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Armadilhas

Paul Samuelson criticou numa recente entrevista à Atlantic o modo como evoluíu nas últimas décadas o ensino da macroeconomia.

Fez nessa ocasião notar que se tornou corrente os manuais não mencionarem sequer a "armadilha da liquidez", e referiu que uma edição do de Greg Mankiw (possivelmente o mais usado na actualidade) que consultou não incluía sequer a expressão no seu índice temático.

Mankiw, que anda um bocado picado por causa deste tipo de críticas, respondeu-lhe que, nas edições mais recentes (a 5ª e a 6ª)do seu livro o tema é abordado, e que, na última, até figura no tal índice. Logo, a observação de Samuelson não é inteiramente correcta.

A questão mais importante, porém, não é essa, mas antes como foi possível que um conceito central da teoria keynesiana fosse retirado do cânone ensinado a gerações de economistas desde os anos 80 para cá. Note-se que Mankiw, um keynesiano politicamente alinhado com os republicanos, nem sequer é um dos casos mais flagrantes de viés ideológico.

A história da evolução da teoria económica nas últimas décadas foi a do progressivo abandono do keynesianismo e reversão da ciência ao estado em que ela se encontrava no tempo de Pigou. No fundo, trata-se de questionar a autonomia e necessidade da macroeconomia e de considerar que só a teoria microeconómica é boa ciência da economia. Isso seria perfeitamente aceitável, claro está, se as ideias de Keynes tivessem sido substituídas por algo melhor.

Em vez disso, o seu lugar foi tomado pela teoria das "expectativas racionais", a qual sustenta que, na ausência de interferência estatal, os mercados se ajustam de forma perfeita e rápida em resposta a choques externos de qualquer tipo. Por outras palavras, o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível. Logo, as crises têm necessariamente origem fora do sistema económico, nunca dentro dele.

A coisa mais extraordinária é que, embora destituída de fundamentação empírica, essa reformulação da teoria clássica foi prontamente adoptada pela academia um pouco por todo o Mundo e imposta a gerações de estudantes como única e indiscutível verdade.

Quem leu a Teoria Geral, sabe que a crítica de Keynes se dirigiu antes de mais à lei de Say, segundo a qual, visto que a oferta gera a sua própria procura, os mercados tendem sempre naturalmente a ajustar-se. A principal contribuição de Keynes consistiu em demonstrar a falácia desse raciocínio, demonstração em que, precisamente, desempenha um papel central a possibilidade da armadilha da liquidez, isto é, de uma situação em que, face ao risco percebido, a preferência das famílias e das empresas pela detenção de dinheiro líquido ameaça paralizar a economia.

Foi o que sucedeu na Grande Depressão e é o que pode voltar a suceder se aqueles a quem cabe a condução da política económica deixarem cegar-se por preconceitos ideológicos do género daqueles que assentaram arraiais nas universidades.

Por isso, se alguém invocar a sua condição de professor de economista para nos dar conselhos, verifiquem primeiro que tipo de coisas andou ele a ensinar aos seus alunos nos últimos anos.
 

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