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A verdade da política de verdade

Manuela Ferreira Leita defende uma política de verdade, mas eu ainda não ouvi quase nada sobre a verdade da sua política. Passo a explicar. Nós só sabemos o que não Ferreira Leite quer: Sócrates. Parece imenso, tal tem sido o nível das efabulações em torno do primeiro ministro. Mas a substância da sua crítica é essencialmente uma denúncia. Concordo que "bota-abaixismo" é uma palavra horrível e algo juvenil, mas não deixa de ser adequada para descrever o essa posição. Por outro lado, a maioria das críticas dirigidas a Sócrates (e ao PS) não são justificadas pela sua alegada incompetência. O problema principal é que Sócrates está errado. Pior: é perigoso. Aqui entramos num filme de terror multi-temático: temos a claustrofobia democrática, o fascismo higiénico e a dívida; e também temos a versão Sócrates-é-um-mafioso-ladrão-fill-in-the-blanks. A oposição tende a pintar as coisas de negro: isto está terrível; e vai ficar pior. Que medo. Mas como Ferreira Leite ainda vai vivendo na realidade, foi modesta no negrume e ficou-se pela dívida. Mas a dívida é um mostro. A dívida, meu deus, a dívida é terrível e Sócrates está a levar Portugal à ruína. Porquê? Porque não é capaz de reconhecer a verdade das coisas: acabou a era do dinheiro barato e Portugal está endividado até ao tutano. Já vimos este filme. Portugal está de tanga, lembram-se? Aceitemos o diagnóstico, qual é a solução? Pois.

 

 O endividamento, como facto, é verdade, mas será a verdade? Ou melhor, o que fazer com tanta verdade? Pondo de parte a hipótese de auto-flagelação, o que nos resta? Será que Portugal tem de poupar mais? Baixar despesa? Baixar impostos para estimular a actividade económica? Numa recessão onde existe a ameaça de desemprego e deflação, nada disto parece fazer grande sentido. Será que Ferreira Leite acha — como alguns liberais — que esta crise é uma necessidade (purifica) e que as falências (por muitas que sejam) e o desemprego fazem parte do funcionamento "natural" de uma economia mercado. Será que Ferreira Leite irá optar pelo discurso liberal e prometer a redenção pelo mercado e pela iniciativa privada? Conhecendo Ferreira Leite (no sentido não-pacheco-pereirista da coisa), não se esperam grandes ousadias revolucionárias — porque o discurso liberal seria uma revolução. Ainda para mais quando, na situação actual, poucos parecem acreditar na ideia liberal de que os indivíduos e as empresas não produzem porque o estado não as deixa. Por muito que alguns liberais estejam plenamente convencidos que a culpa da crise é do estado, essa narrativa só convence os convertidos. E os portugueses ainda não se converteram a Hayek, nem, arrisco, alguma vez o farão. Não me parece que Ferreira Leite adopte o discurso liberal, nem por convicção nem por oportunidade, que não existe.

 

Não sendo uma revolucionária que promete libertar as forças vivas dos indivíduos, em que medida é que denunciar as políticas do PS diminui o endividamento e constitui algo que se assemelhe a um programa político? Sinceramente, não estou a ver. A "posição" de Ferreira Leite pode não aumentar o endividamento, mas não faz nada para o reduzir. Podemos evitar o desastre, mas continuamos péssimos. Parar, repensar e adiar, que eu saiba, não resolvem problemas, porque não são acções nem assumem qualquer tipo de responsabilidade perante o mundo. Enquanto que o dinheiro caro é uma variável que não controlamos, perante a qual somos necessariamente passivos, o endividamento é um problema que carece de uma resposta política afirmativa. Só há duas soluções para o endividamento: crescimento ou diminuição da despesa, isto é, medidas expansionistas ou pró-cíclicas (ou potencialmente revolucionárias, se formos liberais). De uma maneira ou de outra, algo tem de ser feito. Dado que Ferreira Leite não é liberal, ou seja, não acha que desmantelar o estado assegura, só por si, crescimento futuro, e tendo em conta que, segundo a líder do PSD, não há dinheiro para nada, tenho alguma dificuldade em perceber o que é que pretende fazer.

 

Como sabemos que não há calhamaços para ninguém, suponho que nos resta...acreditar. Pacheco Pereira tenta desesperadamente convencer-nos a confiar na boa natureza de Ferreira Leite. Mas isso é uma exortação à piedade e não é uma razão política, sobretudo quando ainda não se está sob o efeito encantatório da "seriedade". A verdade de Ferreira Leite até pode descrever a realidade correctamente, mas não é uma forma de agir, pois é apenas uma verdade contabilística estatica. A contabilidade e as finanças podem ser ferramentas úteis, pois permitem-nos ajudar a compreender a nossa situação, mas são manifestamente insuficientes. Em política não basta dizer como as coisas são. Apesar do que nos tenta fazer crer Pacheco Pereira, um político tem forçosamente de mostrar que, se for chamado a exercer o poder, tem a capacidade e o discernimento para agir, para responder à realidade, transformando-a. Isto não é, como diz o Henrique Raposo, substituir a realidade pela vontade, porque estas, em rigor, não são separáveis Trata-se de recordar algo que sempre caracterizou a política: a política é uma forma de acção — situada, certamente, mas ainda assim uma acção. Sobre isto, continuamos na mesma — sem saber nada para além de que assim não. E, como num círculo, eis que voltamos a José Régio. E ao manifesto dos 28, curiosamente

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