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jugular

muito, muito triste

A propósito deste post, lembrei-me que não ouvi uma voz, um trinado, uma interjeição, um pio à Comissão da Carteira quando, em 2009, a jornalista Fernanda Câncio foi vítima de uma tentativa de homicídio profissional, preparada com a disciplina dos atiradores de elite e posta em prática com a ladineza dos mais arborescentes métodos de execução pública. Porque considerar a alegada - quem sabe o que é rigoroso no retrato íntimo de alguém? Os deuses? - vida privada de um jornalista como factor de incompatibilidade profissional ou, em em consequência  da devassa desse território privado, ensaiar o furto à liberdade de quem vive da sua profissão, é isso mesmo: um homicídio profissional em forma de execução pública.
Quando se analisa a opinião publicada em jornais e revistas de informação, deve ter-se em conta, acima de tudo, o valor do argumento de quem a emite. É o valor do argumento, juntamente com a coerência da argumentação, que determinam a credibilidade de opinião e opinador. Bastaria à Comissão da Carteira ter perdido uma hora a ler algumas das páginas que a jornalista Fernanda Câncio tem, de forma lúcida e coerente, escrito ao longo dos anos sobre Jornalismo em geral e investigação jornalística em particular, para confirmar a justeza de um comunicado, uma nota, uma frase, uma palavrinha sobre a reptilínea perseguição de que Câncio foi alvo. Mas nem uma voz, um trinado, uma interjeição, um pio quando em causa estava, afinal, o direito de um jornalista ao seu trabalho: quando se ameaça o valor, a coerência e - dessa forma - a integridade de um jornalista, não se faz menos do que pôr em causa o próprio direito ao trabalho desse profissional.
No caso de Fernanda Câncio, esse direito transformou-se num dever. O dever de não ceder. E os senhores e senhoras da Comissão da Carteira, na sua maioria jornalistas (embora pareçam, por vezes, mais dotados para a procrastinação), deveriam ser os primeiros a reconhecer a importância de direitos e deveres dessa classe e natureza. Em nome do Jornalismo e dos jornalistas. Em nome do exercício da cidadania.
Perante os mais recentes acontecimentos, percebe-se que não vale a pena lembrar-lhes nada disto: são simplesmente incapazes de o compreender. E isso, antes de ser grave, é muito, muito triste. Em benefício dos seus representados, poderiam ao menos lembrar-se de que, no caso de Fernanda Câncio, a calúnia está em toda a parte; o caluniador, em nenhuma.

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