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jugular

o Carrascão-Party

quinas.pngAí há uns 20 anos, numa vetusta instituição, ouvi um igualmente vetusto senhor comentar o que se passava em Timor-Leste. Dizia ele que, ao contrário do que afirmavam os comunistas da FRETILIN, os timorenses não queriam a independência; queriam era voltar a ser portugueses. Nem sei como é que ninguém se lembrou de tal evidência no referendo que teve lugar pouco depois. Só agora percebi que só pode ter sido por isso que aquilo correu tão mal.

As apreciações sobre o passado ultramarino de Portugal têm conhecido uma evolução interessante: há historiadores que, vai não volta, se interrogam se, e em que medida, foram os portugueses diferentes dos outros europeus em África, na América e na Ásia; a outros interessava saber, sobretudo, se foram melhores ou piores. Tudo isso está ultrapassado, agora  a dúvida é: "quão melhores fomos? 1. muito, 2. mesmo muito ou 3. arrebatadoramente, os galos da capoeira global". Quem escolheu 3. tem à sua disposição a "Nova Portugalidade", que está a fazer furor. Sobretudo entre os seus adeptos, embora não se conheça mais do que um, um jovem das Caldas que escreve por aí uns caldos de insigne transcendência como "Mais que um idioma, a Portugalidade é terra e gente, cultura e sentimento, passado e futuro. Queremos reerguer o mundo de fala portuguesa". Tem ideologia? tem, se bem que um pouco confusa: "Portugal [está] mais próximo histórica, cultural e sentimentalmente de Timor que de Budapeste". Muito curioso para quem, aquando dos atentados em Munique, escreveu que "por sorte, há um homem [Orbán] que se distingue do escorralho [Merkel, Renzi, Hollande]". Ora, Orbán vive em Budapeste. Noutro texto, diz: "passo a passo, documento a documento, Trump vai tornando o mundo mais limpo. Só podem agradecer-lhe os patriotas de todas as longitudes." Logo, a ordem de proximidades é: Díli, Budapeste, Washington, e só depois Paris, Roma ou Berlim. Embora Orbán e Trump, como todos sabemos, sejam típicos homens de comunhão e de afetos, e esses superam todas as distâncias.

É de comunhão e de afetos que falamos, sobretudo, nós, os "portugueses". A Portugalidade é a "grande família humana gerada e cimentada por séculos de convivência", formada pelos "povos do mundo português" e pelos "países de civilização portuguesa - aqueles que connosco se encontraram ao longo da História". É, portanto, tudo português, a "nação policromada, diversa mas coesa, que se dilatou pelo globo". Nada de colonialismo, nem racismo, nem PNR, nem saudosismo. Credo. Nada disso. Isso era coisa da Velha Portugalidade (da qual só resta, ao que parece, a devoção a Salazar). Esta é a Nova ou, como diz o seu mentor, "rejuvenescida".

Opá.

Para "Nova", precisam de umas novidades. Libertem-se, bolas. Organizem-se. "Portugalidade" é coisa velha. Novas abordagens, novas perspetivas. Sabem o que é o Tea Party? É isso, não é? Um movimento informal, não enfeudado aos políticos. O problema é que é coisa de colonialistas e colonizados, impostos sobre chá e tudo borda fora que lá vai disto, e movimentos políticos de direita. Tudo estranho à Portugalidade, que é exatamente oposta e não é de esquerda nem de direita (como afirma o próprio mentor), logo, há que aproveitar o élan mas à nossa moda: não um party-partido, mas sim uma party-festa, vale? E nada de chá, que bebida portuguesa há de ser? Viram o Kagemusha? a parte em que Oda Nobunaga e Tokugawa Ieyasu bebem vinho dos "Bárbaros do sul" (uns snobes, estes japos) e este cospe? era carrascão, pois então. Carrascão histórico no Japão do século XVI, haverá melhor mote? E depois, bolas, um movimento de promoção de afetos familiares tem um logo tão tosco e frio, com um "1" a lembrar o Canal 1 da RTP de outros tempos? É animar as hostes com smileys e coisas fofas, caramba. Deixo aqui o meu humilde contributo para um verdadeiro logo representantivo e unificador. Hino não tenho, mas penso que a sugestão abaixo servirá provisoriamente. Servirá, pelo menos, para matar saudades.

Há pouco vi, no Facebook, chamarem-lhes de "molho de queques aparvalhados". Eu prefiro, ainda assim, pensar que é gente que ficou com aquela letra do "Inventor" dos Heróis do Mar em loop na cabeça: "é muito provável que a riqueza do mundo esteja em Portugal"; ou, em alternativa, que são todos discípulos do tal senhor vetusto que há 20 anos me dizia que os timorenses não queriam ser independentes.

em defesa de Trump

Quem diria. Uma das características dos tempos interessantes que vivemos é a forma como nos obriga a refletir e a confrontar as nossas próprias convicções. Para os cínicos, é uma idade de ouro, para os humoristas, uma era de oportunidades infinitas. Para quem apenas se interessa e preocupa com o que vai pelo mundo, bom, há uma desconfortável sensação de ironia, simultaneamente cómica e dolorosa, que envolve as crescentes contradições a que vamos assistindo. Mas desenganemo-nos, há muito poucas razões para rir. Ou não, talvez, quem sabe.

Vemos o PSD a votar ao lado da "extrema-esquerda" e contra o que apregoou durante anos a fio? Sim. Devemos ficar admirados? Ora, ora, já tínhamos visto semelhante sintonia em assuntos mais sérios, quando dinheiro e ideologia ficam alinhados, como nas conjunções astrais: quando vem à baila Angola, por exemplo. 

Não, não venho escrever sobre TSU nem sobre Luaty Beirão. Venho falar de Trump. Trump, aquele escarro da república que toda a gente rejeita e que ninguém sabe nem entende como foi eleito. Mas foi. E agora, todos nós, que estamos ainda em choque, horrorizados com o que vem aí e com o inominável e vergonhoso grau de baixeza de quem vai ocupar o trono da pátria da democracia, odiamos tudo o que é Trump e aplaudimos tudo o que é contra Trump. Um dos efeitos perversos do fenómeno é a forma como o que sempre rejeitamos e denunciamos como inaceitável passará a merecer admiração, elogio e aceitação. Desde que seja anti-Trump. Uma espécie de mal menor.

Ontem, o presidente da China falou em Davos e muitos, tantos, cá, lá e por todo o mundo, aplaudiram e manifestaram admiração pela sensatez, diplomacia, clareza e inteligência do seu discurso. Haja quem defenda a globalização, o livre comércio, a normalidade dos negócios mundiais, o crescimento económico, haja quem rejeite o protecionismo do bronco americano, haja quem diga banalidades sensatas e combine "the wisdom of the East and the science of the West", como dizia a publicidade dos filmes do Charlie Chan, nos anos 30. Mesmo que seja o líder de um regime despótico, totalitário e repressivo, onde a exploração laboral é comum, onde a aplicação da pena de morte bate recordes e onde a justiça paira ao sabor dos caprichos das lutas internas; o líder de um regime de partido único, não eleito, não sufragado, não escrutinado por uma opinião pública informada, uma imprensa livre, uma tradição cívica enraizada. "The worst of the East and the West", diria eu. Xi Jinping não foi eleito. Trump foi. Xi Jinping nunca estará sujeito a instrumentos de controle democrático, de supervisão de governo, de um estado de Direito. Trump estará. Xi Jinping nunca será derrubado por vontade popular. Trump poderá sê-lo. Portanto, e desculpem-me a franqueza, Xi Jinping que vá para o inferno, ele mais os hipócratas que só olham para os direitos humanos quando não riscam a bíblia comunista ou quando não ferem os ouvidos dos "mercados". Ou quando, cumulativamente, se opõem a Trump. Portanto, na sexta feira estarei em crise: não há forma de aplaudir a coroação daquele homem, a vitória de tudo o que ele representa e os danos que causará. Mas prefiro mil Trumps a um Xi Jinping.

Das Obras Valerosas

A história foi contada pelo próprio, há umas semanas. Estava tudo preparado, contactos diplomáticos, viagem, roteiro, encontros. Do outro lado havia abertura e vontade de quebrar formalmente o gelo, já rançoso e anacrónico mas ainda pendente. Estava, de facto, na hora. Tudo foi discretamente preparado e lá partiu, em viagem exploratória, de cujo sucesso iriam depender os passos mais largos a tomar no futuro. Foi calorosamente recebido pelo homólogo, que o acompanhou num périplo pelo país. A viagem deveria culminar numa jornada final a uma região específica, foco de tensões e hostilidades passadas, assinalando a reconciliação e abrindo caminho a encontros a um nível mais elevado. Antes disso, porém, estava agendado um encontro, o  grande encontro, o sinal inequívoco da boa vontade e a confirmação política de que o passado era passado e que era preciso olhar para o futuro. Algo, porém, aconteceu no dia anterior. Subitamente, a meio do jantar, começou a ouvir um zumzum estranho, um tom inesperado que indicava que algo de estranho se passava. Não conhecendo a língua, não percebia o que era dito. O ruído aumentou de intensidade, até que alguém teve a gentileza de lhe traduzir e explicar o ocorrido: sim, algo não estava bem; estava até muito mal. A pessoa com quem deveria encontrar-se no dia seguinte, a tal, tinha sido vítima de um ataque e estava em perigo de vida. Pouco depois, e no meio de uma já evidente agitação entre os convivas, chegava a confirmação: o ataque fora fatal. Portanto, o plano diplomático estava irremediavelmente perdido, não havia condições para prosseguir a visita ou realizar a jornada final acordada. Assistiu às exéquias e regressou a Portugal.

A pessoa em causa chama-se António Coimbra Martins e é o maior especialista da vida e obra do cronista quinhentista Diogo do Couto. A história, contou-a na sessão de abertura de um colóquio que teve lugar na Torre do Tombo, em dezembro. Teve o cuidado de descrever diversos pormenores do episódio e de revelar que era a primeira vez que o fazia publicamente. Éramos poucos a ouvi-lo, entre participantes e interessados no assunto que ali nos juntou. Em 1984, Coimbra Martins era o ministro da Cultura do IX Governo Constitucional; ironicamente, liderado por Mário Soares. O país é a Índia, o destino da jornada final era Goa e a pessoa que concordou em recebê-lo previamente, assinalando o degelo definitivo entre os dois países, era Indira Gandhi. Indira Gandhi, a líder do Partido do Congresso e então chefe de governo que foi assassinada a 31 de outubro desse ano por dois guarda-costas. Nunca imaginei que o ministro da Cultura de Portugal estivesse, nesse mesmo dia, a aguardar audiência e a preparar a plena normalização das relações diplomáticas entre Portugal e a Índia, cortadas durante quase duas décadas e com uma guerra pelo meio; e que o processo tivesse sido interrompido e atrasado desta forma abrupta. Fiquei a saber de viva voz há dias. Espero ter transmitido o exato tom com que o autor a reportou.

Mário Soares, o chefe do governo então em funções, visitou a Índia no ano seguinte e a normalização das relações diplomáticas foi alcançada. Três décadas mais tarde, o primeiro ministro português faz nova visita à Índia, desta vez com um objetivo adicional: visitar Goa, a primeira vez por parte de um chefe do governo de Portugal. Não será muito exagerado dizer-se que só agora, passado tanto tempo, se podem considerar saradas as feridas de uma relação atribulada de mais de cinco séculos. Ironicamente, este desfecho esteve ameaçado, uma vez mais, pela interferência de uma morte; desta vez, do lado de cá, e precisamente do homem que esteve por trás do processo de aproximação, há três décadas. Muita gente se indignou, por ignorância, despeito e/ou estreiteza política, com a recusa do primeiro-ministro em interromper a visita para comparecer ao seu funeral. Alguma imprensa fez chacota indecente com as raízes familiares do chefe de governo; cheguei a ouvir, num canal de televisão, "quantos turbantes são necessários para se fechar um bom negócio?", sinal inequívoco - embora não inesperado, infelizmente - de estreiteza de vistas, ignorância e preconceito, a vários níveis.

Coimbra Martins foi um dos elementos fundadores do PS, em 1973. Ignoro se esteve nas exéquias de Soares ou se compareceu no Largo do Rato à passagem do féretro. A sua idade avançada, possivelmente, não o terá aconselhado. Mas penso que terá ficado satisfeito com a decisão de António Costa. Por compreender em pleno as funções de estado, por entender a importância da missão e, finalmente, por pensar que a sua viagem de 1984 foi finalmente completada. A morte interpôs-se uma, duas vezes, mas agora sem sucesso. E por considerar, certamente, que a decisão teria agradado ao seu antigo companheiro e líder. Não é Soares, afinal, um daqueles que "por obras valerosas se vão da lei da morte libertando"?

just kidding?

Comentar a vitória de Trump já vem tarde, já toda a gente o fez, já quase tudo foi dito e escrito em rescaldo e reflexão. Já vi anunciado o apocalipse e já li comentários de apelos à calma. Gostava muito de acreditar nestes últimos, tanto nos sensatos como nos tolos, que dizem que tudo não passou de uma estratégia eleitoral, de um golpe genial, que o candidato não será o presidente, que Trump apenas disse uns dislates e que rapidamente "assentará" perante o peso da responsabilidade inerente ao cargo, o Partido Republicano e os mecanismos da democracia americana. Prova? o discurso de vitória. "ah lá está, estão a ver?". Estou a ver o Luís Delgado, na SIC Notícias, a dizer isso mesmo.

Era tudo a brincar, portanto? Não creio.

1. a mensagem. Trump ganhou porque apelou aos sentimentos mais egoístas, nacionalistas e intolerantes de cada eleitor. Egoísmo, nacionalismo e intolerância: os interesses da América acima de tudo, a América que faz os aliados pagar pela sua proteção, a América que não aceita desvios, a América da Lei e da Ordem. A América só, contra tudo e contra todos, se necessário. Se alguém acredita que Trump irá tornar-se subitamente adepto do multilateralismo, das parcerias geostratégicas, das parcerias para a paz, gabo-lhe o otimismo, que afigura-se-me próximo do delírio. À primeira crise internacional se verá.

2. o descrédito da democracia. Em primeiro lugar, das duas, uma: ou Trump faz o que prometeu ou não. Esta é má, a primeira é pior. Em qualquer dos casos, será o descalabro da democracia como a conhecemos. Se não cumpre o que prometeu, então estamos perante a farsa mais dramática da nossa era: doravante passará a fazer escola e tornar-se-á receita de sucesso eleitoral o uso extremo da promessa bombástica, populista, ridícula, xenófoba ou irrealista. Se cumpre, bem, então estamos todos condenados. Em segundo lugar, a competência, a prática, o conhecimento e a preparação política deixaram de ser qualidades e passaram a ser defeitos. Quanto mais impreparado, bronco, estúpido e reconhecidamente mentiroso for um candidato, mais presidenciável será.

3. o mimetismo. Desprezar os estrangeiros, as diferenças, a inteligência e os Direitos Humanos era algo envolto em vergonha e desaprovação social. Já não é. Foi dada licença para a discriminação aberta e às claras, para o menosprezo pelas mulheres, para o renascimento da hostilidade contra imigrantes, afroamericanos, latinos, não-cristãos. Está lançado o apelo aos ataques racistas, homofóbicos ou misóginos, alicerçado na ignorância, no preconceito e na estupidez mais elementar. Como parte do mundo imita o que América faz, o exemplo vai proliferar; e como a restante parte, pelo contrário, se tornará inevitavelmente mais anti-americano, estamos conversados sobre o que aguarda o mundo nos tempos próximos.

inclusão e exclusão simultâneas

Sempre tive uma vaga sensação de que, à medida que eliminamos barreiras e preconceitos, encontramos sempre novas formas de criar linhas de demarcação ou de reinventar formas de discriminação. As motivações é que diferem. Estou a falar em termos sociais e, mais concretamente, no quotidiano do espaço público. Ontem deparei-me com um exemplo interessante.

A Praia das Maçãs é uma localidade, mas também, e naturamente, uma praia. Estreita. Noutros tempos, havia espetáculo dia-sim-dia-não com pessoas que não respeitavam a cor da bandeira (invariavelmente amarela, à cautela) e faziam ouvidos moucos - por negligência pura ou por bravata - aos avisos dos nadadores-salvadores e que se embrenhavam demasiado nas águas revoltas do Atlântico, nadando para "fora de pé". Depois não conseguiam regressar e era sempre um drama. Lembro-me de vários episódios, alguns com desfecho trágico. Nessa altura, os ditos nadadores-salvadores (que eram então sempre tratados pelo nome arcaico de "banheiros") desdobravam-se em cautelas para minimizar problemas: havia uma "zona de banhos" (as placas que lá estão ainda são as mesmas), no centro da praia, e duas "zonas perigosas", nas margens, para evitar arrastamentos para as rochas. E quando a maré subia ou havia alteração da ondulação, lá vinha o apito de aviso. Ou vários, porque gente teimosa e negligente sempre houve. De maneira que sempre me habituei a reagir com alarme ao "apito". Era sinal de perigo potencial para alguém.

Os tempos mudam. Ontem à tarde, os "banheiros" apitaram muitas vezes. Mas não era sinal de perigo. Pelo menos, do perigo que eu imaginava. Era outra coisa: sensivelmente metade da praia (logo, "metade do mar") está reservado ou indicado como de "prática de surf", demarcado com umas bandeiras verdes ("SolFun", uma empresa de surf local). Logo, e como eram 5 da tarde e hora de aula, era preciso arranjar espaço para a dita. Consequentemente, apitou-se furiosamente para desviar os banhistas para a direita, que ficaram acantonados numa estreita faixa de mar. As velhas placas de "zona de banhos" não distavam entre si mais de uns 20 m. O resto é "zona de surf". Numa Praia Grande há espaço para todos. Ali, é constrangedor. Valeu o facto de ser sábado, estar vento e o número de banhistas ser relativamente reduzido. Escusado será dizer que o pouco espaço livre e sobrante do areal estava devidamente ocupado por futebolistas de ocasião, porque essa é uma praga velha a que ninguém liga e que a ninguém parece incomodar (exceto a mim, e há muito tempo).

Provavelmente a escola de surf paga para fazer tal uso e usufruir de tal exclusividade, comparticipa nas despesas de manutenção ou limpeza da praia ou sustenta os salários dos "banheiros", à semelhança do concessionário. Sem ela, possivelmente, a praia não disporia das boas condições que possui hoje, entre acessos, higiene e duches. Não sei. Sei é que, em simultâneo, está anunciado que se trata de uma "Praia Acessível" (como a da Adraga), ou seja, dispõe de acessos e de equipamentos para pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida. Pessoas que há 30 anos não tinham tal possibilidade. A praia da Praia das Maçãs é hoje, portanto, e simultaneamente, uma praia mais igualitária e mais discriminatória, mais pública e mais privada, mais inclusiva e mais exclusiva.

P.S. e fui novamente ao Alto da Vigia espreitar o templo romano e o ribat. Não fiquei nada tranquilo, pela quantidade de gente que por lá andava a tirar selfies  no meio das ruínas e com o oceano como pano de fundo. Não sei o que está previsto fazer para proteção do local, mas temo o pior num futuro não muito distante.

entusiasmos juvenis

Conheço a Praia das Maçãs desde os 10 anos. Passei lá praticamente todas as férias durante um quarto de século. Vivi num local a poucos metros (sim, poucos, para não dizer "mesmo ao lado") de uma "coisa" que então ninguém por ali sabia o que era ("um cemitério medieval" era a versão mais comum) e que é uma necrópole pré-histórica, com vários horizontes (o mais antigo pode remontar aos inícios do 4º milénio a.C.). Mas algo mais misterioso despertou a minha atenção mais recentemente (digamos, há uns 20 anos), ao ler "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa", de Francisco de Holanda: conta o autor que o infante D. Luís (irmão de D. João III) mandou-o chamar a Lisboa e ambos visitaram a serra de Sintra, tendo chegado a um "pequeno outeiro" "junto à foz do rio de Colares", onde estava "um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado". E junta um desenho. Nas notas da edição que li (Liv. Horizonte, 1984) estão transcritas impressões de Jorge Segurado, de 1970, que transcreve registos posteriores e dão conta de nada existir no local (pp. 90-92).

Andei, durante muito tempo, a congeminar ideias sobre a incógnita: localização errada e imaginação fértil do autor eram as mais comuns. Foi-me sugerida a hipótese de o terramoto de 1755 ter causado danos na região ou alterado a configuração da costa por ali. A imagem do círculo com 12 cepos pode ser vista em gravuras de Sintra do século XIX, "tiradas do natural", que faziam certamente eco difuso daquela imagem. Uma visita ao Museu de Odrinhas, há uns 10 anos, aquando de uma sessão de "reconstituição histórica" avivou-me o interesse, mas as conversas que tive com funcionários foram inconclusivas: havia vestígios e suspeitas, mas nada de concreto se sabia.

Subitamente, há uma semana, deparei com isto. Fui lá de imediato, na sexta feira passada, no final de uma tarde de praia. Lá está ele. Felizmente que o acesso pela praia não é muito fácil, porque tremo de pensar no que aconteceria se o fosse.

Fotografia0955.jpg

Depois, verifiquei que já fora noticiado na imprensa, há quase 2 anos, e que os trabalhos arqueológicos iniciaram-se há 8, depois de cinco séculos de esquecimento. E que há informação disponível na página do mesmo museu e, até, na Wikipedia. Como se pode viver tanto tempo na ignorância, dispondo de internet e de informação abundante que nos cai em catadupa a toda a hora, não é?

Trata-se de um templo romano do séc. II, com utilização islâmica posterior. Senti um entusiasmo juvenil, ampliado por várias informações complementares. Não era um templo qualquer, mas algo reservado a altas figuras do império romano, o que comprova a importância do local em termos ideológicos e, por consequência, materiais: era o local destinado a celebrar a união da terra (a Serra de Sintra) com o oceano, o Sol e a Lua, ligando, portanto, os cultos locais com a divindade do imperador e o equilíbrio do império. Mais, deduzo que as informações reproduzidas pelos autores clássicos sobre os cultos lunares, o "monte da Lua" e o extremo ocidental da Europa não se referem ao Cabo da Roca (que se vê dali), mas a este promontório, que os romanos reaproveitaram e integraram no seu próprio culto imperial. O responsável pelas escavações, Cardim Ribeiro, afirma que o corpo principal do templo ainda não foi escavado e deverá estar localizado nas imediações. Isto faz-me imaginar o que estará ainda por descobrir. E a importância este local terá tido ao longo de séculos. E aguardo, com expectativa, os desenvolvimentos, esperando cinicamente que o futuro lhe reserve uma sorte diversa da necrópole ao lado da qual vivi durante décadas, onde cheguei a ver motas aos saltos e que hoje está afogada em vivendas geminadas de uso turístico e sazonal. É que, se é para sorte equivalente, melhor será remeter-se ao esquecimento durante mais meio milénio. 

15 de agosto

Pergunta singela: alguém sabe a razão por que é hoje feriado? Ou, ao menos, que feriado é? Eu relembro: 15 de agosto, Assunção de Nossa Senhora. Gostava de, um dia, ter estatísticas não-vale-olhar-para-o-calendário. Apesar do fortíssimo - para não dizer invencível - conservadorismo nacional sobre tudo o que envolve "feriados" (fazendo convergir Igreja, PCP, esquerda, direita, funcionários públicos, católicos, ateus, sindicalistas e simples "homem da rua"), acredito que não serão muitos os que saberão exatamente do que se trata. A razão do feriado. Não interessa muito, pois não?

Interessa, sim. Não é um feriado religioso qualquer. Não envolve os fundamentos do cristianismo (como o nascimento, a paixão ou a ressurreição de Cristo) , é apenas uma festa religiosa baseada numa tradição apócrifa, sem base bíblica, segundo a qual Maria ascendeu aos céus após a sua morte. E é feriado porquê? Porque, em 1950, o papa Pio XII transformou-a em dogma da Igreja Católica, tornando-a, assim, indiscutível, segundo os preceitos da infalibilidade papal decretada pelo Concílio Vaticano I (em 1870). E o que dizem estes? Que o papa, quando emite juízos ex cathedra (ou seja, "na cadeira" de S. Pedro), está isento de erro, porque é guiado diretamente pelo Espírito Santo. Infalível, portanto. Isto não pode ser discutido: é um dogma. Sabem quantas vezes foi invocada a infalibilidade papal, desde essa data (excluindo processos de canonização)? Uma. Exato, essa. 

Não tenho preconceitos anti-católicos que me levem a não aceitar um feriado de base religiosa. Mas já os tenho quando a única coisa que o justifica é um dogma suportado por outro dogma.

Esta caiu-me hoje no regaço porque estou a ler uma obra de um teólogo católico, de seu nome Hans Kung, que apelou recentemente ao atual papa para rever o dogma da infalibilidade e que personifica o ecumenismo e o diálogo entre religiões (e civilizações), talvez a última esperança de renovação de uma Igreja bloqueada. E sim, a obra é "Islão - Passado, Presente e Futuro", que deveria ser de leitura obrígatória para fazer uma barrela  à ignorância das tantas centenas de pseudoespecialistas em islão que todos os dias mandam bitaites de bancada sobre o assunto na imprensa portuguesa. Este, por exemplo.

putas e santinhos

A história foi-me contada por um velho amigo, há já algum tempo. Um certo senhor chinês emitiu, em contexto social (melhor dizendo, institucional), a sua opinião acerca de Portugal e as diferenças com o seu país natal; mais especificamente, o facto de os portugueses gostarem muito de santinhos. Afirmou, portanto, que “em Portugal, muitos santos, santos, muitos. Na China, não há santos. Na China, só putas”. Perante o súbito silêncio de quem o ouvia, e percebendo que havia ali um mal-entendido, achou por bem repetir que “na China não há santos, só putas”. E como a cara de espanto dos convivas se acentuava, desenvolveu: “Putas, putas, muitas putas. Na China, só putas, não santos”. E fechou os olhos em pose estática, para se fazer compreender melhor. Embaraço geral. Subitamente, alguém mais sensível às diferenças fonéticas entre as línguas percebeu que o senhor queria dizer “budas”. Sim, na China há muitos budas, só budas, não há santos, é um facto.

Isto ocorreu há uns anos. Se fosse hoje, se fosse no domingo passado, o senhor chinês teria provavelmente menos dificuldade em fazer-se entender, porque talvez alguém que o estivesse a ouvir achasse que Portugal também está cheio disso. Até um primeiro-ministro assim, imaginem. Nem buda, nem santo, porém: puta mesmo. Foi isso que os amarelinhos dos colégios, como se viu por alguns dos cartazes que empunharam, queriam chamar a António Costa, mas não o fizeram porque é uma palavra feia e aquela gente, ninguém duvida, é muito respeitadora; sobretudo dos seus privilégios, do sagrado direito à “liberdade de escolha” e de colocarem os filhos em colégios particulares à conta do erário público, mas acredito que também da autoridade e dos preceitos da Santa Madre Igreja, sim, respeitadores de tudo isso. Obviamente, também de linguagem adequada. Nada de asneirices. “Fulano, és uma puta” sairia da boca de um qualquer esquerdalho ou comuna, nunca de gente bem educada como esta. Na verdade, seria uma falácia (“Passos – ou Portas –, és um cabrão” seria bem mais verosímil, como há anos gritavam os estudantes espanhóis, “Maravall, cabrón, viene al balcón!”), mas isso não importa agora.

 

 

breaking news: Vasco da Gama chegou à Índia

Coisas que me dão vontade de rir (muita): hoje a nossa imprensa anuncia com grande pompa, como uma grande novidade, a descoberta de um navio português carregado de moedas de ouro na costa da Namíbia. Leram no Reader's Digest, perdão, na CNN ou na Fox News, uau. De facto, há coisas que precisam de ir primeiro aos States para passarem a notícia. Isto porque os nossos jornais não se leem uns aos outros e os caçadores de furos andam na net de rede em punho à procura de coisas bombásticas. Se lessem o que por cá se publica, saberiam que isto é coisa velha. Ora querem ver?  Na edição de 13 de fevereiro, o Expresso publicou um artigo ("no rasto das moedas de ouro") onde, bom, se pode ler logo no início, que "Luís  Filipe Thomaz chegou ao fim de um dos seus mais ambiciosos projetos. O maior  historiador  português do Oriente tem pronto o catálogo das 2333 moedas de ouro e prata encontradas a 1 de abril de 2008 entre os despojos do "Bom Jesus" (...)". Em fevereiro, o catálogo estava pronto, e a peça anuncia a sua edição para breve, em Windhoek. No Expresso, ok? Não foi no Boletim dos Anais Bolorentos da Academia da Asa da Mosca. É ir lá ver. Está lá  tudo, poupem-nos a este entusiasmo provinciano.

ciências misteriosas

Aterro por acaso numa notícia do DN que diz que foi "Descoberto mistério da "cidade perdida" submersa"; vou ver o que é e afinal, baaaah, não era assim um mistério tão grande, era apenas uma coisa que carecia de esclarecimento. Inicialmente, o que me ficara a matutar foi a questão gramatical, porque sempre achei que os mistérios não se descobrem, explicam-se. Mas pronto, já bastou ter embirrado com a do "descoberta da vida extraterrestre está muito próximo" do mesmo jornal (entretanto retificado). Na imprensa portuguesa, dúvida é "mistério", falta de informação é "mistério", tudo é "mistério". Ná, sou um exagerado, não sou?

Antes de fechar a página espreito para a coluna lateral, a ver que mais destaques há por ali, na secção "Ciência". Coisas interessantes, mas não no sentido que eu esperava. A primeira peça é sobre um "misterioso anel de pedras". Ai, não, isto é uma página de Ciência, não é o Superinteressante. Deixa ver o próximo. Bolas, é sobre portugueses que "desvendam mistério com 80 anos". Eu quero lá saber disto, sou de História e procuro conhecimento, não mistérios. Ah está aqui um sobre coisas egípcias, boa. Suspiro, não acredito, mais outro, "Estará o Egito a esconder provas que desmentem mistério no túmulo de Tutankamón?" (ou seja, um duplo "mistério"). Já desanimado e com pouca esperança, resta-me espreitar o último da lista. Eu sabia, podia ter apostado: "Bióloga portuguesa desvenda mistério com mais de um século".

Na continuidade do post anterior: esta tentação para colocar "mistério" em tudo o que é tema e título não é decerto uma "cagadela de mosca ampliada"; o que é, não sei bem (daria um bom título, portanto).

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