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Delusions

Penso que não exista em português uma palavra para traduzir «delusion», uma falsa crença arreigada que é mantida apesar de todas as evidências em contrário.  Pelo menos, o livro «The God Delusion» de Dawkins foi traduzido, suponho que por falta dessa palavra, por «A Desilusão de Deus», um título que não traduz de facto o que pretende o livro.

 

A palavra delusion é muito utilizada, em meios anglo-saxónicos, para descrever a sintomatologia de uma série de patologias do foro psiquiátrico, que a Ana pode ajudar a traduzir, mas aplica-se igualmente na acepção de Dawkins, isto é,  a outras sintomas, agora aqueles que decorrem de uma religiosidade ...er... exacerbada. Os comentários aos posts «Embrace Your Inner Fish» e «Esta gente passa-se big time» reflectem  algo  para que a única palavra aplicável é mesmo delusion, neste caso aplicada à veemência com que o nosso devoto comentador Pinto se arroga, sem pestanejar, a «corroborar» os delírios esquizofrénicos dos dominionistas da Montfort sobre o fantasma que os atormenta: a evolução que ameaça o seu deus-das-lacunas.

 

Porque este ano se celebra o ano de Darwin, importa relembrar o seu legado, um legado tão fundamental que me merece algumas linhas, necessárias em particular hoje em que o referido Pinto se devotou ao ataque ad hominem favorito daqueles a quem a religião obliterou a capacidade de raciocínio crítico.

 

Charles Darwin foi sem dúvidas um dos mais importantes pensadores de todos os tempos, talvez aquele que deixou uma marca mais profunda na nossa civilização. A sua obra desafiou tudo o que tinha sido previamente pensado acerca dos seres vivos e da natureza, assumindo um papel crucial nas transformações intelectuais, sociais e religiosas que tiveram lugar no Ocidente durante o século dezanove.

 

Darwin tinha apenas 28 anos quando, em 1837, anotou num dos seus cadernos que "uma espécie na realidade muda para outra” (“one species does change into another"). Darwin tinha regressado recentemente da sua viagem de 5 anos a bordo do Beagle e durante esta viagem que o levara pela América do Sul, Oceania e, em particular, pelas Ilhas Galápagos, encontrara sinais de que as espécies não eram, ao contrário do que então se pensava, fixas e permanentes. Mas, talvez com a mesma premonição que o levou a adiar a publicação do seu livro mais emblematico, a Origem das Espécies, escreveu noutro caderno “Cuidado”, assim mesmo, talvez em homenagem à língua falada nos países de que analisava os exemplares na altura. De facto, a evolução era uma ideia radical, mesmo uma ideia perigosa, e Darwin sabia que ainda não sabia o suficiente para a apresentar ao publico.


Darwin coligiu dados por mais 20 anos antes de apresentar a uma pequena audiência de cientistas, com Wallace, as suas ideias sobre evolução, um ano antes da publicação das origens que chocaram o mundo. Em particular porque contrariavam o fixismo, a doutrina que influenciou profundamente o pensamento científico do ocidente e segundo a qual os organismos vivos teriam aparecido na Terra por interferência divina e não teriam sofrido mudanças desde então.


Hoje, a Origem é considerada um dos livros mais importantes alguma vez publicados e, mais raro, permanece cientificamente relevante 150 anos após a sua publicação. As origens são igualmente um modelo de pensamento lógico pelo que acresce à sua relevância cientifica outra filosófica que muitos ignoram.

 

Embora seja incontroverso que Darwin mudou radicalmente a forma como olhamos o Mundo, a ideia perigosa de Darwin alterou para sempre a forma como olhamos para nós próprios. A proposta de que os seres vivos evoluem gradualmente através de selecção natural chocou profundamente a sociedade da época e continua até hoje a causar controvérsia.


Darwin antecipava que a sua teoria seria muito mal recebida mas provavelmente não imaginava as dimensões que a controvérsia assumiria. Em 1844, confidenciou a um colega naturalista numa carta «Estou quase convencido que, ao contrário do que pensava inicialmente, as espécies não são imutáveis (é quase como confessar um assassínio)». Ou seja, Darwin hesitava em publicitar a ideia e mergulhou no estudo da criação de animais domésticos – a selecção natural, argumentaria, não é tão diferente assim da selecção artificial que os criadores de animais praticam há séculos – e a distribuição de plantas selvagens e animais.

 

Um escritor de cartas muito prolífero, procurou exemplares, informação e conselho científico de correspondentes um pouco por todo o mundo. Foi um jovem naturalista e coleccionador profissional de especimens de seu nome Alfred Russel Wallace quem impulsionou Darwin a publicar as Origens. Depois de ter trabalhado primeiro na Amazónia e depois no arquipélago malaio, Wallace desenvolveu uma teoria da evolução similar à de Darwin mas ainda num estado muito incipiente que enviou, em 1858, a Darwin. Ambos leram as suas obras num encontro da Linnean Society em Londres no primeiro de Julho de 1858, palestra que foi publicada ainda nesse Verão. Wallace, então numa ilha no que é hoje a Indonésia, não saberia da co-autoria até Outubro e ficou muito lisonjeado por o seu trabalho ter sido publicado a par do de Darwin, a quem muito admirava.


A primeira exposição pública da evolução de Darwin não causou quaisquer ondas. Mas quando as ideias perigosas de Darwin foram publicadas para o público em geral no ano seguinte, as reacções foram muito diversas. «On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life» depressa esgotou a sua primeira edição de 1 250 cópias e, no espaço de um ano, circulavam entre um público na maioria chocado quase 5000 exemplares. Os seus aliados na guerra que em breve estalou aplaudiam a obra como um brilhante princípio unificador da ciência, rivais científicos apontavam os hiatos da teoria, incluindo aquilo que até hoje são chamados os «elos perdidos» no registo fóssil, e políticos, o público em geral e o clero em particular condenaram com muita veemência a obra de que perceberam imediatamente as implicações.

 

Por exemplo, em 1864 Benjamin Disraeli, uns anos depois o primeiro-ministro britânico, execrou a ideia – praticamente intocada nas Origens, que sobre o homem apenas dizem «light will be thrown on the origin of man and his history»– de que os humanos teriam evoluído de uma espécie «inferior». «É o homem um macaco ou um anjo?» perguntou retoricamente na sociedade diocesana de Oxford, dirigindo-se ao bispo Wilderforce. «Eu, meu senhor, Eu estou do lado dos anjos. Eu repudio com indignação e repugnância essas teorias modernas.»

 

Darwin tinha antecipado esses protestos, que não se restringiram a terras britânicas e chegaram mesmo a Portugal. «Todos aqueles cuja predisposição os conduza a dar mais peso a dificuldades inexplicadas que à explicação de factos rejeitarão certamente a minha teoria» escreveu nas origens. Mas, também escreveu, «Olho com confiança para o futuro, para os jovens naturalistas, que serão capazes de de olhar para ambos os lados da questão com imparcialidade». Até porque, como escreveu igualmente, «No futuro distante vejo campos abertos para investigações muito mais importantes».


Desde então, mesmo as descobertas mais inesperadas nas ciências da vida suportam ou estendem as ideias centrais de Darwin: que toda a vida está relacionada, as espécies alteraram-se ao longo do tempo em resposta à selecção natural e novas formas substituem outras anteriores. «Nada em biologia faz sentido sem ser à luz da evolução» foi o título escolhido em 1973 para um ensaio famoso de um dos grandes nomes da genética, Theodosius Dobzhansky. Dobzhansky não poderia estar mais certo – a evolução é simplesmente a forma como a biologia funciona, o princípio central em torno do qual a vida se organiza.


Nos 150 anos que medeiam a publicação das Origens, as “investigações muito importantes” previstas por Darwin produziram resultados que ele nunca poderia ter antecipado. Três campos em especial, a geologia, a genética e a paleoantropologia ilustram simultaneamente os hiatos no conhecimento de Darwin e o poder das suas ideias para dar sentido ao que foi descoberto depois.


Em particular, a geologia que o inspirou - durante a viagem, Darwin leu o livro "Princípios da Geologia" de Charles Lyell, que descrevia características geológicas como o resultado de processos graduais ocorrendo ao longo de grandes períodos de tempo.


A idade da Terra era, para Darwin, uma das maiores dificuldades inexplicadas a que aludia nas Origens. Para que fosse possível a evolução da exuberante diversidade biológica da Terra, eram necessários muito mais anos do que o admitido. Muitos mais que os 6000 anos que a interpretação bíblica dominante na época indicava mas também mais dos que eram aceites na comunidade científica. Em 1862, o físico William Thomson (uns anos depois elevado a Lord Kelvin) calculou que era pouco provável que o planeta tivesse mais de 100 milhões de anos - um tempo claramente insuficiente para a evolução actuar. «As ideias de Thomson sobre a idade recente do mundo são um dos meus principais problemas» escreveu Darwin a Wallace em 1869. Estudos posteriores, incluindo os do seu filho George, astrónomo, fixavam a idade da Terra bem abaixo do limite de Thomson.


Foi apenas nos anos 20 e 30 do século passado que os geólogos, com base das taxas de decaimento radioactivo dos elementos, concluiram que a Terra tinha de facto milhares de milhões de anos – cerca de 4.5 biliões (americanos) de anos.


A geologia moderna ajudaria ainda Darwin a resolver outro puzzle que o incomodava — a existência de especies estranhamente similares em continentes separados. Como explicar, por exemplo, o emu ou ema-australiana, as avestruzes africanas ou as emas da América do Sul? Ou a existência de marsupiais na Austália e na América do Sul e Central? Tudo isto tem resposta no facto de que os continentes, unidos numa Pangeia num passado muito remoto, estão em constante movimento.


O termo genética não seria cunhado até 1905, muito depois da sua morte em 1882, pelo que Darwin não fazia ideia qual era o mecanismo através do qual a selecção natural operava. Hoje em dia, a genómica comparativa – a análise de informação genética de diferentes espécies – confirma o cerne da teoria de Darwin ao seu nível mais profundo. Hoje em dia é possível descobrir, molécula de ADN por molécula de ADN, quais as mutações que ocorreram e como é que uma espécie se transformou em outra.


A arvóre da vida esboçada por Darwin, um diagrama que traça as relações evolucionistas entre várias especies baseadas nas suas semelhanças e diferenças, tem assim uma enorme ajuda na genética.


Os últimos anos têm sido fertéis em surpresas da evolução, com revelações que teriam certamente surpreendido Darwin. Por exemplo, a complexidade de uma espécie não é traduzida no número de genes. O arroz, com os seus 37 000 genes, tem quase o dobro dos genes humanos, que se ficam por uns meros 20 mil. Por outro lado, os genes não são passados apenas dos pais para os filhos. Pode haver transferência horizontal de material genético, muito comum nas bactérias, e é assim que a resistência aos antibióticos pode passar de uma estirpe para outra. Os animais raramente adquirem genes desta forma, embora o nosso ADN esteja cheio de pedaços de material genético que fomos «apanhando» de virus ao longo da nossa evolução, incluindo muitos elementos que regulam quando os nossos genes estão activos.


E será que estas surpresas estão em contradição com as ideias de Darwin? Não, e aliás quanto mais informação acumulamos mais validadas estão estas ideias. Nós vivemos na era de ouro do evolucionismo e na realidade pouco mais fazemos que detalhar o que foi proposto há século e meio.


Algumas descobertas recentes, como a «soft inheritance», a passagem à descendência de interruptores que silenciam alguns genes, e toda uma série de alterações da maquinaria celular que não tem nada a ver com ADN mas que podem ter impacto profundo nas gerações seguintes, mostram que algumas características adquiridas podem ser herdadas, um mecanismo que Darwin propôs e que se provou real (embora mais complicado que alguma vez se possa ter imaginado).


Darwin incluiu este conceito nas Origens, mencionando «variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse». Ou seja, Darwin não era um Darwinista «puro», isto é, aceitava uma grande variedade de mecanismos para a evolução que alguns dos seus seguidores no século XX não admitiam. Ou seja ainda, de certa forma as últimas descobertas na área da genética fizeram-nos oltar mesmo às origens e à noção original de Darwin, muito alargada, de hereditariedade.


A Origem das espécies praticamente não tocava na questão mais controversa de todas: se toda a vida evolui, será que o mesmo aconteceu ao homem? Darwin precisava derrubar a última barreira, invadir a última cidadela argumentativa defendida com unhas e dentes pelos teólogos naturais: a barreira do homem. Com o terreno já parcialmente preparado pela publicação, em 1863, de «Man’s place in nature», de Thomas Henry Huxley, Darwin finalmente publicaria, em 1871, «The descent of man and selection in relation to sex», explicando que estudava a evolução humana há muitos anos mas «com a determinação de não a publicar, porque pensei que isso só agravaria os preconceitos contra as minhas ideias».


Mais uma vez, Darwin acertou não só quando afirmou que o homem descende por modificação de uma forma pré-existente» mas também que uma grande quantidade de gente não aceitaria que a evolução empurrasse um criador divino para o lado.


Esta descrença poderia ser justificável no tempo de Darwin, em que muito poucos fósseis eram conhecidos, e constituiam, como Darwin reconheceu, «a objecção mais grave e óbvia contra a minha teoria». Embora o primeiro fóssil reconhecido como um humano ancestral, baptizado Neandertal, tenha sido descoberto no vale de Neander na Alemanha um pouco antes da publicação das Origens, ele não poderia sequer imaginar a extensa e variada árvore da família humana. Hoje em dia, devido ao trabalho incansável de muitos paleoantropólogos, embora persistam alguns gaps, existem centenas de fósseis representando cerca de duas dúzias de espécies que documentam a árvore evolutiva humana. Apenas casos graves de delusion podem explicar que tantos neguem todas estas evidências.


Darwin pensava que o passado do homem seria um dia revelado pela ciência «Tem sido frequente e confiantemente afirmado que a origem do Homem nunca pode ser conhecida» escreveu em 1871. «A ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento: são os que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que afirmam de uma forma tão categórica que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência».
A história evolutiva humana, que continua a surpreender como há uns escassos dias o fez com o Ardi, continua alvo de controvérsia ou antes, de afirmações categóricas sobre a sua falsidade, normalmente por parte daqueles que de facto sabem muito pouco.

 

Em resumo, as ideias de Darwin, testadas exaustivamente ao longo de século e meio, foram tão revolucionárias que, após mais de um século de testes empíricos, apenas recentemente se confirmaram alguns corolários da teoria da evolução, por exemplo, no que respeita à selecção sexual, isto é, à evolução de traços relacionados com o sexo, como a coloração intensa dos machos de muitas espécies, ou as plumagens exuberantes e canções complexas das aves. De facto, hoje, 200 anos depois do seu nascimento e 150 anos depois da Origem das Espécies, o legado de Darwin é maior, mais rico e diverso que ele alguma vez poderia ter imaginado. Infelizmente, também é rico e diverso o leque dos fundamentalistas de todas as religiões do Livro que persistem, em delusion, a negar este legado!

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