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Darwin: o homem que mudou o Homem

No dia 24 de Novembro de 1859, faz hoje 150 anos, foi publicado o livro que revolucionou o mundo, «A Origem das Espécies» de Charles Darwin. Há dias, o facto de ter sentido necessidade de escrever o post «Delusions», em que recordo um pouco da história das Origens, mostra que o meu parágrafo optimista de há um ano não se concretizou. De facto, a proposta de que os seres vivos evoluem gradualmente através de selecção natural chocou profundamente a sociedade do século XIX e continua, no século XXI,  a não ser aceite por demasiados. 

 

As ideias de Darwin foram tão revolucionárias que foi necessário mais de um século de testes empíricos para confirmar alguns corolários da teoria da evolução, por exemplo, no que respeita à selecção sexual, isto é, à evolução de traços relacionados com o sexo, como a coloração intensa dos machos de muitas espécies, ou as plumagens exuberantes  e canções complexas das aves. Curiosamente,  William Donald Hamilton, o biólogo que confirmou a selecção sexual,  revolucionou a biologia com os artigos «The Genetical Evolution of Social Behaviour I e II», publicados no Journal of Theoretical Biology em 1964. E digo curiosamente porque estes artigos, que explicam a base genética do altruismo e são por isso considerados a maior contribuição à teoria da evolução depois de Darwin, respondem a algo que intrigava Darwin no «Descent of Man»: a evolução da moralidade humana.

O comportamento moral, escreveu Darwin, não traz vantagens para o indivíduo. Mas uma tribo regida por valores que enfatizem «o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e solidariedade» será certamente mais coesa e organizada e terá assimmaiores chances de vitória na disputa por recursos naturais ou territórios com tribos menos virtuosas. A selecção natural agiria assim não somente sobre indivíduos, mas também sobre grupos.

 

Darwin deixou em suspenso esta selecção de grupo, conceito que foi retomado por Hamilton. Hamilton explicou a emergencia de características altruistas/morais de uma forma muito simples: algo que prejudique o portador de um gene mas que aumente o sucesso reprodutivo de outros individuos que o possuam pode aumentar a frequência desse gene na população. Richard Dawkins sintetizou esta explicação de Hamilton no título do livro que publicou em 1976 «O Gene Egoísta».

 

O livro de Dawkins causou quase tanta polémica quanto a Origem das Espécies, embora,  parafraseando Dawkins, as suas ideias sejam actualmente «ortodoxia de manual». Bem, as propostas de Dawkins podem ser ortodoxas para cientistas, a maior parte das pessoas quando ouve falar em  selecção natural pensa em «perpetuação da espécie». Na realidade, Dawkins mostrou-nos que não é bem isso que está realmente em causa com um exemplo esclarecedor: quando um leão ganha a supremacia num grupo de fêmeas,  mata normalmente os filhotes de outros machos. Ele não está minimamente interessado em perpetuar a espécie. Quer apenas perpetuar os seus genes egoístas.

 

Claro que, no nosso caso, a evolução cultural pode ser tão importante quanto a genética na evolução do altruísmo/moral. Ou antes, são interdependentes porque o nosso desenvolvimento social e cultural evoluiu a par e passo com o nosso genoma. Por outro lado, muitos dos mecanismos emocionais em que assenta o nosso sistema moral podem ter sido seleccionados ao longo de nossa evolução como primatas sociais. Novas exigências sociais exerceram pressão evolutiva que levou ao aparecimento do que normalmente chamamos  moral.

 

Ou seja, hoje, 150 anos depois, a árvore de pensamento revolucionário que Darwin plantou desenvolveu e continua a desenvolver ramos, alguns inesperados. «A cultura está nos genes, mas os genes também dependem da cultura», uma frase do físico e biólogo Rob Boyd resume um dos novos ramos da árvore esboçada há século e meio, um ramo assente em selecção mas agora não natural mas sim cultural. Uma selecção não mais dominada pelos genes egoístas mas uma selecção cultural que nos permite evoluir talvez mais rapidamente do que nunca ...

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