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jugular

31 do delírio

O fim-de-semana trouxe à blogosfera mais um brilhante texto de Rui Crull Tabosa, uma réplica ao que escrevi aqui e aqui. Certamente por causa do mau tempo que se fez sentir ontem, a prosa está carregada de tom cinzento e pesado, a ameaçar tempestade, e de um sentimento de exasperação, de falta de paciência. Ah! Está também pejada de disparates, arrogância e presunção, mas isso não surpreende ninguém. A mim, pelo menos. Como começo a ficar um bocadinho cansado de pregar no deserto e de tentar ensinar coisas elementares a quem notoriamente já se considera ensinado, formado, diplomado e doutorado, infelizmente não em História mas em asneira pseudo-patriótica (não confundir com patriotismo, que é algo de substancialmente diferente), acho que é altura de ficar por aqui. O blogger do 31 da Armada que exulte em satisfação nacionalista, que creia ter defendido a memória dos portugueses de Quinhentos em geral e de Afonso de Albuquerque em particular, mais uma vitória contra um alegado revanchismo anti-português, de que eu me vi involuntariamente transformado em porta-voz. Tudo bem, cada um tem os seus moinhos de vento (ahh, as minhas desculpas, esta imagem é de um perigoso inimigo estrangeiro, queria dizer “os seus Adamastores”, sorry). Aliás, acho que falamos é de coisas diferentes, Tabosa defende-se do que pensa serem ataques a Portugal (a paranóia tem muitos matizes, já cá se sabia), eu limito-me a opinar sobre História, coisa de que sou evidentemente um leigo, um caloiro, um mero curioso. Mas há coisas que não posso deixar passar sem resposta. Aqui vão algumas, assim atabalhoadas e sem ordem específica. Mas finais.

1. As opiniões sobre o “orgulho” são dele. Que as guarde bem guardadinhas e bom proveito, é o que desejo. Percebi que o Tabosa não é um especial apreciador (ou entendedor) de ironias e, que portanto, as coisas têm que estar beeeem clarinhas a ver se nos fazemos entender. Compara-me aos Monty Python sem perceber que isso é um enorme elogio para mim. Eu sei de uns quantos nomes que, por pudor, me escuso a referir aqui mas que seriam enormes elogios para ele. Acusa-me de “preconceitos”, de “ser tão pequeno”, de “achincalhar” os vultos da nossa História, de “vilipendiar Homens grandes”, de tecer considerações de “baixo nível”, de fazer “insinuações maldosas”, e o delírio chega ao ponto de me acusar de “criticar Camões”, credo. Onde? Mas, já que fala disso, e se o fizesse? Camões era um homem ou um semi-deus que desceu à Terra? Há gente que não tem o mínimo sentido do ridículo, o que é pena, porque sempre se riria mais e faria menos figuras destas. A do meu “parágrafo de sarjeta” onde alegadamente faço troça das mulheres condenadas ao sati nem me merece comentários para não perder o bom humor. Adiante que se faz tarde.
2. Os casamentos mistos que Albuquerque promoveu em Goa. Para o Tabosa são prova em como o Governador era um “integracionista convicto e precursor de um multiculturalismo sem complexos”. Para mim foram apenas medidas inteligentes para conseguir alguma estabilidade no meio de uma tropa fandanga que o detestava e que ele obrigava a permanecer em fortalezas, quantas vezes insalubres (como Suqutrah, por exemplo), em vez de irem às presas ou a outra actividade mais lucrativa; e uma forma de fixar gente, com óbvio objectivo de defesa; e de obter alianças locais, num meio tendencialmente hostil. As “medidas de protecção” de que fala, não conheço em pormenor o que se passou em Goa (e por isso não me pronuncio), mas naturalmente que eram necessárias para quem tinha vistas largas, queria construir um império e já estava de olho em Malaca. Não vejo nada de especial nisto. O Tabosa acha uma coisa extraordinária. Ó patego, olha o balão.
3. A das piratarias é constrangedora: “piratas eram muçulmanos e outros bandos que infestavam o Índico”, diz ele, com convicção transcendental. E remata com um “para si, os Portugueses é que foram invadir aqueles espaços, presumo que ilegitimamente”. Caro Rui, eu não discuto legitimidades a 500 anos de distância. Provavelmente defende que tinham toda a legitimidade, é lá consigo. Sei, sim, é que na época era um problema muito discutido, debatido, premente: o de saber se era ou não permitido e legítimo fazer a guerra fora da Europa, a cristãos, a mouros e a gentios, ocupar terras, requisitar serviços, usufruir de bens e riquezas; polémicas da “guerra justa” e dos “justos títulos”, sempre inacabadas, sempre actuais. Bastaria recordar Juan de Sepúlveda e Francisco de Vitória, só para citar os autores mais célebres. (Quê? Mais espanhóis?).
4. Depois diz que havia “antropofagia na América do Sul, escravatura em África, exploração violenta de povos da Ásia por parte dos mercadores árabes, etc”. Portanto, temos que dizer se somos do Benfica ou do Sporting, não é? Se os lusitos eram uns benfeitores ou uns crápulas, uns libertadores ou uns esclavagistas infames. Cavar trincheiras e disparar sobre quem está do outro lado a dizer o oposto. Desculpe, isso é o seu campo, eu dedico-me, nos tempos livres, à História enquanto disciplina científica.
5. “Portas do Índico” e o “domínio do Índico”, Goa, Ormuz e Malaca: olhe que não, doutor, olhe que não. Leia obras de referência com menos de 30 anos e terá uma surpresa. Se calhar é melhor não, não vá eu ser responsável por um qualquer acidente vascular cerebral.
6. Pormenores: pois, lá vieram os Comentários. Não os usei por um motivo (menor para o Tabosa): foram escritos pelo filho do próprio Albuquerque, com o fito, declarado, de  enaltecer o pai. Por isso prefiro os três cronistas. Mas a diferença é mínima, no caso. presente. Vamos ao que interessa: o Tabosa justificou apenas a frasezinha inicial. A fazer-se de desentendido, hein? Ora vamos lá: no seu post inicial diz que Albuquerque recomendou a D. Manuel “o seu filho nos seguintes termos: «as cousas da Índia ellas falaram por mim e por elle: deixo a Índia com as principaes cabeças tomadas em vosso poder, sem nella ficar outra pendença senam cerrar se e mui bem a porta do estreito»”. E eu perguntei-lhe de onde tinha tirado essa citação. A resposta é evasiva, claro (a frase é outra). Nem sequer é capaz de confessar que foi sacar aquilo à Wikipédia? Por fim: oh Rui, a citar Mário Gonçalves Viana para justificar afirmações? Quem é, quem foi, para além de um senhor que escreveu biografias de divulgação sobre dúzias de figuras da história de Portugal? Nunca li (mas imagino o teor), nunca o vi citado em nenhum estudo credível. Mas isso são critérios meus, muito pessoais, decerto. Estou seguro de que qualquer trabalho consagrado sobre a expansão portuguesa inclui, no mínimo, uma dezena de obras desse senhor. Eu é que não as conheço, mas cada um assume as suas ignorâncias, não é mesmo? Sempre seria um bom princípio.
Sabe que mais? Passemos à biologia, que é a ciência que estuda a vida: vá à sua, que eu vou à minha.

 

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