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jugular

Sem insultar

"O que ainda não vi ninguém explicar é o seguinte: qual é a vantagem, para a criança, de ter um pai e um pai ou uma mãe e uma mãe, face à situação actual de poder ter um pai e uma mãe? O meu ponto é o seguinte: será justo que a sociedade portuguesa se ponha a fazer experiências sociais com crianças já de si desfavorecidas?"

 

Luís Naves, Corta-Fitas

 

O Luís coloca mal a primeira questão. A coisa devia ser: em que medida é que incluir casais homossexuais do conjunto de potenciais adoptantes prejudica uma criança? É a exclusão que carece de fundamento e não a inclusão. Até que se procure fundamentar essa exclusão, ela surge como arbitrária e, por isso, ilegítima e discriminatória.

 

O único argumento não evidentemente homofóbico é aquele que aconselha precaução por estarmos perante matérias sensíveis e que dizem respeito aos interesses de terceiros - as crianças. Aqui entramos no célebre argumento conservador contra o experimentalismo social, que é uma versão do "é preciso cautela!, com coisas sérias não se brinca". O problema é que não estamos a falar de qualquer instrumentalização de crianças em nome de um projecto revolucionário, pela simples razão de que já existe uma experiência histórica significativa de crianças educadas por casais homossexuais, não constando que o mundo tenha acabado nem que, quando comparado com adopções por parte de famílias ditas normais, a coisa dê sinais de estar a correr mal. Já existindo uma tradição, uma experiência histórica de crianças educadas por casais homossexuais, o argumento conservador da precaução cai por terra. Pior: o argumento conservador transforma-se rapidamente em reaccionarismo. A legalização da adopção não cria nem inventa a partir do nada; limita-se a reconhecer uma realidade afectiva que já existe, regulando-a e conferindo-lhe uma dignidade que ela hoje não tem. Se à luz da experiência conhecida não há qualquer fundamento que legitime a exclusão referida, sou eu que pergunto ao Luís: perante tudo aquilo que se sabe hoje, em que fundamenta a sua resistência e as suas dúvidas em relação à possibilidade de adopção por parte de casais homossexuais?

 

Um dos problemas com a posição do Luís é este considerar que o seu preconceito (uso "preconceito" enquanto termo meramente descritivo, sem qualquer juízo ético) é uma coisa natural. É esta naturalidade que, hoje, não tem qualquer fundamento que não o preconceito (aqui já uso preconceito com uma carga valorativa) arbitrário e irracional. O Luís pode achar que a sua resistência e as suas dúvidas não têm nada de homofóbico. E eu digo-lhe: a pior homofobia é aquela que se recusa a reconhecer enquanto tal e que se julga - erradamente-  tolerante e compassiva.

5 comentários

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    António Parente 17.11.2009

    Indique-me um endereço de mail e eu tento reencontrar um livro que vi na amazon com um testemunho de alguém que viveu com um casal homossexual. O livro é recente.
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    MRC 17.11.2009

    António
    Eu antecipo-me e coloco aqui dois links sobre a matéria:


    http://istoeumpagode.blogspot.com/2009/02/dar-voz-aos-filhos-de-pares-homosexuais.html (http://istoeumpagode.blogspot.com/2009/02/dar-voz-aos-filhos-de-pares-homosexuais.html)

    e

    http://www.ejssb.org/resources/ejssb_AardwegG_Critique_OutFromUnder$5B1$5D.pdf (http://www.ejssb.org/resources/ejssb_AardwegG_Critique_OutFromUnder$5B1$5D.pdf)


    Por outro lado, o João Galamba está-se a esquecer de aquilo que já referi num comentário a um post da Maria João Pires: Há um quase unanimidade de especialistas, incluindo autores como o prof. Daniel Sampaio que reconhecem que o ideal para o crescimento  de uma criança é ser acompanhada, educada e criada por um pai e uma mãe, das as caracteristicas próprias de cada um. É por esta mesma razão que eu também acho negativa a proliferação de famílias monoparentais. A lógica é a mesma: O ideal é uma família com um pai e uma mãe presentes. O que temos de fazer é fomentar o que é o ideal, não é fomentar o que excepcional
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    Paula R. 17.11.2009

    Concordo consigo MRC !

    Quem me dera que os meus pais nunca se tivessem divorciado, que fossem ricos e me levassem todos os anos à Eurodisney - tenho a certeza que seria uma criança mais feliz  ....
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    MRC 17.11.2009

    A questão da riqueza e da Eurodisney, como sabe, é bem secundária.
    Já a questão do divórcio poderia ser evitada com medidas de maior apoio à família, por exemplo, através do incentivo à formação e mediação familiar, etc...
    Como vê é uma questão de perspectiva: Ou encaramos os desafios, promovendo o que é o ideal ou entramos numa lógica derrotista e fomentamos o que é  excepcional e patológico.
    O que se verifica é que quem é de esquerda, na realidade, não é tão utópico como diz, antes fomenta o situacionismo e a mediocridade. Se fosse utópico, na realidade, como diz Claudio Anaia, seria o 1º a querer combater o aborto, a fomentar o apoio à família, etc...

     
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