes, dotadas do devido recato e respeito, e é só ver mulheres desonestas, impertinentes e a exigir fortunas, acompanhadas por um rol de exigências inadmissíveis. Nem falo de moços de recados, escudeiros ou quem nos trate das mulas: só rapazes emproados e arrogantes, que se pavoneiam pelas ruas e recusam o sadio trabalho braçal como seus pais ou avós. Este país perdeu o respeito. As gentes não sabem colocar-se no seu devido lugar, reconhecer a sua condição e respeitar o escol. Isto é - já cá se sabia - o que se passa nas cidades, onde o povo mergulha na perdição e no pecado, inebriado pelos fumos "sociais" que insidiosamente lhes são inculcados, em nome de uma ilusória e sedutora "modernidade". É só exigir, exigir, emprego, emprego, só direitos e nenhuns deveres, nem sequer os próprios da sua classe.

Mas há pior: imaginem que, vim ontem a saber, este caos socialista já chegou aos nossos campos. Antigamente o bom povo do Portugal genuíno e profundo trabalhava alegre e feliz a nossa terra, povoava as nossas aldeias e alimentava a nação de todos nós; cada um sabia qual a sua função e dever e colocava o seu destino nas mãos da Divina Providência. Havia uma ordem natural das coisas. Bastava-lhe a missa aos domingos e o bodo aos pobres anual. Hoje, infelizmente, está tudo a perder-se e a abastardar-se. D. João Afonso Machado, no insigne Corta-Phitas, dá conta de mais um sinal do descalabro social e moral para que a nossa pobre pátria está a resvalar: neste "país de doutores" (como certeiramente o classifica), não se consegue encontrar, em pleno Ribatejo, um ferrador que trate convenientemente das montadas (nem as de el-Rei, ao que adivinho). Os que há são, também ali, estrangeiros (ainda por cima do Norte, provavelmente herejes) e cobram escandalosos contos de reis. O bom povo campino, enganado e ignorante, continua a mandar os seus filhos para a Universidade, para o turbilhão onde fervilha o desemprego e, pior, o germe da desordem e da revolta, contra as propinas altas e sabe Deus que mais. Onde irá isto parar? 


Terça-feira, 07.02.12
Paulo Pinto

piegas 
(origem obscura) 

adj. 2 g. 2 núm. s. 2 g. 2 núm.
1. [Depreciativo]  Que ou quem é muito sensível ou assustadiço.
2. [Depreciativo]  Que ou quem se prende com pequenas coisas.
"De passagem por Bragança, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, disse hoje que tem o direito à indignação" (26.5.2011)

Segunda-feira, 06.02.12

Sugestão final para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Mais uma sugestão para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Outra sugestão para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Sugestão para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Domingo, 05.02.12
Paulo Pinto

Sábado, 04.02.12

São 11.07 e a SIC Notícias faz um direto para o aeroporto a apanhar o treinador Manuel José, vindo do Egito; magnífico momento de televisão, sempre presente onde a notícia acontece. Lá vem ele, a  jornalista Márcia Torres vai atrás; "não vimos ainda familiares de Manuel José", diz. Ele detém-se e fala. Pede desculpa por não ter respondido a ninguém. Teve um susto, recebeu condolências, foi um dia complicado. "O que é que me apetece dizer?". Que aquilo parece ter sido organizado. Fala dos "nossos adeptos" e depois diz que o árbitro que devia ter suspendido o jogo. E que "ninguém mexeu um dedo". Afirma ter uma "relação estranha com o povo egípcio" e que o Egipto tem uma história de "turismo cultural com 5000 e tal anos". A jornalista está interessada em saber se ele está preocupado com a passagem dos distúrbios para a rua. Pelos vistos, o Manuel José é o único que conhece o Egito e que a sua chegada a Portugal priva a imprensa portuguesa da única voz que conhece o terreno. E lá voltam as perguntas. "Nós perdemos o jogo porque o árbitro estava completamente condicionado". Depois, uma incursão na política: "Os cristãos querem mais direitos ainda dos que os que têm". "E quando foi para o jogo ia descansado?", pergunta uma perspicaz profissional. "Pode-se extrair alguma lição deste episódio?", pergunta outro ainda (é sempre bom querer saber a moral da história). A conversa volta à rivalidade entre adeptos de clubes e o entrevistado assegura que nunca houve problemas. A mesma jornalista insiste e quer saber se "ia descansado para o jogo" (coisa importantíssima, de facto, nem sei como é que não ocorreu perguntar-lhe o que tinha ele comido ao pequeno-almoço). Depois o treinador vai-se embora. A jornalista faz um sumário das declarações e termina dizendo que "vai diretamente para Espinho, para casa do filho" e que "vai continuar a ser treinador idolatrado no clube egípcio". São 11.22. 15 minutos de direto televisivo. Morreram mais de 70 pessoas, mas isso não foi mencionado (nem parece interessar muito), e para sabê-lo tenho que procurar noutro lado. Estrodinário.


Domingo, 29.01.12

Desculpem, é da minha natureza. Quando ontem de manhã decidi escrever este apontamento à conta da calinada da Renault, fiz duas maldades: a primeira foi não revelar onde estava o erro e não dizer qual a forma correta; a segunda foi introduzir dois, no próprio título. Pensei que, das duas, uma: ou levava com comentários a chamar-me analfabruto, uma vez que incorria na parábola do argueiro no olho, ou então ninguém dava por eles. Ambas me divertiriam muito, sem malícia, apenas curiosidade. A última hipótese é impossível de confirmar. Venho, pois, perguntar humildemente: todos vós destes com as trocas do "intrevalo"/intervalo "pegadógico"/ pedagógico, certo?


Sábado, 28.01.12

Ando danadinho, há várias semanas, para escrever um post sobre o Acordo Ortográfico e, sobretudo, sobre o clamor lusitano-de-raça dos verdadeiros portugueses, que amam, veneram e idolatram a sua língua, (mas ñ s sab s dp no tlm sao bue moderns tip koiso ne lol), a língua é nossa, Camões de Manaus a Timor, e sei lá que mais e, sobretudo, que recusam vergar-se ao diktat sambó-imperialista de Brasília. Mas não tenho podido. Venho só chamar a atenção para uma calinada que nos passa milhares de vezes pela frente (na rua, na televisão, na net, no facebook) e que ninguém parece reparar; não é o anúncio do sr. Manuel da esquina que trocou o m pelo n. É da Renault, que bem que podia desviar uns euros da campanha para contratar um professor de português para ensinar basics da língua pátria aos criativos da marca e a toda a gente que aprovou isto. Se cada um desse uma moedinha (e os responsáveis de marketing da Renault não devem ganhar pouco) dava, não para um, mas para vários docentes, talvez daqueles desempregados que andam há anos a saltitar de mini-concurso em mini-concurso. E se as outras grandes firmas fizessem o mesmo, teríamos uma bom exemplo de simbiose entre o saber elementar da língua e a economia de mercado. Seria uma lança em África, quem sabe? Mas, para já, podíamos começar por aqui: pela diferença entre o indicativo e o conjuntivo (ou subjuntivo, no português do Brasil). É que a defesa de uma língua e da sua riqueza também (e sobretudo) é feita disto.


Segunda-feira, 23.01.12
Paulo Pinto

Nos noticiários da Antena 1, esta manhã, passam duas declarações muito interessantes acerca das declarações do Presidente da República sobre os seus rendimentos. A primeira é de Luís Filipe Meneses e diz que tudo não passou de uma gafe, e que todos nós temos direito (até os políticos) a gafes destas; a segunda é de Marcelo Rebelo de Sousa, que afirma que o Presidente foi "infeliz". Até o comentador de serviço, Raul Vaz, alinha pelo mesmo diapasão das "declarações infelizes". Isto, para mim, é pura contenção de danos. Os americanos chamar-lhe-iam "cover-up". Gafe? Declaração infeliz? Vamos a ver uma coisa: gafe é um lapso, um engano, um embaraço, como o de Guterres a fazer contas de cabeça em frente às câmaras; dito infeliz é, por exemplo, o Eduardo Catroga a falar de "pentelhos". Saiu mal, foi mal escolhido, e depois de dito não há nada a fazer; sai uma galhofa e pronto. O que Cavaco fez foi uma declaração entre o irresponsável e o mentiroso; ou não sabia o que estava a dizer, ou sabia; ambas as hipóteses são graves. E depois foi vaiado em Guimarães, e a imprensa olhou para o lado. Era bonito se fosse com outro. E, por fim, a página da Presidência no Facebook retira e omite comentários, e ninguém parece importar-se. Seria bom começar pelo princípio: alguém sabe quanto ganha efetivamente? Se sim, cadê? se não, ninguém acha estranho? Será preciso uma investigação, cheia de "ses" e de incertezas e contingências tortuosas, para determinar, divulgar e publicar os rendimentos do chefe de estado? É que neste assunto, não há volta a dar: se nem o Presidente sabe, ou ninguém sabe por ele, ou sabe e não diz, ou sabe e mente, ou "sabe-se" mas não convém dizer e desvia-se para outro lado, quais os rendimentos da mais alta figura da nação, então como se pode exigir transparência a deputados, gestores, administradores, assessores, autarcas ou a quem quer que seja?

Para mim, o mais grave nem são as declarações em si. Mas apenas a apatia que as envolve. Sabem o que nos falta? Não, não é um Salazar. São duas coisas: um Stephen Colbert e uma democracia que permita isto. Uma gafe? uma declaração infeliz? Chamem-lhe isso. Para mim, está tudo dito.


Quinta-feira, 19.01.12

Eu, pelo menos, não: julgava que os tempos que vivemos fossem tempos de exceção, de crise, de um turbilhão que começou nos EUA e cujas ondas de choque apanharam uma Europa entorpecida, demasiado confiante e incapaz de reagir e de avançar em conjunto; uma crise dos "mercados" que foi direta ao coração da "economia real", sobretudo a dos países mais periféricos, frágeis e vulneráveis, que se julgavam protegidos pela segurança da Festung Europa. Julguei eu que a crise fosse um acidente que todos queremos ultrapassar, e que a integração europeia tivesse valido a pena em prol do bem-estar de todos os portugueses. Afinal, segundo vozes autorizadas e eleitas pelo povo, tudo não passou de uma espiral de junkies viciados em preguiça e em gastar à tripa-forra. Pensava eu também que as clivagens e os desequilíbrios sociais fossem entre muitos pobres e muito ricos; enganei-me, segundo representantes da nação: é entre velhos e novos. Fiquei também a saber que velhos operários, reformados de miséria, gente que trabalhou toda a vida e que passou dificuldades que certos deputados só conhecem dos filmes, são afinal os beneficiários de uma "ditadura das mesmas classes sempre protegidas" (e que este acordo irá benevolamente por cobro). Ah malandros que andaram a desbaratar tudo. Fiquei razoavelmente desconcertado; mas alertado para uma coisa: nas próximas eleições vou ver bem, mas mesmo bem, quem são os deputados que o meu voto elege. E se os oiço a dizer certas barbaridades, garanto que peço a devolução do boletim.

 

"O acordo de Concertação Social esta semana alcançado pode ter evitado uma guerra entre gerações. (...) Durante muitos anos, os governos de vários partidos pediram empréstimos sucessivos para manter um estilo de vida acima das nossas possibilidades, ou seja, um estado de perfeita negação, como qualquer viciado. Pagámos os nossos benefícios com o dinheiro dos nossos próprios filhos, sustentando o nosso vício através da penhora das gerações futuras. (...) Apesar de já vivermos há muitos anos em democracia, persiste ainda uma ditadura, com a qual nós não contávamos: a ditadura dos direitos adquiridos, a ditadura das mesmas classes sempre protegidas. (...)" (intervenção do líder da JSD, hoje, na AR - sim, sim, esse mesmo, o mocinho do yo, o rapazote para a eternidade).


Terça-feira, 17.01.12
Paulo Pinto

A alguém que comenta como "Mozart":

Esta. Em alternativa, o "Lacrimosa" do Requiem, o "Romance" do Concerto para Piano nº 20 ou o "Andante" do Concerto para Piano nº 21. Ah! e o "Adagio sostenuto" do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninov (não é Mozart, mas podia ser).


Paulo Pinto

Aqui vai a identificação das 11 músicas que me fazem chorar para quem, de algum modo, se interessou:

1. Carlos Paredes, "valsa".

2. Beethoven, 7ª Sinfonia, 2º andamento.

3. Adriano Correia de Oliveira, "exílio".

4. L'Arpegiatta, "A che piu l'arco tendere" (de Stefano Landi).

5. Danças Ocultas, "escalada".

6. Lila Downs, "la martiniana".

7. Amélia Muge e Júlio Pereira, "nana, nana, meu menino".

8. Schubert, Trio nº 2 para Piano, Violino e Violoncelo, op. 100, 2º andamento.

9. Mafalda Arnauth, "até logo, meu amor".

10. Mazzy Star, "into dust".

11. John Williams, "exultati justi".


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Paulo Pinto

Encerro da melhor forma: um canto de esperança que vence todas as melancolias, depressões, dores e tristezas. Exultai,ó justos.
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Segunda-feira, 16.01.12


Paulo Pinto

Exatamente há 20 anos, era eu um mocinho ainda a tropeçar nas lides asiáticas, tive ocasião de escrever um pequeno artigo para a revista "Coral", da Fundação Borja da Costa, que na altura congregava apoios em torno da causa timorense. Tema? O alegado descobrimento português da Austrália. Era então novidade a edição portuguesa da obra de Kenneth McIntyre, "a descoberta secreta da Austrália" e o assunto, em plena época de comemorações, vinha a calhar. Passaram-se 20 anos e eu subscrevo integralmente tudo o que então escrevi. Neste lapso de tempo, pouco mudou: surgiram algumas obras sobre o assunto (de que o exemplo mais recente é o de Peter Trickett, "para além de Capricórnio"), integradas no novo género de literatura mix-histórica que alimenta o gosto pelas "revelações", junto de um público que apenas se interessa pela História assim ensanduichada ou bem coberta de molho mais ou menos spicy, mas com poucas novidades; as dúvidas mantêm-se e o ceticismo também. Há dias, o assunto voltou à baila nas manchetes, com a descoberta de uma peça de artilharia supostamente portuguesa. Sobre a mesma sabe-se muito pouco, mas há duas informações que convinha ter presentes: um contexto arqueológico provavelmente destruído e, por outro lado, entre a confirmação de se tratar de uma peça portuguesa do século XVI e a prova do "descobrimento português da Austrália" vai uma distância do tamanho do mundo, que não permite atalhos. 

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Paulo Pinto

Um hino melancólico-depressivo. I could feel myself growing colder, I could feel my eyes turning into dust.
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Domingo, 15.01.12
Paulo Pinto

O amor, uma vez mais, na sua faceta saudosa, dolorosa e magoada. Disputou ferozmente com esta e com esta o lugar no pódio.


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Sábado, 14.01.12
Paulo Pinto
A música em estado puro, apenas isso; sem artifícios, barroquismos, efeitos e areia para os olhos (ou ouvidos).
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Sexta-feira, 13.01.12
Paulo Pinto
Esta não necessita de grandes explicações, está tudo dito. (as minhas desculpas pelas dificuldades de escuta, aparentemente já está tudo resolvido, graças às skills informáticas da Shyznogud)
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Quinta-feira, 12.01.12
Paulo Pinto

A questão salta ocasionalmente para as primeiras páginas dos jornais, geralmente com títulos bombásticos: os portugueses terão sido os primeiros europeus a chegar à Austrália, novas provas do descobrimento português da Austrália, a história deste país está prestes a ser reescrita. Na berlinda, uma nova obra sobre o tema ou, como ocorreu ontem, a descoberta de um objeto que alegadamente reforça a tese. Tudo isto alimenta um certo orgulho nacional e promove uma determinada ideia de que os portugueses foram os primeiros (e os melhores) em praticamente tudo. Depois, subjaz a noção de que há uma verdade ainda por ser revelada (esquecida no pó dos séculos ou propositadamente ocultada pelo establishment das potências do norte da Europa); é isso que faz o argumento de boa parte da recente vaga de romances históricos, um "documento" que revela verdades escondidas durante séculos, um "descobrimento secreto", "a verdadeira história de...", ou, ainda, uma conspiração bem urdida e protegida por interesses poderosos, para impedir a divulgação de uma "verdade" que revolucionará a perceção da História. Basta falar de Dan Brown ou de José Rodrigues dos Santos para saberem do que estou a falar. Esquecida temporariamente a alegada "nacionalidade portuguesa" de Colombo, resta a descoberta portuguesa da Austrália.

Tudo isto são construções que resultam quase totalmente das nossas preocupações presentes e da forma como as projetamos no passado; tem muito pouco a ver com História. Em tempos de crise, não faltam os resquícios míticos dos "Descobrimentos", da "Idade do Ouro" e da "decadência", ou seja, como foram os portugueses os melhores, os primeiros, os mais geniais, num tempo já perdido. Nem sequer o facto de Portugal ser um país pequeno, pobre e de limitados recursos, deixa de constituir um argumento assaz repetido, porque torna tudo mais incrível, aumenta o tom de improvável e de fabuloso. Já D. Manuel, rei messiânico que se cria escolhido pela Providência para planar acima dos comuns monarcas da Cristandade, usava o mesmo argumento: Deus favorece os pequenos e os sucessos das armadas portuguesas na Ásia só podem ter origem maravilhosa e predestinada. A isto, os portugueses (de ontem e de hoje) adicionam fel, puxam por contrastes (reais e imaginários) e fazem uma mistura agridoce: de tão bons que fomos, os melhores do mundo, chegamos a isto, como é possível termos descido tão baixo, depois de tão elevados vôos. Sai mais um fado para a mesa do canto. E a Raça Poruguesa espera, entopecida e inerte, um novo despertar.

Ontem correu a imprensa nacional a história da descoberta de um alegado canhão português na costa australiana. Amanhã explicarei porque é que isto é uma peça quase irrelevante de um mosaico complexo, que há enquadramentos necessários a fazer e que há, finalmente, que separar factos de ficção.

 

adenda: a imprensa portuguesa diz coisas muito originais, mas que explosão de criatividade que vai por essas redações, hein? ora veja-se: o DN diz que "Portugal ocupou Timor, em 1515, mas a possibilidade dos nossos exploradores terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar". E que dirá o Correio da Manhã? Isto: "Portugal ocupou Timor em 1515, mas a possibilidade dos exploradores lusos terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, está por provar." Hmmm e o i? Coisas originais: "Portugal ocupou Timor, no sudeste asiático, em 1515, mas a possibilidade de os exploradores lusos terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar." E que tal o o JN?:"Portugal ocupou Timor, no sudeste asiático, em 1515, mas a possibilidade de os exploradores lusos terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar. Bom, talvez o Expresso: "A História diz que o primeiro contacto europeu com a Austrália data de 1606, aquando da chegada de um navio holandês. Já os portugueses ocuparam a ilha de Timor um século antes, estando a 700 quilómetros da costa australiana. A sua presença nesse país continua ainda por provar. Bestial. começamos mal, para já: Portugal não "ocupou Timor" em 1515 coisa nenhuma; esta data é a tradicionalmente aceite para assinalar a data da chegada dos portugueses, mas a fixação só se veio a verificar muito mais tarde; a "ocupação", então, só alguns séculos depois. Capice? Amanhã continuo.


Paulo Pinto
Lamento, dor e esperança de quem vai partir, cantados por uma voz a que não é possível ficar indiferente. O texto é do poeta mexicano Andrés Henestrosa, alegadamente dedicado à mãe: a música sobrevive e resiste à morte, "não me chores, porque se chorares, eu sofrerei; pelo contrário, se cantares, eu viverei e nunca morrerei".

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Quarta-feira, 11.01.12
Paulo Pinto
Um espanto, um arrepio, uma completa surpresa, por um instrumento que tinha por antipático e desagradável; contrastes, agudos e compassos; e uma reta final.

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Terça-feira, 10.01.12
Paulo Pinto

Este governo produz admiráveis contributos para a língua portuguesa, digna do newspeak de Orwell. Atente-se nas afirmações poéticas do ministro José Pedro Aguiar Branco, hoje (nos noticiários da Antena 1): "A execução orçamental é um desafio de dimensão nacional, e para o qual cada um de nós é convocado seja em que função que esteja a desenvolver a sua atividade; eu acho que é altura de nós mudarmos o léxico e não falarmos de cortes mas falarmos, sim, de sustentabilidade. Portugal tinha um problema de sustentabilidade. Todos nós somos um galho na árvore que nos conduz à vitória, e cada galho é absolutamente fundamental, desde o mais pequenino ao maior".

Daqui se depreende que: 

1. Cada português soma, aos seus deveres de cidadão, mais um: o de executar o orçamento de Vítor Gaspar. Mas não é obrigado, é "convocado".

2. Não há cortes, há sustentabilidade; "cortes" é feio, frio, pouco poético, mudemos o léxico, fica o problema resolvido. Deduzo que não é possível "sustentar" a educação, a saúde, a solidariedade social, a investigação científica; sustente-se, sustente-se.

3. Portugal é uma árvore rumo à vitória. Bela metáfora vegetal. Poder-se-ia sugerir, em alternativa, que "flutua como uma bigorna" ou que "voa como um molho de bróculos".

4. Cada um de nós, para rematar, é um galho dessa árvore em movimento, eppur si muove (talvez levada por uma enxurrada, não?). Todos são necessários, desde o minúsculo raminho ao grosso tronco, para cumprir o objetivo enunciado no ponto 1. Uma grande árvore a caminho da vitória (ou seja, da poda "sustentada"), onde os galhos são convocados para executarem um orçamento. Que lindo. Sai um Nobel da Literatura para a mesa dois. Mas que poda esta.


Paulo Pinto

A música enquanto expressão máxima, delicada e profunda, do amor, envolvendo emoções, sentimentos e afetos. Esta é um diálogo entre um homem e uma mulher: ele declara-se apaixonado e lamenta a juventude perdida; ela hesita e responde, numa falsa firmeza que lhe basta o olhar. Mas acaba por ceder: "condannomi, perdonomi, fra speme e fra timor, ma pur tutto abandonomi nelle tue mani, Amor" (condeno-me, perdoo-me, entre a esperança e o medo, mas coloco-me totalmente nas tuas mãos, Cupido).


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Segunda-feira, 09.01.12
Paulo Pinto
Esta rivalizou com a "menina dos olhos tristes"; mas preferi uma canção simples de coragem e de esperança em vez de um luto. Uma voz ímpar, única, a mais tocante voz masculina que conheço. Um canto de uma época que não vivi, mas que interpreto através da música: o sufoco, o aperto, o exílio, o desalento e a esperança. "Venho dizer-vos que não tenho medo", mensagem adequada a uma época de regresso de medos que se pensavam exorcizados para sempre.

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