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Blasfémia outra vez na ribalta

Há meses foi introduzida na (República da)  Irlanda uma lei da blasfémia que permite, entre outras aberrações, que a Garda Siochana (a polícia irlandesa) confisque o que lhe parecer «blasfemo» e invada em altura «razoável», com uso de força «razoável», domicílios ou outros sobre os quais existam  suspeições «razoáveis»  de conterem material blasfemo.

 

Na Irlanda do Norte, pelo contrário, discute-se agora a abolição da anacrónica lei da blasfémia vigente no território.  Sem qualquer surpresa, a proposta de Lord Lester encontra uma veemente oposição por parte de vários grupos cristãos.

 

O grupo  Christian Concern for Our Nation, por exemplo, considera «completamente inaceitável que a Câmara dos Lordes tome uma decisão que irá afectar a cultura religiosa da Irlanda do Norte». Já o Christian Institute, provavelmente sem saber que não deve fazer uma leitura literal da Bíblia, recorre quer ao Novo quer ao Antigo Testamento para explicar que um dos mandamentos divinos é a sacralidade do nome do senhor e que este nome deve estar acima de tudo. Usando o 3º mandamento e uma das epístolas paulinas (não aquela do véu... essa não deve ser tomada literalmente), o grupo explica que as leis da blasfémia não são necessariamente para ser aplicadas mas que são uma declaração de princípios, que ressalta o facto de o estado inglês ser um estado confessional em que há uma relação muito especial entre religião e estado.

  

Mas se em Inglaterra os cristãos ululam contra os malvados dos secularistas que querem acabar com a lei da blasfémia, noutros países, naqueles em que são outras religiões que têm os privilégios estatais, a posição é exactamente a inversa.

 

Por exemplo, há bem pouco tempo Tina Lambert,directora do Christian Solidarity Worldwide considerou «escandalosa» a resolução da ONU em relação à difamação da religião. Lambert afirmou que «In seeking to protect ‘religion’ from defamation it is clear that existing international human rights protections will be undermined, specifically freedom of religion and freedom of expression».

 

Há dias, outro preocupado cristão afirmou que a resolução daria origem , horror dos horrores, a uma lei da blasfémia a nível global. E isto seria muito perigoso porque, como referiu, «Although the ‘defamation’ resolutions purport to protect religions generally, the only religion and religious adherents that are specifically mentioned are Islam and Muslims. Aside from Islam, the resolutions do not specify which religions are deserving of protection, or explain how or by whom this would be determined.»

 

Assim, grupos cristãos e os grupos laicos de defesa dos direitos humanos execrados noutras paragens aliaram-se para combater esta lei da blasfémia global que irá novamente ser apreciada dentro de cerca de um mês. Ou seja, parece que os cristãos consideram que há leis da blasfémia «boas», aquelas biblicamente ordenadas que protegem unica e exclusivamente o cristianismo. Todas as restantes são atentados às liberdades de expressão e religião. Estas e outras dualidades de critérios são mistérios da fé que me ultrapassam...

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