Another religious right bites the dust
A campanha presidencial de 2008 teve um ênfase inédito no tema religião, tão inédito que Ralph Reed, o estratega do GOP que ajudou a construir a Christian Coalition na década de 90, afirmou que «Tem havido mais fermento religioso nestas eleições que em qualquer outra desde 1960 e não espero que isso termine agora». No entanto, como a eleição de Barack Obama mostrou, Reed, o primeiro director-executivo da Coligação Cristã na altura e agora em travessia no deserto devido ao seu envolvimento no caso Abramoff, a teia de corrupção e extorsão que abalou os Estados Unidos em 2006, estava a ser vítima de «wishful thinking».
Alguns dos pré-candidatos republicanos a 2012, concretamente Mike Huckabee e Sarah Palin, parecem não entender que é contraproducente dirigir a campanha para a religião. No caso de Palin, esta não tem outro remédio porque os religious right são a sua base exclusiva de apoio mas nem os seus mais fervorosos apoiantes conseguem esquecer a total vacuidade e ignorância da senhora. Mike Huckabee quer-se reafirmar como «Christian leader» mas os acontecimentos recentes são exemplo do que acontece quando se baseia a actuação política em «valores» cristãos e não na razão/valores seculares.
Estou a falar do caso que abalou os Estados Unidos nos últimos dias, a execução a sangue-frio de 4 polícias por Maurice Clemmons, um criminoso que Huckabee, então governador do Arkansas, perdoou por questões de fé.
Como escreve Froma Harrop no Arizona Central, este crime horrendo tem a ver com mais que o mau julgamento de um político; foi cozinhado em lume brando durante os anos em que políticos como Huckabee governavam com o eleitorado cristão conservador como alvo único, rejeitando tudo o que «ofendesse» os tais «valores» cristãos e encorajando as crenças mais idiotas dos religious right, fossem elas a crença de que a Terra tem pouco mais de 6000 anos e a mulher «criada» de uma costela do homem por intervenção divina ou a crença de que um criminoso «born again» a partir do momento em que aceitava Cristo estava instantaneamente regenerado.
Huckabee rejeita apaixonadamente quer ciência centenária como a evolução quer toda a investigação mais recente em criminologia e seguiu essas paixões (e as Escrituras) à letra enquanto governador. Ou seja, considera que, como este seu anúncio na campanha do ano passado indica, as melhores decisões são aquelas baseadas na fé e não em estudos exaustivos, cientifícos ou outros. Tal como Harrop, considero esta posição arrogante e preguiçosa mas em particular considero-a perigosa por razões que já expus à exaustão.
De facto, o perdão de Clemmons não é único, Huckabee, que acredita com veemência no poder na redenção cristã, perdoou mais de 1000 prisioneiros que viram Cristo na prisão (ou que tinham amigos que conheciam Huckabee), 12 deles encarcerados por assassínio. Um desses perdões, concedido em 1996, resultou na libertação do born again Wayne DuMond, preso pela violação de uma adolescente. Menos de um ano depois, DuMond violou e assassinou uma jovem no Missouri.
Felizmente, parece que nem os mais conservadores estão a ser convencidos pelas desculpas de Huckabee e muitos analistas indicam que a corrida presidencial do ex-presidente da Convenção Baptista acabou há uma semana com o assassinato dos 4 polícias. A reacção de John Mark Reynolds ao conjunto de disparates que a Proud Ignoramus reuniu no seu «Going rogue», somado às reacções que a sua escolha para o ticket republicano despoletou, prenuncia que o mesmo acontecerá em breve com Sarah Palin.

