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Embrace your inner fish

O fóssil de 15 centímetros do Yanoconodon allini mostra a formação do ouvido médio dos mamíferos a partir da mandíbula dos répteis

 

Nos comentários do último «Esta gente passa-se big time», um dos nossos comentadores mais devoto debita pérola de racocínio atrás de pérola redondissima de raciocínio para «explicar» que o criacionismo e o evolucionismo deveriam ser ensinados a par nas aulas de ciência.

 

O referido Pinto, advogado do deus-das-lacunas, aquele que  agracia o vale da nossa ignorância colectiva, pretende que «Os evolucionistas desesperados por não poder validar as hipóteses (imaginativas e delirantes)» inventam provas para sustentar a sua tese. E dá exemplos da «falsidade» da teoria da evolução, recolhidos numa página de um acéfalo e ignorante charlatão, ou antes clarividente ocultista,  «mestre» de mais uma treta New Age que dá pelo nome «Salto Quântico» (nunca percebi porque cargas de água a quântica exerce um fascínio tão grande em tantos vendedores de banha da cobra...).

 

Num dos artigos recomendados pelo Pinto, o charlatão, que não percebe raspas de raspas, devota-se a debitar inanidade atrás de inanidade e a urdir teorias da conspiração absurdas a propósito do Tiktaalik roseae. Por acaso, na altura li o artigo da Nature em que o fóssil foi apresentado e acompanhei os gritos de indignação dos criacionistas de todos os flavours em relação ao mesmo. Passo a explicar porque não há nem controvérsia nem falta de «provas» desta transição que tanto irrita os criacionistas.

 

Os mamíferos surgiram no Triásico e derivam dos Therapsida - répteis Synapsida. A transição dos Therapsida para os Mammalia é a transição entre os grandes grupos de vertebrados melhor documentada no registo fóssil, por exemplo pelos fósseis Protoclepsydrops, Clepsydrops, Dimetrodon, Procynosuchus e Thrinaxodon.

 

No entanto, os criacionistas de todos os flavours tentam por todos os meios, inclusive completamente desonestos, negar as evidências inequívocas dos fósseis transicionais entre espécies - designação que refere fósseis que apresentam uma mistura de características das espécies em causa, popularizados nos media como «elos perdidos», embora o termo seja erróneo e passível de grandes confusões. Todos os criacionistas verberam que não há fósseis transicionais para apontar a «falsidade» da evolução. Mas os últimos anos têm sido fertéis na descoberta de novos fósseis que documentam sem sombra de dúvidas as transições entre espécies e testam a capacidade aparentemente ilimitada dos criacionistas para debitar disparates.

 

Em Abril de 2006, os grupos de investigação de Edward Daeschler da Academy of Natural Sciences em Filadélfia, Farish Jenkins de Harvard e Neil H. Shubin da Universidade de Chicago descreveram em dois artigos na Nature a sua descoberta do fóssil de uma espécie (quasi) tetrápode, a que chamaram Tiktaalik roseae. O fóssil com 375 milhões de anos que tem o nome Inuit para um peixe de águas pouco profundas foi encontrado nos sedimentos do leito de um rio no Ártico canadiano, a cerca de 1000 km do Pólo Norte.

 

Este fóssil apresenta escamas ósseas e barbatanas mas as barbatanas dianteiras estão no processo de transformação em membros; o seu esqueleto interno apresenta a estrutura de um braço, incluindo ombro, cotovelo e pulso com barbatanas em vez de dedos. Ou seja,o Tiktaalik permite apreciar a evolução do esqueleto apendicular. As barbatanas peitorais apresentam características quasi de membros; o esqueleto interno exibe a estrutura de um braço, incluindo ombro, cotovelo e pulso em que a parte terminal deste membro - o autopodium - ainda não existe com o plano básico de um tetrápode típico,isto é, não existem ainda os meta elementos, os metacarpos e respectivas falanges.

 

Esta descoberta provocou grande agitação nas hostes criacionistas americanas que na altura se multiplicaram em acusações de «cientifismo» e refutaram os dados científicos com disparates sortidos e citações biblícas no post sobre o tema do blog da Nature. O templo da IDiotia, o Discovery Institute, clamou que o fóssil não constitui uma ameaça para as suas pretensões neocriacionistas com um texto completamente imbecil e tão redondo como a argumentação do Pinto, basicamente  clamou que  o fóssil, para ser uma espécie intermédia entre peixes e tetrápodes, teria de ter exactamente 50% das características de cada, e isso não acontece no Tiktaalik (que terá uma percentagem inferior a 50% de tetrápode)  :

«Estes peixes não são espécies intermédias, explicaram os cientistas do Discovery Institute que questionei sobre a descoberta. Não são intermédios no sentido que são meio peixe/meio tetrápode. Pelo contrário, eles apresentam uma combinação de características de tetrápodes e de peixes».

 

Na mesma época e também na Nature, o zoólogo Hussam Zaher, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, em colaboração com o palentólogo Sebastián Apesteguía, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, apresentaram os detalhes anatómicos dos fósseis da mais antiga espécie de cobra já encontrada, a Najash rionegrina, uma serpente que viveu no Cretácico Superior (há 90 milhões de anos) e que apresenta patas traseiras funcionais.

 

Os criacionistas do site humorístico «Respostas no Genésis», AiG, com uma espinha do Tiktaalik rosae ainda atravessada, responderam a estoutra descoberta de forma tão divertida quanto a do templo da IDiotia:

 

«A AiG é cautelosa acerca da comparação desta serpente fóssil com a serpente de Génesis 3:14 [a tal que provocou a dentadinha no proibido fruto do conhecimento]. Em primeiro lugar, não sabemos muito acerca da anatomia dessa serpente. Mas podemos oferecer uma sugestão razoável de que seria capaz de andar ou rastejar; depois da serpente ser amaldiçoada foi pronunciado que «no teu ventre rastejarás» sugerindo que antes da queda se movia usando apêndices. De igual forma este fóssil resulta provavelmente do Dilúvio de Noé, um acontecimento que teve lugar 1500 anos depois de a serpente ser amaldicoada a rastejar sobre o ventre».

 

A Nature de 15 de Março de 2007 tem um artigo muito interessante do paleontólogo Zhe-Xi Luo, do Carnegie Museum of Natural History, Pittsburgh (EUA) que descreve o Yanoconodon allini, um fóssil de 125 milhões de anos que apresenta os três minúsculos ossos que compõem o ouvido médio (martelo, bigorna e estribo) ligados à mandíbula inferior através de uma cartilagem, numa configuração de transição entre a dos répteis e a dos mamíferos modernos. Nesse último grupo, em que se inclui o homem, essa tríade de ossos já se encontra totalmente separada da mandídula.

 

PZ Myers apresenta no Pharyngula uma análise muito detalhada do Yanoconodon, que recomendo para quem quiser saber mais sobre este triconodonte (sobre o qual os criacionistas ainda não se pronunciaram...). Neil Shubin foi o convidado do Colbert Report no dia em que foi lançado o seu livro «Your Inner Fish: A Journey Into the 3.5-Billion-Year History of the Human Body» (disponível na Amazon). Não deixa de ser irónico que, na altura,  nas televisões norte-americanas os momentos mais sérios de ciência acontecessem na Central da Comédia! (ignorem a mensagem de que o vídeo não está disponível e cliquem á vontade).

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