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A propósito de estudos

A Associação Americana de Psicologia criou, em 2006, um grupo de trabalho cujo objectivo foi a revisão sistemática da literatura sobre aborto e saúde mental desde 1989 (data da última revisão). O relatório foi ontem publicado e pode ser consultado aqui.

A bem dizer, as conclusões não me surpreendem…

“Enquanto psiquiatra, sempre me bati pela não psiquiatrização da vida quotidiana. Defendo esta minha posição por duas razões principais. Primeiro, porque me parece que a normalidade é, felizmente, suficientemente lata para comportar um mundo de diferenças e, em segundo lugar, mas não menos importante, porque a doença mental é profundamente disruptiva, com consequências para o próprio e para terceiros, pelo que a decisão diagnóstica se deve revestir do maior rigor possível. Além disso, quero continuar a poder reagir, adequada e saudavelmente, com tristeza, alegria, raiva, irritação a diferentes acontecimentos da minha vida, sem que isso determine o diagnóstico de perturbação depressiva, bipolar, do controlo dos impulsos ou uma outra qualquer perturbação não devidamente fundamentada em critérios médicos.

(…)

Que o aborto é um acontecimento de vida importante e complexo, passível de alterar o funcionamento cognitivo e emocional da mulher e determinar sofrimento psicológico, é obviamente verdade, sendo esse sofrimento particularmente intenso na altura de ponderar a decisão a tomar. Mas também não minto se afirmar que é, em simultâneo e para muitas mulheres, fonte de alívio, de eutimia e de normalização da reactividade emocional. No folheto que é entregue a qualquer mulher que pretenda fazer um aborto na Grã-Bretanha, cuja responsabilidade é do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, o equivalente ao Colégio de Obstetrícia e Ginecologia da Ordem dos Médicos em Portugal, pode ler-se “A maneira como irá reagir dependerá das circunstâncias do seu aborto, das razões que a levam a fazê-lo e de quão segura se sente da sua decisão. Pode sentir alívio, tristeza, ou uma mistura de ambos”. Anota também aquela organização “alguns estudos sugerem que as mulheres que abortaram podem estar mais vulneráveis ao aparecimento de doenças psiquiátricas ou risco de comportamentos auto-lesivos, quando comparadas com mulheres da mesma idade que não abortaram. Contudo, não há nenhuma evidência que estes problemas sejam realmente causados pelo aborto; com frequência desenvolvem-se na continuação de problemas previamente existentes na vida da mulher”.

Como seria de esperar, e porque a decisão de abortar é um processo complexo, a presença de um conjunto de sentimentos negativos inespecíficos, como a tristeza e a culpa, após uma IVG é comum, mas são transitórios e não configuram um diagnóstico psiquiátrico.”

(excerto de um texto que “postei” no blogue dos Médicos Pela Escolha em 2007)

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