A renúncia pouco livre à intimidade e o aproveitamento dela
Leio aqui a entrevista ao Jardel e reconheço nela muitas dores, homens, mulheres, à altura do chão, por terem largado a vida ao vício, por uns anos pessoas estrangeiras nas suas pátrias, pátrias de afectos, pátrias de compromissos. Há pessoas a quem a vontade, a sorte, a vida, os amigos, o dinheiro até, permitem um dia encontrar por um tempo demorado um espelho e nele o sentimento próximo da morte que é a vergonha e a doença que predomina todas as doenças, a solidão.
Jardel é entrevistado e o título abusivo da peça é "luto todos os dias para não me entregar ao diabo". Lê-se cada uma das suas respostas e sente-se a resistência do jogador, que mereceu uma canção do Rui Veloso, a falar sobre a sua queda, mas o jornalista insiste como termos que são facadas para quem já viu alguém passar por uma depressão ou já a sentiu na pele e está perante uma pessoa a querer levantar-se e seguir em frente. Pergunta-se: "que aconteceu para se perder?" Jardel pede para não falar nisso. Diz que não quer falar nos problemas pessoais. Mas o jornalista prossegue: "mas esses problemas já acabaram? Já está tudo curado? Curado de todos os males?" A última pergunta é particularmente culpabilizante. O jogador defende-se em frases curtas, diz que tem de tocar a bola para a frente, mas é-lhe atirado à cara que "passou por uma fase péssima, de depressão profunda". Nesta altura Jardel ou a memória da dor de Jardel rende-se - como já vi muitas memórias rendidas - e desabafa que sim, e procura a empatia de um lugar paralelo, diz que Enke também sofreu, mas que nunca chegou àquele ponto de...
Neste momento sei da dor de Jardel e sei da solidão demasiado ruidosa que a sua cabeça atravessou, para se dizer vou seguir em frente como sei. É neste momento que ao ler o jornalista a metralhar Jardel perguntando: qual ponto? Suicídio? Passou-lhe alguma vez pela cabeça.., procurando um título para entrevista que respeitasse ao lado negro do jogador que sempre vende mais do que o lado da sua esperança, que sinto um soco final no estômago e ponho fim à leitura.
Espero que Jardel não tenha ficado muito tempo a pensar nos seus demónios à conta da entrevista que consentiu. Espero que Jardel marque golos. Assim como quem saiba do que ele sente e dê pela sua vontade.

