Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

A juíza e a bipolaridade dela

Ao ler a notícia no Expresso fiquei a pensar no assunto e, por via deste post do Daniel, resolvi dar corda aos dedos. A perturbação bipolar é uma patologia psiquiátrica que integra as chamadas perturbações do humor e o seu diagnóstico não determina, de per si, uma incapacidade total e permanente do sujeito, nomeadamente no que respeita ao desempenho profissional. A título de exemplo, e porque o diagnóstico é público e assumido pelo próprio, recordo que o Ted Turner é um bipolar e isso não o impediu de construir um império como a CNN nem de manter uma relação duradoura – e aparentemente gratificante - com a Jane Fonda.

Pergunta o Daniel se "A liberdade ou o destino de várias pessoas podem estar dependentes da avaliação que uma pessoa com doença bipolar vá fazendo do seu próprio estado de saúde?" Em rigor a resposta é sim, uma vez que o diagnóstico não determina uma incapacidade total e permanente para o desempenho de qualquer actividade profissional. Mais importante que o diagnóstico é a pessoa doente e a maneira como lida com a sua doença – como, de resto, foi referido no Expresso pelo Silveira Nunes, psiquiatra que acompanha a juíza. Posto isto, não posso deixar de dizer que percebo muito bem a pergunta do Daniel, sobretudo porque se trata de uma doença crónica, que evolui por surtos, e porque as leis laborais ao serem feitas – e bem - para defender o trabalhador não deixam margem de manobra para uma actuação em caso de necessidade, a não ser em situações limite, nas quais é possível aplicar a lei de saúde mental e determinar um internamento e/ou tratamento ambulatório compulsivos por via de um alteração de tal modo grave que objectivamente coloque em perigo o próprio ou terceiros. "Compadece-se a actividade de magistrado com interrupções frequentes de funções, com repercussões graves nos processos?", questiona, também, o Daniel. O diagnóstico de perturbação bipolar de qualquer tipo pode ter um excelente prognóstico e não implicar interrupções laborais frequentes. Patologias como a diabetes ou a hipertensão arterial, para referir apenas duas patologias crónicas frequentes, são uma causa muito mais habitual de absentismo laboral que a perturbação bipolar tipo I, a mais grave de todos os sub-tipos. Como se depreende do que já ficou dito acima, a resposta à pergunta "Sendo claro que pessoas com doença bipolar podem trabalhar, a doença é ou não incapacitante no desempenho da actividade de um juiz?" é não, a doença não determina, só por si, qualquer incapacidade para o desempenho da actividade de um juiz – aliás, com toda a certeza, o caso em discussão não é único. As outras dúvidas colocadas pelo Daniel - "Implicando situações de stress permanente (pelo menos para quem leve a profissão a sério) que devem ser evitadas pela doente, é ou não pior para o seu estado de saúde manter este tipo de actividade?" e "Tendo em conta que é a próprio a reconhecer-se incapaz de cumprir as suas funções, não manda a cautela permitir a cessação de funções? "– já foram esclarecidas, e bem, pelo MP: "O stress permanente é um problema para qualquer pessoa. Confesso que hoje me deixo stressar menos porque sei que não posso fazê-lo. É como não gastar o dinheiro que não se tem." e "Quando é o próprio que se reconhece incapaz de cumprir as suas funções, não sei se isso será suficiente para cessar as funções. Há que provar se é um juízo altruísta (por auto-vitimização ou por desconhecimento de si enquanto pessoa bipolar com o distúrbio controlado) ou um juízo utilitário de quem quer ir para a reforma." Tentando ser o mais clara e perceptível possível, termino com uma curta descrição da doença bipolar que, juntamente com as patologias depressivas, integra o grupo das perturbações do humor. Tipicamente, cursa com episódios depressivos e pelo menos um episódio maníaco ou hipomaníaco – períodos delimitados no tempo de elação do humor (também chamado humor maníaco), muitas vezes associado a humor disfórico. Existem diferentes especificadores da doença, sendo as formas mais frequentes as perturbações bipolares tipo I e II – não é correcto, portanto, dizer que o diagnóstico não existe, a concepção de espectro bipolar não invalidou as diferentes entidades diagnósticas. Nos períodos inter-críticos a eutimia é norma e, na enorme maioria dos casos, o doente tem um funcionamento perfeitamente adequado em todas as áreas da sua vida. A doença é crónica, evolui por surtos e o tratamento passa pelo uso de um estabilizador do humor – existem vários compostos, de diferentes classes farmacológicas, que têm esta acção -, particularmente importante na terapêutica de manutenção, e por coadjuvantes terapêuticos não farmacológicos, sendo muito importante o uso de uma abordagem psico-pedagógica dirigida à explicação da doença a quem dela padece, sobretudo porque a eficácia preventiva das crises depende em grande parte de uma boa adesão à medicação. O objectivo geral da terapêutica de manutenção é diminuir o número e intensidade das descompensações e aumentar o período inter-crítico. Não sendo possível garantir, com absoluta certeza, o aparecimento de novas crises – são inúmeros os factores desencadeantes e variam de indivíduo para indivíduo e, na mesma pessoa, ao longo do tempo -, há toda a vantagem, como se percebe, que o doente identifique os pródromos de uma descompensação porque disso depende o pedido de ajuda, a precoce intervenção e, na maioria das vezes, o abortar de uma nova crise. As crises - depressivas, hipomaníacas, maníacas ou mistas - são acompanhadas por uma pletora sintomática variável, sendo frequente a existência de sintomatologia psicótica concomitante, em geral congruente com estado do humor – ideias delirantes de ruína a acompanhar os estados depressivos e de grandeza a acompanhar os estados maníacos, por exemplo. A qualidade de vida e o funcionamento geral, pessoal e profissional dos sujeitos é profundamente alterado durante as crises agudas. A ausência de consciência mórbida é particularmente frequente nos períodos de elação do humor, sendo a terapêutica, durante as fases de descompensação aguda, dirigida aos sintomas. Na generalidade dos casos (com excepções, naturalmente) há recuperação ad integrum após a crise aguda, isto é, o doente retoma o seu funcionamento de base sem sequelas aparentes.

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media