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Uma evolução revolucionária

Javier Lozano Barragán, ex-presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, reiterou há dias  o que disse em exercício de funções, que a SIDA, a «imunodeficiência de valores morais e espirituais», é uma «patologia do espírito» que deve ser combatida com o «ensino do respeito pela valores sagrados da vida e uma correcta prática sexual», ou seja, pela «prática da virtude da abstinência».

 

O cardeal foi particularmente volento na condenação da homossexualidade, afirmando ainda que  os homossexuais nunca entrarão no reino dos céus, o que, segundo ele, pode ser comprovado pela leitura da Bíblia - literal, parece mesmo que apenas ao ateus esta é interdita.  Aliás, a leitura literal de Barragán da carta de Paulo aos romanos, que fala de pessoas «impuras», abandonadas a «paixões infames» e no martírio dos que «desprezaram o conhecimento de Deus», é até mais suave que a leitura, também literal, da Bíblia, Antigo Testamento inclusive, que serviu a Ratzinger para explicar que  os actos homossexuais são «uma depravação grave», uma «desordem intrínseca» pelo que o reconhecimento de uniões entre pessoas do mesmo sexo seria aprovar «comportamentos desviantes».

 

Ou seja, Barragán mais não fez que reproduzir a doutrina oficial da Igreja embora esta carpa que essa doutrina é mal interpretada, isto é, que a ICAR não tem nada contra os homossexuais apenas contra os actos homossexuais e que os afligidos por esta «desordem objectiva» podem ir para o Céu desde que levem uma vida casta, de sacrifício e de rezas, que os aproxime da perfeição cristã, ou seja, de uma vida estritamente sem sexo.

 

Muito recentemente, essa doutrina da ICAR foi reiterada na recusa vaticânica em assinar a resolução condenando a criminalização da homossexualidade, nas muitas alocuções papais, na carta pastoral da confederação episcopal americana debitada há menos de 1 mês, na chantagem da delegação de Washington DC em relação à votação do «Religious Freedom and Civil Marriage Equality Amendment Act» de segunda-feira -  que passou com 11 votos a favor e 2 contra - , etc..

 

Com todo este fervor católico contra os direitos mais elementares dos homossexuais, é reconfortante encontrar na Belief Net artigos como o «Gay adoption» de Rod Dreher. No artigo, Dreher explica que, não obstante as suas ideias religiosas acerca da homossexualidade, apoia a adopção por casais do mesmo sexo depois de contacto pessoal com crianças adoptadas por casais conhecidos. E começa contando a história de uma amiga católica que partilha a sua opinião. Dreher termina dizendo que «acredita na verdade dos ensinamentos da Igreja» mas que não consegue encontrar uma objecção real contra a adopção por same-sexers e pede aos seus leitores que, se as tiverem, apresentem objecções sólidas e sensatas. Embora o artigo tenha até agora 173 comentários, o único argumento repescado foi o testemunho de uma filha de um casal de lésbicas que vale a pena ler na íntegra, pelo que parece que Dreher vai mesmo ter de aprender a viver com a sua «consciência culpada» por não cumprir os ditames da sua Igreja.

 

Claro que preferiria que Dreher e tantos outros abandonassem as suas posições de intolerância religiosamente inspirada mas as dúvidas deixadas pelo pensamento crítico são uma evolução revolucionária. Quantas mais pessoas começarem a questionar e a pensar criticamente sobre o tema, mais pessoas chegarão às conclusões de Dreher e confirmarão que não estão em causa efabulados «atentados» à liberdade religiosa de ninguém mas apenas direitos elementares que a religião nega há séculos.

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