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Os julgamentos de Judas

 A inenarrante Bíblia tem dois finais para o traidor mais famoso da História, que, de acordo com Mateus 27:5, se suicida, «E Judas, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar», ou tem um fim acidental um pouco mais macabro, agora no livro dos Actos 1:18: «Depois tombando para frente arrebentou ao meio e todas as vísceras se derramaram».

 

Como refere um artigo da New Yorker, «Betrayal: Should we hate Judas Iscariot?», há cerca de 2 mil anos que Judas é julgado e condenado sem apelo nem agravo pelo seu crime «bíblico». A situação começou a alterar-se com a descoberta do Codex Tchacos, que contém, entre outros textos, o Evangelho de Judas, um dos muitos evangelhos apócrifos*,  mencionado por antigos autores eclesi­ásticos, por exemplo Ireneu, no seu tratado Contra as heresias, (1, 31, 1), Epifânio ou Teodoreto de Ciro. A National Geographic, que se envolveu no restauro e tradução do Codex, tem um site dedicado ao Evangelho de Judas muito bem documentado (e disponibliza todo o texto) que permite perceber esta alteração no julgamento popular de Judas.

 

A controvérsia em torno desta personagem, fictícia para uns, o discípulo modelo e dilecto do Evangelho de Judas para outros ou a quintessência bíblica da traição, não terminou com a publicação do texto. É assim totalmente irónico que o autor Stephen Adly Guirgis tenha sido obrigado a dirimir nos tribunais o direito àquilo que é uma prática milenar das religiões do Livro: o julgamento de Judas. Outro autor, Guy Michaels pretendia que a peça The Last Days of Judas Iscariot de Guirgis, dirigida por Philip Seymour Hoffman, era um plágio do seu livro Judas on Appeal.  No mês passado, um tribunal federal decretou que Michaels não detinha o copyright da história. Ou seja, os juizes que o constituem consideraram que algumas histórias são património de todos.

 

Aparentemente há quem considere que o julgamento de outras práticas religiosas  e  a reescrita, agora da História e não de estórias, é seu património exclusivo e inalienável. Pelo menos é o que transparece da homilia com que Bento XVI deu início às hostilidades no Sínodo dos Bispos Africanos.

 

Achei divertidissima a parte que refere a urgência da evangelização católica para fazer face às duas «doenças» plantadas pelo primeiro mundo  no «pulmão de espiritualidade» (B16 dixit)  do Mundo. Mas as campanhias do meu contador de ironia entraram em êxtase ao ler que o Papa da Igreja inicialmente só de Roma, depois da habitual execração do ateísmo, a patologia mais perigosa, ululou contra o plágio por outras denominações da obra da sua igreja em África. Mais concretamente, Bento XVI considerou «indiscutível o facto de o chamado 'primeiro' mundo ter exportado, e continuar a exportar resíduos tóxicos espirituais, que contagiam as populações de outros continentes, em especial as populações africanas». Um momento de fina ironia que certamente se perderá para muitos...

 

*Os evangelhos ditos apócrifos referem todos os textos do cristianismo primitivo rejeitados no concílio de Niceia (hoje Iznik, na Anatólia, Turquia), reunido em 325 por iniciativa do imperador Constantino. Os textos repudiados, cerca de trinta evangelhos,  foram considerados inconciliáveis com a doutrina política pretendida por Constantino,que queria unir pela religião um Império Romano em decadência. De facto, para Constantino cumprir as suas ambições hegemónicas era necessário acabar com as grandes controvérsias doutrinais da igreja e estabelecer claramente a autoridade de Roma em questões de fé.

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