com certeza que alguns
chegada de férias longe, oiço as declarações de cavaco silva em querença pela primeira vez. a joão já as qualificou com justeza, mas há algo que me parece ainda de frisar. o presidente da república, instado a comentar uma história surgida no público há duas semanas, que cita como fonte um ou mais dos seus assessores e que acusava o governo de espiar a presidência, resolve, após longo silêncio, atribuir a história àqueles ('com certeza que alguns') que desejariam 'afastar as atenções, porque o desemprego é elevado, porque Portugal tem problemas de competitividade, porque existem problemas de insegurança'.
ou seja, das duas uma: ou o presidente da república acusa o jornal público de ter forjado a história para favorecer 'esses' que desejam afastar as atenções, ou acusa um ou mais dos seus assessores de estarem a fazer isso mesmo.
como não há notícia de qualquer mudança no pessoal da presidência, temos de concluir que cavaco está a acusar o público de favorecer quem gostaria de desviar as atenções desses problemas. como quem poderia desejar o desviar das atenções desses problemas só poderia, por exclusão de partes -- temos a oposição toda aos gritos a dizer que esses problemas são os maiores do mundo e arredores, portanto não poderá ser suspeita de não querer que se fale deles --, ser o governo, então cavaco está não só a acusar o governo de querer esconder esses problemas (o que é muito coerente com a sua afirmação de estar 'acima dos partidos políticos' e de superioridade em relação à luta partidária e sobretudo muito leal e límpido pela forma como é feito), como a dizer que o público está a ajudar o governo nesse desidério.
com certeza que alguns vão achar normal que o público e o seu director não reajam a estas declarações como um jornal que tem confiança nos seus jornalistas e nas suas fontes deveria reagir a uma acusação desta monta. com certeza que alguns acham que brincar aos watergates e às teorias da conspiração faz parte da dignidade constitucional do cargo de presidente.
numa coisa podemos crer em cavaco, porém: quando diz, no fim destas declarações, falando de si na terceira pessoa, 'ele não vai desviar-se daí'.
adenda: depois de escrever isto, dei com este artigo do pedro marques lopes.

