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kimba

Era ao domingo à tarde. Não sei que idade tinha, mas creio que cinco ou seis, talvez menos. Não perdíamos um episódio, eu e o meu primo. Se um de nós estava em casa e o outro na rua quando ia começar, o que estava em casa ia à rua e gritava, muito alto, como quem chamava um cão: Kiiiiiiiimbáááááá. Quando nenhum de nós estava, era a minha mãe ou a minha tia que vinham à janela gritar por nós. Mas não gritavam da mesma maneira. Era mais: “Meninos, o Kimba”. Se estivéssemos longe, na vinha, ou no pomar das pereiras, com os cães em explorações e aventuras, podíamos nem ouvir.

 

Aquele “Kiiiimmmbááááá” sim, era fantástico, épico, empolgante. Fazia parte do ritual, como o tropel pela casa fora, corredor adentro, até à sala, frente à TV. Nunca mais nenhum desenho animado como aquele, o primeiro de que me lembro e, sei-o agora, o primeiro feito no Japão, em 1965 (e de tantos que ainda vi na infância e pré-adolescência). Era a história de um leãozinho branco que sabia falar com as pessoas e queria conciliar os animais da selva com os humanos. Kimba era uma espécie de obreiro de um processo de paz, um negociador e um diplomata a lutar contra os maus instintos e as vontades de poder (personificados pelo leão velho mau e zarolho que o queria matar e ficar rei da selva), de grandes olhos azuis e voz meiga, branco de neve e irresistível. Amávamos o Kimba com paixão e desvelo e quando a série acabou (não me recordo minimamente como, mas estou certa de que bem) chorámos baba e ranho pela injustiça.

 

Toda a vida – até hoje, confesso, mesmo se há muito deixei de ver desenhos animados – esperei que a RTP repusesse o Kimba. Nunca sucedeu. Passou a insuportável Heidi, o tonto do Vicky, o deplorável Marco (e as suas canções inenarráveis que ainda hoje nos deliciam de tão ridículas) e mais quinhentas “animes” (nome japonês dos filmes de animação) mas o leãozinho nunca voltou. Há poucos dias, depois de uma conversa no twitter sobre a série, uma amiga enviou-me o genérico original da versão americana de 1966, a que passou em Portugal. As imagens do leãozinho a correr pela selva e savana com os seus amigos ainda mantêm o sortilégio de me mesmerizar – como quando ao fim daquela correria escada acima e corredor fora me mandava para o chão e ficava muito quieta, quase sustendo a respiração, a ver o episódio, para no fim repetir, como sempre “oh, acabou”.

 

Acabou, pois. Pode ter voltado a passar sem eu dar por isso, claro – em 1994 foi feita uma nova dobragem da versão americana – e posso talvez comprar o DVD, lançado em 2005 e bestseller nos EUA, da série de 1966. Posso até ver a nova série, iniciada o mês passado no Japão, na Fuji TV, ou a anterior nova versão, de 1989. Ou posso ir ver o Rei Leão e, como tantos outros – houve um protesto massivo de fãs e dezenas de artigos nos jornais, além de um abaixo-assinado de mais de mil autores de manga e anime japoneses a exigir à Disney que admitisse plágio – reconhecer o meu Kimba na história. Mas melhor nunca mais sequer tentar ver o Kimba além dos breves momentos de um genérico. Como Os Pequenos Vagabundos ou o Lagardère (cujo genérico elegante e básico encontrei também no Youtube), as minhas outras duas melhores recordações de infância da TV, o Kimba deve ser deixado como está, onde está. Há lugares onde, mesmo que existam ainda, é impossível regressar. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 11 de outubro).

 

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