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Plantas (pouco) angélicas

Durante as grandes epidemias de peste na Europa surgiu (mais) uma lenda segundo a qual o arcanjo Gabriel indicara a angélica, que começa a florescer na altura da festa em sua honra, como panaceia para a maleita. Monges e frades começaram a cultivá-la nos seus conventos, para com ela preparar remédios santos contra a epidemia, a maior parte dos quais na forma de licor alcoólico. Estas receitas medievais perpetuam-se nos licores Benedictine e Chartreuse, em que se utiliza a planta a que Paracelso durante a epidemia de peste em Milão de 1510 chamou «erva medicinal maravilhosa» (e, pelo menos no Benedictine, outra planta santa mas um pouco mais espinhosa).
 

A angélica, Angelica archangelicum, é uma umbelífera, uma família de plantas que nos fornece condimentos como a salsa, coentros, aipo, aneto ou endro, cuminhos, o já referido anis ou erva doce, funcho, etc., usados desde tempos imemoriais para tratar uma série de aflições. Para além da angélica, muitas destas plantas aromáticas estão associadas a lendas curiosas. Por exemplo na Grécia antiga, acreditava-se que teria sido usado por Prometeu para roubar o fogo dos deuses um caule do funcho louvado por Pitágoras . Designado por μάραθον (marathon), está ainda na origem do nome Maratona, o local da batalha travada em 490 a.C. entre gregos e persas. Nos Açores e na Madeira é espontânea uma variante de caules mais suculentos e doces e com menor concentração de óleos essenciais, designada F. vulgare azoricum. A sua abundância na ilha da Madeira está aliás na origem do nome da capital, o Funchal.

 

Os compostos que dão aroma e sabor às umbelíferas são na sua maioria terpenos: sesquiterpenos (bisabolol, bisaboleno, beta-cariofileno, p.e.), monoterpenos como os felandrenos e pinenos ou monoterpenos fenólicos como o estragol - presente na salsa e outras umbelíferas mas também em labiadas como o manjericão ou a sálvia - o eugenol ou o anetol. Existem nestas plantas muitos outros compostos químicos, entre eles flavonóides, lactonas macrocíclicas, coumarinas e, em grande quantidade, compostos de características deveras interessantes, as furanocoumarinas ou psoralenos.
 

Os psoralenos têm o efeito de nos sensibilizar à luz do sol, o que pode ser útil no tratamento de algumas doenças da pele como a psoríase mas tem a contra-indicação de ser mais perigoso em termos de cancro de pele do que uma exposição a nu à radiação ultravioleta. Um banho de sol com psoralenos torna-nos assim realmente bronzeados e, nos idos da década de 50, um americano de nome John Howard Griffin beneficiou deste efeito para se tornar tão bronzeado que passou por negro. Griffin escreveu um livro fundamental no entendimento das tensões étnicas nos Estados Unidos. «Black Like Me» relata as suas experiências coloridas pelos psoralenos no sul profundo, na região conhecida como cinturão bíblico (e na época mais conhecida por coisas como o Ku Klux Klan e afins que pela postura pró-violação dos seus senadores).

O 8-MOP que bronzeou Griffin, utilizado para tratar uma série de problemas cutâneos como psoríase ou eczemas, é obtido de umbelíferas, da Heracleum candicans e da Ammi majus ou cicuta negra. Esta última, muito abundante na região do Nilo, era utilizada pelos antigos egipcios há mais de 4000 anos para tratar uma afecção da pele conhecida por vitiligo, a perda da pigmentação natural da pele por vezes designada lepra branca. Ainda hoje as ervanárias egipcias vendem Aatrillal, um pó amarelado obtido das sementes de Ammi majus para tratar dermatites sortidas.

A hiperpigmentação, propositada ou acidental, não é a única consequência do contacto com estes compostos químicos. Podem dar origem a fitofotodermatites, isto é, reacções fototóxicas como eritemas e erupções acompanhadas de pigmentação excessiva da pele responsáveis pelo aumento de consultas de dermatologia no Verão. Em pessoas particularmente sensíveis, as perturbações podem ser acompanhadas de intenso prurido, febre e dores de cabeça. Os principais culpados por estas perturbações cutâneas são normalmente umbelíferas, por exemplo, para além das já referidas, cenoura-brava, erva-cicutária, canabrás e pastinaga-urticante.

O aipo, cujo consumo crú entrou recentemente na moda, pode ser outro dos culpados. O Apium graveolens contém 10-100 mg de psoralenos por g de peso húmido da planta mas pode conter 320 mg/g se infectado com o fungo Sclerotina sclerotium (podridão cor de rosa). É necessário apenas 1mg de 8-MOP por centímetro quadrado de pele para produzir bolhas após uma exposição ao sol correspondente a 2.4 J/cm2 (menos de 10 minutos no Verão). Assim, na altura da colheita, é normal os trabalhadores apresentarem dermatites nos dedos, mãos e antebraços devido ao contacto do aipo com a pele mas o mesmo pode acontecer a um consumidor mais frequente deste vegetal.

Em 1897, JC White descrevia dermatites originadas pelo contacto com a angélica nas suas «Notes on dermatitis venenata» na revista Boston Med Surg J, o mesmo que apontava o relatório da Dermatological Society of Great Britain and Ireland escrito por JJ Stowers mas nenhum dos autores reconhecia a necessidade de luz para o aparecimento dos sintomas. Os responsáveis pela condição são os psoralenos angelicina e arcangelicina da angélica mas reacções similares foram encontradas com outras umbelíferas e outros psoralenos.

Pouco depois, em 1916, um cientista alemão de seu nome Freund observou lesões da pele em mulheres a que chamou lesões berloque (artigo em formato pdf que descreve um caso de uma lesão de berloque que foi confundida com violência infantil). Freund atribuiu estas lesões ao uso de água de colónia contendo óleo de bergamota embora não se tenha apercebido da indução fotoquímica das mesmas.

De facto, os psoralenos não se encontram na natureza apenas em umbelíferas. O efeito fototóxico do óleo de bergamota é devido ao 5-MOP - a bergamota (e outros citrinos, como a lima, são ricos em psoralenos) contém entre 0.3 e 0.4% deste psoraleno, igualmente chamado bergapteno. Com o advento do óleo de bergamota de síntese, este componente quasi indispensável da indústria da perfumaria permite que nos perfumemos sem problemas nem manchas desagradáveis. Isto é, os que não dispensam produtos «naturais» e prefiram à fragrância de síntese o óleo natural, muito popular também em «aromaterapia», necessitam acautelar a exposição ao sol.

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