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jugular

As caixas de comentários estão infestadas de doutores

A minha catilinária da passada 2ª feira sobre os rumos do ensino da macroeconomia incluía a dada altura a seguinte passagem:

“[O lugar do keynesianismo] foi tomado pela teoria das "expectativas racionais", a qual sustenta que, na ausência de interferência estatal, os mercados se ajustam de forma perfeita e rápida em resposta a choques externos de qualquer tipo. Por outras palavras, o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível.”
O Luís Aguiar-Conraria, um prof que às vezes faz o favor de corrigir os meus ensaios literários, comentou assim esta passagem:
Isto que escreve a respeito da teoria das expectativas racionais é um total disparate, factualmente errado e sem ponta por onde se lhe pegue. JPC, desculpe-me a franqueza.”
Confesso que não percebi logo onde o Luís queria chegar. Pedi-lhe que me esclarecesse, mas, entretanto, servi-me do argumento de autoridade que tinha à mão, citando uma entrevista recente do Paul Samuelson, de resto linkada no meu post, contendo um “total disparate” que não me parecia muito diferente do meu:
"But anyway. The craze that really succeeded the Keynesian policy craze was not the monetarist, Friedman view, but the [Robert] Lucas and [Thomas] Sargent new-classical view. And this particular group just said, in effect, that the system will self regulate because the market is all a big rational system."
Resposta do Luís:
O que ele diz é completamente diferente do que dizes. Ele fala de um determinado conjunto de modelos que usam expectativas racionais. E se tal é verdade para esses modelos a que se refere Samuelson (o que em si mesmo é discutível, mas já não direi que é um disparate), já não é verdade para um conjunto de outros modelos que também usam expectativas racionais. Portanto, quando escreves que de acordo com as expectativas racionais “o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível” é, factualmente, falso.”
Muito bem, julgo que percebi o ponto. O que o Luís me recorda é que certos modelos que incorporam expectativas racionais produzem os resultados que eu menciono, mas que isso não sucede com outros. Ora, embora eu não conhecesse os modelos que ele citou, não ignorava, por exemplo, que o John Taylor propôs há muito tempo um modelo keynesiano que incorpora expectativas racionais.
Isto deve ser do conhecimento de um punhado de pessoas em Portugal e logo uma delas havia de ler blogues, e ainda por cima o Jugular.
De maneira que, para corrigir a falha, talvez eu pudesse substituir a passagem controversa por algo do género:
“[O lugar do keynesianismo] foi tomado por certos modelos baseados em "expectativas racionais", segundo os quais, na ausência de interferência estatal, os mercados se ajustam de forma perfeita e rápida em resposta a choques externos de qualquer tipo. Por outras palavras, o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível.”
Parece-te bem assim, Luís? Enfim, não te peço que concordes, mas apenas que não sintas aqui alguma ofensa às expectativas racionais.
Finalizemos, então, caso ainda esteja alguém acordado. E o que eu te digo, Luís, é que, embora te aprecie muito, quero que te vás lixar: porque isto não é uma prova de doutoramento, porque tu percebeste muito bem o que eu queria dizer e, finalmente, porque eu não sou um político.

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