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territórios de afecto

querido luís, colocas várias questões. uma tem a ver com a constituição. dizes que se se aprovar o acesso de casais do mesmo sexo ao casamento civil, a seguir será inconstitucional manter a proibição de adopção para casais do mesmo sexo. não sou constitucionalista, como tu não és, mas parece-me um argumento algo confuso. é que ao admitires que pode ser inconstitucional vedar a adopção a esses casais te esqueces (ou decides ignorá-la) da possibilidade de ser inconstitucional vedar-lhes o casamento. ora se a inconstitucionalidade da proibição da adopção deveria em teu entender levar à mudança dessa norma, que dirás da inconstitucionalidade da proibição de casamento? ou estarás a defender que se deve manter uma inconstitucionalidade para que ao saná-la não sejamos obrigados a encarar a existência de eventuais outras?

 

a seguir, perguntas: 'qual é a vantagem, para a criança, de ter um pai e um pai ou uma mãe e uma mãe, face à situação actual de poder ter um pai e uma mãe?' e eu pergunto-te: qual situação actual? estamos a falar de crianças institucionalizadas e de uma lei que permite já a adopção por pessoas singulares (independentemente, nota, da sua orientação sexual). a pergunta certa é, pois, qual é a vantagem de excluir da adopção os casais do mesmo sexo, face à situação actual em que podem adoptar casais de sexo diferente (independentemente da sua orientação sexual) e pessoas singulares (independentemente dasua orientação sexual)?

 

desde que se iniciou a discussão sobre a possibilidade de casais do mesmo sexo adoptarem que estou à espera que alguém me explique por que é que é melhor -- e sempre melhor, portanto -- que uma criança seja educada/criada por um casal de sexo diferente ou por uma só pessoa que por um casal do mesmo sexo. isto porque não me chega, como argumento, que se diga que para fazer filhos à boa velha maneira é preciso um homem e uma mulher. estamos, como é bom de ver, a falar de crianças já existentes, e crianças que sabem que não são filhas dos adoptantes. por que motivo seria então tão importante essa dualidade sexual? é suposto uma criança ver os pais como sujeitos sexuais? ou é uma preocupação, digamos, para o exterior?

 

também não me chega que me digam que as crianças têm de saber que há dois géneros, porque as crianças adoptadas não serão criadas/educadas em isolamento e quem as adopta tem, em princípio -- para aferir dessas coisas é que há serviços de adopção -- relações sociais diversificadas, família, etc.

 

por fim, a ideia da 'normalidade': as crianças devem estar com casais de sexo diferente porque a maioria das crianças estão com casais de sexo diferente e assim não serão discriminadas nem se sentirão 'diferentes'. é um velho argumento: foi usado contra o divórcio, contra o casamento interrracial, contra as mães solteiras e até contra a adopção. é a discriminação que se apoia na discriminação. eis um argumento que deveria envergonhar quem o usa, mas que acaba sempre por surgir nesta discussão. e que acaba, invariavelmente, por incluir a frase 'as crianças são más'.

 

não, as crianças reproduzem os preconceitos que lhes são inculcados pelos adultos. motivo pelo qual é tão importante os adultos terem noção dos seus preconceitos. o que me faz regressar à questão original: querido luís, qual é desvantagem de ser criado por um casal do mesmo sexo, face à possibilidade de ser criado por um casal de sexo diferente ou por uma pessoa só? e, por favor, não me respondas que é evidente -- porque para mim não é.

 

adenda: uma questão que queria abordar e que apenas aflorei é-me relembrada por um comentador do post do joão, que fala das 'características próprias' de mãe e pai, portanto de mulher e homem. seria interessante que quem se socorre deste 'argumento' enumerasse também as tais 'características próprias' -- serão as que, cultural e socialmente construídas e forçadas, implicaram durante séculos que as crianças fossem criadas só por mulheres?

 

adenda número 2: ler este post de laura abreu cravo, no mel com cicuta.

 

adenda número 3: luís naves respondeu. peço desculpa, luís, mas não estou esclarecida. não me explicaste por que motivo achas que é melhor para uma criança ser criada por uma mulher e um homem ou só uma mulher ou só um homem que por uma mulher e outra mulher ou um homem e outro homem. também não explicaste por que é que seria inconstitucional impedir a adopção a casais casados do mesmo sexo mas não é inconstitucional impedir o casamento de casais do mesmo sexo. a verdade é que nem sequer te esforçaste. fico amuada por não quereres perder tempo comigo (olha, o luís acaba de aparecer aqui muito meiguinho, a dizer que me respondeu. que digo?)

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