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jugular

mas pronto

Inhambane, Moçambique, 1998. Na rádio,  um noticiário dá conta de uma carga policial no final de um jogo de futebol. Não dá para perceber exactamente por que motivo a polícia carregou, mas os testemunhos recolhidos em directo certificam a existência de vítimas revoltadas. Uma dessas pessoas, um homem, grita: “Bateram-me! Agrediram-me! Magoaram-me! E porquê? Porquê? Eu não fiz nada, estava aqui a ver o jogo! Isso é uma injustiça, isso não pode acontecer!”

 

O tom é aflito, queixoso, o ritmo torrencial. Após uma curtíssima pausa para respirar, porém, a voz regressa, pausada, quase sorridente: “Mas pronto, azar de quem não fica em casa”.

 


Entre os ouvintes, a conclusão desencadeia uma gargalhada e um maravilhamento que dura até hoje. Qualquer coisa de surreal, de nonsense no contraste entre o início e o final da intervenção, certo; mas também uma espécie muito peculiar de sabedoria, um estoicismo instantâneo, estrutural, que paradoxalmente se confunde com optimismo, com uma resoluta vontade de não soçobrar perante os infortúnios, de desconsiderar as chatices, de sopesar aquilo que nos pode afectar, aquilo que deve mobilizar as nossas energias.

 

Ainda que a revolta e a dor daquele moçambicano que acabara de ser agredido aparentemente sem qualquer motivo razoável por aqueles que têm como missão defendê-lo de qualquer violência surgisse em absoluto justificada quer a ele quer a quem o ouvia, ele decidiu, ainda no calor da primeira reacção, não lhes dar demasiada importância. É claro que isto pode ser entendido como uma atitude resignada, pré-democrática, de quem não está ciente dos seus direitos e deveres enquanto cidadão e que prefere “não arranjar problemas”. É possível que fosse exactamente isso e deva ser descodificado dessa forma, iluminando um certo pendor amorfo existente nas sociedades muito tempo submetidas a regimes autoritários.

 

Mas o sentido de humor com que a intervenção termina não permite ainda assim remetê-la completa e definitivamente para o saco das tristes consequências do medo e da abulia. Não: aquele homem decidiu que o que lhe tinha sucedido não era suficiente para lhe roubar a boa disposição e que o melhor era fazer uma piada: se tivesse ficado em casa em vez de ir assistir ao jogo de certeza que aquilo não lhe sucederia, portanto de algum modo assumia, com humor, a sua quota-parte de responsabilidade no ocorrido, mesmo que essa responsabilidade se resumisse a estar no sítio errado no momento errado.

 

Há neste encolher de ombros e bonomia uma admirável capacidade de passar por cima, de resumir a indignação ao estritamente necessário, sem deixar que nos envenene os dias. Ser capaz de como esse memorável adepto do futebol de Inhambane separar aquilo que tem remédio do que não tem, não conceder mais esforço e maçada e irritação ao que sucede que na medida do seu exacto merecimento, não investir mais empenho no que nos agride que aquele que é útil. Ser capaz, senão de  perdoar e esquecer, pelo menos de relevar e ignorar. Conseguir essa insuperável grandeza, a de saber que muito pouca coisa tem realmente importância e muito poucos agravos são dignos de mais que rodapé na nossa história. Saber dizer: mas pronto. E avançar, sem perder mais tempo. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de domingo passado)

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