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jugular

31 de formol

Fiquei com a vaga sensação de que o blogger Rui Crull Tabosa não gostou lá muito das minhas palavras de anteontem, a propósito de Afonso de Albuquerque e do texto que escreveu. Pelo tom do simulacro de réplica suspeito que, no mínimo, que não ficou radiante. Não percebi bem porquê. Terei dito mentiras? Cadê, cadê? Se foi o caso, não as rebateu. Apenas rosnou. Disse que "podia rebater todos ou alguns" dos meus argumentos. Mas não o fez, apenas sorriu. Certamente porque não mereço mais do que isso. E colocou-me um mapa para eu aprender coisas o que, evidentemente, agradeço, embora ache que era escusado. Fiquei a saber que, segundo o perspicaz e arguto escrevinhador, eu tenho "vergonha da nossa História"; mais, sou "insensível à grandeza de Albuquerque"; pior, tomei "partido pelos mercadores árabes", pelos "rajás do Indostão ao Malabar" e pelos "autocratas do Oriente", quando o mais elementar espírito patriótico exigia que lhes proferisse injúrias, a eles e às mães deles, e que desfraldasse bandeiras das quinas cantando, quiçá, o hino da Mocidade Portuguesa. Ainda fui verificar, juro, o texto que tinha escrito, sabe-se lá no que dão noites mal dormidas, à procura da expressão onde teria eu cometido as traições de lesa-majestade ao "tomar partido" de tão repugnantes seres contra o divinamente iluminado (e guiado) Albuquerque. Não encontrei. É que, para além de grunho, tapado, desavergonhado, insensível, traidor à pátria e de "esquerda", concluí que tenho problemas de visão, ou seja, uso palas como os jericos, só vejo aquilo que quero e omito o resto. E ainda estou convencido de que sei muito. Já se vê que tenho muito a aprender com o Crull Tabosa, que é exactamente o oposto. O meu guru, o meu mestre, dará aulas particulares?

 

Ora vejam lá que eu, já com alguns pelos de barba a despontar no queixo, descubro agora que a História é uma coisa completamente diferente do que imaginara. Tem tudo a ver com o "orgulho na História de Portugal" e com a celebração de "cada um dos seus heróis". Como estava eu enganado, a pensar que a História era o conhecimento e a compreensão do passado, das sociedades humanas e das suas interacções, uma disciplina científica incompleta e ingrata porque o seu objecto de estudo desapareceu e de que só restam fragmentos incompletos, parciais, comprometidos e raramente claros e isentos; e que obrigava a uma vontade e necessidade de rigor, um esforço de isenção e de compreensão. Agora percebo que nada disto é verdadeiramente relevante. O que é preciso é elevar o coração, preparar uma lágrima e mostrar os dentes a quem ouse abalar os avatares da alma lusa. Mesmo que para isso se torça um bocadinho as coisas, não se leia as fontes nem a bibliografia tida como de referência pela comunidade científica, se faça da ignorância um objecto de culto.

Fiquei iluminado com a declaração de que "as nações são entes vivos" e, sobretudo, a de que "o Império Português", "geopoliticamente falando, foi tão natural como o é o crescimento de um ser vivo". Portugal estava portanto fadado para um destino imperial, com o desabrochar das forças vivas da nação, deduzi. Ainda fiquei um bocadinho hesitante, ao pensar como este tipo de raciocínios sobre o crescimento "natural" (talvez "vital"?) das nações deu grandes amargos de boca à Humanidade. Mas depois descansei: a nação portuguesa não, nunca, nem no passado nem no futuro, porque a alma lusitana é naturalmente boa, heróica e justa. Só as outras, qualquer uma, a começar na moirama e a acabar nos espanhóis, porque são todas iguais, no fundo.

Descubro que fui enganado pelos meus ex-mestres (que cito e cuja leitura recomendei no post anterior), agora reparo que dois são franceses, um é indiano e os que são portugueses são certamente comunistas. Não importa lá muito que sejam autores de referência. É que o apelo da raça (se é que lá fora há disso) deve falar mais alto, como se pode esperar que um estrangeiro ou alguém de "esquerda" diga bem -isto é, faça justiça- de um vulto da História de Portugal? Porque é isso que interessa, é dizer bem. Mesmo que seja mentira, omissão, disparate.

Discursos ruicrulltabosianos são uma espécie de estimulação das zonas erógenas, para não dizer de masturbação compulsiva, do ego nacional. Sabem bem, provocam gozo, que se lixe o resto. E pela resma de comentadores aplaudintes que por lá vi, a somar aos que neste blog também vociferaram contra a minha notória falta de sentido pátrio, vejo que a História, nomeadamente a da presença portuguesa além-mar é, decididamente, um campo promissor, de onde se esperam grandes estudos e magníficos -e perspicazes- textos. Fico, porém, triste ao antever grandes dificuldades, certamente por incapacidade própria, em conseguir comungar de tão brilhante desígnio, em partilhar romagens devocionais aos próceres do Panteão onde arde a chama eterna da alma lusitana, em atingir o orgasmo patriótico na alcova do Demiurgo em comunhão com a portugalidade.

Lamento, mas parece-me que me ficarei pela História como me foi ensinada e como a entendo. E, sobretudo, a fazer um esforço para separar o conhecimento histórico das minhas convicções, paixões e preferências. A História não é a Liga de Honra, onde se assume a paixão clubística e se enverga o cachecol da equipa. As figuras, os actores, os vultos da História, não são ícones de um altarzinho caseiro onde acenda velas ou cromos da bola que coleccione com fervor juvenil. Lamento, mas não consigo sobrepor aos meus critérios de estudo os achaques de coração à moda do Crull Tabosa. Sobretudo quando se trata de um coração já apanhado por várias estirpes de Rhizopus e que tenta, em vão, conservar em formol.

 

P.S. Coisas mais terra-a-terra: a) a famosa frase do "mal com os homens por amor del Rey", que faz o Crull chorar e que diz ser de uma carta a D. Manuel, foi, segundo os cronistas (Barros, Castanheda, Gaspar Correia, alguma vez terá ouvido falar?) apenas uma expressão que o governador terá proferido ao tomar conhecimento da chegada do seu substituto e, sobretudo, do facto de os homens que tinha mandado a ferros para Lisboa terem regressado em campanhia do novo vice-rei. b) Há-de o fervoroso blogger dizer-me exactamente onde está publicado o excerto da "carta" ("as cousas da Índia...") que menciona no seu primeiro post. c)  Gostava de saber onde se apoia para dizer que, até à viagem de Gil Eanes, se "dizia" que para lá do Bojador "só havia fogo e monstros marinhos". d) Alguém me esclareça como é que, dobrando "as Tormentas", se descobre o Atlântico; e) Que prove e que me convença de que o povo português "dominou durante décadas o Índico".

Esta última questão é escusada. Não me convence e ele já está convencido. Mas concordo, finalmente, com uma coisa que diz: "temos perspectivas verdadeiramente diferentes". Eu vejo Portugal pelo prisma da História e ele vê a História pelo prisma de Portugal.

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