Re:
O Nuno Ramos de Almeida ficou escandalizado por eu ter dito que a luta de classes e as nacionalizações não servem os interesses da esquerda. Não sei se o Nuno sabe, mas o conceito de luta de classes pressupõe a validade de um conjunto de conceitos e afirmações — relação de expropriação entre capital e trabalho, taxa decrescente do lucro, empobrecimento do proletariado, etc. — e culmina necessariamente na revolução e na abolição da propriedade privada, isto é, pressupõe que o materialismo dialéctico, apesar da história dos últimos 150 anos, continua de boa saúde. Está enganado, e os autores que o Nuno tanto admira — Zizek, Badiou, Ranciere — explicam porquê. Por alguma razão, num certo momento da história tornou-se necessário complementar Marx com Freud e Lacan,. Por alguma razão, autores como Derrida e Foucault viraram-se para filósofos como Nietzsche e Heidegger. A razão é simples: as coordenadas revolucionárias definidas por Marx perderam actualidade. A partir do momento em que "a superação do capitalismo" deixa de fazer sentido — eu acho que deixou, o Nuno parece que não — o conceito de luta de classes tem de ser revisto, senão mesmo abandonado.
A esquerda com a qual me identifico acha que uma economia de mercado — se devidamente regulada, com uma forte progressividade fiscal e investimento em serviços públicos de qualidade — permite responder a grande parte das aspirações da esquerda. O Nuno acha que eu endoideci. No fundo, o Nuno ficou escandalizado por alguém se dizer de esquerda não rever naquilo que o Nuno entende dever ser a Esquerda — ontem, hoje, amanhã, sempre. Não me surpreende. Há quem não aprenda. Há quem se recuse terminantemente a não aprender. Em nome do ideal, dizem-nos. Se o Nuno fosse verdadeiramente Marxista, perceberia facilmente que qualquer filosofia da história não pode olhar ignorar o século XX. Um Marxista, hoje, tem a obrigação de conferir um sentido à experiência do socialismo real e perceber o que correu mal e porquê. O Nuno recusa este caminho, olha para a história de forma selectiva e só vislumbra o fim do neoliberalismo. E é por isso que ele se tornou num utópico, no sentido pejorativo que Marx deu a esse termo. Entretanto, entrega-se à actividade de desqualificar todos aqueles que se afastam da pureza do seu ideal. O Marxismo do Nuno é um Marxismo não dialectico, isto é, é um Marxismo idealista, religioso — um oximoro. A posição do Nuno já foi criticada pelo próprio Marx, num livrinho intitulado A Ideologia Alemã. A todos aqueles que se dizem de esquerda — da Esquerda a sério — recomendo a leitura deste clássico.
nota: tinha escrito Idealismo Alemão e não Ideologia Alemã. Fica a correcção.

