Terça-feira, 13.03.12
Diogo Serras

O alívio que se sente relativamente à crise europeia não passa disso mesmo: alívio. O BCE retirou o espectro de uma falência sistémica do sistema financeiro de cima da mesa, pelo menos nos tempos mais próximos. A participação dos privados na reestruturação da dívida grega correu aparentemente sem sobressaltos de maior, mesmo com a activação das cláusulas de acção colectiva a ditarem a existência de um evento de crédito num país da zona euro.

Evitámos, portanto, o colapso da zona euro no curto-prazo. Hurrah. Poucos parecem, no entanto, preocupados com o facto de estas medidas não terem qualquer impacto nos problemas que continuam a existir, para além de comprarem tempo. Ou que o recente pacto fiscal, aprovado com pompa e circunstância, seja exactamente o contrário da necessária coordenação de políticas fiscais num espaço monetário comum e, como tal, contraproducente.

Já todos sabemos que a Grécia precisará de um terceiro pacote de ajuda internacional. E Portugal de um segundo. É cada vez mais claro que a recessão chegará durante 2012 aos países europeus que se declaram imunes a estes "problemas dos periféricos". E que a liquidez oferecida pelo BCE ao sistema financeiro não tem reflexo algum na vontade de concessão de crédito à economia, o que só aumenta os custos recessivos das unânimes políticas de austeridade. Já todos sabemos isto tudo. E, no entanto, ouvimos hoje van Rompuy (quem mais?) declarar que atingimos um ponto de viragem na Europa. Dado que continuamos a fazer o mesmo - comprar tempo e negar problemas - só pode estar a referir-se a uma volta de 360º.

Segunda-feira, 13.02.12
Diogo Serras
O parlamento grego aprovou ontem mais medidas de austeridade, condição imposta pelas instituições internacionais para desbloquear mais um pacote de ajuda. Quase dois anos depois do 1º pacote de ajuda à Grécia, temos uma economia em colapso, um clima de contestação social cada vez mais agressivo e uma dinâmica de dívida que não tem solução à vista. Nunca é demais repetir que a crise de dívida soberana europeia é uma consequência directa da crise financeira global de 2008. Principalmente porque a resposta europeia tem sido errada desde o início exactamente devido à incapacidade de identificar as verdadeiras causas. A facilidade com que se identificou a dívida pública como única culpada é, essencialmente, uma escolha ideológica, carecendo de racionalidade económica e levando a um agravar cada vez maior do problema. O recente pacto fiscal é apenas a última manifestação dessa irracionalidade. A parede está mesmo aí à frente, mesmo com as medidas extraordinárias do BCE. A realidade tende a ser pouco conivente com devaneios ideológicos e o óbvio desprezo demonstrado pelos mecanismos de decisão democráticos por parte das instituições europeias só agrava a situação. Repetindo-me, só a visão do abismo pode fazer a política europeia inverter este rumo suicida. É esperar que não seja tarde demais.
Sexta-feira, 10.02.12

Ouvem-se por aí alguns paralelismos entre a actuação do BCE agora e a actuação da Reserva Federal em 2008. É verdade que o balanço do BCE é hoje superior, em termos de % do PIB da zona euro ao que o balanço da Reserva Federal alguma vez foi em % do PIB dos EUA. E que o nível de apoio ao sistema bancário, entre as operações de financiamento a 3 anos e as novas regras de colaterais elegíveis para desconto junto do BCE anunciadas ontem (o modo como passaram despercebidas diz muito da iliteracia do jornalismo económico), tem sido muito mais que generoso.

Há, no entanto, uma diferença enorme. O apoio concedido pela Reserva Federal em 2008 aconteceu em simultâneo com uma política orçamental expansionista. O que, por sua vez, ao ter um impacto positivo em termos das perspectivas de crescimento da economia, permitiu que a liquidez concedida ao sistema financeiro fluísse para a economia real. Ora, o que se passa na zona euro é exactamente o contrário. Com uma política fiscal de austeridade generalizada a todos os países, a juntar-se ao processo de desalavancagem de empresas e famílias, as perspectivas económicas na Europa nem com óculos cor-de-rosa parecem positivas. O que quer dizer que o sistema financeiro, em vez de utilizar a liquidez concedida para financiar a economia, prefere depositá-la no próprio BCE, mesmo recebendo de juros 1/4 do que paga pelos empréstimos da mesma entidade.

Para a actuação do BCE ser mais do que um alívio de curto-prazo, e não apenas para o sistema financeiro, seria necessária uma coordenação efectiva entre política monetária e política fiscal na zona euro. Só que, infelizmente, no sentido contrário ao que o aplaudido "pacto fiscal" se propõe realizar.

Quinta-feira, 29.12.11
Diogo Serras

A crise de dívida soberana permite uma narrativa simples. Ninguém pode gastar mais do que aquilo que ganha durante um período prolongado de tempo. São inúmeras as pessoas, algumas delas supostamente bem informadas, que insistem no paralelo entre as contas de um Estado e o orçamento de uma família, por exemplo. O facto de este paralelo ser desadequado não o impede de ter grande aceitação; afinal, adoramos histórias que se enquadrem nos nossos preconceitos e não nos obriguem a pensar muito.

Claro que acreditar numa história simples vai desencadear soluções erradas. A teoria do empobrecimento enquadra-se que nem uma luva nesta narrativa. Permite dar aos sacrifícios a sensação de estarmos a fazer a coisa certa: é preciso ser poupadinho e os que pensam de forma diferente são uns estouvados.

Mas quando a decisão individual de poupar se transforma numa decisão colectiva de todos os agentes económicos (famílias, empresas, Estado), a história simples funciona exactamente ao contrário do que era suposto. O impacto no crescimento faz com que o nível de dívida, que é medido em relação à riqueza produzida no país, aumente. O que implica mais austeridade. O que implica mais recessão. E por aí fora.

O elogio de cada vez mais austeridade, como salvação de todos nós pecadores, tem tanto de apelo moral como de irracional. Quando estivermos mais pobres e mais endividados, a culpa há-de ser de outra coisa qualquer.

Quarta-feira, 07.12.11
Diogo Serras

Começa a ser consensual a expectativa que os países da Zona Euro vão, pelo menos, começar a pensar numa nova arquitectura europeia no final desta semana. Reconhecer que existe um problema sistémico é um passo importante. Afinal, andamos há ano e meio a ouvir que a culpa é dos gregos, portugueses e outros povos do Sul (nos quais toda a gente sabe que não se pode confiar e assim).

Reconhecer um problema, sendo um passo essencial, não é equivalente a encontrar uma solução. 10 anos depois de termos uma moeda única, os custos de esta deixar de existir são, mais do que incalculáveis, inimagináveis. Este facto não evita que continuemos a centrar a discussão em quem ganha e quem perde ou quem poupou e quem gastou, com uma profundidade equivalente à fábula que ouvíamos em miúdos sobre a formiga e a cigarra.

Qualquer solução que funcione num prazo alargado terá de ter em conta que um dos mecanismos tradicionais para a correcção de desequilíbrios macroeconómicos - as taxas de câmbio - continuará a estar ausente. Os "milagres" de perdas e ganhos de competitividade nos últimos 10 anos são, em grande parte, explicados pela ausência e não-substituição deliberada deste instrumento. Um mero reforço dos critérios e das sanções relativas ao pacto de estabilidade não terá um efeito corrector sobre estes desequilíbrios, tendendo mesmo no curto-prazo a agravá-los, caso a austeridade continue a ser assumida como um dogma e único remédio admissível para todos.

O problema é que o longo-prazo é longe demais para os problemas imediatos que temos em mãos. O Euro não tem meses para pôr em prática uma solução que lhe devolva a credibilidade. Isto acontece porque a gestão de uma crise no sector financeiro europeu é muito diferente da gestão de uma crise nas dívidas soberanas, essencialmente devido à muito menor maturidade das respectivas necessidades de refinanciamento (que são em 2012 maiores no sector financeiro do que no sector público).

A atitude autista do BCE, amplamente elogiada por tanta gente até há bem pouco tempo, terá de mudar de forma significativa nas próximas semanas. A alternativa é darmos um novo sentido à famosa frase de Lord Keynes, quando aplicada à Zona Euro: "no longo-prazo, estamos todos mortos".

Segunda-feira, 07.11.11
Diogo Serras

Estamos numa estrada para lugar nenhum. Que termina já ali, depois daquela curva. Olhar para a Grécia é ver Portugal dentro de seis meses. Como olhar para Itália é ver França já a seguir. O contágio não pára porque não só não estamos, enquanto zona euro e União Europeia, preparados para lidar com uma crise de confiança, como andámos este último ano e meio a fazer de conta que o problema era o comportamento irresponsável dos países do Sul e dos seus governos.

A austeridade - como disciplinadora moral dos preguiçosos do Sul - nunca foi uma solução. O facto de isto já não ser uma questão de opinião (basta olhar para a evolução recente de toda a economia europeia), deverá fazer pouco para demover quem tem uma visão do mundo baseada no preconceito. Os cortes radicais na despesa provocam uma recessão que implica ainda menor capacidade de pagar a dívida? É cortar mais. Sem castigo, não há redenção.

Uma efectiva reformulação dos tratados europeus, aprofundando a integração económica e concedendo ao BCE um papel efectivo de banco central, seria sempre algo difícil de fazer. Num contexto de crise, cuja natureza sistémica é negada por alguns dos principais países, a tarefa aproxima-se do impossível. Acresce que, enquanto não começamos a trabalhar no que importa, vamos assistindo a sucessivos ataques às instituições democraticamente eleitas nestes países como se fosse normal. Sensato, até. Itália pode bem vir a ser o acelerador de uma reacção em cadeia que leve ao desaparecimento da União Europeia. Quando quisermos inverter o rumo, e vamos querer, é esperar que não seja tarde de mais.

Segunda-feira, 24.10.11

"There is no way the member states of the eurozone's periphery can sustainably service their private and public debts, and adjust their economies at the same time."

 

excerto do artigo de hoje de Wolfgang Münchau no FT (link ainda não disponível).

Quinta-feira, 20.10.11
Diogo Serras

Já se percebeu que não é a sustentabilidade do estado social que está em causa para este governo. É a própria existência deste. A vontade de ir mais longe do que a troika, consumada na actual proposta de orçamento de estado para 2012 é clara nas escolhas que são feitas a este respeito. Estado mau, privado bom. Simples. Claro que esta ideia fixa é apresentada como inevitável. "Não há alternativa" é uma frase repetida à exaustão nas últimas semanas. Só mais austeridade pode gerar confiança, com a vantagem adicional de ser uma solução redentora. Tudo para expiar as nossas culpas. A nossa sociedade, depois de devidamente reeducada, renascerá livre de estado e crescerá cheia de confiança, numa curiosa reedição dos amanhãs que cantam. O pensamento mágico chegou há uns meses ao poder. O choque com a realidade virá já de seguida.


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